Dias E Noites De Chuva

1 Quando começa à chover...


Notas iniciais
Entre no clima, escute com a música :
http://www.youtube.com/watch?v=57Ykv1D0qEE

Mais um outro dia sozinho. Não que eu não tenha me acostumado, mas, simplesmente é difícil você gostar de ficar sozinho. Você quer poder ter alguém, você quer falar com alguém. Eu fico aqui, na parada de ônibus, esperando o mesmo, que por coincidência, atrasou novamente.

No jornal, pela manhã, a previsão fora de um mês inteiro de chuva. Água caindo dos céus direto em nossas cabeças. Como se todos os anjos mijassem sobre nós. Quando saí do trabalho, hoje à tarde, fui direto ao bar e comprei dois whiskies baratos. Eu acabei de beber um pouco. De novo, e de novo. Deve ser meu único jeito de saber esperar.

Tem uns jovens fazendo "farra" ao meu lado, na parada, rindo e tagarelando sobre o que eles e seus amigos fazem de tão interessantes. Será que eu estou me passando de mau exemplo, bebendo na frente deles? Não, acho que não, afinal, eles não param de falar de pornografia e beber até cair no chão. Acho que eles estão me dando um mau exemplo.

Felizmente, o ônibus apareceu ao longe, umas duas paradas da que eu estava. Passei a mão no rosto e dei uma última tragada no whisky e guardei na sacola de volta com o outro. Evan Williams voltou à fazer companhia ao seu amigo Johnny Drum na sacola.

Coloquei a mão no bolso e peguei o dinheiro necessário para pagar minha passagem. A chuva estava ficando mais forte. Aqueles adolescentes nem se importaram, estavam rindo tanto que não iriam se importar em tomar uma gripe.

Quando o ônibus parou finalmente na minha frente, algumas pessoas desceram, e eu subi, junto com um daqueles adolescentes, que se despediu caçoando seus outros amigos por ficarem na chuva ainda. Como normal, paguei o cobrador e me sentei em um banco, para o lado da janela. Aquele mesmo jovem sentou ao meu lado. Como se não houvesse outro lugar para que ele pudesse sentar-se.

Eu via a chuva escorrer pelo vidro do ônibus. O vidro molhado me deixava com uma visão borrada da cidade. Eu gostava assim. Eu não conseguiria olhar para essa cidade, e ver toda a sujeira que a consome. Vejo ainda, mendigos e cachorros de rua para todos os lados, enquanto pessoas passam por eles, ignorando-os.

Pensava em todas as vezes que chorei sozinho, bebendo e fumando, pensando em morrer, pensando em matar, pensando em "viver de verdade". Eu não saberia. Só sei que agi como um completo idiota naqueles dias. Um bebê chorão, se preferir. O jovem que antes era agitado e feliz com o seus amigos, agora é quieto e de fones ouvidos. Eu podia escutar algo, apenas bateria e gritos.

Em alguns minutos, o ônibus começara a ficar vazio, e logo, minha parada chegou. Eu morava em uma dessas áreas cheias de prédios e construções que estavam por vir. O jovem desceu antes de mim, uma parada antes, na verdade. Quando desci, fui caminhando em direção de meu apartamento, que era em umas duas quadras dali.

No caminho, eu vejo um mendigo, sentado no chão, com cobertores e roupas rasgados, com a mão estendida e olhar de pena em seus olhos, me pedindo dinheiro. Eu não tinha mais o que dar para ele, eu realmente queria lhe dar um direito. Ao invés disso, sentei-me ao seu lado, e trouxe para nossa companhia, o meu amigo Evan Williams. Eu dei a garrafa de Whisky para o mendigo, que deu uma tragada como se fosse um viajante do deserto, que acabou de chegar em sua casa louco de sede.

Eu vi a chuva cair. Eu vi pessoas correr, eu vi carros passando em poças de água perto de pessoas, molhando-as. As mesmas xingavam de volta, mas como se os motoristas se importassem. Eu vi no relógio de pulso, já eram quase oito horas da noite. Eu me levantei e dei adeus ao mendigo. Ele me agradeceu e disse o mesmo.

Segui para casa, e chegando lá, cumprimentei o porteiro do apartamento, que estava lendo jornal e tomando café quente, como de costume. Era um homem de meia-idade, calado, que morava no segundo andar do mesmo prédio que eu. Eu ouvi, assim como parte de meus outros vizinhos, Taylor, a loira vagabunda e seu namorado, Richard, brigarem outra vez, discutindo. Vi Richard saindo do apartamento, furioso como nunca. Bateu a porta e desceu as escadas rapidamente.

Eu iria até a casa de Taylor, mas sei o que os outros iriam pensar. Eu não quero esse tipo de coisa, não agora.Subi até o quarto andar e entrei em meu apartamento. Era um apartamento bom até, nada luxuoso, mas nada tão ruim. Deixei meu amigo Johnny Drum sobre a mesa da sala, e fui até o banheiro tomar uma ducha quente.

Após o banho, voltei à sala, peguei o whisky e guardei na geladeira. Peguei uns ovos e fiz uma omelete. Não estava com tanta fome, então, a ideia era só jantar bem e ir dormir. Jantei na cama, assistindo uma dessas séries de comédia, e logo, deixei meu prato ao lado da cama, e acabei dormindo, mesmo com a televisão ligada.

Eu sonhei com ela novamente. Ela estava lá, ela estava comigo. Não mais. Como sempre, eu me lamento, e eu que saio triste nesta história. Eu realmente não queria me importar. Mas como não me importar? É como se eu não quisesse ouvir a chuva caindo enquanto estou na cama. E a chuva continuava caindo, e talvez, parasse no meio da madrugada, não sei. Eu escutava a chuva, eu escutava a cidade, mas não conseguia me escutar. Nunca consegui... Espero que um dia, eu consiga.

Eu realmente espero...

Notas finais
Bem, este foi o primeiro episódio de Dias e Noites de Chuva. Me avisem sobre qualquer coisa, como o que melhorar, o que seria melhor, ideias e sugestões, sempre bem vindas, mas por favor, sempre com respeito.
Desde já, obrigado.
-Mauricio Alves
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.