Dias Imprevisíveis
11 Capítulo 11-Perdendo as estribeiras
Notas iniciais
Bastava apenas uma noite para tudo sair do lugar e a garota certinha perder as estribeiras. Tão confusa e completamente viciada naquela sensação de liberdade.
Abri os olhos em abrupto e, como eu já imaginava, tinha uma garota furiosa encarando-me. Mas, agindo como se aquele beijo fosse o centro de tudo, não desgrudei de Ethan e aprofundei minha língua na sua, enquanto minhas mãos acariciavam sua nuca, subindo até o cabelo.
Eu mantinha o olhar fixo na garota de pernas longas, provocando-a enquanto deixava-a apreciar a traição do seu namorado. Seus grandes olhos azuis se estreitaram habilmente, o rosto ficara vermelho, e suas mãos se fecharam com ódio. Mas eu não me importei com a sensibilidade do momento, na verdade eu me sentia muito à vontade, e diabolicamente feliz.
Então, aquela loira azeda era Sarah? Realmente ela estava se sentindo horrorizada e traída, da mesma forma ou pior à Megan. Eu queria está dentro da sua cabecinha egoísta e vibrar sobre seus pensamentos desiludidos. Talvez, com muito sarcasmo e deboche, perguntar-lhe se era mesmo ruim ser trapaceada sem nenhum tipo de consideração.
–ETHAN! ETHAN!
Ela gritou como uma louca histérica, chamando a atenção não só do namorado, mas de toda a boate.
–Como pôde ser tão baixo assim?
Ethan passeou os dedos longos entre os fios sedosos do cabelo e estava na cara que ele não sabia o que dizer.
–Você é Sarah Williams? – perguntei olhando-a de cima abaixo, sentindo-me extremamente encorajada.
–Sim. E quem é você? – perguntou também me olhando avaliativa.
–Eu sou Claire Lewis. Amiga e hóspede da Megan. – ela não escondeu a surpresa impactante da minha resposta. –Lembra-se de Megan, não é? – indaguei sarcástica.
–Chega, Claire. – Ethan se aproximou da namorada, mas ela recuou um passo para trás. –Vamos conversar lá fora, Sarah.
–Conversar? Você me fez de ridícula na frente desse povo todo!
–É o que acontece com muitas mulheres, Sarah. – Megan pôs o braço no meu ombro. –Não preciso fazer apresentações, todo mundo se conhece agora.
–Você planejou isso!
–Eu? – indagou Megan, debochada. –Meu bem, eu não tenho a malandragem de fazer duas pessoas se gostarem, mas, já que você deu esse belo flagra, engula-o educadamente. – rimos juntas, como duas meninas más. –Vamos embora, Claire. Já me divertir demais por hoje.
Concordei com Megan e, ao passar pela loira enfurecida, disse em voz alta:
–Ethan beija muito bem.
Saímos da boate escutando os palavrões de Sarah e suas promessas clichês de que nós iríamos nos arrepender. Não demos importância a nada do que ela dizia, simplesmente sorrimos como duas garotas embriagadas, e vingativas. Se tinha valido ou não a pena... Não importava pensar no que tínhamos colhido ou colheríamos, já estava feito, e nenhum de nós poderíamos mudar os rumos daquela noite.
&&&&*&&&&
Meus olhos pesavam, ainda assim, consegui abri-los sem enxergar quase nada no quarto. Depois de me sentar na cama, acender o abajur, e assimilar que eu estava sã e salva, olhei as horas. Já eram seis da manhã e não faltava muito para dar sete horas.
Levantei-me sentindo a cabeça pesar e o estômago revirar como se alguém o chacoalhasse. Mesmo sentindo muita náusea, cobri Megan e tirei sua sandália.
Achei uma toalha jogada em um canto, peguei-a e fui ao banheiro. Tirei as roupas da noite passada, com preguiça até para levantar o braço. A água do chuveiro caiu fria, pesada, e corajosamente entrei debaixo dela.
Enrolada, apenas, em uma toalha voltei ao quarto e procurei uma calcinha. Ao terminar de vestir a péssima íntima, o vestido leve e fino, deslizou no meu corpo. Escovei o cabelo jogando-o para trás e não o sequei.
–O que está fazendo acordada? – perguntou Megan completamente sonolenta.
–Vou preparar um café forte. Você quer?
–Odeio café forte.
Vencida pelo sono, Megan afundou o rosto no travesseiro, voltando a dormir.
Lá estava eu saboreando uma xícara fumegante de café, sentada no centro daquela cozinha solitária, e rendida às lembranças barulhentas de uma noite indecifrável. E a pergunta principal era: como eu deveria agir de agora em diante?
Uh... Normalmente, como se nada tivesse acontecido. Não seria tão difícil assim continuar a mesma de sempre, sem nenhum pingo de modificação no comportamento cotidiano. Por que, se me lembro bem de todos os detalhes, foi Ethan que começou o beijo. Então, por que estou matutando coisas como se a culpa fosse minha?
–Ora essa! – disse em voz alta, voltando a bebericar o café quente.
Minha surpresa não foi outra senão dá de cara com Ethan naquela manhã. Por alguns milésimos trocamos olhares e da mesma forma quebramos o contato visual. Sem nada dizer, ele foi à geladeira, pegou uma garrafinha de água, e traçou seu caminho de volta. Pelo menos pensei que não nos falaríamos tão cedo, mas Ethan se virou bruscamente, batendo o fundo da garrafa contra a mesa. Chocada com sua reação, mantive os olhos nele.
–Por que correspondeu meu beijo?
–Como? – indaguei tentando entender o rumo da sua pergunta.
–Eu também estava sujeito a levar uma bofetada, mas você não me deu uma.
–O que está tentando dizer? – perguntei ofendida.
–Você não teria combinado com Megan aquela ceninha do beijo?
Levantei-me sobressaltada e o encarei com o olhar desafiante.
–Você só pode está bêbado! – ri. –Você me convidou para dançar. Você falou um monte de coisas na minha orelha. Você começou o beijo enquanto eu tentava evita-lo!
–A questão não é essa!
–Ah! E cadê essa bendita questão? – indaguei furiosa. –Eu não sei o que a víbora da sua namorada tentou enfiar na sua cabeça, mas seja lá o que for ela mentiu para você!
–Você já está me enchendo!
Ethan segurou meu braço fortemente.
–Ela não te disse que destruiu o namoro de Megan com Peter?
–Foi um romance bobo do ensino médio!
–Ele foi o primeiro homem da vida dela! – minha respiração estava desenfreada, eu quase não estava conseguindo me controlar, mas senti que a confissão tinha acalmado o Ethan. –Megan o amava, mas Sarah não se importou com esse grande detalhe. – senti a mão de Ethan afrouxar meu braço. –Ela achou que você não se importaria, por isso nunca te contou nada.
E seu olhar era indecifrável, suas reações explícitas. Lentamente sua mão foi se afrouxando sobre minha pele avermelhada, até que ele soltou meu braço de vez. Sob o silêncio que se instalou instantaneamente, cheguei a abrir a boca na tentativa de falar alguma coisa, mas detive-me.
–O que está tentando fazer? – continuou Ethan. –Sentiu pena da Megan e decidiu se vingar?
–Eu não planejei aquele flagra, mas respondendo sua pergunta... Sim, eu queria me vingar.
Ethan sorriu cheio de sarcasmo, deixando claro de que seus pensamentos estavam certos.
–E ia me usar para atingir Sarah?
Não tinha como negar o óbvio, pois, se não fosse ele, seria qualquer outro que estivesse com Sarah.
–Estou impressionado com você, Claire Lewis. – olhei-o nos olhos. –Eu pensei que você fosse uma garota tímida, doce, e... inocente. Por que não? Mas agora sei que você é uma garota como outra qualquer. – seu olhar era debochado, suas palavras eram frias. –Você não é melhor que Sarah, então pare de agir como se fosse.
–Se você a defende tanto, é por que seus valores são mais baixos que o dela.
Ethan estreitou os olhos subitamente. Seu olhar era frio, impiedoso, e me fazia refletir sobre minhas próprias palavras. Eu sabia do risco que correria naquela discussão, mas não fui capaz de expulsar meus avanços.
–Eu tenho um conselho a lhe dar. – disse Ethan seriamente. –Volte para a sua cidadezinha ou viva em qualquer lugar de New York que não seja minha casa. Já temos problemas demais para resolver e não precisamos de mais um. – deu-me as costas, mas logo em seguida voltou a se virar. –Eu não quero que Sarah se aborreça com sua presença aqui, então... é melhor que você encontre um lugar para ficar.
Observei suas costas solitariamente e me senti incapacitada até mesmo de chorar. Houve momentos que me senti perdida ao longo da vida, mas aquele fora o dia que eu não sabia mais me reconhecer. De repente me senti sozinha de novo, sem rumo e expectativas. Tudo por que eu achei que as coisas seriam diferentes e não tive medo de me iludir, tampouco acreditei que seria tão desiludida.
Acho que estou começando a entender o porquê de muitas pessoas escolherem suas decepções às novas chances de vida. Elas têm medo de sofrer, por que, quando sofrem, se veem mais angustiados e incapazes de ser o que eram antes.
&&&&*&&&&
Alguns dias se passaram... Não vi Ethan desde o dia que discutimos e não escutei Megan falar muito sobre seu paradeiro. Para ela, ele estava na Nava Jersey ou em Manhattan, mas eu tinha certeza que Ethan só estava dando um tempo para voltar e não me encontrar em casa.
Não tive coragem de contar o ocorrido à Megan. Não era justo eles entrarem em conflito por minha causa e, além disso, Melissa logo receberia alta, e ia precisar do apoio dos filhos.
–O que você acha? – virei-me para Megan. –Vestido bege ou verde?
–Verde.
–É. Também achei que ficaria melhor.
Voltei a olhar a vista da rua naquela manhã, apreciando o vento sereno que teimava a soprar meu cabelo. Tinha se tornado um hábito eu arrastar a poltrona até a janela e ficar por longos minutos nela, entregue aos pensamentos. Era solitário na maioria das vezes, mas me fazia bem.
–Você anda muito calada ultimamente, Claire. – Megan encarou-me desconfiava. –O que está acontecendo?
–Nada.
–Ninguém fica triste por que não está acontecendo nada. Ninguém deixa de sorrir por que não está acontecendo nada. – pensativa Megan se sentou na cama, de frente para mim. –Foi aquele beijo que te deixou tão desnorteada, não é? E também o fato do Ethan sumir e deixar as coisas mal resolvidas entre vocês.
–Não há nada para ser resolvido, Megan. Ethan e eu nos beijamos por que estávamos bêbados, alegres, e apenas nos deixamos levar pelo momento. – Megan não acreditou muito naquela explicação. –Eu sei que não deveria ter acontecido e, provavelmente, o Ethan pensa da mesma forma.
–Claire – Megan fez uma pausa rapidamente, como se tivesse escolhendo as palavras certas. –, eu conheço o Ethan muito bem e... eu sei que ele não te beijou por que estava em uma boate e estava a fim de beijar uma garota. – enlacei os dedos e os observei pensativa. –Você está aqui há pouco tempo, mas é tão transparente que chega a ser impossível não saber o que você está pensando. – olhei-a e ela sorriu. –Eu conheço vocês dois e não será meia dúzia de palavras de negação, que me farão acreditar que aquele beijo não significou nada.
Eu queria tanto dizer a Megan o que estava acontecendo, mas achei que um pequeno desabafo criaria uma grande bola de neve. Além do mais, eu não me sentia pronta para falar dos meus sentimentos, uma vez que aquela conversa iniciasse. Tudo era muito confuso e incômodo; difícil de entender e associar uma coisa na outra.
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