Dias Imprevisíveis

2 Capítulo 2 -New York


Notas iniciais
Mais um capítulo!

Beijucas!

Era mais um dia da minha nova vida e, mesmo eu entendendo que ela não era mais a mesma, eu ainda conseguia acreditar que muitas coisas não tinham mudado...

Meus olhos estavam bem abertos, como se eu não quisesse perder um único suspiro a meu redor. Sentada ao meu lado, com um fone de ouvido grande entretendo-a, estava Megan. Sua cabeça balançava no ritmo de uma música qualquer, que eu não conseguia distinguir devido o volume baixo. Ela estava compenetrada na música enquanto os olhos capturavam os movimentos das pessoas na rua.
Diferente dela eu estava inquieta demais para está ali, mesmo sentada naquela cadeira, exibindo o semblante de alguém que estava se sentindo perdido em meio a tantas pessoas. Realmente eu estava começando a tornar a situação desesperadora à medida que, o ônibus, se aproximava cada vez mais do aeroporto.

–Nervosa?

Assustei-me sutilmente com a voz de Megan.

–Oh! – sorri meio desajeitada. –Estamos chegando, não é?

Megan devolveu o sorriso e rapidamente guardou o fone.

–Próxima parada: George Bush Intercontinental Airport. – brincou ela, enfatizando o nome do aeroporto que em breve estaríamos. –Você só precisa relaxar e dizer adeus a essa cidade. Eu tenho certeza que New York fará de você uma garota segura e determinada.

–Espero que sim.

Concordei com ela, deixando o ânimo ganhar força.

–Não deixe que as palavras de Megan te influenciem tanto.

Olhei à minha direita, deparando-me com Ethan, irmão de Megan. Ele estava totalmente inclinado na cadeira, com o boné tampando os olhos, e os braços cruzados. Pela pose deduzi que ele estava tentando cochilar ou apenas tentava ignorar os demais passageiros.

–Eu não me sinto totalmente influenciada, apenas... motivada com o que ela fala.

Vi um sorriso irônico nascer nos seus lábios carnudos.

–Isso é influência. – ele quase me acusou. –Você não iria para New York se Megan não tivesse te convencido. Estou errado? – nada lhe respondi, pois ele estava certo. –O que você pretende fazer quando chegar lá? Vai esperar que alguém lhe diga o que fazer para então você agir?

Fiquei encarando-o, sem reação, ainda desnorteada com o bombardeio de suas perguntas. Eu não sabia o que aquele garoto queria de mim ou o que ele pretendia fazer com tantas perguntas. Mas de uma coisa eu tinha certeza: Ethan não simpatizou nenhum pouco com minha pessoa e tampouco tentaria se aproximar, de forma amigável.

–Vejo que você não gosta muito de pessoas que não sabem, ao certo, o que querem fazer com a própria vida. – engoli em seco, sentindo o ar quase falhar. –Ao contrário de mim, você deve saber o que vai fazer nos próximos anos. – baixei a cabeça, encarando meus próprios dedos enlaçados. –Eu o invejo.

Não sei ao certo se fui sarcástica ou estava invejando-o mesmo.

–Não seja boba. – disse ele, chamando minha atenção. –A vida sempre dá um jeito de desfazer nossos planos. Então, por que perdemos tempo tentando seguir à risca tantos planos inúteis?

Sorri ao ouvi-lo. Mesmo sentindo a ironia em cada palavra, não pude deixar de concordar com ele.

–Então... Você não é do tipo de pessoa que vive tabulando planos?

Perguntei desinteressada, mas, no fundo, cheia de vontade de descobrir um terço de sua vida.

–Eu faço plano como todo mundo faz, mas não significa que eu o leve a sério.

Como se quisesse encerrar o diálogo que havia se estendido, Ethan baixou o boné ainda mais, e inclinou a cabeça para cima, dando a entender que ia dormir. Eu o observei por algum tempo, imaginando milhares de coisas a seu respeito. Na verdade, Ethan não passava de uma pessoa misteriosa para mim, e seu jeito não me agradava em quase nada. Mas eu não podia negar que sua personalidade estranhamente me fascinava e perturbava ao mesmo tempo. Era como se sua presença fosse nula ali, mas impactante quando ele decidia se pronunciar.

–Parabéns. – Megan virou-se para mim, sorridente. –Você conseguiu causar uma boa impressão.

–Do que você está falando?

–Ethan e você... A conversa de agora e o entrosamento. – disse como se fosse óbvio. –Normalmente ele ignora desconhecido, mas hoje ele decidiu conversar com você, em vez de ignorá-la.

–Acho que somos iguais quanto a isso. – Megan concordou. –Mas seu irmão é muito...

–Chato.

–Eu ia dizer arrogante, mas chato também é uma boa opção. – rimos juntas, chamando a atenção de Nicholas que acordou meio desnorteado.

–Caramba! – ele coçou os olhos preguiçosamente e encarou a janela empoeirada do ônibus. –Chegamos?

–Falta pouco. – respondeu Megan, sem esconder a excitação daquela viagem. –Não vejo a hora de chegar em casa e voltar para a minha rotina.

–Você deve ter uma vida bem divertida, não é?

–Ah! Isso com certeza! Digamos que eu conheço noventa por cento dos lugares mais badalados de NY. – de repente ela parecia está mais empolgada. –Espera para vê nossa galera!

Com certeza eu ainda tinha muita coisa para descobrir sobre eles e sentia-me ainda mais curiosa, à medida que suas vidas iam se revelando, pouco a pouco.

Chegamos ao aeroporto e eu não me lembrava das vezes que estive ali. Meus pais não eram muito fã de viagens e muito menos de aviões. Normalmente só viajávamos no fim de ano, entre o natal e ano novo, e sempre para cidades vizinhas. Aquelas viagens eram sempre monótonas e raramente me deixavam feliz.

–Espero que você tenha grana no bolso, por que comprar uma passagem de última hora custará o olho da cara.

–Ela não é boba, Nicholas! – Megan o fuzilou com o olhar. –Ele está brincando com você.

–Eu sei. – abri a carteira propositalmente, deixando várias notas saltarem para fora. –Você não achou que eu pretendia andar por aí com cinco dólares no bolso e uma prancha de skate debaixo do braço, não é?

Megan o olhou com desdém enquanto Ethan prendeu o riso, mesmo um pouco distante de nós.

–Engraçado por que ele tem dez dólares no bolso e uma caixinha de chicletes no outro. – Megan quase riu alto, deixando o primo constrangido. –Ele ao menos tem um skate!

–Talvez um patim. – disse Ethan achando graça na expressão de Nicholas.

–Vocês não sabem de nada! – se defendeu ele, mas aquela altura seu nome tinha servido de piada. –Eu tenho quase vinte dólares no bolso e duas caixinhas de chicletes. E eu ainda acho patim melhor que skate.

–É por que você não sabe se equilibrar em cima de um. – Ethan o encurralou.

–Até você, Ethan?

–Foi você, Nicholas, que quis bancar o sabidão para cima dela. – apontou para mim e eu veria a cor de seus olhos se ele não tivesse jogado o capuz em cima do boné. –Admita que ela foi mais inteligente que você.

–Não exagera. Ela é só uma garota que acabou de decidir que vai seguir três jovens completamente desconhecidos. É impossível que ela seja mais esperta que um de nós.

Encarei o semblante divertido de Nicholas, sem saber até onde suas palavras me magoaram. Parecia que ele não fazia ideia do quanto aquilo tinha me deixado desconcertada, pois soou divertido, como uma tentativa de está por cima.

–Cala a boca, Nicholas! – Megan segurou meu braço. –Vamos comprar uma passagem, Claire.

Balancei a cabeça positivamente, como se o gesto fosse recuperar minha autoestima.

&&&&*&&&&

Eu andava toda desengonçada entre as pessoas, por que ainda não tinha caído a ficha de que o avião tinha aterrissado, há dez minutos, na tão falada New York. Tudo para mim era novidade, desde o piso cerâmico até o teto gigantesco, iluminado. Eu queria vê tudo de perto, conferir cada detalhe; era até mesmo constrangedor tentar camuflar minha cara de boba.

–Meninos, voltamos logo. Vem Claire!

Megan me arrastou ao banheiro e, apressadas, entramos nele quase correndo.

–Por que estamos tão apressadas?

Perguntei sem entender toda aquela urgência de chegar lá.

–Eu quero estar apresentável. – disse Megan carregando sua pequena mala para dentro daquele pequeno espaço e trancou a porta. –Eu tenho alguns vestidos, saias e calças aqui. Você não quer trocar de roupa?

–Eu só quero tomar banho e dormir. O que você está fazendo?

–Estou ficando mais apresentável. Meu namorado vai chegar daqui a pouco e eu não quero que ele me veja comum demais.

Ela destrancou a porta e saiu de lá vestida em uma saia jeans, com uma blusa branca, e um casaquinho leve, de cor neutra. O cabelo estava bem penteado, partido irregular, e uma mexa cobria seu olho esquerdo.

–Uau! Acho que estou mais impressionada com sua rapidez. – ela sorriu enquanto passava nos lábios um batom rosa choque. –Você foi à Houston vestida como se fosse uma órfã. Por que resolveu trocar de roupa agora?

–Minha mãe praticamente me obrigou a ir à Houston. Eu disse a ela que eu ia vestida em trapos velhos, ela duvidou e eu venci a aposta. – guardou o batom.

–Quanta coragem.

–Também estava na aposta que ela voltaria para o hospital. – ela me olhou por alguns segundos e sorriu tristemente. –Eu só queria vê-la bem.

Megan suspirou firme ao falar da mãe, o que me deixou curiosa.

–Vamos?

–Sim. – a seguir calada, olhando suas costas como se eu tentasse conhecê-la melhor.

Depois de vinte minutos de espera, Megan estava começando achar que seu namorado tinha se esquecido dela no aeroporto. Uma ou duas vezes ouvi o nome dele ser pronunciado por ela, em tom de irritação. Seu nome era Jason e foi tudo o que ela disse sobre ele, sem que quisesse lembrar que ele estava a caminho.

–É ele.

Megan olhava fixamente para o carro preto que vinha na nossa direção. Era um carro grande, daqueles que parecia carregar celebridades, e o som nele estava um pouco alto. O carro parou do nosso lado, mas eu apenas me concentrei nas rodas brilhosas que continuaram rodando.

–Olha você aí!

–Nem vem com esse sorriso! Você está atrasado!

Mesmo brava, ela deixou-se ser abraçada por ele. Jason era um rapaz alto, pele morena, porte atlético e bonito. Perto dele Megan era pequena e severamente frágil, mas não deixavam de ser um casal bonito.

–E aí, cunhado?

–Como você tá?

Ethan o cumprimentou com um sorriso estampado, me dando a oportunidade de vê seus dentes brancos alinhados. Ele era menor que Jason pouca coisa, a pele era bem branca, e seu corpo era definido, deixando claro que ele malhava. Era estranho estarmos juntos há algum tempo e seu rosto ainda era um mistério para mim.

–Nicholas, andou se exercitando?

–Conselho do Ethan. – disse Nicholas, cumprimentando-o. Ele sim era muito menor que Jason, embora seu corpo fosse forte.

–E essa é Claire! – Megan me abraçou de lado. –Ela é minha mais nova amiga.

–Sou Jason. Muito prazer.

–Igualmente. – apertei sua mão e ele gentilmente retribuiu o gesto, cheio de cuidado como se o aperto fosse me machucar.

–Claire ficará com a gente. – Megan me abraçou pelos ombros.

–Sua família é grande, Megan. – Jason segurou sua mão e a puxou para um abraço.

–Ela não é nosso parente. Na verdade nós a conhecemos em Houston e resolvemos trazê-la para New York.

–Na verdade, Jason, sua namorada desmiolada resolveu trazê-la para cá. – disse Ethan abrindo a porta do carro. –Megan ainda nos meterá em grandes problemas.

–Por que você acha que eu me apaixonei por ela? – indagou Jason, beijando Megan. –Mas, Ethan – ao ouvi-lo, Ethan tirou a cabeça para fora. –, Claire é uma garota muito bonita, você não acha?

Ele me olhava de cima abaixo e me peguei surpresa quando ele arrastou o capuz para trás e tirou o boné da cabeça. Encaramo-nos por alguns segundos, até ele enfiar a cabeça dentro do carro e levantar o vidro.

–Vamos, Claire.

Atônita, segui Megan.