Dias De Sol
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Estava escuro.Uma escuridão não muito acolhedora, mas que não assustava, uma escuridão não muito agradável, porem, mais agradável do que a claridade da luz que tinha lá fora.Era apertado e sufocante, porem melhor do que a imensidão e o desconhecido que havia fora daquele quarto, de onde eu me recusava a sair.
Encolhia-me sempre em um canto, longe da janela, que mesmo fechada, deixava um pouco da luz passar.A razão?Nenhuma em especial, somente não gostava daquela detestável luz, preferia ficar em algum lugar mais escuro ou pouco iluminado, enquanto brincava sozinho, como sempre.Nunca entendi ao certo como se brincava de algo com outras pessoas, também nunca fiz questão de aprender, porque deveria brincar com os outros?Estava bem, sozinho, com meus brinquedos.
Estava em um salão, perto da entrada, de onde se podia escutar gritos e risadas das outras crianças, era normal, já que estava fazendo “um tempo ótimo” lá fora e todos resolveram sair.Alguém me falou que deveria ir lá fora aproveitar o clima, mas recusei.Não achava que tinha nada de interessante lá fora, o que eu faria lá?Era mais confortável ficar naquele lugar, montando meu quebra-cabeça.Faltava apenas algumas peças para terminar de monta-lo, quando,de repente,escutei a porta se abrir e a luz entrar,acompanhada de um garoto de cabelos loiros e com um chocolate na mão.
–Ei,Near! – Gritou o loiro. – O que você esta fazendo?
Ao ver aqueles brilhantes cabelos loiros e aquela maneira tão escandalosa de falar, desviei meu olhar da porta e continuei fazendo o que fazia antes dele entrar.
–Montando meu quebra-cabeça, Mello. – Respondi, sem olhar para ele. – Não esta obvio? – Disse indiferente, mas com um leve sarcasmo.
–
–Você sabe que não foi isso que eu quis dizer! – Falou irritado, quase gritando. – Porque você não vai lá fora de uma vez?
–Dês de quando você se preocupa se eu estou aqui dentro ou lá fora? – Perguntei indiferente, ainda sem olha-lo.
–Não estou preocupado. – Reclamou com um tom irritado, mas quando o olhei pelo canto do olho, pude notar um leve rubor em seu rosto, que ele tentou disfarçar enquanto mordia o chocolate. – Roger falou que estava preocupado com você, então me mandou vir aqui.
Ao escutar a ultima frase, me virei para encarar Mello com um olhar de duvida.Como assim?Era normal Roger se preocupar comigo por não gostar muito de sair, mas mesmo que pedisse para o Mello vir me vigiar, obviamente, ele nunca iria aceitar.Todos sabiam que isso iria contra sua personalidade rebelde.
–O que foi? – Perguntou, estressado.
–....Nada. – Respondi, com meu olhar indiferente e voltado minha atenção ao quebra-cabeça quase completo. – Diga a Roger para não se preocupar comigo, estou bem sozinho.
–...Tem certeza? – Perguntou Mello, algo estranho vindo dele, normalmente ele simplesmente iria voltar para fora correndo.
–Tenho. – Respondi rapidamente, enquanto colocava a ultima peça do quebra-cabeça. – Por acaso você esta preocupado comigo também, Mello?
–Claro que não. – Gritou, de maneira um pouco exagerada e com o rosto corado. – Se é assim, então vou embora.
Olhei-o se afastando.No começo, ele deu alguns passos apressados, mas sua velocidade foi diminuindo gradativamente.Por algum motivo que eu não soube explicar, me senti um pouco..Sozinho?...Talvez.Não entendia exatamente esse sentimento, por isso não consegui identificar ao certo, mas o mais provável era que fosse isso.
–Mello. – Chamei, de maneira calma.
–O que é agora? – Perguntou, novamente irritado, enquanto se voltava a mim e mordia seu chocolate.
–... – Não sabia exatamente o que dizer, nem sabia porque o chamei.
–Quer alguma coisa ou não? – Perguntou, enquanto fazia menção de ir embora.
–...Poderia pegar aqueles dados para mim? – Disse, um pouco nervoso, enquanto apontava para uma caixa em cima de uma mesinha, onde estavam guardados os dados.
Mesmo sem olha-lo, pude afirmar que ele estava irritado.Mello nunca foi o tipo de pessoa paciente e tranqüila e aquilo certamente deveria ter sido uma provocação para a pouca paciência que lhe restava.Escutei passos se distanciando, ele provavelmente deveria estar voltando lá fora.
–Aqui estão. – Disse o loiro com um meio sorriso disfarçado, enquanto me entregava a caixa e dava outra mordida no doce.
–...Obrigado. – Agradeci, enquanto pegava os dados.Mesmo que eu estivesse com um olhar indiferente, acho que ele pode notar minha felicidade por trás de minha aparente tranqüilidade.
–De nada. – Seu meio sorriso se tornou mais visível.
Quando terminou de falar, virou-se e começou a andar em direção a porta, com passos calmos, porem rápidos, enquanto eu fingia estar distraído, tirando meus dados de dentro da pequena caixa, ate que pude escutar os passos pararem.
–Sabe, Near... – Começou a falar, dando uma pausa, não me virei para olha-lo, simplesmente esperei a continuação. – Você deveria ir lá fora de vez em quando.
Após escutar aquilo, me virei para olha-lo e pedir uma explicação do possível “convite” dele, mas só pude ver a porta se fechando.Parei para pensar, por alguns momentos.Realmente, Mello estava agindo de um jeito estranho naquele dia.
Tinha começado a chover, todos estavam entrando apresados.Comecei a colocar meus brinquedos de volta na caixa, não gostava muito de ficar em lugares barulhentos e com muitas pessoas.De repente, escutei uma voz conhecida me chamar, virei-me para encara-lo.
–Sim, Roger?
–Você deveria ter saído com as outras crianças, o clima estava ótimo, ate alguns segundos atrás. – Comenta, tentando me convencer de ir lá da próxima vez.
–Já pedi para o Mello te falar... – Falei enquanto fechava a caixa distraidamente.Ao notar seu olhar de duvida, resolvi terminar a frase. – Prefiro brincar aqui dentro.
–Então você conversou com o Mello hoje? – Roger parecia feliz, provavelmente, pelo fato de que achou que minha relação com Mello tinha melhorado.
–Sim...Não foi você que pediu para ele falar comigo? – Por alguma razão, tive curiosidade de saber a resposta, achei que iria ser algo importante.
–...Não lembro de ter feito isso. – Respondeu pensativo, do mesmo modo que eu fiquei.
Vi Roger se afastas,enquanto fiquei pensando durante alguns segundos...Minhas suspeitas estavam certas.
–...Mello... – Sussurrei enquanto sorria.
–O que foi agora?Quer que eu pegue outro brinquedo? – Me virei assustado e vi o garoto loiro com o habitual sarcasmo e o, também habitual, chocolate.
–Não... – Falei, sem saber o que deveria dizer. – Não é nada.
Quanto ele estava abrindo a boca, prestes a falar algo, um ruivo apareceu o chamando para jogar algum jogo com ele.Mello me encarou por alguns segundos, sem falar nada, e depois se virou e começou a andar na direção do Matt.
O sol era incomodo.Estava quente de mais, o sol estava escaldante, mesmo estando protegido na sombra de uma arvore, o calor chegava a ser exagerado; pelo menos para mim, que não estava acostumado a ficar tão exposto em um lugar aberto como aquele.Afinal, porque eu estava lá fora mesmo?
–Ne-Near? – Gritou, com uma reação exagerada ao me ver.
–O que, Mello? – Perguntei de maneira calma, enquanto o olhava.
–Como assim?O que você esta fazendo aqui? – Seu tom de voz voltou ao normal, parecendo ter se recuperado do provável susto.
–Brincando.
–Aqui fora? – Seu modo de falar parecia como se estivesse tentando se certificar de que não estava tento alucinações.
–Mello, você poderia fazer uma pergunta mais coerente? – Falei de maneira direta, aquilo estava ficando um pouco...Ridículo?
–Cale a boca, Near! – Gritou irritado, depois mordeu o chocolate, provavelmente para tentar se acalmar.
–Mello! – Chamou um grupo de garotos, que acenavam para ele. – Vamos jogar futebol?
Comecei a observar o que ele faria, provavelmente ele iria jogar futebol com os outros e me deixaria ali sozinho...Ficamos nos olhando durante alguns segundos, ate que ele se virou em direção ao grupo de garotos que haviam o chamado.
–Desculpa, agora não vai dar!
Gritou, e depois voltou a me olhar.Eu ia perguntar o porque de sua resposta, mas quando ia começar a falar, ele se agachou e sentou ao meu lado, embaixo da arvore.
–Não é como se eu quisesse ficar perto de você. – Enquanto falava, mordia seu chocolate e encostava suas costas do tronco da arvore. – É só que hoje esta quente, e aqui é a única sombra que tem por perto.
Depois de escutar o que ele tinha falado,continuei brincando com os meus bonecos,que havia levado,enquanto deixava um discreto sorriso escapar.Havia lembrado o porque de ter saído.
Fale com o autor