Dias Chuvosos

1 A cabana de Julia


Era mais um dia chuvoso e frio na úmida cabana de Julia Loneweek, seu bourbon dançava em um copo de arestas quase afiadas, era sua quinta viagem da pequena mesa preenchida por recipientes de vidro e líquidos sem nome à mão calejada daquela solitária mulher que assistia a paisagem ser tomada pelo dilúvio que se seguia. Sua cabana era uma mistura do rústico com o moderno, podendo ser resumida numa mistura intrigante de madeira, aço e vidro, era grande e aconchegante, o suficiente para acomodar a imensidão da solitude de sua moradora. A sala de estar não possuía paredes que a separavam do exterior, apenas uma espessa camada de vidro que deixava toda a luz cinzenta daquele dia chuvoso tomar conta do recinto, em meio a colchas grossas em um sofá que pouco se podia ver a forma, estava Julia, balançando seu bourbon e ouvindo o estalar da madeira incandescente na lareira, harmonizando com o impacto das gotas de chuva no assoalho da varanda, em frente a sala.

Julia, uma mulher caminhando pelos seus trinta e poucos anos, era uma mulher considerada com poucos atrativos, com seus longos e emaranhados cabelos ruivos e olhos verdes que desistiram há muito de algum brilho, suas sobrancelhas grossas e cenho franzido, seu olhar sempre desconfiado parecia afastar as pessoas, e afastou até que não sobrasse mais ninguém. Seu corpo era coberto por sardas, como uma constelação, sua mãe a apelidou de “Glaxy July” e disse que se não fosse por seu pai esse seria seu nome. Julia media aproximadamente um metro e setenta e cinco, alta para sua família e amigos, pesava algo perto dos setenta e cinco quilos, que muitos diziam ser grande parte pelo seu cabelo.

A campainha toca e em um súbito reflexo, incomum para a quantidade de bourbon em seu sangue, Julia levanta do meio das cobertas revelando uma winchester 44 de 1984 com entalhes na madeira e na parte metálica da arma que tinha a cor dourada. O vulto rubro e cambaleante de Julia faz seu caminho à porta, com cuidado ela espia pela janela lateral e avista uma familiar caminhonete, ela abaixa a arma e abre a porta com certa dificuldade, recostada no portal e balançando sua winchester Julia encara o homem ensopado e trêmulo. Dave era um jovem perto dos vinte, com traços nativo-americanos e longos cabelos que viviam soltos e agora estavam ensopados pela chuva. O jovem homem era encarregado de realizar as entregas pelas casas que ficavam fora da cidade, a casa de Julia era uma delas, porém aquele não era o dia de entrega. A estrada para a cidade estava fecha da por uma árvore que cedeu bloqueando a passagem completamente. Dave encarava a figura assustadora na porta, que tentava manter alguma compostura enquanto balançava sua espingarda, o garoto força um sorriso respondendo com um leve movimento de cabeça indicando o pedido permissão para entrar no reino da rainha de fogo.

— O banheiro você sabe onde fica, não pisa no meu tapete até estar completamente seco, eu tenho uma winchester 44 e mais álcool do que deveria no sangue, não tente nenhuma gracinha — disse Julia com sua voz rouca e embolada, em um sotaque quase escocês.

— Sim senhora ! — respondeu Dave correndo para o banheiro segurando seu cabelo e evitando que qualquer gota de água tocasse o chão.

Dave se secou, colocou um roupão e foi se juntar a Julia perto da lareira, ela se vira para o menino e lhe oferece um copo e o enche com gin, ele segura o copo e olha para Julia espantado.

— Você sabe que eu não tenho idade pra isso, não é? — disse Dave.

— Eu e você sabemos que isso não importa, não é mesmo ? — respondeu Julia com um leve sorriso.

Dave deu uma gargalhada e virou o copo.

— Além do mais hoje é um dia especial, é meu aniversário e essa chuva é meu presente — disse Julia levantando o copo de gin cheio, derramando um pouco em seu braço.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.