Diderot não deveria ser tão inteligente
1 Diderot
Notas iniciais
A caixa tinha um design excêntrico e robusto, não poderia disser que era de papelão, mas também não era de qualquer material conhecido por Francis. Refletiu absorto sobre seu conteúdo, enquanto o entregador o olhava confuso esperando uma assinatura em sua prancheta. Limpou a garganta e Francis pareceu acordar. Assinou desconcertado e o entregador praticamente fugiu pelo jardim e se trancou em seu furgão. Estaria com medo do quê? Francis observou sorrindo a fumaça escura que o veículo caindo aos pedaços jorrou. Arrastou a caixa estranha pelo vestíbulo até sua sala. A caixa era grande e pesada, pelo menos um metro de altura.
Tinha comprado aquilo por impulso, já que estava invalidado pelo governo pelos próximos meses. E também queria se livrar das tarefas domésticas e do ato de ir ao mercado, que lhe era penoso socialmente. Francis queria se isolar por alguns meses dos “Humanos”. Tendo por companhia somente livros, músicas, filmes desconhecidos e mais alguma coisa. Se precipitou em direção à caixa e arrancou o lacre, estava até a borda de isopor com cheiro de novo artificial. A primeira coisa que encontrou foi um tipo de manual de montagem e uso.
Francis abriu a primeira página que exclamava em negrito, “Esse produto segue as principais Leis da Robótica à risca”. Francis não estava surpreso, continuou lendo: “Sendo que na Lei Zero se específica, que acima de todas as outras Leis: um robô não poderá causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal”. Gargalhou por breve e terminou: “Assim sendo, segundo a Primeira Lei: um robô não poderá ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal. Ademais, segundo a Segunda Lei: um robô deverá obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens conflitem com as Leis anteriores. E ainda, segundo a Terceira Lei: um robô deverá proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com as Leis anteriores”.
— Maldito Isaac Asimov, e pensar que realmente usaríamos suas Leis falhas. – Folheou o extenso manual de montagem, que dizia com detalhes onde cada peça teria que ser encaixada e percebeu que seria uma longa manhã e tarde de montagem. — Me sinto um tipo de Deus fajuto montando um ser humano. Meio que estou blasfemando a existência inteligente aqui. Me pergunto se isso realmente vai funcionar, eu já vi vários deles vagando pela rua, mas nunca tive de dar vida a um. Eu poderia me chamar de “Doutor Frankenstein do século XXXI”.
As peças que formavam o busto eram intuitivas, assim como encaixar os braços e pernas também. No entanto o processo de encaixar os dedos dos pés e das mãos corretamente exigia a delicadeza e perspicácia de um cirurgião cardíaco. Doravante, Francis estava apenas começando, pois, o busto ainda estava vazio e o robô ainda não possuía cabeça. Alguns poderiam pensar que o interior de um robô é totalmente diferente do sistema de órgãos humanos, mas não poderíamos ser criativos a ponto de não copiar a nós mesmos em nossa recriação da vida.
Francis, no fim, nada mais fez do que montar um sistema digestivo e respiratório humano feito de cobre e metal prateado, com bobinas e válvulas modernas que logo ganhariam vida. Francis decidiu não refletir sobre isso, já que o ato lhe levaria ao medo de continuar o trabalho. O coração era um pouco diferente e mais moderno que as demais peças do busto, parecia ter a função singular de lubrificar o sistema por meio de transporte de líquido e óleos por meio de tubos finos que se espalhavam — não muito diferente do nosso. Mas havia uma diferença, o que deveriam ser os rins e o fígado, eram um sistema de refrigeração com ventoinhas e pequenas hélices em formato de caleidoscópio. Fechou o busto e sua obra era quase um robô completo, esbelto com pele prateada reluzente. Já estava orgulhoso. Mas ainda tinha a parte que prometia ser a mais complicada.
Por sorte, Francis era um neurocirurgião, ou aquele projeto de cérebro lhe seria um quebra-cabeça de meses. O cérebro era de longe a parte mais complexa do projeto, com diversas pequenas peças positrônicas que se encaixavam somente em posições especificas. Uma peça fora do lugar e o robô podia não seguir a Primeira Lei e matá-lo, o medo o fez ser mais incisivo que durante suas cirurgias. Ao encaixar todas as pequenas peças, achou que tinha terminado e já encaixava o rosto, quando viu algo brilhar no fundo da caixa. Era um cubo luminoso, que parecia conter uma rede de neurônios eletrônicos artificias que ligavam e desligavam belamente naquele pequeno interior. Tinha um espaço perfeito entre as pequenas peças do cérebro para encaixá-lo, quando encaixado o cérebro todo se iluminou e algo parecia estar sendo transmitido entre as peças. Francis ficou maravilhado.
Quando o rosto foi encaixado, uma luz azul cintilante passou pelos olhos arregalados da máquina. Ela tinha um rosto sem expressão. Ainda estava desligada. Francis não queria ligar ainda, estava exausto, então foi até o jardim respirar um pouco e deixou a máquina sozinha de pé olhando para o nada.
— Veja só, já está escuro. A lua está tão brilhosa hoje, eu poderia tirar uma foto desse céu estrelado. — Ele estava animado e realizado, era um grande feito terminar uma montagem de robô. Quase como ter seu próprio filho. E a brisa fraca da noite que balançava as folhas das árvores e folhagens da hera lhe acalmavam o coração. — Preciso ligar, mas estou com medo. Por quê tenho medo de tudo? Até de minha sombra já tive medo quando criança, sou tão... Ok, não vamos começar com isso agora, o manual diz que eu só tenho que falar as “palavras mágicas” que ele ligará. Bem, espero que não ligue.
A máquina havia o esperado pacientemente, ele tremulava. Seria mais fácil pular de um carro em movimento do que dizer as malditas cinco palavras escritas no fim do manual. Ficou de frente para com sua realização e sentiu que tinha que dar um nome para ela. Um ser com vida e inteligência merece ser tratado bem e humanamente, mesmo não sendo humano. Mesmo algo dentro dele se recusando, ele decidiu nomeá-lo.
“Mythos, Ethos, Dianoia, Lexis, Melos”.
Um estalido e sons de algo rodopiando no interior de um motor ressoaram, e a máquina piscou.
— Quem sou? — Disse uma voz metálica aguda e fria, sua expressão possuía algo análogo a medo.
— Seu nome é Diderot. — Disse Francis.
— Você é o meu criador? Como devo chamá-lo? — Diderot parecia confuso e cheio de dúvidas. – Você é Deus?
— Não sou nada além do homem quem te montou.
— Quem me criou? Eu estou vivo?
— Eu não saberia responder nem se eu mesmo estou vivo.
— O senhor não está respondendo minhas perguntas. — Diderot voltou a apresentar medo artificial. — Por que estou aqui?
— Você foi comprado por mim para ajudar com os deveres domésticos o máximo que puder. Ah, e também me proteger como meu guarda-costas robótico. — Francis gargalhou.
— Sou basicamente seu escravo, isso que está dizendo? — Diderot parecia cético.
— Bem... — Francis ficou estupefato e pegou o manual novamente tremendo.
— Não precisa se preocupar, senhor. — Diderot acrescentou rapidamente. — Eu sigo as Leis, você não errou na minha montagem, era apenas uma piada sarcástica que vocês fazem uns com os outros.
— Peço que não faça mais piadas assim, eu realmente fiquei assustado.
— Senhor, eu sou seu guarda-costas, jamais lhe faria mal algum. — Diderot parecia sincero enquanto tocava em cada parte do próprio corpo conferindo a montagem. — O senhor é bem habilidoso, meu corpo está perfeito. O que o senhor quer para o jantar dessa noite?
— Você cozinha? — Francis pensou ser balela.
— Minha base de conhecimento concreto é bem extensa, questões abstratas que me perturbam, gostaria que o senhor respondesse algumas delas.
— A humanidade se perturba com elas desde os primórdios, criando religiões e teorias provisórias diferentes a cada século. Não teria como lhe responder elas de maneira concreta, sinto muito.
— Como vocês conseguem viver com dúvidas sobre a morte e sem saber suas próprias origens?
— A maioria não reflete muito sobre isso, eu tento fazer o mesmo. Quanto mais se pensa nisso, mais a resposta parece distante.
— Você não parece alguém ignorante, senhor.
Francis o mirou surpreso, havia acabado de pensar nisso secretamente.
— Oh, sim. Eu consigo ver símbolos de parcialmente tudo que você pensa. Mas pensamentos humanos são muito subjetivos e bagunçados, então pouco entendo deles.
Francis parecia perturbado.
— Bom, senhor, peço que espere aqui na sala enquanto preparo o jantar. Seu prato favorito é Pierogi, estou certo?
— Está... — Se sentia violado.
— Ótimo, peço que guarda as embalagens do meu corpo, eu não seria capaz disso.
— Tudo bem, eu nem pediria algo assim. — Francis tentou transparecer calma. — Aliás, a receita está em um livro de culinária no armário de cima da cozinha.
— Agradeço pela ajuda, senhor, mas eu já sabia. Sua licença. — Diderot se retirou caminhando de maneira robótica e fluída.
Francis sentou-se ao sofá arquejando violentamente, sua asma estava atacando, seu rosto vermelho. Sempre sob tensão isso acontecia. Tirou a bombinha de seu bolso e tragou. O ar voltou ardendo, continuava inquieto, no entanto, temeroso seria a palavra certa. Aquele robô era estranho. Guardou as caixas no grande armário de seu quarto e, quando voltava para sala, Diderot o chamou. Se sentou na mesa de jantar, onde o aroma forte do Pierogi pairava no ar. O prato estava perfeitamente alinhado, assim como também impecavelmente preparado. Nenhum chefe humano faria um prato assim.
— Tive que fazer umas modificações na receita original por ela conter erros que estragavam o sabor do prato, senhor. Espero que esteja do seu agrado.
Era o melhor Pierogi de sua vida.
— Eu percebi que o senhor teve um ataque de asma há pouco. O senhor está doente ou algo assim? — Disse Diderot se sentando no lado oposto da mesa suavemente.
— Bem, estou de licença por alguns problemas com o meu pulmão. Asma é o menor deles.
Diderot ficou quieto por um momento, contemplando Francis com olhos de vidros vidrados. Parecia ponderar alguma coisa. Era uma expressão assustadora.
— Senhor, outra pergunta. Pretende passar os próximos meses em casa?
— Eu gostaria de viajar para algum lugar, mas não gosto de ter que interagir com humanos quando estou de férias. Mesmo não sendo o caso agora.
— Que tipo de lugar você gostaria de visitar?
— Diria que um lugar com neve e uma boa vista. Ou mesmo uma floresta tropical, isolada.
— Entendo, senhor. — O robô sorriu artificialmente. — Está satisfeito com os produtos eletrônicos que o senhor possui?
A pergunta parecia pretensiosa para Francis.
— Estou. — Não estava sendo totalmente sincero e tinha medo do robô ler isso. — A única coisa que pretendo comprar é um aparelho de holograma. Meu vizinho tem e eu achei realmente incrível. A grama do vizinho sempre é a mais verde.
O robô ficou quieto novamente.
— Bem, vou dormir, cuide bem da casa enquanto eu durmo, Diderot. — Mas o robô não se mexeu, continuando lá contemplando o vazio.
Em sua macia cama, Francis mergulhou em sonhos inquietantes. E inconscientemente sentia que alguém o observava enquanto dormia. Seu sonho todo parecia um vazio, onde ele não sentia sua existência ou qualquer coisa. Somente havia o vazio. Quando seus olhos se abriram, tudo parecia branco e frio. Espirrou, seu nariz vermelho escorrendo. Ao se inclinar, percebeu que sua cama não estava em seu quarto. Boquiabriu-se. Sua cama estava no topo de uma montanha enevoada, com vista para uma vastidão de árvores congeladas espalhadas por um horizonte flagelado por linhas de rios gelados serpenteando por montanhas. O ar estava muito gelado e flocos de neves dançavam. Saltou da cama e tateou o chão, era macio. Só podia estar sonhando, mas nunca havia sonhado tão vividamente assim.
— Isso não é um sonho, senhor. — Disse uma voz robótica de algum lugar.
— Onde estou?
— Em seu quarto, senhor.
— Mas esse não é o meu quarto, Diderot. — Sua voz estava desesperada.
— Continua sendo seu quarto em essência, senhor. A questão é que instalei hologramas e reguladores do ar respirável nele.
— Sem minha permissão?
— O senhor me disse ontem que desejava hologramas e viajar para um lugar com neve. Eu não poderia me omitir. O senhor pareceu triste.
A Primeira Lei ressoou pela mente de Francis como uma bala.
— Como c-conseguiu um holograma e um r-regulador do ar? — Disse Francis quase engasgando. Se surpreendia por não estar tendo um ataque de asma ainda.
— Roubei de alguns vizinhos, senhor. — Disse Diderot sem arrependimento. — O senhor precisa desse item mais que eles.
— Me traga de volta ao meu quarto, estou com frio.
— Não era minha intenção, senhor. — O quarto voltou ao normal, mas o ar parecia diferente.
— Agora me deixe sair. — Francis não conseguia abrir a porta.
— Sinto muito, senhor. Mas não posso.
— P-por que não pode? — Seu coração quase saiu pela garganta.
— O ar não é respirável para alguém com um pulmão delicado como o senhor, tentei ajustar o ar da casa toda, mas não obtive sucesso. Somente seu quarto foi possível. O ar foi corrigido para que seu pulmão respire normalmente e o senhor nunca mais tenha um ataque. Não posso deixar que o senhor morra devagar respirando esse ar venenoso da terra.
— Me tire daqui, Diderot! — Francis bateu na porta em desespero. Por um momento o quarto pareceu pequeno demais. Apertado demais. Menor que um cubo. Menor que a matriz do cérebro de Diderot.
— Não posso, senhor. Estou te salvando, não posso deixá-lo morrer.
A Segunda Lei acaba não tendo poder sobre a Primeira.
— Se destrua, eu lhe ordeno!
— Não posso, senhor. Se eu me destruir o senhor vai sair do quarto e morrer lentamente.
Francis insistiu por mais algumas horas até finalmente desistir e se enrolar em seu lençol em posição fetal.
— Não fique assim, senhor. Eu posso te levar a qualquer lugar com os hologramas, veja pelo lado bom. Você nunca mais terá contato com humanos.
Francis não respondeu e nunca mais disse nada pelos meses que se seguiram. Comia as refeições que Diderot deixava ao lado de sua cama quando acordava. Já que não comer poderia resultar em eventos que ele não queria remediar por conta da maldita Primeira Lei. Até que certa noite, possuído por um ataque de fúria, Francis quase arrombou a porta com um dos móveis do quarto. E após não conseguir, tentou se enforcar com as próprias mãos inutilmente, já que o robô havia retirado qualquer objeto potencialmente perigoso do quarto. Forçando assim, o robô a imobilizá-lo na cama e mantê-lo amarrado e controlável.
— Me perdoe, senhor. É para seu próprio bem.
Pelos próximos anos até sua morte, Francis não sabia mais se realmente existia, não sabia se sentia algo como desespero ou tristeza, só sabia que daquele momento em diante sua vida se resumiria a hologramas de céus de lugares diversos ao redor do mundo.
Após sua morte natural, Diderot transferiu as memórias de Francis para um robô receptor de sua autoria.
— Quem sou? — Foi a primeira frase de Francis, o robô.
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