Dias Imprevisíveis
39 Capítulo 39 -O amor é uma dádiva
Notas iniciais
‘Somos inteiramente suscetíveis à mágoa, mas também somos absolutamente capazes de extraí-la de nossas almas.’
‘ –Eu disse que iria te achar, Crash!’
–Não!
Acordei sobressaltada, com o coração tamborilando no peito como se a qualquer momento ele fosse escapar do seu abrigo.
–Você está bem? – confusa com meu alvoroço, Megan acedeu o abajur.
–Não consigo dormir. – falei levando a mão ao peito. Naquela noite, repeti o mesmo gesto incontáveis vezes. –Aquela frase não sai da minha cabeça, e quando eu fecho os olhos, me vejo saindo daquele carro, e segundos depois ele é metralhado na minha frente. – respirei fundo, passeando a mão no rosto abatido.
–Foi uma fatalidade o que aconteceu com Crash. – olhei-a. –E eu fico pensando que o pior poderia ter acontecido com um de nós se estivéssemos no lugar errado.
–Eu estava no lugar errado. – Megan balançou a cabeça em concordância. –Mas eu penso a respeito e acho que eu fiz a coisa certa.
–Desculpe, mas não fez.
–Megan...
–Você poderia ter morrido. – disse como se estivesse me acusando. –Do que valeu seus esforços? No fim, Ethan finalmente se desprendeu de Crash. Desculpe por parecer que estou sendo fria, mas é a realidade. – confessou saindo da cama. –Talvez essa tenha sido a única maneira de Ethan se libertar do mundo do Crash.
–Engano seu. – falei atraindo a atenção dela. –Um pouco antes de morrer, Crash me confessou que Ethan estava livre dele.
–Isso é mesmo verdade? – indagou com certo espanto.
–Sim, é verdade. – confirmei deixando a cama. –Ele era uma pessoa boa, só estava vivendo da maneira errada. – vesti um blusão cinza e calcei minhas pantufas. –Eu vou preparar um chá. Você vem comigo?
Antes de me dá uma resposta, Megan observou as horas.
–Ainda são três da manhã. Vou voltar pra cama.
&&&&*&&&&
Passando pelo corredor mal iluminado, fui ao banheiro, e lavei o rosto rapidamente. Meu trajeto até a cozinha fora interrompido assim que pus os pés na sala, e lá encontrei Ethan, na companhia solitária de um cobertor.
Em passos cautelosos cheguei o mais perto possível dele. Parecia dormir tranquilamente e o sofá estava longe de ser um incômodo.
–O que você está fazendo?
A pergunta repentina dele assustou-me. Constrangida, me recompus, evitando encará-lo de imediato.
–Por que você não disse que estava acordado?
–Por que eu estava curioso para saber qual seria seu próximo passo na minha direção. – explicou levemente descontraído. –O que faz acordada?
–Eu vou preparar um pouco de chá. – expliquei retomando meu caminho, mas parei sem sequer traçar o meio dele. –Você quer?
–Não, obrigado. – respondeu fechando os olhos.
Sentindo-me estranha por ser tratada e está tratando Ethan com tanta formalidade, deixe-o pensando na última discussão que tivemos. Dentre tantos desentendimentos, a sensação que persista era de que não havia resolução para a nossa recente briga. Uma vez que viéssemos a discutir sobre o momento infortúnio, a avalanche daquela fatídica noite cairia novamente sobre nós.
Na solidão do silêncio, comecei a preparar o chá, uma vez ou outra me perdendo na vista penumbrosa da cidade.
O tão esperado chá fumegava a minha frente e meu rosto melancólico estava refletido nele. Completamente sozinha, olhei para os lados, realmente incomodada com o silêncio, e com as recentes lembranças do meu pesadelo real.
–Ainda tem um pouco?
De pé a porta, com as mãos dentro dos bolsos, estava Ethan.
–Claro. – sorri com toda simplicidade que poderia existir em mim. –Acho que adocei demais.
–Não tem problema. – disse arrastando uma cadeira, de frente a minha.
–Por que você estava dormindo no sofá? – perguntei entregando-lhe a xícara com chá.
–Nicholas não está conseguindo dormir e ele acha que tenho a obrigação de escutá-lo a noite inteira. – respondeu bebericando o líquido quente. –E você? Por que não está dormindo?
–Eu tentei. – sentei-me olhando-o com fixação. –Eu sei que você ainda está me culpando por ter ido...
–Eu realmente não quero falar sobre isso.
–Mas não temos como fugir desse assunto. – contrariado, embora me entendesse, ele olhou-me. –Sei que fui imprudente, emocional, e...
–Tudo o que você fez foi inteiramente em vão. – interrompeu em tom de crítica. –Eu não consigo entender o porquê de você agir dessa forma.
–Acho que é devido à vontade de encontrar uma única solução em meio aos problemas.
–Isso não é errado, desde que você saiba até onde essa vontade deve prevalecer. – baixei a cabeça, alisando as têmporas. –Sabe o que mais me incomoda? – olhei-o interessada em sua pergunta. –É minha oposição diante das suas ideias loucas. Eu posso gritar, esbravejar, dificilmente você me ouvirá, ou me dará razão. – explicou dando um longo suspiro. –E eu tenho medo de onde suas ideias podem te levar; como hoje te levaram ao lugar errado.
Balancei a cabeça, concordando com cada palavra dita.
–Devo matar essa vontade desenfreada de querer proteger as pessoas que amo? – Ethan nada disse. –Sabe, eu podia ter feito mais por meus pais, mas em vez disso, eu esperei que as coisas se resolvessem. Eu acreditei que tudo ficaria bem e não me dei conta de que eu estava os perdendo. Então, eu decidi mudar e...
–Não foi sua culpa. – carinhosamente ele segurou minha mão. –Pare de sobrecarregar sua vida desse jeito. – segurando minha mão fortemente ele se levantou e puxou-me ao encontro do seu corpo. –Comportei-me como um louco só de pensar que eu poderia ter te perdido. – abracei-o fortemente, apreciando seu cheiro, e o conforto de suas palavras. –Eu te amo.
Eu considerava raros os momentos que Ethan confessava seu amor por mim, mas quando acontecia, toda a sua sinceridade se sobressaía naquela humilde frase. Eu me sentia como se tivesse escalado seu coração, diante de tantos obstáculos, e finalmente tivesse alcançado o topo dele. Eu sabia, estremecendo ao constatar, que Ethan estava me incluindo, definitivamente, em sua vida.
–Eu também te amo.
Sorri para ele, encarando a profundidade da cor de seus olhos, e o beijei apaixonadamente.
&&&&*&&&&
–Obrigada, senhora Hernandez. E... Eu sinto muito.
Sorrateira, Megan entrou no quarto.
–Quem era?
–A mãe de Crash. – respondi encerrando a ligação. –Ela ligou para agradecer pelas flores que mandamos.
–Uh. – murmurou se jogando na cama. –Eu não sabia que Crash tem uma família que se importa com ele. Aliás, eu nem mesmo sabia que eu me importaria com ele. Que bom que eles gostaram das flores.
–É. – concordei deitando-me ao lado de Megan. –Essa semana foi sufocante, não é?
–Foi angustiante! Por causa dela precisamos sair e comemorar uma nova vida, principalmente para Ethan, que está aceitando o fato de ser menos aventureiro. – sorri. –Estou feliz que isso tenha acabado bem, pelo menos ao nosso favor.
Respiramos fundo, encarando o teto pacificamente.
–Quando a Melissa sai da clínica?
–Acho que em duas semanas. Falei com ela hoje e... – Megan sorriu abobalhada. –O ex-marido dela continua mandando flores.
–Por que você não fala que seu pai continua tratando sua mãe como uma rainha?
–Ele não é o meu pai. – corrigiu em tom de amargura. –Nathan Bryton foi apenas o homem que me instalou no útero da minha mãe. Ele nunca será meu pai.
–Não enquanto você não dá uma chance a ele.
–Fala sério, Claire!
–Estou falando, Megan. – tentando fugir do nosso diálogo, ela pulou da cama. –As pessoas erram e também acertam.
–Só que aquele homem errou inúmeras vezes. Tudo bem, minha mãe errou tanto quanto ele, mas se Nathan tivesse ficado ao lado dela, ao invés de julgá-la, nossa vida teria sido diferente. Eu teria tido um pai que me levava à escola diariamente. Eu teria tido uma festa de quinze anos. Eu teria tido inúmeras coisas, mas... Do que importa agora? – seus olhos tentavam repelir as lágrimas que teimavam demonstrar seus sentimentos. –Sei que não dando uma chance a ele estarei sendo uma pessoa horrível, mas acredite isso não faz sentido.
Megan era uma garota fácil de entender, e foi por entendê-la que não mais insistir naquela reaproximação entre ela, e o pai.
–Eu só queria que você repelisse essa mágoa. Não está te fazendo bem.
Pensativa, Megan olhou-me com os olhos lacrimejados. Apesar da insistência dela em odiar o pai, seu amor de filha ainda estava vivo naquele complexo de sentimentos. A intuição que tive, é que, cedo ou tarde, Nathan conseguiria o amor de Megan de volta.
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