Dias Imprevisíveis
30 Capítulo 30 -Novo dia
Notas iniciais
‘Então, a cada dia recomeçamos de novo. Talvez, tentativas que não nos dê bons resultados. Quem sabe até nos tragam terríveis frustrações. Mas estamos sempre tentando. Sempre buscando um milésimo da perfeição da vida.’
Noite de sábado. 7h e 10min
–Parece empolgada.
Olhei Megan de soslaio.
–Ryan é uma pessoa muito animada. Adoro a companhia dele.
Virei-me para o espelho, terminando a maquiagem. Avaliativa, a Scott se posicionou atrás de mim.
–Quanto tempo já passou desde que fomos à Delaware? Duas semanas, certo? E o que aconteceu durante esse tempo? Nada. Você e Ethan nem tentaram se acertar.
Tentei ignorá-la, mas acabei perdendo toda a concentração.
–Para começo de conversa, seu lindo irmão não me ligou. Ele não me procurou no dia seguinte. E está fora de casa há um bom tempo. Isso significa que ele está pouco se importando. E é melhor que seja assim.
–Melhor para quem? Pra você?
–É. Pra mim! – levantei-me pegando a bolsa. –Mesmo que você não acredite, estou feliz agora.
–Legal, por que eu não acredito!
Gritou vendo-me passar pela porta.
&&&&*&&&&
–Você está bem? Está pensativa e mal tocou na comida.
–Desculpa. Estou muito distraída hoje.
Ryan sorriu. –Quase não percebi.
Ele era um homem doce, atencioso, e, com toda certeza, roubava-me um sorriso mesmo em dias como aquele.
–É nosso primeiro jantar e estou sendo uma idiota.
–Claro que não. Você só está triste e...
–Mas não tem nada a ver com você.
–Eu sei disso, afinal estamos nos dando muito bem ultimamente. Nossas conversas por telefone são ótimas e duradouras. Falando nisso, nunca conversei tanto por telefone até às duas da manhã.
–Nem eu. – sorri.
–Bem, não posso vê-la assim e não ajuda-la. Diga-me o que está acontecendo.
Não era uma boa ideia. Era nosso primeiro jantar e se eu começasse a desabafar, acabaria tocando no nome de Ethan.
–Não é nada.
–Vamos, Claire! – apertou delicadamente minha mão. –Você pode falar sobre qualquer coisa comigo, inclusive sobre decepções amorosas.
–Você desconfia que seja isso?
–Não sou um perito nessa área, mas quando uma mulher está muito magoada, é a primeira coisa que me vem à mente.
Respirei fundo, sem saber por onde começar.
–Sinceramente, não sei como começar. Além do mais, não quero encher seus ouvidos com meus problemas.
–Faça um esforço e se sentirá aliviada depois.
–Ok. – como ele tanto insistiu, me senti à vontade diante de sua confiança. –Eu moro na casa de uma amiga, que conheci não tem muito tempo, e... E acabei me apaixonando pelo irmão dela.
–Interessante. Continue.
–Você está parecendo um terapeuta. – rimos juntos. –Ok. Nós sempre fomos opostos, mas, todo esse tempo, vivemos nos atraindo. Mesmo sabendo que não daríamos certo juntos, resolvemos tentar e, recentemente, terminamos.
–E você ainda gosta dele?
Perguntou calmamente.
–Ainda é tudo muito recente para esquecê-lo da noite para o dia.
Será que era mesmo? Contando todas as frustrações, desapontamento, e lamúrias, eu já deveria ter esquecido Ethan há muito tempo.
–O problema é que estou me sentindo muito pressionada no mesmo lugar que ele. Bem, dificilmente ele para em casa, mas ainda assim é a casa dele. – Ryan concordou com um leve aceno de cabeça. –Eu quero esquecer esse sentimento frustrante, mas será um desafio se eu o vê sempre.
–Duas alternativas infalíveis, minha querida. Se entregue completamente ao trabalho e mude-se para um novo lugar. Para esquecer um amor, arrume outros amores. Acredite, funciona.
Ryan estava certo. Não dava para seguir em frente esbarrando no passado todos os dias. Algo precisava ser feito e a hora havia chegado.
Desde o momento que conheci os Scott, sempre pensei que o destino deles era incerto, mas acabei percebendo que o meu futuro era mais incerto ainda.
–Ryan, serei inteiramente sincera com você. – dessa vez fui eu que apertei sua mão. –Não sonho com uma carreira de modelo, nem fama. Eu entrei nessa por que preciso de dinheiro, agora mais ainda. E...
–Desculpe te interromper, mas eu percebi isso desde o dia que tivemos aquela conversa. Entretanto, se você quiser mesmo trabalho, posso facilmente guia-la a eles.
–Obrigada.
–Tem mais, Claire. – aproximou-se sem quebrar o contato visual. –Se você não quiser se esforçar nisso, eu te ajudarei do mesmo jeito. – eu o olhava sob a expectativa de suas futuras palavras; como se tentasse desvendar um enigma. –Venha morar comigo.
Inclinei-me na cadeira, com o coração acelerado, e o corpo levemente trêmulo.
–Morar com você?
–Sim. Venha morar comigo. – disse naturalmente. –Eu gosto de você. Acho que isso não é segredo. Estou solteiro, moro sozinho, tenho independência financeira, e eu estava mesmo à procura de uma namorada.
Eu tinha certeza que Ryan era um homem de palavras diretas, mas não imaginei que seria tanto. Com toda a naturalidade ele me convidava para entrar em sua vida, fazendo tudo parecer fácil e prático. Imaginando daquela forma, realmente era. Nada me impedia. Mas...
–Você me pegou de surpresa.
–Imagino que isso significa que você vai pensar muito sobre isso.
–Eu...
–Não se preocupe. Se eu tivesse no seu lugar, eu também me daria tempo para tomar essa decisão.
Sorri aliviada. Ainda que Ryan Carter estivesse diante de uma grande dificuldade, com inteligência e autocontrole ele conseguia se superar.
–Eu posso te fazer uma pergunta?
–Pode. – olhei-o encabulada. O que mais faltava naquela noite?
–Quer ser minha namorada?
Por que dizer não se parecíamos tão cúmplices? Por que dizer não a um novo amor? Por que dizer não ao único homem que queria de verdade me incluir em sua vida?
–Sim. Sim. E sim!
Dando boas-vindas a minha nova página, o beijei demoradamente. Fora maravilhoso a forma que me senti segura de novo, mas, naturalmente, estranhei aquele novo contato.
Ryan era uma novidade em minha vida. Uma novidade que eu precisava lapidar e transformar carinho em amor. Tudo há seu tempo.
–Eu prometo que vou pensar com carinho no seu convite.
–Vou esperar ansioso um sim.
Sorri para ele e, animada, encarei a comida sofisticada no prato. Levei uma pequena porção à boca, e murmurei lamentavelmente.
–O que foi? – perguntou Ryan.
–Enquanto conversávamos o Magret de pato esfriou.
–Vou fazer outro pedido.
–Não se incomode. Está muito bom.
&&&&*&&&&
–Como foi o jantar com Ryan?
Finalmente Megan havia ignorado nosso pequeno desentendimento na noite anterior e perguntou sobre minha noite com Ryan.
–Foi ótima. – respondi animada. –Ele me levou a um restaurante sofisticado. Provei da culinária francesa. E conversamos um monte de coisa.
–Aposto como rolou muito romantismo e, possivelmente, certos avanços.
–Certíssima. – Megan não se surpreendeu. –Ryan me pediu em namoro e eu aceitei.
–Uh.
A reação da minha melhor amiga foi um murmúrio. O silêncio dentro do táxi foi inevitável; parecíamos processar tal novidade.
–Ryan me convidou para ir morar com ele.
–Como?
O espanto dela foi tanto que o motorista do táxi chegou a se assustar.
–Seja mais discreta, moça! Sou um homem de cinquenta e nove anos! Ainda não me aposentei!
–Desculpe, senhor. – olhou-o de relance. –Ir morar com ele? Ele fez esse convite tão importante do nada?
–Pois é. Esse é o diferencial entre Ethan e Ryan. Seu irmão faz o impossível para que eu não penetre a vida dele. Ryan simplesmente está me empurrando para a vida dele. – Megan refletiu. –Fiquei de dá uma resposta. – encarei a janela, perdida no vai e vem das pessoas na rua. –Ryan é maravilhoso, mas ainda não me sinto pronta para dá esse passo.
–Até eu ficaria. Você mal o conhece. Não sabe quase nada sobre ele.
–Eu sei. – suspirei. –Vou me decidir em breve.
–Chegamos. – anunciou o taxista, de frente à clínica. –São trinta e cinco dólares.
–Vou lhe dá quarenta pelo susto. – disse Megan com humor.
O velho impaciente sorriu em satisfação e como não tinha cara de quem fazia uso da velha e boa educação, buzinou o carro em vez de dizer obrigado.
–Você deve não ter visto, mas Ethan chegou ontem à noite.
Senti uma rápida acelerada no meu abalável coração, mas não demonstrei espanto ou ansiedade.
–Olha, eu sei que será difícil esbarrar com ele ou cumprimenta-lo. Mas se isso é mesmo uma página virada, que haja cordialidade nesse convívio.
–Não se preocupe. – sorri tranquilizando-a.
&&&&*&&&&
Chegamos ao quarto de Melissa e as famosas tulipas brancas destacavam-se no cômodo simples.
–Nathan Bryton continua seus mimos? – perguntou Megan abraçando a mãe.
–Ele não para de mandar flores. Como vai, Claire? – abraçou-me.
–Bem, Melissa. E você?
–Rodeada de flores. – rimos juntas. –Eu nunca pensei que isso aconteceria depois de tanto tempo.
–Está feliz por que aconteceu, não é?
–Sim, Megan. Pelo modo que tudo acabou e agora nos vemos como bons amigos, eu não poderia deixar de sorrir.
Melissa sempre esbanjara tranquilidade, mas passara a ser delicada desde que o tratamento efetuou resultados. Vestia-se com simplicidade e delicadeza. Penteava-se mais vezes. Sorria ao som das palavras mais simples. Praticava exercícios todas as manhãs. E não parava de fazer planos.
Torcíamos o tempo todo por Melissa Scott e, mesmo de longe, lhe dávamos força e confiança. Sabíamos que ela ainda corria risco fora da clínica, até mesmo a própria Melissa tinha plena consciência dos termos negativos, mas o medo e a desconfiança eram vencidos por dias e mais dias de determinação.
–Acho que vou poder sair em breve.
–Se sente pronta para isso?
Melissa refletiu sobre a pergunta de Megan.
–Sinceramente, tenho medo do mundo agora. Mas tenho que ter confiança.
–Exatamente, gatona!
Megan abraçou a mãe pelas costas e a beijou como uma louca.
–Está muito distraída, Claire.
–Um pouco. – sorri forçosamente.
–Megan me contou sobre você e Ethan.
Observei Megan com cara de quem a enforcaria depois.
–Eu sei que fui linguaruda, mas minha mãe sabe quando há um novo tempero na comida. – se explicou ela, um pouco envergonhada. –Ela ficou mal por vocês.
–E como eu não ficaria? – indagou Melissa. –Adoro você, Claire. E eu já disse que você combina muito com Ethan. Pessoas opostas têm uma chama intensa. – Megan concordou. –Espero que vocês possam se acertar um dia. É um desejo de coração.
Melissa torcia pelo meu passado com Ethan. Eu torcia pelo meu futuro com Ryan.
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