Dias Imprevisíveis

20 Capítulo 20 -Ainda há um momento especial


Notas iniciais
Oi, gente!Eu disse que não ia postar mais essa semana, mas o capítulo ficou pronto, e decidi postar.Espero que gostem!Beijos!

‘Sabemos quando tudo está fora de lugar, fora de rumo, mas nem sempre temos a capacidade, ou forças de pôr a vida em ordem.’

De volta, traçamos o mesmo percurso, com a única diferença de que meu coração estava destruído.
A cabeça latejava sem descanso, devido o tempo recorde que pensei na vida. Os momentos que passei, no terraço daquele prédio, eram tão recentes quanto às lágrimas que voltaram a cair, ainda assim, aquele flashback parecia um sonho antigo, onde a vida me pregava uma velha peça. Cada palavra dita, cada expressão, ação, estavam bem claros na minha cabeça, mas meu coração não parecia compreender isso, ou apenas se recusava.
Em meio a angustia, eu pensava se era certo mesmo seguir o raciocínio coerente de que, um relacionamento com Ethan, me traria severas frustrações. Não dava para saber, a não ser que eu arriscasse. No fundo, eu estava terrivelmente tentada a jogar tudo para o alto, e me entregar de vez aquele amor incerto. Mas até quando seríamos felizes? Será que eu fingiria ser outra pessoa só para me vê enquadrada dentro da vida de outra?
Presa em pensamentos, mal notei que a moto desacelerava, e que, uma ambulância estava parada de frente ao pequeno prédio que morávamos.

–De novo não.

Ouvi as palavras serem pronunciadas em baixo tom, quase num sopro fraco, e sem tirar os olhos da ambulância, Ethan parou a moto, visivelmente atônito.

–O que será que aconteceu?

Perguntei-me descendo da moto e, apressada, me livrei do capacete. Ethan fez o mesmo e, quando demos alguns passos a frente, a maca, carregando Melissa, aparentemente desacordada, nos paralisou. Megan surgiu ao lado de Jason, sendo amparada por ele, que pedia calma. Passando por todos, Nicholas adentrou a ambulância, e esta fora fechada, saindo de lá com sua sirene alarmante.

–Megan! – corri até ela, despertando-a.

–Claire! – com o rosto banhado em lágrimas, ela me abraçou fortemente.

–O que aconteceu com Melissa?

–Ela teve uma parada cardíaca. – explicou Megan, se afastando do abraço.

–Eu disse a ela para não misturar tantas porcarias!

David surgiu na porta, mostrando-se alterado, com os olhos irritados, e visivelmente perdido, como se não soubesse onde estava.

–Saia da minha frente antes que você vá para o hospital com todos os ossos da cara quebrados!

Ouvindo a ameaça de Jason, David lançou um olhar perdido na direção de Ethan – que assistia e ouvia tudo sem se alterar –, e se afastou de todos nós, correndo até um carro amarelo que devia ser seu.

–Estávamos jantando quando meu celular tocou. Eu nunca ouvi a voz do Nicholas tão desesperada.

Megan estava claramente cansada e abalada.

–Vamos para o hospital. – Jason tirou a chave do carro de dentro do bolso da jaqueta, mantendo o olhar intrigado a Ethan. –É melhor você vir com a gente, Ethan.

–Jason tem razão. – concordou Megan, observando o irmão, ainda afastado. –Guarde a moto e venha com a gente por que... você pode...

Ela interrompeu-se ao ouvir o longo suspiro do irmão. Eles estavam esgotados, mentalmente, vivendo mais um episódio daquele pesadelo.

–Pretendo passar um bom tempo fora de casa e você deveria fazer o mesmo, Megan.

–Como assim? O que você quer dizer com ‘um bom tempo?’ – perguntou ela, temendo as palavras do irmão.

–Isso aqui nunca vai acabar. – Ethan aproximou-se de nós. –Melissa já fez a escolha dela, então, se quisermos mesmo virar essa página da nossa vida em família, devemos mudar de tática.

–Você teria coragem de dá às costas a nossa mãe e viver sua vida por aí?

–Acorda! – ele gritou, assustando Megan. –Você sempre manteve a mesma ilusão de que tudo vai mudar, mas esse pesadelo vem se prorrogando há anos! – Megan baixou a cabeça, sabendo que não poderia debater a verdade com ele. –Não é saudável para ela, para nós, para ninguém!

Nem mesmo Jason interferiu na discussão, por que aquele mesmo assunto estava se arrastando há muito tempo, e era um momento somente deles.
Ignorando o pedido de Megan e Jason, Ethan pôs o capacete na cabeça, subiu na moto, e partiu dali, a toda velocidade. Meu coração bateu de pressa, enquanto meus olhos se perdiam nas costas de Ethan, até o momento que eu não mais pude vê-lo.

&&&&*&&&&

Desde o momento que chegamos ao hospital – não fazia muito tempo –, Megan barrava todos os profissionais que ela conhecia ali, até mesmo os menos simpáticos. Ninguém sabia de nada e, a fim de tranquilizar a Scott, pediam para que ela aguardasse, e se tranquilizasse. Não era uma tarefa fácil para Megan, nem para nós, e no meio de toda aquela aflição, vez ou outra ela mencionava o nome de Ethan, acusando-o, mesmo sabendo que ele estava esgotado, assim como ela. Eu, recém-chegada na família, já começava a sofrer uma pressão sem limites, como se a qualquer momento do dia, a qualquer horário, algo terrível fosse acontecer.
Todos sentiam o mesmo que Ethan; compreendiam perfeitamente bem seu estado de nervos, mas não tinham coragem de deixar Melissa afundar de vez nos problemas. Diferente de nós, Ethan tinha aderido àquela coragem, e mais outras literalmente severas. Ele estava vivendo um momento onde sua vida tinha chegado a um determinado nível de fazer duras escolhas.

–Eu vou pegar café. Alguém vai querer também?

Megan e eu balançamos a cabeça.

–Vou com você, Jason.

Nicholas o acompanhou, sentindo-se mais calmo.

–Claire... Nosso quarto foi revirado de ponta a cabeça e... todo o dinheiro que tínhamos lá... – Megan uniu as mãos em sinal de desconforto. –Minha mãe pegou todo o nosso dinheiro. Eu prometo que vou devolver tudo a você, não se preocupe.

–Tudo bem, Megan. Não tinha muita coisa comigo.

Mesmo eu a tranquilizando, Megan não respirou em alívio, parecia cada vez mais tensa, e preocupada.

–O apartamento é lindo. – ela sorriu fracamente, iniciando outro assunto que não a deixasse mais melancólica. –Jason pretende compra-lo amanhã, mas acabei de descobrir que ele não será nossa moradia fixa.

–Como assim?

Ela respirou fundo, um tanto pensativa. –Jason têm bons contatos em Los Angeles e ele está quase certo de que vai se mudar pra lá.

–Isso significa que...

–Que terei que ir com ele, mas... não estou certa disso, tenho quase certeza de que não vou.

–E o namoro de vocês? E todos os planos que vocês fizeram juntos?

Pressionada, Megan baixou a cabeça, deixando o cabelo cair todo para frente. Por um breve tempo ela permaneceu assim, de cabeça baixa, alisando as têmporas sem nada dizer e, ao menos, queria mostrar o rosto.

–Não sou radical como Ethan. – disse ela, inclinando-se no sofá. –Tenho muita vontade de me desprender da minha mãe, por que sinto que estou sobrando na vida dela, mas eu não consigo deixa-la para trás. – ela esforçava-se para não chorar, mas a façanha não duraria muito. –Eu também não posso prender o Jason nisso. Ele é inteligente e tem um futuro brilhante pela frente.

Senti sua dor, suas emoções à flor da pele, e a confusão de escolhas incertas. Megan parecia está tomando suas decisões e, novamente, eu vi outro Scott abrindo mão de uma pessoa que poderia fazê-la sempre feliz.
Ethan e Megan... Eles eram tão jovens, mas já faziam uso do grau de seus amadurecimentos. Talvez, fossem suas características próprias, ou estavam pondo em prática experiências pessoais.

–Agora não é o momento de pensar nisso. Não está te fazendo bem. – sentei-me ao lado dela e, delicadamente, ajeitei o cabelo loiro que estava desgrenhado pelo rosto. –Melissa é forte e somos tão fortes quanto ela. Por isso, não vamos perdê-la para o David, nem para esse maldito vício. – sorri para ela, incentivando-a a fazer o mesmo. –Todo mundo tem problemas. Não somos diferentes das outras pessoas pelo mundo a fora. – motivada, Megan respirou fundo, como se minhas palavras renovassem suas forças. –Lembra-se do que você me disse quando cheguei nessa cidade?

Ela parecia pensar e sorriu em seguida.

–Seremos imbatíveis em qualquer lugar, desde que sejamos amigas.

–Exatamente! – sorrimos juntas, perdendo o medo de fazer algo tão simples.

–Megan?

–Doutor Caleb! – levantou-se apressada, indo ao encontro do médico. –Como ela está?

–O quadro dela está estável, mas a deixaremos em observação.

Respiramos aliviadas.

–Vá descansar, Megan, eu vou cuidar de Melissa muito bem.

Sorridente, a enfermeira Carmen fez uma leve carícia no topo da cabeça de Megan.

–Ela está inconsciente ainda?

Surpresas, olhamos para trás do doutor Caleb e a enfermeira Carmen, e encaramos Ethan; completamente surpresas por vê-lo ali.

–Provavelmente ela acordará amanhã. – respondeu o médico. –Alguma pergunta?

–Não, doutor. Obrigada. – respondeu Megan.

–Sendo assim, me deem licença, por favor.

O doutor Caleb se retirou ao lado de Carmen e, no caminho, depararam-se com Jason e Nicholas, que o cumprimentaram.

–Pensei que você não viria.

Ethan observou a irmã demoradamente, vendo o quanto ela estava abatida, e trêmula. Rendido ao momento, ele a chamou para um forte abraço, levando Megan ao fim da resistência contra as lágrimas.
Observei aquele abraço como um símbolo de esperança e força entre eles. Aquela era mais uma batalha vencida, dentre tantas que foram travadas, e outras viriam, mais fortes que nossa vontade de vencer.

&&&&*&&&&

Enrolei o cabelo molhado na toalha, terminando de vestir a calça de algodão, em seguida, vesti a camiseta. Arrastei a toalha do cabelo, de frente ao espelho, e o escovei demoradamente.

–Jason já foi embora. – Megan entrou no quarto, bocejando. –Nicholas vai dormir na casa de uma amiga e Ethan está com muita dor de cabeça.

–Ele não tomou nada ainda?

–Não e eu cansei de adulá-lo. – bocejou novamente. –Eu vou dormir, Claire. – ela se jogou na cama, sem tirar os sapatos. –Você me ajudou muito hoje. Obrigada.

–Não fiz nada demais.

–Claro que você fez e continua fazendo por que nos suporta tanto. – ela sorriu. –Boa noite.

–Boa noite.

Sozinha na cozinha, saboreando o chá forte de camomila, olhei o relógio na parede, e achei cedo por ainda ser meia noite.
Sentia-me cansada, mas isso era tudo, por que o sono tardava a chegar. Vez ou outra – especificamente cada segundo da minha existência –, me batia uma terrível vontade de checar o estado de Ethan que, não admitiu, mas estava sendo castigado por uma dor de cabeça persistente.

–Tudo bem que terminamos o que nem começamos, mas se eu for até lá, será por motivos que não tem nada a ver com meus sentimentos.

Depois de me convencer, peguei outra xícara, e a enchi com chá. Respirei em alta sequência ao me aproximar do quarto e, antes que minha coragem se perdesse naquele corredor, bati na porta.

–Está aberta.

Foi tudo o que ele disse, aumentando ainda mais meu nervosismo. Encorajada, abri a porta, e o encontrei deitado na cama, com os olhos fechados, alisando as têmporas em desconforto.

–Trouxe chá.

Imediatamente os olhos de Ethan se abriram, talvez estranhando minha visita.

–Pensei que estivesse dormindo.

–E eu pensei que você soubesse se cuidar. – entreguei o chá a ele, olhando-o feio por que ele se recusou a toma-lo. –O que você tomou?

–Um comprimido. Logo fará efeito.

Sentei-me longe dele, em uma poltrona bem ao lado da janela. Observei, divertida, Ethan bebericar o líquido quente, e murmurar algo em desagrado. Estava claro que ele não era fã de chá, mas aceitara meu agrado.

–Você fez bem em não ter ido embora agora. Megan e Melissa precisam muito de você.

–Foi uma pausa que fiz a mim mesmo.

–Uh. – murmurei desviando os olhos.

–Por que você está sentada tão longe de mim? – olhei-o desconcertada. –Chegue mais perto. Deu pra perceber que não mordo, não é?

–Claro que não.

Fiz o que ele pediu, mas não me sentei ao seu lado, tão pouco me aproximei muito da cama. Vendo minha agonia – por que eu queria mesmo sair dali –, Ethan deixou a xícara de lado, e puxou-me delicadamente pela mão. Sem mais resistir, sentei-me ao lado dele, sendo observada como se minha alma estivesse em jogo.

–Eu não gosto quando você me olha assim. – confessei prendendo a mexa do cabelo atrás da orelha, um pouco nervosa.

–Por que não? – indagou divertido.

–Por que não sei o que você está pensando ou achando de mim.

–Ah! Essa é sua dúvida? – mantive os olhos nele, interessada. –Você deveria se olhar mais no espelho e perceber o quanto é bonita.

–Eu vou seguir seu conselho. – falei divertida.

–Você faria sucesso em catálogos e revistas. Já pensou nisso com interesse? – eu pensava, mas não dava importância. –Você precisa planejar sua vida, certo?

Aquela era a maneira mais sútil de ele dizer que eu precisava pensar no amanhã, por que, aquele lugar era incerto, e um dia, todos teriam que seguir com suas vidas.

–Tenho um metro e sessenta e oito de altura. Peso cinquenta e seis quilos, e meu jeans não é trinta e quatro. – ele sorriu. –Não sei se tenho o perfil adequado para isso. Além do mais, não me interesso por esse tipo de coisa.

–Eu gostaria de ter vários patrocinadores e correr em pistas disputando troféus, ao lado de grandes nomes. Mas isso ainda é algo muito distante, ainda assim, arrisco a vida em rachas e ganho para fazer isso. Não é algo que eu gosto muito de fazer, mas sei que é o começo.

–Ora, ora! Ethan Scott acabou de revelar parte dos seus sonhos a mim.

–É. Estamos avançando e não falta muito para nossas conversas se transformarem em terapias.

Quando me dei conta, percebi que era a primeira vez que eu sorria de verdade naquela noite, depois de ter certeza que ela não tinha mais nada a oferecer.

–Está se sentindo melhor?

–Um pouco.

–Uh. – olhei as horas. –Está um pouco tarde, vou voltar para o quarto.

Levantei-me decidida, mas Ethan segurou minha mão novamente, fazendo-me voltar à atenção para ele.

–Preciso ir.

–Fique só mais um pouco.

Suspirei ao ouvi-lo e, sem coragem de lhe dizer não, voltei a sentar ao seu lado.

–Ethan... Por que você faz isso? – perguntei sem obter resposta. –Você se lembra o que conversamos? O que confessamos um ao outro?

Fui dura com ele, por que não havia outro jeito de compreender suas atitudes.

–Fique só mais um pouco e eu prometo que não vou perturbá-la mais.

Eu não queria ouvir aquela promessa – jamais –, mas eu tinha que aceita-la. Completamente rendida ao pedido dele, fiquei no seu quarto, sem saber o que dizer, ou fazer. Estava se tornando incômoda aquela situação, onde o destino brincava com a gente de novo, no mesmo dia, na mesma noite.

–Ethan... Eu preciso ir.

Quando achei que estávamos prontos para nos afastar, suas mãos tocaram minha nuca repentinamente, e fui arrastada para um beijo faminto. Acabei correspondendo – por que eu era fraca demais para repelir as investidas dele –, e Ethan inclinou meu corpo contra a cama, até eu me estirar sobre ela.
O beijo que começara alvoroçado, foi se acalmando pacificamente. No exato momento que esse foi quebrado, a custo de muita relutância, nossos olhos se encontraram, e havia sentimentos neles.
Ethan suspirou, deitando-se a meu lado, e abraçou minha cintura. Nada dissemos, somente respirávamos fundos. Meu coração tamborilava sem descanso, toda vez que eu constatava que tinha um homem deitado a meu lado, com o nariz roçando meu pescoço, e o braço agarrado a minha cintura. O mais surpreendente em tudo aquilo era o episódio, real, de que eu estava ao lado daquele que eu havia me apaixonado perdidamente, mesmo depois de termos aceitado que nossos mundos eram opostos.
Depois de longos minutos, minhas pálpebras começaram a pesar e, me aninhando nos braços de Ethan, acabei dormindo.

&&&&*&&&&

Aconcheguei-me no cobertor e, preguiçosamente, tentei abri os olhos.
Pisquei várias vezes antes de firmar as vistas na penumbra do quarto, tendo quase certeza de que já era dia. Espreguicei-me como há tempos não fazia, depois de ter tido uma boa noite de sono.
Olhei tudo a minha volta, finalmente caindo em si, e, sobressaltada, me sentei na cama – que não era, nem de longe, a minha.

–Eu não acredito que peguei no sono e ao lado do Ethan!

Sim, eu acreditava, mas parecia ser algo impossível. Saí da cama encarando os fatos e as recentes lembranças daquela noite onde, nada demais acontecera, mas meu coração palpitava dizendo-me o contrário.
Fui à janela, afastei as cortinas, constatando de que o sol já brilhava com força. Ajeitei os fios de cabelo desgrenhado, indo à porta, mas parei bruscamente, como se eu precisasse verificar algo.

–Ethan... – murmurei o nome dele, observando o lugar onde ele estava deitado na noite passada, dividindo o mesmo espaço comigo.

Tive certeza que ele não estava em nenhum canto daquela casa e, que, não nos veríamos por um bom tempo.