Diary of a Savior
1 Uma Garota Na Casa
Notas iniciais
“Vivi muitas vidas diferentes
Fui pessoas diferentes muitas vezes
Vivi a vida em amargura
E preenchi meu coração com vazio
E agora eu vejo, vejo você pela primeira vez
Não é crime ser gentil
Nem todo mundo está lá fora para te ferrar
Talvez, é, talvez eles só queiram te conhecer...”
(“Fear and Loathing”, Marina and the Diamonds)
Primavera, Julho ou Agosto de 2014
Querido Diário,
É simplesmente épico fazer isso. Não estar escrevendo um diário pós apocalíptico que ninguém nunca vai ler. Mas estar escrevendo um diário pós apocalíptico que nunca vai ler espremida – vulgo escondida – dentro de uma cerca viva esperando sinais de movimento humano ou zumbi antes de buscar suprimentos. É uma ideia um tanto quanto estúpida estar escrevendo nas atuais circunstâncias, mas acredite quando digo que escrever as suas percepções apocalípticas ajuda a separar o real do imaginário.
Quando se está há tanto tempo sozinho, sobrevivendo entre canibais e tendo que conviver com a ideia de que a morte anda ao seu lado (na sua frente e atrás de você), as suas chances de enlouquecer aumentam consideravelmente. Isto é, se você já não estiver louco.
Estar escrevendo sobre esse exato momento, o momento em que eu volto a cidade e a vizinhança em que passei a maioria das minhas férias de verão, me ajuda a acreditar que o que estou vendo, de fato, é real e não imaginário. Que esse gramado perto o suficiente para que eu possa tocá-lo é o gramado em que tomei o meu primeiro tombo ao andar de bicicleta. Que aquela garagem fechada do outro lado do rua era a loja improvisada de doces e guloseimas onde gastava todas as moedas que vovô Denniel me dava. E essa casa com a cerca branca desbotada e semi-destruída é a casa onde morava Erik Reynolds, o primeiro garoto por qual me apaixonei e o primeiro garoto que partiu o meu coração. E aquela última casa, de aparência tão familiar e agora tão abandonada, é o lugar onde passei os melhores momentos da minha infância.
Respirei profundamente, expirei e inspirei, sentindo o gosto amargo da nostalgia e as lágrimas inundando os meus olhos. Voltei novamente para o papel.
Se essa dor que estou sentindo no meu peito é real, a culpa é minha pela sua existência. Eu poderia ter escolhido pegar outro caminho e seguir adiante, preservando intactas as lembranças felizes de uma época não apocalíptica. Mas eu escolhi voltar e destruir a imagem de Savannah que eu guardava comigo, em nome da necessidade de buscar resquícios do passado. O passado em que eu não estava sozinha e o qual não consigo deixar pra trás.
O que me lembra o porquê estou aqui.
Joguei o diário dentro da minha mochila e peguei aquela que havia se tornado minha melhor amiga desde o início da pandemia. Sondei uma última vez a área antes de sair da cerca viva com a arma destravada em mãos e os sentidos alertas a qualquer barulho ou movimento. Os canibais de Savannah deviam ter migrado para a floresta quando não encontraram nenhum lanchinho na cidade: só isso poderia explicar o fato de não ter encontrado nenhum pelo caminho ou por ali.
Pulei a casa de janelas quebradas dos Collier e entrei na varanda dos Reynolds, agradecendo mentalmente ao idiota do Erik por ter me contado onde a chave extra estava escondida. Isso não só poupa o tempo de ter de arrombar a porta, como me dá certa medida de segurança dentro da casa.
Esta é uma outra ideia um tanto quanto estúpida, Diário: estar perdendo tempo escrevendo no sótão dos Reynolds quando poderia estar vasculhando as outras casas da vizinhança. Eu já fiz tudo o que eu queria fazer por aqui: comi o que achei até encher o estômago, peguei enlatados no prazo de validade, remédios e até algumas coisas interessantes que encontrei no quarto do Erik, como um iPod com músicas internacionais, uma blusa do Guns'n'Roses e um maço de cigarros de menta. Acho que encontrei maconha, mas não se preocupe, eu não vou levar pra usar e comprovar. Não posso experimentar nada que me impeça de usar os meus sentidos e, se eu não me droguei quando tive oportunidade antes do fim do mundo, não é por que o apocalipse chegou que eu vou virar uma drogada. Mas não foi a (suposta) maconha que me fez parar para escrever.
Lá embaixo, na sala de visitas, há um pequeno “S” pixado com sangue em uma das paredes. Lembro-me de ter visto outro “S”, também pintado com sangue, em uma casa na cidade de Charleston. E, há poucos dias atrás, matei um errante que possuía um “S” mutilado na testa. Eu não estaria intrigada por ter encontrados tantos “S”s se não tivesse visto o “S” tatuado no cadáver da minha mãe.
O que pode significar esse “S”?
Desci a escadaria o mais silenciosamente possível em direção ao corredor do andar de baixo e observei pela última vez os retratos com um ar solitário nas paredes. Aos poucos elas ganhavam tons embolorados e desbotados nas bordas, mas ainda era possível apreciar a imagem das pessoas fotografadas. Será que eles haviam conseguido?
Respirei fundo e destranquei a porta, tentando me preparar emocionalmente para o que encontraria na casa dos Dixon.
A casa está intacta, Diário. Sem marcas de sangue, sem tripas, sem órgãos, sem errantes. As camas ainda estão feitas e os objetos no lugar de sempre. Por um segundo, cheguei a acreditar que o vovô Denniel chegaria a qualquer momento com a vara de pesca e um balde de iscas, vindo de mais uma pescaria no rio Tâmisa ou que a vovô Meredith chegaria do supermercado cheia de sacolas. Mas sei que eles se foram e que, ou podem estar mortos, ou vivos em algum lugar longe daqui. Acho que nunca descobrirei o paradeiro deles.
Peguei as fotos dos porta-retratos que encontrei pela casa. Uma fotografia embolorada do casamento deles. Uma onde a vovó está segurando minha mãe e o tio Daryl, os gêmeos recém nascidos, um em cada braço. Outra com a família inteira reunida: vovô Denniel e vovó Meredith; tio Merle, o filho mais velho; tia Dayse e o marido Max, junto com a minha prima Marina; tio Daryl; minha mãe e o meu pai, me segurando no colo. Em baixo, os dizeres:
“Família Dixon, Kavannagh e Marshall”.
Nem todos sorriam na foto – minha avó dizia que o tio Daryl era carruncudo desde bebê – e estavam longe de serem unidos, mas ainda assim eram uma família. A minha família. Eu perdi a todos os eles.
Uma lágrima rolou involuntariamente pela minha bochecha. Abri um pacote de salgadinhos passado da validade e comecei a comer freneticamente pra tentar me distrair da dor.
Eu sabia exatamente onde elas estariam: achei as armas que o vovô escondia no porão e uma boa quantidade de munição. Também peguei o colar de família que a vovó me daria quando eu fizesse quinze anos – como já devo ter quase dezesseis, achei justo pegá-lo pra mim — e coloquei no pescoço. Encontrei enlatados válidos no armário. Fiz o que tinha de ser feito, mas, de alguma forma, os membros do meu corpo não estão respondendo ao comando de levantar e ir embora.
Simplesmente não consigo.
Depois do que pareceu uma pequena eternidade, me pego esquandrinhando a vizinhança da janela empoeirada do sótão. Um errante mancava pela rua deserta, passando pelas casas bonitas com gramas verdes, bicicletas jogadas no chão e gnomos nos jardins e um ar de abandono de dar arrepios. Se eu não tivesse visto coisa pior, diria que aquela era a minha visão do inferno na terra.
Levantei do chão imundo colocando a mochila nas costas sem me preocupar em pegar a arma do meu coldre. Tentei a abrir a porta o mais silenciosamente possível e devagar, mas, por um breve momento, pensei ter ouvido alguma coisa e logo soltei a maçaneta, pegando a minha amiguinha do cinto e destravando-a logo em seguida, alerta.
Abri a porta atenta a qualquer sinal de movimento e desci as escadas pisando leve, passando pela porta do quarto dos meus avós e dos de visitas. Varri a cozinha com os olhos, checando tudo antes de ir adiante, seguindo pelo corredor, na direção da porta. Caminhei para a sala de visitas, bem decorada e aconchegante, com o conjuntos de sofás de estampa irlandesa e a lareira onde agora estavam os porta-retratos vazios.
Não havia reparado antes, mas ao lado da lareira, havia algo desenhado na parede. Me aproximei, olhando fixamente e tentando distinguir a forma quase apagada pelo morfo acumulado. E lá estava ele: o “S” desenhado grosseiramente com sangue. Dei um passo mais adiante e, talvez por estar um pouco distraída, não percebi o piso solto no chão. Ao meu passo, o piso rangeu ruidosamente.
— Droga! — exclamei, recuando rápido para trás.
Ouvi o som de uma arma sendo destravada atrás de mim e o meu coração automaticamente perdeu o compasso. Eu era a culpada pela minha morte que viria a seguir; não era pra eu ter demorado tanto por ali e ficado quieta lá em cima quando ouvi o barulho do sótão. Onde eu estava com a cabeça quando confiei na minha própria sorte?
Naquela momento, eu possuía apenas três opções: virar, arriscando o meu pescoço e atirar primeiro, ou implorar pela minha vida, ou enfiar uma bala na minha cabeça e tirar o gosto da outra pessoa de fazer isso.
Encarei a arma destravada na minha mão imóvel.
— Jogue a arma no chão e coloque as mãos em cima da cabeça – disse uma voz que parecia estar amadurecendo, mas muito autoritária e ríspida – Se fizer qualquer movimento, eu não vou hesitar em atirar.
Um garoto, pensei, surpresa. Um garoto está apontando uma arma para mim. Maneira épica de partir dessa para a melhor.
— Faça o que eu estou mandando.
Aceitar a morte ou morrer lutando?
— Jogue a arma no chão e coloque as mãos em cima da cabeça.
Não há outra escolha.
— Você não ouviu o que eu disse? — disse ele duramente.
Sem pensar duas vezes, encostei a arma na minha própria cabeça. Um… Dois…
— Você está blefando.
Virei-me imediatamente e meus olhos se arregalaram com o que vi.
Um garoto que devia ter mais ou menos a minha idade apontava uma arma diretamente pra mim e algo me dizia que ele não estava para brincadeira, assim como eu. Ele era tão alto e esguio quanto eu e usava um chapéu de cowboy ridículo. Aquele era um rosto delicado e bonito, embora estivesse suado, avermelhado e com uma expressão endurecido. Mas, de longe, o que mais me chamou atenção foram os olhos. Olhos azuis como o céu, o oceano e todas as outras formas que a natureza fez bonita e o apocalipse não pôde destruir ou os errantes comer. Havia, porém, algo diferente naquele olhar: ele era determinado e frio, mas ao mesmo tempo carregava tristeza em suas nuances mais profundas. Me peguei pensando o que aqueles olhos deveriam ter visto pra carregar tanta tristeza no olhar. Será que ele era mau?
Se tenha uma coisa que você aprende no apocalipse, é que nem sempre os errantes são os vilões. Os humanos, embora remanescentes, ainda conseguem ser piores do que um zumbi.
Ele me analisava minuciosamente e me peguei pensando qual era a imagem que eu passava para ele. Uma garota de cabelos castanhos e longos, olhos verdes vívidos (modéstia, à parte) e uma pequena e horrorosa cicatriz do lado direito do queixo. Será que eu também carregava um sentimento no meu olhar? Será que a minha expressão estava de acordo com o meu ato suicida?
Recuei a arma devagar da cabeça, travei-a e soltei no chão fazendo um ruído audível. Ele franziu as sobrancelhas e a carranca duplicou de tamanho, se é que isso é possível. Venham, queridos zumbis. Venham e me dêem a chance de fugir. O garotinho não vai me matar.
— Chute a arma pra cá.
O meu rosto encarrancou-se.
— Por que não vem aqui e pega, imbecil?
Tudo bem, eu estava começando a brincar pela segunda vez com a sorte.
— Garoto? — ouvi uma voz grave e familiar vinda do corredor que me fez sobressaltar.
Quando os nossos olhares se encontraram, o meu coração falhou e eu perdi o fôlego momentaneamente. Ele entrou na sala, com uma expressão mista de descrença e surpresa, e o olhar fixo em mim. Aquele cara era mediano e forte, com uma cabeleira rala na altura do ombro e a pele bronzeada. Portava um mochila com setas nas costas e uma besta nas mãos.
Já não restava mais dúvidas quem ele era.
E o meu primeiro pensamento foi: talvez eu não vá mais morrer hoje.
— Daryl – disse o nome dele mais para mim mesma do que para os meus ouvintes. Depois de tantos meses em grupos de sobreviventes e meses vagando sozinha, eu nunca imaginei que encontraria qualquer outra pessoa da minha família outra vez. Na minha cabeça, todos estavam mortos ou longe demais para que eu pudesse localizá-los. E, mais uma vez, a porcaria que alguns chamam de destino nos fez de bobões outra vez.
— Puta merda— ele exclamou, incrédulo.
— Você a conhece, Daryl? — O garoto parecia tão confuso quanto nós dois. Alguém precisava explicar pra ele que, infelizmente pra ele e felizmente pra mim, eu não iria morrer naquele dia.
— Abaixe a arma, garoto, e vá chamar o Rick.
Eu não sabia como reagir e me senti uma idiota por isso. Não sabia se ria ou se chorava, se voava no pescoço dele ou se perguntava como ele tinha parado ali. Não sabia o que dizer primeiro, o que fazer primeiro, o que sentir primeiro. A cada segundo, milhares de perguntas sem respostas surgiam na minha cabeça. Talvez dentro do meu tio estivesse se passando a mesma coisa.
— Daryl…
— Abaixe a arma e vá chamar o Rick, moleque! — Ele rosnou e lá estava a famosa carranca dos Dixon.
— O que está havendo aqui? — Um homem entrou na sala e parou ao lado e parou ao lado de Daryl me observando com a mesma expressão de surpresa do meu tio. Reparei que ele possuía os mesmos olhos azuis do garoto e me perguntei se eles eram parentes. Ele era alto, musculoso e possuía uma barba tão espessa que poderia esconder facilmente dinheiro, se ainda tivesse valia no mundo pós-apocalíptico. Antes disso tudo ele devia ser um oficial da lei, nada além disso poderia explicar a confiança no olhar e a determinação nos trejeitos.
— Quem é você? — ele perguntou normalmente, embora tivesse um quê de suspeito.
— Eu sou Mia… — Eu e o meu tio trocamos olhares. Eu poderia tornar aquilo bem mais fácil — Dixon.
— Você e o Daryl são parentes? — Ele franziu o cenho, incrédulo.
Engoli em seco. Titio, essa é a hora em que você me salva.
— Ela é a filha da minha irmã, Rick. Minha sobrinha – explicou Daryl mais para si mesmo do que para o Rick.
— Tem alguém com você, Mia? — Rick pousou a mão no coldre da arma.
— Não. Eu estou sozinha faz algum tempo.
— Impossível – disse o garoto, balançando a cabeça em descrença, com a arma ainda apontada pra mim. Com certeza eu não parecia uma Scarlett Johansson nos Vingadores ou uma Angelina Jolie em Salt, mas aquele comentário me irritou profundamente. Eu não sobrevivi por tanto tempo bebendo água suja, comendo enlatados passados da validade e matando errantes pra ouvir aquilo.
— Me dê uma faca e uma arma e eu te mosto o quanto isso é possível – disse acidamente.
Rick estreitou os olhos e me analisou minuciosamente. Em seguida, trocou olhares com Daryl, ou melhor, palavras em silêncio.
— Guarde a arma, Carl – disse Rick e o Carl a abaixou com relutância. Embora Rick mantivesse uma postura impassível e autoritária, ele não parecia mal e ameaçador. Pelo menos, eu pensei, não naquele momento – Daryl…?
Daryl assentiu com a cabeça como se desse permissão. Não consegui entender aquilo.
— Nós temos um lugar seguro, Mia. Uma prisão onde vivem outras pessoas e viemos aqui pegar suprimentos.
Um lugar seguro com pessoas e suprimentos, pensei, que oferta generosa.
— Pai… — interrompeu Carl, demonstrando indisponibilidade de me ajudar.
— Eu não preciso de nenhuma babá e sei me virar bem sozinha. Senão, não estaria aqui – comecei e ele me olhava atentamente – Não faço coisas idiotas com frequência e já estive em outros grupos de sobreviventes. É preciso haver leis para que humanos convivam pacificamente e eu sei obedecer. Não sou nenhuma garotinha indefesa e inútil, mas também não sou má e imprudente.
Eles me encararam pelo que pareceu uma eternidade e, mas uma vez, eu não soube como reagir. Dizer algo mais para tentar uma aproximação ou deixar que eles decidam de uma vez se vão me aceitar no grupo?
— Eu me responsabilizo pela garota, Rick. Ela fica comigo – disse minha agora pessoa preferida no mundo.
— Eu sei me cuidar sozinha, tio Daryl, não se preocupe.
— Vai ter que lutar pelo grupo, garota – disse Carl. Olhei-o profundamente e, pela primeira vez, senti como se estivéssemos jogando limpo, sem vantagens, de igual para igual.
— Eu luto por qualquer coisa que valha mais que a minha vida – Rick pareceu surpreendido e uma sombra de apreenciação passou pelo seu olhar e quase pude ver os traços de um sorriso se formando em seu rosto.
— Vamos acabar de uma vez com isso – rosnou Daryl – Quantos errantes você já matou?
Respirei fundo, sem pensar muito.
— Muitos. Talvez umas dezenas de milhares – disse objetivamente.
— E quantas pessoas você já matou? — disse Rick, parecendo achar engraçado o meu sarcasmo encantador.
Engoli em seco. Eu não gostava de lembrar daquilo.
— Eu não sei… — disse com sinceridade – Mas não foram poucas.
Rick franziu as sobrancelhas em um misto de incredulidade e curiosidade. Aí a pessoa diz que não é má e já matou muitas, considerei, acabei de me contradizer. Com certeza eles vão me aceitar agora.
— Por quê? — Ele parecia querer cada detalhe.
— Eu matei quem tentou me estuprar. Matei quem tentou me matar e roubar os meus suprimentos. Matei alguns dos que atacaram o meu grupo. Matei quem foi mordido. Matei quem matou quem eu amava – respondi me lembrando de alguns rostos – A vida de uma pessoa não tem preço, mas eu nunca matei sem justificativa.
— Lamento que tenha passado por tantas coisas ruins, Mia. Todos nós tivemos de enfrentar os nossos piores pesadelos desde que isso começou – disse Rick, compreensivamente – Pode se juntar a nós e deixar de lutar sozinha para lutar em grupo.
Assenti com a cabeça e fiz questão de encarar o Carl com um olhar vitorioso. Perdeu, neném.
— Eu não acredito nisso. Não acredito nisso – Carl balançou a cabeça incredulamente. O garoto deu as costas sem pedir licença, pegou uma mochila na escada (com suprimentos, presumi) e saiu da casa fechando a porta com força.
O Rick respirou fundo, parecendo meio contrariado, e até fiquei com pena dele, o moleque não devia ser um filho fácil de se lidar, embora ele parecesse um bom pai.
— Nós precisamos ir. Já ficamos tempo demais aqui – disse ele. Daryl se aproximou da escada e pegou as outras duas mochilas como se não pesassem nada, saindo da casa logo em seguida, deixando a porta aberta escancarada.
— Pelo visto o apocalipse não deixou o meu tio menos carrancudo e mais emocional – observei fazendo Rick rir baixo – Ao menos isso não mudou.
— Você tem razão – ele balançou a cabeça – Vamos, você precisa conhecer o resto de nós.
E completou baixinho, talvez esperando que eu não ouvisse:
— Minha família.
Presumi que esse era o meu “seja bem-vinda ao grupo” e quase não acreditei naquilo. Demorei uns cinco segundos antes de começar a segui-lo, tentando assimilar tudo o que havia acontecido naquele dia. Quase tinha morrido pelas mãos de um garoto a qual tinha certeza que não iria me matar, mas não sem antes quase morrer de nostalgia por voltar a Savannah depois de tanto tempo e relembrar as memórias de uma época que não voltaria nunca mais. Reencontrei o meu tio – o meu provável único parente vivo – e, para minha sorte, ele pertencia a uma grupo de sobreviventes que moravam em um lugar seguro. Imaginei que teria futuros atritos com o garoto cuzão filho do Rick. Mas, no final, fui aceita no grupo de sobreviventes.
Um sorriso enorme atravessou o meu rosto pela primeira vez em muito tempo e fui contagiada por uma felicidade descomunal.
Será que aquela também viria a ser minha família?
Diário, você não vai acreditar em tudo o que aconteceu.
Primeiro, me chame de agora em diante de Mia Dixon.
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