Dias nublados
1 Capítulo único (por enquanto)
Notas iniciais
Um maravilhoso dia nublado. O céu estava numa perfeita cor prateada, uma cor que Lucas nunca havia visto. Como em todos os dias nublados, a cidade estava parada. Nas ruas, apenas praças e calçadas vazias. Nada de risos altos e nada de bolas quebrando sua janela. Apenas a paz e o silêncio que Lucas tanto gostava. Até que ele finalmente ouviu o barulho que esperava ouvir em todos os dias nublados. Olhou pela janela e viu a menina de longos cabelos negros saindo pelo portão da casa em frente à sua. O garoto tinha aprendido a admirar aquele pequeno ser cujos olhos ele havia visto apenas uma vez, dez anos antes. Desde então Lucas a observava em todos os dias nublados. Assim como ele, a garota só saia em dias nublados.
Como sempre, saiu de casa pouco depois que ouviu a garota batendo o portão. E como sempre, ele a encontrou no fim da rua, sentada no mesmo balanço de madeira, cabisbaixa de modo que ninguém conseguia ver seus olhos, não prestando a mínima atenção no mundo a sua volta. Mas hoje seria diferente. Ela iria levantar a cabeça e ele veria seus olhos, bem atentos.
Pela primeira vez, ele se aproximou. Sentou-se no balanço ao lado, sentindo o metal frio contra sua cintura. Começou a balançar levemente, produzindo um rangido agudo, mas, mesmo com esse feito incômodo, ainda não conseguiu a atenção da menina.
Estava ficando difícil manter o controle de sua compulsão. Havia guardado aquele sentimento por dez anos, se limitando a apenas observá-la. Sentiu suas entranhas se remechendo contra seu abdômen magro. Apelou: chamou-a pelo nome.
-Isabel? — a menina olhou. O olhou com aqueles olhos cinzas misteriosos que ele havia visto apenas uma vez. Sentiu uma satisfação tremenda. Sonhou com aqueles olhos por tanto tempo e agora podia vê-los pessoalmente. Ela era linda. Seus olhos eram lindos. Mas também eram tristes, assim como a dona deles. Naquele momento, teve ainda mais certeza do que iria fazer. Ele seria o último. Não precisava se controlar mais. Colocou a mão suavemente em sua cintura e abraçou a menina, depositando a lâmina gelada calmamente em suas costas, no rumo de seu coração. Ouviu apenas o último suspiro da menina. A morte. Continuou afundando a faca até a sentir perfurando sua barriga. O líquido viscoso e quente escorreu, se juntando com a poça rubra que ainda brotava da menina. A visão escureceu. Pensou em tudo o que havia acontecido até ali e se sentiu realizado. Poderia descansar ao lado dela. Sabia que estavam fugindo de todos aqueles ignorantes que julgavam sem pensar. Adormeceu. Poderia sorrir de novo agora.
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