Dias Imprevisíveis

33 Capítulo 33 -Protetor


Notas iniciais
Demorei pra postar. Último capítulo do ano, meu povo! rs Bom 2014 para todos!

‘Quando os sentimentos se sentem perdidos e o coração abala-se a menores coisas, qualquer decisão que tomamos pode ser fatal.’

Tinha um lugar que eu queria está naquela noite solitária. Um lugar onde ninguém testemunhasse meu fracasso. Um lugar secreto.

–Boa noite, Maicon.

–Boa noite, Clai...

Notando o rosto dele intrigado, virei o meu para o lado, tentando esconder o estrago que havia nele.

–Está tudo bem com você?

–Está. – sorri como qualquer pessoa faria numa situação daquela.

–É que... Seu rosto está um pouco machucado.

–Ah! Isso aqui? Caí da escada. – e menti como qualquer outra pessoa mentiria. –Eu sou muito desastrada mesmo. Caio o tempo todo em casa, principalmente quando exagero um pouquinho na bebida.

Maicon era o porteiro mais falante de New York e, consequentemente, acabei descobrindo que ele também era curioso. Muito curioso.

–Não quero tomar mais o seu tempo. Será que eu posso ficar no terraço um pouquinho?

–Claro. O senhor Nathan gosta muito de você. Ele me despediria se eu não a deixasse subir. Não que eu não queira, na verdade eu também gosto de você, mas devo cumprir regras. Você entende, não é?

–Sim, Maicon. Perfeitamente. – sorri entrando no elevador.

–Claire! Esqueci de dizer que...

Não pude mais escutá-lo, por que as portas de metal se fecharam. Antes de subir o pequeno lance da escada, tirei as sandálias de salto alto. Empurrei a porta pesada devagar, já sentindo a solidão por toda parte, e ela não era ruim.
O vento era forte lá em cima, as luzes pareciam mais brilhosas, e o céu dava impressão de está mais perto. Em passos curtos e olhar fixo, aproximei-me do parapeito, mas as sandálias ficaram para trás, caídas em algum canto.

–Agora você aparece aqui quando quer?

Abri os olhos de supetão, com o coração acelerado, e urgentemente virei-me para trás, cruzando o olhar com Ethan.

–Des... Desculpa. – respirei fundo, mantendo a calma. –Eu não sabia que você estava aqui.

Intrigado ele se aproximou de mim. Ao vê-lo chegar cada vez mais perto, preferi encarar a cidade.

–Se você quiser eu posso ir embora agora mesmo.

–Pode ficar. Não vou demorar muito aqui em cima.

Estávamos a certa distância um do outro, ainda assim, parecíamos estar próximos demais.

–Pensei que somente eu não faria parte da sessão de filme da família Scott.

–Está se referindo aquela bagunça que Megan planejou para hoje? É impossível se concentrar na TV, aliás, é impossível se concentrar em qualquer coisa com aquele trio por perto.

–É. – sorri concordando. –Está frio aqui em cima, não é? Acho que vai chover. – distraidamente olhei o céu encoberto por algumas nuvens escuras.

–Toma.

Meu corpo todo arrepiou quando a jaqueta dele tocou minha pele, aconchegando-me.

–Estou bem. Não se preocupe.

–Não está não. – disse como se ele realmente estivesse enxergando as reclamações do meu corpo. –Por que você veio aqui?

–Para pensar um pouco. – tanto eu, como ele, voltamos nossos olhos para as luzes de New York. –Esse é o único lugar no mundo que consigo ouvir meus pensamentos.

Com o silêncio que, naturalmente se instalou entre nós, o olhei. Ele estava sério, pensativo, e completamente anestesiado pelo clima tenso entre nós, assim como eu estava.

–Faz algum tempo que não nos vemos. Como você está?

–Uh. – murmurou como se tentasse se decidir entre a resposta. –Estou entediado.

–Pensei que sua vida fosse a melhor do mundo.

–Não é quando não enxergo muito sentido nela.

–Está falando sério? – perguntei sem muito acreditar nele, afinal a vida de Ethan Scott era cobiçada por muitos. –Não acho que está faltando algo na sua vida.

–Por que não faltaria?

–Bem, você sempre teve um pouco de tudo, não é?

–Nem tudo.

Com a intensidade do seu olhar sobre mim, ruborizei ao senti que, lembranças de momentos recentes, invadiam minha mente.

–O Nathan está aqui?

–Não. Ele viajou para Boston. Não sei se vai voltar ainda esse mês ou se vai para outra cidade.

–O que ele faz?

–Ele é advogado, mas odeia a profissão, e, principalmente, o escritório na Nova Jersey. Mas o Nathan suporta essa escolha errada com unhas e dentes. Quem o conhece desde o tempo da faculdade, não acredita que ele chegou tão longe.

–Está dizendo que ele não queria ser advogado?

–Sim. Por duas ou três vezes, vi meu pai lamentar no campo de Golf. – pensativo Ethan suspirou. –Acho que o Golf era o sonho dele.

–Deve ser muito difícil olhar para trás e imaginar o que você poderia ter sido ou feito. – Ethan balançou a cabeça, concordante. –Está ficando tarde, eu tenho que...

Uma bela pancada de chuva nos pegou desprevenidos.

–Vem comigo! – ele segurou minha mão, arrastando-me à porta.

–Minhas sandálias!

–Depois você pega!

–Mas... – descalça cheguei ao corredor do apartamento Bryton. –Preciso pegar minhas sandálias e ir embora. – sem olhar para trás, Ethan abriu a porta. –Está ficando tarde.

–Você não está na casa de um completo desconhecido e eu não sou um psicopata. Será que dá pra relaxar pelo menos um pouco?

–Não, não dá. – sem olhá-lo, joguei a jaqueta dele no sofá. –Vou buscar minhas sandálias.

Decidida, fui à porta.

–Minha presença te deixa constrangida?

Parei bruscamente, estagnada com a pergunta direta dele. Por algum motivo achei que meu autocontrole ia bem, mas Ethan não via a mesma coisa.

–Eu...

–Vou pegar toalhas.

–Ethan... – quando me virei para vê-lo, ele havia sumido. –Eu só quero ir embora.

Disse a mim mesma, uma vez encarando o sofá a poucos metros. Sem ter para onde ir, não estando descalça, voltei ao centro da sala, e fiquei à espera da toalha.

–Aqui está.

–Obrigada.

Apalpei as pontas do cabelo com a toalha branca, iniciando um trabalho minucioso de secagem. Terminado de secar os longos fios, comecei a enxugar o rosto com leveza, para que o tecido de cor pura não ficasse manchado pela maquiagem. Até aquele momento não me importei com a presença de Ethan, mas percebendo que ele olhava-me com intriga, acabei por encará-lo fixamente, sem muito notar meu deslize.

–O que aconteceu com seu rosto?

Sua pergunta deixou-me sem ação. Eu tinha feito de tudo para não expor o lado esquerdo do meu rosto, mas distraidamente deixei mais que um machucado exposto.

–Oh! – sorri como uma boba, baixando a cabeça continuando o processo de secagem com a toalha. –Eu caí da escada.

–Que escada? – insistiu ele, dando um passo na minha direção.

–Foi na festa que eu estava hoje. – expliquei me afastando dele, sutilmente. –Tinha uma escada, muitas pessoas, fotógrafos e...

Ethan segurou meu queixo, fazendo que eu levantasse a cabeça. Pega de surpresa, meus olhos arregalaram-se, necessariamente pelo fato do Scott analisar a pequena lesão.

–Claire... – disse meu nome pausadamente. –O que aconteceu?

–Eu já disse!

Bati a mão contra o braço dele, libertando-me. Irritada, incomodada, e sem saber como driblar imagináveis perguntas, dei as costas a ele, mas meu braço foi segurado com urgência.

–Pare já com isso!

Os olhos de Ethan não estavam mais concentrados no meu rosto, mas exatamente no meu braço. Fiquei desnorteada ao vê que duas manchas rochas estavam nele, provavelmente pelas vezes que Ryan me agarrou bruscamente.

–Quem fez isso?

–Como assim ‘quem fez isso’? – tentei me soltar, mas ele não permitiu. –Eu caí de uma escada. É óbvio que alguns roxões iriam aparecer.

–Está tentando encobrir quem?

–Você está louco! – novamente puxei meu braço, em vão. –Dá pra me soltar?

–Só quando você me disser quem te agrediu.

–Preocupado comigo agora? – perguntei debochada, mesmo não sendo um momento apropriado. –Ninguém me agrediu. E eu não tenho que te dá satisfação nenhuma!

–Estou tentando te ajudar. – o ignorei. –O que há com você, afinal? Agora está saindo com um cara que gosta de bater em mulher?

–Pode não ser um. Quem sabe eu esteja saindo com vários ao mesmo tempo. – ele crispou os lábios, respirou fundo, mas nada em seu ritual me deixou abalada. –Não é da sua conta com quem estou saindo. – puxei o braço, mas não houve resistência da parte dele. –E se gosto ou não de apanhar, também não é da sua conta!

Apressada, abri a porta, e a fechei fazendo um grande ruído. Olhei para os lados, sem saber se iria embora descalça, ou se iria buscar meu calçado. Mas ao ouvir a porta do elevador se abrindo, entrei nele ofegante.

–Claire!

Entre a linha tênue daqueles sentimentos confusos e um destino imperfeito, ouvi a voz de Ethan gritar meu nome algumas vezes.