Dias de chuva
12 Revelações.
Notas iniciais
Passei o resto do dia ao lado da minha irmã. Laís não estava a mesma. Seu semblante estava diferente, percebi que ainda era cansaço pelo problema que iriamos descobrir logo.
Fiquei pensando em Tayla, como ela ficou depois de tudo, como a amiga dela havia morrido, tudo ficou como um turbilhão na minha mente. Eu queria saber, precisava saber, mas temia ser intrometido demais. Fiquei pensando e pensando.
Quando eu fui pra aula novamente, reparei que ela me evitava, eu também evitaria se alguém quisesse saber do meu passado, ainda mais sendo da maneira que foi. Eu tentei me aproximar, mas sabia que era algo que ela evitaria. Decidi então fazer algo que não costumo fazer. Iria ao treino de box com ela. Andei me informando e o horário dos treinos dela eram no mesmo que a minha ultima aula. Como a turma da minha irmã não tinha essa aula ela podia ir aos seus treinos sem se preocupar. Naquele dia eu iria cabular aula e treinar. Sabia com certeza que iria apanhar muito naquele dia, mas era em prol de uma boa coisa. Combinei com os meninos e no horário certo, lá estava eu. Cara e coragem no meio do treino.
— Vejam só quem finalmente veio. Senhor...?
— Leonardo Walker. – respondi, todo orgulhoso.
— Espero que esteja preparado. Seu primeiro treino com certeza vai ser inesquecível. – um rapaz disse ao longe, enquanto colocava umas faixas pretas nos punhos, que depois vim aprender que eram bandagens.
O treino começou tranquilo, fomos correr e fazer alguns exercícios. Os primeiros dez minutos foram moleza pra mim. Assim eu pensava.
— O aquecimento acabou, vamos pro físico. – o que? Físico? Como assim? Eu pensei que o aquecimento era somente aquilo e iriamos socar as pessoas.
Mas eu me enganei. Nunca me senti tão cansado em toda minha vida. Me negava a parar, pois Tayla não parava por nada. Era sempre ativa e parecia que estava mais do que acostumada com tudo aquilo. Seu corpo parecia se mover sozinho. Nem parecia a graciosa bailarina que eu vi naquele dia. Era uma mulher forte e aguerrida. O treino durou uma hora e meia. Eu já estava morrendo. No final o treinador agradeceu a todos pela presença e eu desabei no canto da parede. O corpo inteiro doía, pareceu que fui atropelado.
— Gostou? – Tayla perguntava me oferecendo uma garrafa com água.
— Sim, é revigorante, mas meu corpo não aguenta outro. Não sei como você consegue. – ela riu de mim e se sentou ao meu lado.
— Espero que venha mais vezes. Pode não parecer, mas você tem uma resistência muito boa para um iniciante. O treinado se animou e muito quando te viu resistindo a tudo com garra.
— Obrigada.
— Mas por que veio hoje? – ela quis saber começando a beber água.
— Eu queria experimentar um pouco do seu mundo. Saber como você se sente, quando treina. – não iria tocar naquele assunto agora. Senti que ela estava apreensiva que eu perguntasse. Mas não o fiz. Respeitei ela. Pelo menos dessa vez, depois dos beijos que eu dei.
— Espero que possa vir mais vezes. – ela foi bem seca ao dizer isso e se levantou, me estendendo a mão para que eu levantasse.
O caminho de volta, foi bem agradável. Mais uma vez falamos sobre nós. Não sei se meu jeito louco e dramático de ser lhe passava confiança, ou se Tayla era alguém que confiava fácil demais.
— Eu tenho dois irmão mais novos, Pedro e Gabriel. São gêmeos e uns amores.
— Eu só tenho a senhorita Laís mesmo. Esses dias ela passou mal e eu fiquei muito preocupado com ela. – ri tentando espantar a lembrança do susto. – Ela cozinha pra mim.
— Eu cozinho pros meus irmãos. Meus pais são separados. Moro com a minha mãe e meu pai esta casado com outra. Manda uma pensão de vez enquanto. Não é muito, mas dá pra ajudar em algumas coisas em casa.
— Meu pais moram juntos e conosco. Mas meu pai não é o típico homem que dê orgulho no quesito ser pai. Ele é muito frio e isso incomoda não só a mim, quanto a Laís também. Mas eu tento dispersar isso da mente dela. Não quero vê-la sofrendo.
— Meu pai é bom pai, mas não esposo. Ele era muito cafajeste e decepcionou a minha mãe. Por isso que eu fico muito insegura ao me aproximar de um homem.
— Poxa, ofendeu! E eu? – eu ri.
— Você é diferente. É forte e temperamental como um homem, mas delicado e dramático como uma garota. – dessa vez ela me pegou. Saiu rindo enquanto eu ficava estático com a noticia. Parabéns Leonardo. Você é como uma garota. Palmas por favor.
— Obrigada, de verdade. – quis mudar de assunto para espantar o constrangimento. – E sua paixão pelo ballet?
— Herdei da minha mãe. Antes de eu nascer ela era bailarina. Assim que ela conheceu meu pai. – ela estava sorrindo, mas nesse momento seu rosto fechou. Alguma lembrança nebulosa lhe povoou a mente. Eu sabia qual era. Mas não podia revelar isso agora. Ainda não.
— Deve ser difícil dançar. – como o bom idiota que eu sou, sai andando na frente dela, fazendo piruetas. As pessoas que passavam por nós devem ter pensado que sou louco. Isso arrancou sorrisos dela. A nuvem negra se dissipou?
— Nem tanto. – ela andava ao meu lado sorrindo. – eu amo o que faço e o boxe veio apenas para completar.
— Que bom. Eu sempre quis algo que mudasse esses meus dias de chuva.
Ela me encarou, quando menos percebemos estávamos chegando à minha casa. Para a total surpresa dos dois Kevin e Larissa estavam na porta.
— O que fazem aqui? – eu quis saber. Tayla estava do meu lado ainda.
— Vim saber da Laís. – ele disse.
— Eu vim com o meu namorado. Apenas de não concordar que ele venha ver sua irmã eu acompanhei. – Larissa disse em tom arrogante.
— Eu não pedi que viessem. Alias a minha irmã precisa de repouso. – isso não vinha ao caso. – Mas como souberam? Foi o Renan? – eu estava me irritando.
— Não Leonardo. Sua irmã nunca falta as segundas. Quando ela não veio eu desconfiei. Quando fui saber o porque me disseram, lá na enfermaria da escola que ela havia passado mal.
Bando de fofoqueiros.
— Mas você já pode ir embora, ainda mais trouxe a Larissa. – que sacanagem essa com a minha irmã.
— Calma Leonardo, eu vim apenas ver como ela estava. Ela também é minha amiga de infância.
— Era Kevin, ela era.
Busquei conter a calma nesse momento. Eu queria que ele fosse embora e a presença dele poderia fazer mal a Laís, ainda não sabíamos o que ela tinha e eu não podia arriscar que nada a atingisse.
—Deixa de ser assim. – foi Larissa quem interviu. – eles sempre foram amigos. Que mal faz ele ver a sua irmãzinha?
Bufei de raiva.
— Vamos cara, deixa logo eu entrar. Vamos embora rápido e... – antes que ele pudesse completar a frase a porta foi aberta e minha irmã saiu de lá com cara de poucos amigos.
— Leonardo e Tayla, entrem por favor. Fiz um lanche pra nós enquanto o almoço não fica pronto. – ela olhou com o pior olhar possível pros dois loiros que a fitavam. – quanto a vocês dois, peço que vão embora. Eu não quero mais nem ouvir sua voz Kevin e enquanto você Larissa, já não está bom de parar de vir destilar o seu veneno aqui? Já conseguiu o que queria. Muito tempo antes de tudo. Não adianta querer mostrar vitória.
Eu entrei puxando Tayla pelo braço que me acompanhou sem resistência.
Larissa riu nesse momento e depois de encarar o namorado que estava com a cabeça baixa disse.
— Não acredito que vocês estão colocando essa garota fútil dentro da sua casa e deixando um amigo de verdade fora dela.
— Veja lá como você fala da Tayla. – antes que eu pudesse dizer alguma coisa foi Laís quem disse. – Amigo de verdade não faz a palhaçada que ele fez. E mais respeito com ela. Tayla é a namorada do meu irmão e olhe bem queridinha. Ela é dez mil vezes mais mulher do que você.
Não tive tempo de digerir o que estava acontecendo. Laís nos puxou pra dentro fechando a porta na cara dos dois, que olhavam estáticos tão surpresos quanto eu.
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