Dias Imprevisíveis
35 Capítulo 35 -Promessa
Notas iniciais
‘As desavenças existem por muitos motivos. Àqueles que são ocultos ou àqueles que são visíveis.’
Respirei como se todo o ar dos meus pulmões estivesse esvaindo.
Meu peito oscilava como se eu tivesse acabado de fazer uma longa caminhada. Meu coração batia forte a todo instante, respondendo as sensações faiscantes que provocavam e desinibiam meu corpo. Inúmeras coisas colidiam meus devaneios naquele momento.
–No que está pensando?
Respirei fundo observando o rosto sereno de Ethan.
–Estou pensando o que todas as garotas devem pensar depois de perderem a virgindade.
–E o que vocês pensam? – perguntou interessado.
–O sexo na primeira vez não é um conto de fadas. – falei um tanto ruborizada, afinal ainda estávamos em uma posição muito comprometedora. –Claro, é maravilhoso sentir intimamente seu corpo ser tocado pela pessoa que ama, mas o desconforto é muito grande.
–Você se sentirá melhor na segunda vez, e se sentirá melhor ainda nas outras vezes, e logo será uma mulher experiente. – disse deixando-me mais ruborizada. –Com certeza eu vou adorar sentir seus atributos sexuais.
–Pelo visto terei um professor muito pervertido. – Ethan sorriu deitando-se ao meu lado. –Quantos anos você tinha quando transou pela primeira vez?
–Eu não acredito que você me fez essa pergunta.
–É só uma pergunta. – olhei-o interessada. –Dezessete? Dezoito? Dezenove? Quantos anos?
–Quinze anos.
–Quinze anos? – indaguei surpresa. –Com quem foi?
–Não vou continuar respondendo.
–Uh. – murmurei decepcionada. –Foi com uma colega de sala, não é? – ele nada disse. –Isso é muito típico.
–Por que você não descansa?
Ethan abraçou minha cintura, obrigando-me ir de encontro ao seu corpo. Confortavelmente deitei a cabeça no seu peito, deixando o silêncio pairar sobre nós. Do lado de fora a chuva ainda persistia, na companhia de trovões, e raios.
–Ainda não acredito que estamos juntos.
–É. Agora acredito que milagres são reais. – rimos juntos. –E isso é só o começo.
–Sinto cheiro de planos ou estou absurdamente enganada?
–Acho que você está certíssima. – disse apoiando o braço na cama, de forma que meu corpo deitasse, e o seu inclinasse sobre mim. –E você está em todos eles. – seus lábios desejosos capturaram os meus.
Fora assim que eu tive certeza de que ele me queria em sua vida.
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Comportando-nos como um típico casal apaixonado, depois de uma noite de amor, fizemos companhia um ao outro no café da manhã.
Ethan não era muito de conversar e mostrou-se adapto a outros hábitos matinais, que até então eu não conhecia. Ele parecia está muito concentrado no jornal e calmamente levava a xícara à boca, sem desprender o olhar da folha preto e branco. Eu, entretanto, estava mergulhada em pensamentos, consequência dos planos não revelados que Ethan fazia para nós.
–Você está parecendo um homem mais velho. – falei fazendo-o me olhar. –É charmoso vê-lo tão concentrado nesse jornal, mas confesso que não faz o seu tipo.
–Faz quando estou lendo notícias esportivas. – virou o jornal mostrando a página dedicada ao esporte. –Você já terminou?
–Já. – respondi sem entender a pressa. –Vai há algum lugar?
–Sim, mas vou te deixar em casa antes. – olhou o relógio rapidamente. –Tenho uma reunião marcada para hoje.
–Com Crash? – perguntei achando que não era nada demais. Se ele não quisesse responder eu não insistiria.
–Crash em breve será passado. – revelou dando de ombros. –Estou em busca de um patrocinador de verdade, que entenda meu ponto de vista, e que não esteja envolvido com a polícia. – estava nitidamente otimista. –Não quero perder meu tempo em corridas ilegais. Quero ter objetivos na pista que não seja só apostas e dinheiro.
–Seus objetivos podem não ser bem interpretados. – Ethan olhava-me tranquilamente. –Tenho medo do que pode acontecer. Sei lá, você... Você está envolvido com essa gente que...
–Claire, eu não sou um cafetão, ou traficante. – interrompeu-me com certa seriedade. –Eu sei o que eles fazem, mas eu não faço.
–Mas eles acham que você se tornou parte deles. Seus carros caros pertencem a eles. Você deve dinheiro a eles. Essas coisas...
–Você não sabe de nada, tá legal? – contrariado ele deixou a mesa.
–Tá legal! Eu posso não saber de muitas coisas! – o segui até o quarto. –Mas eu sei que esse tipo de negócio ou acordo não é quebrado assim.
–Nada que o dinheiro não resolva.
–Eu estava lá quando Crash te ameaçou! Foi por causa desse maldito dinheiro que tudo começou, não é? – Ethan me deu as costas. –Eu ofereci dinheiro a ele para quitar sua dívida, mas ele não aceitou! – surpreso Ethan se virou para mim bruscamente. –Não é o dinheiro que ele quer, é você!
–O que você disse? – perguntou em um tom de voz fria e distante. –Você ofereceu dinheiro a Crash? – indagou com a voz entrecortada.
Engoli a seco, sem desviar o olhar.
–Quando ele me levou por engano. – respondi observando o chão ligeiramente. –Chegamos a conversar e... a dívida que você tem com ele surgiu no meio da conversa. – olhei-o em desconforto. –Eu só queria te ajudar.
–Nunca mais... – quando ele finalmente me alcançou, ergueu meu queixo fazendo-me encará-lo nos olhos. –Nunca mais fale sobre dinheiro com ele.
Não era um aviso, soara como uma ordem. A princípio custou-me entender o porquê daquela exigência.
–Crash não parece ser uma pessoa má.
–Então, suponho que você confia cegamente nele? – perguntou com ironia e se afastou.
–Claro que não. – não dava para crer que Crash era um homem ruim, mas com o mau humor de Ethan, e sua visível antipatia pelo assunto, decidi não esclarecer meu ponto de vista. –O que você vai fazer?
Ele apenas murmurou algo. Estava visivelmente insatisfeito com a pergunta, mais uma vez impondo aquela regra idiota de que sua vida era particular. Mas, aquela altura do nosso relacionamento, eu estava pouco me importando com a regra básica de Ethan Scott.
–Por que você não tenta me contar alguma coisa? – fui até ele e abracei-o pelas costas.
–Por que você não tenta me dizer quem te agrediu? – nada respondi, por que aquilo era um jogo. –Não tenho o direito de saber já que sou seu namorado?
–Não misture as coisas, além do mais, o que você está fazendo é um jogo de chantagem! – o soltei.
–Acontece que você acha que é fácil abrir meus problemas para você, mas, de fato, também não consegue abrir os seus para mim. – revidou certo do que dizia. –Não podemos cobrar um do outro se cometemos os mesmos erros.
Não era por falta de confiança. Eu conhecia muito bens meus motivos, e chegava a crer nos motivos de Ethan. Eu tentava evitar um confronto entre meu namorado e meu ex-namorado, Ethan não queria me envolver em seus assuntos pessoais. Eram razões relevantes, mas que nos causavam conflitos.
–Depois que terminamos, eu saí algumas vezes com Ryan Carter, um fotógrafo bastante conhecido, e começamos a namorar. – iniciei minha narrativa em busca do fim das nossas desavenças. –Não durou muito tempo, na verdade ficamos juntos por dois dias. – Ethan olhou-me prestativo. –Naquela noite eu fui a uma festa especialmente organizada para os amigos de Ryan. Eu estava decidida a terminar com ele e quando eu lhe disse isso, ele pediu para que fingíssemos um bom relacionamento. Insistir para ir embora, e ele me arrastou para os fundos. Discutimos como loucos e... E ele acabou perdendo o controle.
Acabei por desviar o olhar. Fora a situação mais embaraçosa que encarei nos últimos dias. Ethan olhava-me fixamente e eu só conseguia me perguntar o que ele estava pensando.
–Agora é sua vez de abrir o jogo comigo. – falei decidida a encarar os fatos.
–Preciso digerir o que você me disse.
–Ethan... – sentei-me de frente para ele. –Acabou. O que aconteceu foi... Foi um mal entendido. Eu pensei que ele era um cara legal e quis tentar. Talvez Ryan reagiu pelo momento, ele devia está estressado e...
–Isso não justifica nada, Claire. – disse exasperado. –Esse playboyzinho vai saber com quem ele se meteu.
–Essa não era minha intenção! – falei exaltada. –Eu te contei isso para não ter mais segredos entre nós! – ignorando minhas explicações Ethan começou a arrumar a mochila. –Essa sua atitude é irracional e imatura!
–Vou resolver as coisas do meu jeito.
–Ótimo, por que vamos terminar se você agir como um idiota! – só então ele pôde me dá atenção. –Temos coisas mais importantes para resolver.
Ethan controlou-se, mas havia um brilho determinado em seu olhar. –Ok. Eu não vou atrás dele. – respirei em alívio. –Mas não vou me controlar se nos encontrarmos no mesmo lugar.
Era a promessa dele contra o acaso do destino.
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