Dias Imprevisíveis
28 Capítulo 28 -Um grande mal entendido
Notas iniciais
‘Fora completamente sóbria que agi estupidamente. E fora visivelmente perturbada que me perdi no caminho escolhido.’
–O que estão comendo?
Faminto e com cara de quem tinha perdido as estribeiras na noite, Nicholas aproximou de nós, e ignorando o olhar fulminante de Megan, jogou a mochila perto dos pés dela.
–É omelete com queijo. E ali tem bacon. – apontei para o prato coberto.
–Minha nossa! – empolgou-se e sem cerimônia atacou o bacon. –Quem preparou o café? – perguntou parando o trajeto da comida.
–Você comeria se eu dissesse que fui eu?
–Por que acha que eu perguntei, Megan? – indagou sarcástico. –Por favor, não me diz que foi você!
–Eu diria se isso o impedisse de ter maus modos à mesa. – irritada a Scott ofereceu um guardanapo ao primo. –Você é um porco às vezes.
–Aceito essa ofensa se você me dá um abraço.
–Sai pra lá! – Megan o empurrou levemente. –Você tem cheiro de cerveja barata, chulé, e bacon frito.
Em pouco tempo eles estavam sorrindo, como se seus enfrentamentos fosse determinar quem dos dois era o mais forte.
–Então, primo, você vai nos levar ao shopping hoje.
Aquele fora o convite casual de Megan, que mais pareceu um ultimato.
–Não vou não. Estou sem grana e desconfio que meu carro esteja com problema.
–Viu só, Claire? Ele não quer ir!
Megan estava feliz por que gostara da ideia de não ter que aturar o primo, mas eu estava apavorada. Ele era o ponto central do plano. Sem o velho carro de Nicholas, Megan nunca chegaria à Delaware de boa vontade.
–Eu vou descansar um pouco.
Com a saída de Megan, me senti à vontade com Nicholas.
–Precisamos da sua ajuda.
–Não dá Claire. Estou sem dinheiro para passeios.
Não tinha mais como abordá-lo senão com a verdade. Ele insistiria no mesmo assunto caso eu não interferisse. Por isso, determinada, resolvi abrir o jogo.
–Na verdade, não vamos sair a passeio, mas em uma aventura.
–Que tipo de aventura?
–Tipo, ir à Delaware.
–Por que Delaware? O que pretendem fazer lá?
Enquanto ele esperava uma resposta, eu esperava um bom resultado no final daquela conversa.
–Megan não sabe, mas Ethan está lá. Crash me contou.
–Uh. – as coisas começavam a ficar interessantes para ele. –Você quer ir atrás do Ethan?
–Não. Quer dizer, sim. Mas não é por que sou chata ou pegajosa. Faço isso por que...
–Estão juntos, certo? – balancei a cabeça ruborizada. –Você sabe que ele não gosta de ser controlado. Se você for atrás dele, não será muito bem recebida.
–Estou cheia desse mesmo tabu.
–Você quem sabe. – deu de ombros.
–Você não disse ainda se vai nos levar.
–Como? – perguntou quase engasgado. –Não tenho nada a ver com isso. Além do mais, estou sem dinheiro, e...
–Eu banco a viagem. – o interrompi. –Quinhentos dólares tá bom pra você?
–Quem te patrocina? – deixando o café de lado ele me deu mais atenção. –Então, Megan não sabe e Ethan tão pouco?
–Nada. Estou tentando arrastar Megan para o shopping e ela pensa mesmo que vamos às compras.
Ele sorriu. Seu olhar tinha um brilho de vitória.
–Megan iria se espernear para voltar, mas eu diria que não, e iria gargalhar de prazer. – ao que tudo indicava, em poucos segundos ele teve uma ideia diabólica. –Quando partiremos?
Sorri aliviada. –Só preciso pegar uma mochila no quarto e leva-la ao carro sem que Megan perceba.
–Ótimo! Minha mochila já está pronta! — apontou para a mochila empoeirada debaixo da mesa. –Pensando bem, vai ser divertido. Vou conhecer umas gatinhas e...
Nicholas começava a elaborar seus planos. Os meus eram os mesmos desde as primeiras horas da manhã. Encontrar Ethan Scott. Era tudo o que eu desejava.
&&&&*&&&&
Com Nicholas dirigindo e Megan dentro do carro, minha missão quase impossível estava realizada. Pela distração da jovem Scott na tela do seu iPad, tudo indicava que ela ainda não tinha percebido que estávamos nos desviando do caminho habitual. Se fosse por Nicholas, nosso disfarce não tinha durado muito, por que ele não sabia esconder, por uma pequena fração de segundo, o prazer saliente de que a prima não sabia que estávamos levando-a para outra cidade.
–Onde estamos?
Sentindo-se perdida, Megan olhou para todos os lados.
–Saindo de New York! Surpresa!
Sem mais aguentar a novidade Nicholas chocou a prima.
–Eu não acredito nisso! Nicholas faça o retorno agora!
–Acontece que eu estou no comando e minha decisão é não! – ele gargalhou. –Estamos indo para Delaware!
–O quê?
Ela gritou e, mal comunicada, olhou-me.
–Não é o que estou pensando, né, Claire?
Cocei as têmporas, pensando na melhor maneira de esclarecer nossa viagem –, e acalmá-la, principalmente.
–Crash me passou a localização de sua equipe.
–Eu não acredito! – suspirou alto. –Está na cara que essa viagem não vai dar certo.
–É só você tampar a boca, prima.
–Cala a boca! – chateada Megan deu um belo cascudo em Nicholas. –Ethan vai ficar irado por que o seguimos.
–Você já pensou o porquê do seu irmão querer tanta privacidade quando está com aqueles caras?
–Um dos motivos básicos: nenhum deles envolve a família nisso.
–Não estamos falando de gângster, certo? Ou será que estamos? – perguntei.
–Acho que estamos falando do Crash. – respondeu Nicholas.
Emburrada, Megan cruzou os braços, e tranquilizou-se.
–É o espaço dele e não estamos respeitando isso. – olhou-me um tanto decepcionada. –É uma pena que eu não esteja do seu lado agora.
–Juro que às vezes eu não entendo vocês. – suspirei derrotada.
Uma hora tinha passado e ninguém mais se comunicou –, com exceção do locutor do rádio e suas ouvintes barulhentas. Megan passou a maior parte do tempo de olho na janela. Eu, entretanto, adoraria saber o que havia de tão errado na nossa viagem.
–Você concorda com Ethan agora?
Perguntei sem olhá-la.
–Eu nunca concordei com ele, Claire, mas dessa vez faço uma exceção. – disse Megan. –Não é por ele, é por você.
–Não acredito que vou sair magoada de Delaware. – alguém tinha que ser otimista ali. –Sinceramente, não estou fazendo nada demais.
–Claire tem razão. – Nicholas me apoiou. –Para falar a verdade eu detesto quando o Ethan me ignora. Quando ele está em New York somos amigos, mas quando ele sai com aqueles caras mal me conhece. Eu já me convidei para ir com ele, mas Ethan disse que isso só aconteceria se Crash me patrocinasse. Fala sério! Eu nunca vou ser tão louco a ponto de apostar minha vida.
–Finalmente descobri um pouco de lucidez em você. – disse Megan ao primo. –Tudo bem. Já que estamos longe de New York, vou relaxar e vê o que acontece. – ironizou. –Esse carro é o mais silencioso da estrada.
–É verdade. Parece que vamos visitar a vovó no almoço de domingo. – Megan e Nicholas riram.
–E somos caretas também. Deveríamos tirar a cabeça pra fora da janela e gritar feito loucos. O porta-malas deveria tá cheio de bebidas. – Nicholas estava empolgado. –Que tal pararmos para almoçar?
–Pode ser. Deve ter algum frango frito por aí. – disse Megan.
&&&&*&&&&
Voltamos à estrada depois de passar uma hora e meia em um pequeno restaurante ao lado do posto de gasolina. Não achamos frango frito neste, mas serviam bons pratos de comida mexicana.
–Megan, há quanto tempo você não vê seu pai?
Talvez não fosse o melhor momento para falar de Nathan Bryton com ela, mas eu tinha necessidade de me aprofundar mais naquela relação de pai e filha. A história era a mesma desde que a ouvi pela primeira vez. Mas, de fato, não havia nenhuma conclusão nesta; apenas orgulho e distância.
–Sei lá. Acho que... Alguns poucos anos. – respondeu dando de ombros. –Por quê?
–Por que eu o conheci ontem. – Megan ficou surpresa, como eu imaginava. –Aconteceu por acaso.
–Onde? – perguntou curiosa.
–No edifício Phil Braxton.
–Você foi lá?
–Duas vezes. – respondi temendo a reação dela. –Seu pai me pareceu ser um homem bom. Claro, não o julgo como pai, e tão pouco sei sobre a aproximação entre vocês. Mas ele é um homem paciente, atencioso, e...
–Oh! Nathan Bryton é assim com todos, mas se esqueceu de ser assim com os filhos. – parecia calma, mas a voz estava visivelmente carregada de cólera. –Com certeza ele foi irônico ao falar dos Scott, não foi? Aposto como zombou do vício da minha mãe.
–Não. Ele se mostrou feliz quando eu lhe disse que Melissa estava se tratando. E duvido que ele estivesse atuando. – Megan surpreendeu-se, mas logo recuperou a pose de quem não se importava. –Tomei a liberdade de dá a ele o endereço da clínica e...
–Claire! Ele não se importa!
–Tanto que vai enviar a Melissa as flores que ela mais gosta.
–Ele se esqueceu dos gostos dela há muito tempo.
–Tulipas brancas... – falei deixando Megan atordoada. –Foi o que ele disse que ela gosta.
Os anos tinham passado, mas Megan não tinha mudado seus sentimentos em relação ao pai, e, desde então, nunca tinha se permitido dá outra chance a Nathan. Não sei se, naquele momento, ela teve vontade de dá uma única chance de reaproximação ao pai. Mas tenho certeza que ela gostou de saber que o Bryton ainda se importava com eles.
&&&&*&&&&
Poderia ser uma loucura ir aquela cidade sem um convite que nos tirasse de uma enrascada, mas esquecendo o motivo pelo qual estávamos na tão aguardada Delaware, tínhamos o privilégio de sentar na praia, e apreciar o mar.
–A última vez que entrei no mar foi quando o Jason ficou bêbado e vomitou sem parar. – Megan sorriu. –Ethan ficou olhando de longe e eu ainda tentei arrastá-lo.
–A última vez que eu estive no mar... foi há quatro meses. – disse Nicholas. –Na manhã seguinte eu acordei de sunga branca e batom vermelho.
–Bem, estive no mar poucas vezes. Meu pai não gostava da temperatura elevada e minha mãe não sabia nadar.
–Você não tem cara de quem nada bem, Claire. – provocou Nicholas.
–Isso foi uma ofensa à antiga campeã de natação da minha escola, Nicholas! – falei fazendo-o rir. –Eu o desafio.
–No mar aberto? – perguntou incrédulo. –Nem pensar! Morro de medo de tubarão. Minha zona de proteção é de cinco metros de distância da praia.
–Você é patético! – debochou Megan. –O que faremos agora?
–Se vocês concordarem, podemos comprar roupas de banhos, passar o resto da tarde aqui, alugar um quarto mais tarde, e procurar Ethan depois. O que acham?
–Perfeito! – animado, Nicholas esboçou um sorriso galanteador para as garotas que passavam ao nosso lado; todas bronzeadas. –Estou começando a gostar dessa cidade.
&&&&*&&&&
Fizemos planos de ficar até o pôr-do-sol na praia, mas acabamos pulando essa parte, e saímos à procura de um quarto. Sem muito esquentar a cabeça em busca de um quarto que não fosse caro e que tivesse conforto, nos hospedamos em um hotel perto da praia.
–É um bom lugar. – disse Megan apreciando a vista da pequena sacada. –Temos dinheiro pra passar a noite aqui? Quer dizer, eu não trouxe nada.
–Não é um hotel cinco estrelas, Megan. – Nicholas pulou na cama como uma criança. –Mas eu nunca pensei que sair com a Claire fosse tão maneiro!
–Aproveite essas horas de glória. Amanhã voltaremos para nossa realidade. – falei desanimando-o. –Na mensagem o Crash disse que não vai ter competições hoje. Estão aqui há negócios e não ficarão mais que dois dias.
–Poxa! Falando assim até parece que eles trabalham pra CIA. – rimos do comentário de Megan. –O que vamos fazer hoje à noite?
–Vamos a um clube chamado... Esqueci o nome do clube, mas Crash me garantiu que Ethan estará lá. – respondi.
–Espero que tenhamos convites Vips senão nossos traseiros serão chutados para fora. – disse Nicholas.
–Crash vai cuidar disso. Vou vê na mensagem o nome do clube. – peguei o celular fuçando as últimas mensagens.
–Não sei como você consegue arrancar tanta coisa do Crash. – disse Megan esvaziando a mochila. –Deveria usar seus dotes contra meu irmão.
–Você acha que não estou tentando? – ela riu alto.
7h e 15 min. da noite.
Para uma festa de clima tropical, nada mais apropriado que roupas leves. Megan acabou usando uma minissaia jeans, blusinha de alça, e sandálias de salto oito centímetros. Eu optei por um vestido branco tomara que caia; de cumprimento um pouco acima dos joelhos, e levemente marcado na cintura. Para calçar, escolhi uma sandália de salto médio, de cor bege.
–Estou pronto!
Nicholas saiu do banheiro exibindo a nova camisa estilo Havaí.
–Lembre-se, Nicholas, que não queremos confusão, e tão pouco aparecer. – falou Megan. –Só viemos espionar a vida do Ethan.
–Essa é a melhor parte da viagem.
Animado, Nicholas foi o primeiro a deixar o quarto.
&&&&*&&&&
Como Crash tinha prometido, entramos no clube sem complicação, ou olhares tortos. O lugar era imenso, de onde podíamos enxergar sua expansão. O ambiente era muito parecido com a boate que frequentávamos em New York, mas o ritmo da música era outro.
–A música é legal.
–Acho que é um ritmo caribenho, salsa... Só sei que dá vontade de dançar!
Contagiada pela música dançante, a Scott começou a se remexer timidamente.
–As bailarinas rebolam muito.
Nicholas estava quase babando nelas.
–Vamos nos enturmar por aí? – indaguei com o coração acelerado. –Isso é uma tortura! Não posso andar nesse lugar com suspense de barrar no Ethan.
–Então, vamos procura-lo. – sugeriu Megan.
–As garotas mais lindas de todo o clube!
Galanteador, Crash beijou nossas mãos.
–Como vai, Nicholas?
–Animado com todas essas mulheres.
–Então, fique à vontade, meu amigo. Aqui é o lugar certo para grandes conquistas. – piscou para ele. –Onde estão hospedados?
–Em um hotel aqui perto. – respondi.
–Uh. – murmurou olhando os lados. –Ethan não sabe que vocês estão aqui, certo?
–Eu não saberia se eles estivessem escondidos.
Surpreendidos, olhamos para trás. Intrigado, Ethan se aproximou de nós. Sem ter em mente o que dizer, fingi está concentrada no palco.
–Estão me seguindo?
Fui obrigada a olhá-lo, mas seria melhor se eu não tivesse feito. O olhar dele me acusava especialmente.
–Estamos em um passeio turístico. – respondi.
–Ah! É mesmo? – ironizou. –E como foi que nos encontramos aqui?
–Esse lugar é bem falado, não é?
Questionei casualmente. Eu estava indo bem.
–Boa tentativa, Claire. Mas não vou cair nessa.
–Vamos acalmar os ânimos. – interferiu Crash. –Você deve trata-la melhor, Ethan.
–Isso só pode ter sido você. – sua ira voltou-se para Crash. –É trazendo eles aqui que teremos uma boa parceria?
–Eu não ia me meter nisso, mas as circunstâncias me obrigam.
–Está tudo bem, Crash. Já estamos indo embora, não é pessoal?
Megan e Nicholas balançaram a cabeça.
–Sei que você está odiando essa situação, Ethan, mas há um motivo muito bom para isso.
–Crash...
Se eu não fizesse algo, ele complicaria tudo ainda mais.
–Claire veio aqui para...
–Para conhecer o clube, mas já estou indo embora. – agarrei o braço de Megan.
–Você tem que ser mais delicado, garoto prodígio. – infelizmente ele me obrigou a ficar. –Claire veio até aqui para dizer que está grávida de você, senhor Ethan!
–O quê? – boquiabertos Megan e Nicholas se pronunciaram.
–Eu devo ter super espermas por que nunca consegui engravidar uma mulher sem ter feito sexo com ela antes.
Em meio aquele mal entendido, todos os olhares se voltaram para mim.
Fale com o autor