Dias De Domingo
1 Capítulo único
Notas iniciais
Em seis dias da semana eles estão muito ocupados para ficar em casa, mas não aos domingos.
Nos dias comuns o alarme do rádio-relógio da mesa de cabeceira os desperta cedo, fazendo com que Reita se levante rapidamente e rume para o bainheiro enquanto Ruki solta grunhidos de “só mais cinco minutos” e esconde o rosto debaixo de um travesseiro. Geralmente o baixista tem tempo de tomar banho e se arrumar, e ainda tem que voltar ao quarto para acordar Takanori antes que alguém da gravadora ligue questionando o atraso. Mas domingo é diferente.
Nenhum deles ajusta o despertador no domingo.
Nesse dia as cortinas escarlates da janela permanecem bem fechadas, tentando – mas nunca conseguindo inteiramente – bloquear os atrevidos raios de sol que procuram adentrar o quarto, cujo chão parece um campo minado de roupas espalhadas. O lençol, sendo o único pedaço de pano que os cobre, parece dez vezes mais confortável do que no resto da semana. O relógio sempre marca entre nove e onze horas da manhã quando um deles se dá ao trabalho de abrir os olhos pela primeira vez.
Na maioria das vezes o primeiro a acordar no domingo é Ruki. Seus olhos se abrem devagar, sonolentos, apenas para serem presenteados com a bela visão de Akira dormindo profundamente, com a cabeça sobre seu peito e os braços esguios circundando sua barriga pequena. O rosto de Reita está calmo, quase que em paz, apesar de um fantasma de sorriso dançar em seus lábios (provavelmente por ainda estar sonhando com a noite anterior). O vocalista sorri também. É raro ver Suzuki Akira tão desprotegido e exibindo uma expressão tão inconscientemente meiga e satisfeita. Takanori costuma se esforçar para acordar mais cedo no domingo apenas para observar essa imagem.
Após alguns minutos de contemplação silenciosa, Ruki não resiste. Leva uma mão até o rosto do baixista e o acaricia suavemente, passeando por seus cabelos loiros de vez em quando. Não demora muito para que Akira ronrone em aprovação e aperte um pouco mais o menor em seus braços.
Takanori ri.
– Bom dia, Bela Adormecida.
E dessa vez é Reita quem esconde o rosto (no corpo do vocalista) e murmura um abafado “só mais cinco minutos”.
Ruki continua acarinhando por um tempo a cabeça do seu companheiro de banda, tendo a certeza de que Akira não faz idéia de sua própria fofura quando chama Taka de fofo. Entre os afagos o vocalista deposita singelos beijos no couro cabeludo do outro, deixando-se invadir pelo cheiro característico e tão bem conhecido dos cabelos de Reita. Mais murmúrios de aprovação são ouvidos, e Ruki sorri por entre os fios claros.
Eles têm que levantar, no entanto. Hoje o mais novo planeja fazer uma limpeza no apartamento que já está sendo adiada há semanas. Ele continua a fazer carícias no baixista, na esperança de que o loiro logo decida por fim se levantar.
Diante da recusa em sequer se mexer de Reita, uma ideia surge na mente de Takanori. Muito devagar ele estica um dos braços para a mesa de cabeceira, tomando o cuidado de manter uma mão na cabeça do baixista para que ele não desconfie de nada, e pega seu telefone celular. A vontade de tirar uma foto de Akira é quase grande demais pra resistir, mas Ruki sabe o quão perigoso isso seria. Conseguia imaginar mil formas de uma foto como essa cair em mãos erradas. E aliás, seu plano não era esse.
Lentamente, Ruki acessa a página de seu já logado twitter e faz uma nova postagem, escondendo seu celular logo em seguida embaixo do travesseiro. Segundos depois um outro celular, na mesa de cabeceira do lado oposto da cama, começa a fazer um som de bip cujo volume vai aumentando aos poucos.
Takanori sabia que isso ia acontecer. O celular de Reita está programado para avisá-lo sempre que o mais novo posta algo em seu blog ou twitter. Ao longo de tantos anos Ruki percebeu que chamar o baixista de “stalker” é pouco. Reita gosta de saber quando, porque e com quem Taka fala, apesar de não demonstrar sinais de ciúmes excessivos ou coisas to tipo. De vez em quando Ruki brinca que no fundo Akira é um velho tarado que gosta de perseguir crianças inocentes, ao que ele responde que nunca existiu inocência no vocalista pra que ele pudesse persegui-lo.
Soltando grunhidos e resmungos, Reita relutantemente abre os olhos e tira um dos braços da cintura de Takanori, esticando-o na direção oposta o máximo que seu corpo permite para alcançar o aparelho sem sair do lugar. Depois de certa luta o loiro agarra o celular e se apressa em checar sua nova mensagem, imaginando ser algo importante para o incomodarem em pleno domingo, e se depara com um aviso do Twitter cujo título é “@RUKItheGazettE publicou um novo tweet”. O baixista franze as sobrancelhas e aperta o botão “visualizar tweet”, forçando seu ainda sonolento e vagaroso cérebro a tentar compreender o que se passava.
“Reita-san, bom dia (( _ _ ))..zzzZZ”
Esse era o novo tweet de Takanori. Akira não pode evitar um sorriso largo de se espalhar por seu rosto ao ler as palavras. Teve vontade de rir ao imaginar o que suas fãs diriam caso soubessem o porquê daquele tweet.
– Bom dia, chibi.
A voz do mais velho, rouca de sono, precede o beijo carinhoso que foi depositado na boca sorridente de Ruki e que fez com que deliciosos arrepios subissem por seu corpo.
Reita se separa devagar, com um olhar cálido que não se desprega dos olhos de Takanori. E quando o vocalista pensa que o outro vai finalmente se levantar, Akira simplesmente boceja e volta à mesma posição em que estava antes, apertando Ruki em seus braços e descansando a cabeça no peito alvo, agora também entrelaçando suas pernas com as dele.
Taka ri.
– Reita, temos que levantar.
– Não temos não.
– Alguém tem que fazer o café da manhã.
– Prefiro ficar aqui – murmura, aconchegando-se mais no corpo menor – Não precisamos de café da manhã.
E naquele exato momento uma bolinha de pelos entra no quarto, fazendo-se notar não apenas pelo barulho das pequenas patas contra o chão de madeira como também por dois ou três latidos agudos.
Ruki sorri enquanto observa Koron, que aparentemente tinha notado o despertar dos donos, pular em cima do colchão e lamber os dedos dos pés de Reita que estavam para fora do lençol.
– Alguém parece discordar de você.
– Argh, cachorro dos infernos – o loiro resmunga, desenrolando suas pernas das de Takanori e assim permitindo que o pequeno animal se enfie por debaixo das cobertas e apareça novamente na lateral do dorso de Akira, onde resolve descansar seu corpinho peludo.
– Não liga pro que o Reita diz, Koron – fala o dono do cachorro enquanto afaga sua pequena cabeça – Ele já vai colocar comida pra você e pro Keiji.
– Não vou não. – o baixista protesta, ainda de olhos fechados – Coloquei comida ontem, hoje é a sua vez.
– Não posso me mexer com você em cima de mim.
– E eu não posso me mexer com seu cachorro em cima de mim. Estamos encurralados.
Taka suspira com um sorriso nos lábios, sabendo o que viria a seguir. Não importa quantos planos eles façam ou quantos compromissos eles fingem que têm, todo domingo acaba da mesma forma. Um deles sempre inventa qualquer desculpa esfarrapada para não sair da cama e o outro concorda sem mais perguntas, satisfeito em ficar estendido por ali. Eles passam o dia falando sobre tudo e sobre nada, trocando carícias e beijos suaves enquanto um esfomeado Koron vaga pelo colchão, tentando convencer um dos dois a alimentá-lo. Nesse dia os demais cômodos do apartamento são quase esquecidos e quaisquer supostas obrigações prévias são prontamente ignoradas. Os domingos se resumem a conversas sem sentido, comidas pouco saudáveis e a inestimável sensação de estar nos braços da pessoa amada.
– É, acho que sim.
Notas finais
Essa história foi inspirada em uma oneshot de Hetalia chamada "Between Sheets" da glassamilk, que pode ser encontrada no www.fanfiction.net . Ah, o tweet do Ruki citado na história é verídico e foi postado pelo mesmo no dia 2 de julho de 2012 (vocês podem vê-lo aqui: www.twitter.com/RUKItheGazettE/status/219633262807621634 )
Vamos fazer de conta que eu não escrevi essa oneshot com o tempo verbal no presente porque ando lendo muita fanfic em inglês, mas sim porque quero passar a impressão de que os acontecimentos transcritos ocorrem frequentemente e até os dias de hoje, ok? yay
Obrigada por lerem ♥
Fale com o autor