Diary of a Savior

15 Cicatrizes Pt. I


Notas iniciais
Voltei como prometido, leitores! o/ É claro, estou postando o capítulo meia noite, nos acréscimos da prorrogação, mas o que vale é a intenção ;) Eu comecei a me sentir culpada, sério. Toda vez que eu entrava no Nyah! tinha um novo acompanhamento, alguém tinha favoritado. Eu tinha que cumprir minha promessa, ou não iria conseguir dormir de tão pesada que ficaria a consciência. Espero que gostem! E que venha a sétima temporada de The Walking Dead!

"Sei que estão te cortando profundamente

Que sente as cicatrizes enquanto dorme

O que não nos matou, nos fortaleceu

Histórias marcadas em nossa pele..."

(Scars, Tove Lo)

Caminhei rapidamente para fora do refeitório, embora não estivesse com pressa, rumo a minha querida e adorável cela no corredor principal. Algumas pessoas me lançaram olhares como se eu fosse um animal de zoológico desfilando fora da jaula céus, nem no apocalipse as pessoas aprendem a cuidar das próprias vidas, mas eu apenas ignorei como se não estivesse percebendo. Certamente, a minha briga com Patrick tinha virado o assunto do dia na República Democrática e Independente Pós Apocalíptica da Prisão.

Mas isso não era nada comparado a desconfiança do meu sogrinho Rick em relação a mim e a minha ligação com quem quer que fosse Jesus e Os Salvadores. O mais novo prisioneiro dissera a ele que conhecia a mim, a minha mãe e que eu sabia quem eram os tais Salvadores, a ameaça que rondava o outro lado da cerca. E o problema começava exatamente onde estavam as evidências: sim, era verdade, eu não sabia. E a minha mãe tinha uma tatuagem no ombro, um "S" que poderia ser a inicial de Salvadores. E os "S"s pixados com sangue nas paredes das casas, em placas da rodovia, e desenhados grotescamente na testa de errantes. Nos meus pesadelos. E o pressentimento constante de que uma verdadeira catástrofe estava por vir.... E...

Balancei a minha cabeça freneticamente, como se assim pudesse afastar todos aqueles pensamentos. Não valia a pena queimar neurônios com perguntas as quais não encontraria resposta e que provavelmente eram apenas delírios de uma mente consumida pelo estresse pós traumático apocalíptico.

Peguei o meu iPod dentro do meu armário, a minha arma escondida debaixo do colchão e o querido diário que jazia abandonado há alguns dias em companhia das teias de aranha. Eu precisava desabafar com alguém e o Carl não era a pessoa que me entenderia naquele momento. Não, não era justo descarregar o estresse e a raiva que estava sentindo em outra pessoa. Cada um por ali já tinha os seus próprios problemas por mais que às vezes gostassem de cuidar dos problemas dos outros com que precisava aprender a lidar.

Porém, por mais que aquele dia estivesse sendo longo, logo acabei descobrindo que mais uma vez o drama da novela das oito estava longe de acabar.

Segui para o lado de fora do bloco e, assim que pisei os pés no gramado, amaldiçoei a minha burrice de não ter pego a jaqueta que Beth havia me cedido. O frio era quase cortante e a neblina espessa o suficiente para prever que no dia seguinte possivelmente estaria nevando. Em outras circunstâncias admiria a transição de estações, pena que no novo mundo os sobreviventes não tenham tempo para fofices.

Andei o mais rápido que podia sem correr correr por aqui é sinal de perigo, zumbis ou inimigos até a torre de vigia D. Os meus pulmões enregelados pelo ar frio reclamavam do esforço extra, sem fôlego. Mas a parada cardiorespiratória quase veio quando, assim que levantei a cabeça no topo da escadaria, dei de cara com uma figura encostada na parte escura da pequena sala, olhando diretamente pra mim. .

Que susto. Como se não bastasse só, vamos ver, tudo.

— Olha aqui – A minha pressão deve ter subido de tanta raiva. Eu juro que não queria brigar mais com ele, sério. Mas é que, na maioria das vezes em que estou por um fio de explodir, o panaca aparece e acende o fosfóro. Apontei para mim — Eu passei por maus bocados do lado de fora. Estive tantas vezes perto da morte que os meus pés devem estar assados pela quentura do inferno. Eu vivo assombrada, em estado de alerta nas vinte e quatro horas, e você vem e... — Balanço a cabeça negativamente – Não! — Ele continuou parado na sombra, inabalável, olhando fixamente pra mim, como se eu não estivesse gritando alto o suficiente para atrair todos os errantes das redondezas até nós. Vontade de bater — Assim... Não... Dá, Carl Grimmes!

Ficamos nos encarando pelo que pareceu uma pequena eternidade, enquanto eu tentava recuperar o fôlego. Era verdade que durante toda a minha vida havia perdido muitas batalhas. Mas não, nessa guerra com Carl de quem desviava o olhar primeiro me recusei a perder. Pode chamar de criancisse, idiotice, estupidez. Dane-se. Definitavamente, dane-se.

Todavia, quando o furação Katrina dentro de mim cessou, e aqueles olhos tão tristes e ao mesmo tempo tão vívidos continuaram me encarando, cheguei a mais complexa conclusão desde que estava prisão. Eu me dei conta de que aquele garoto, parado bem na minha frente, não era e nunca foi o meu real problema. Eu era explosiva por natureza, arrogante pela genética, porque, merda, convenhamos que Daryl não é exatamente um Dalai Lama, teimosa e com uma língua mais perigosa que uma metralhadora nas mãos do inimigo. A minha ousadia, em várias ocasiões, quase me custara a vida. E a verdade, por mais dura que seja, é melhor do que a mentira que ilude: eu já estava quebrada muito antes de conhecer Carl Grimmes, despedaçada o suficiente para viver apenas para sentir os efeitos das perdas, das lutas, dos meus próprios medos.

Essa é a hora em que você percebe que descontou na pessoa errada, e se sente uma droga por isso, mas é orgulhosa demais pra se desculpar.

— É uma droga... Tudo isso – Eu não sabia o que dizer pra ele. Me lembrei do seu pedido depois que acordara de dois dias de febre e delírios, quando meu corpo se recuperava dos ferimentos da última excursão. Quer ser a minha garota?... Me sentir pior ainda ao perceber que não estava fazendo jus a minha resposta. Involuntariamente, meus olhos começaram a inundar de lágrimas — Carl...

— Eu sei — Ele respondeu simplesmente.

— Carl, eu...

— Mia, eu sei — Andei de um lado pra outro, em desespero. Merda. Merda! — Está tudo bem, okay? Está tudo bem.

Parei e respirei fundo várias vezes, cabisbaixo, me apoiando com as mãos nos joelhos.

— Eu vou entender se você estiver com muita raiva agora. De mim. Porque... — Enxuguei os olhos com as costas das mãos. Fim da explosão da bomba de Hiroshima — Eu também estou com raiva de mim.

— Não. Nada disso. Eu não posso sentir raiva de você. O que eu sinto por você tem outro nome.

— Eu sei.

Um meio sorriso invadiu o rosto de ambos. A gente briga mais nóis se... ops Caminhei em sua direção e coloquei os braços ao redor do seu pescoço. Ele colocou os dele ao redor da minha cintura. Continuamos nos olhando, sim, mas dessa vez apenas como uma preliminar do que estava por vir.

— Acho melhor ficarmos de olho na cerca, cowboy.

— Sasha e Lucia já estão fazendo isso.

Nossos lábios se encontraram suavemente. Parecia uma dança de teatro de gala ao som de uma orquestra sinfônica, em perfeita harmonia e sincronia. Como se a minha boca simplesmente tivesse sido feita num molde que se encaixava na dele. Beijar aquele garoto era uma das melhores partes de estar viva no apocalipse zumbi, mesmo que cada dia me custasse uma verdadeira aventura no meio do inferno na Terra.

Quando nossos lábios se separaram contra minha vontade, percebi que a expressão no rosto de Carl havia mudado. Parecia quase... Preocupado.

— Nós precisamos conversar.

— O que foi, Carl? — Tentei ler alguma dica em seu rosto. Claro. Óbvio — Rick.

— O que ele queria conversar com você?

Soltei-o e me afastei para a janela. Eu não queria tirar conclusões precipitadas, como por exemplo achar que Rick já não tinha mais certeza sobre acreditar em mim ou não, mas a pergunta de Carl apenas confirmava a minha teoria. Uma hora ou outra, provavelmente, o tio Daryl seria o próximo a vir me interrogar, ao seu próprio estilo.

— Sobre o Jesus. Sobre seja lá quem for que se chame Jesus.

— Lembra quando te perguntei se conhecia alguém chamado Paul Monroe? É ele, Mia. O verdadeiro nome dele. Ele falou sobre uns tais de Salvadores, outro grupo de sobreviventes que escraviza grupos menores — explicou Carl — Não se zangue com o meu pai, Mia, eu estava lá quando Jesus disse que conhecia você. Teria soado como uma farsa, se não fosse pelo fato dele saber o nome da sua mãe. Ninguém por aqui sabia, então ele não poderia ter ouvido de alguém. As pessoas nem imaginavam que Daryl tinha uma irmã...

Fiquei em silêncio. Acho que Carl esperava que eu respondesse a mesma pergunta pela segunda vez. E eu não ia contar suposições que provavelmente não passavam de delírios de uma mente paranóica. E eu não queria falar sobre aquilo.

— Mas não importa nada disso. Estamos seguros aqui e mesmo que esses Salvadores existam, não vão encontrar o caminho da prisão. Nem se deixássemos rastros na rodovia, não faria sentido seguir por um caminho que daria pro meio do nada de lugar nenhum — Me segurei pra não rir — Agora confesse que pensou que era um errante esperando por você na torre.

— Não! E você me assustou de verdade!

— Desculpa por isso.

— Não precisa se desculpar. Eu é que peço desculpas por ter gritado com você. Eu... Não funciono tão bem sob pressão. Consigo agir se necessário, mas quando não há nada que possa ser feito, é... Complicado.

— Está perdoada se tiver trazido o iPod.

— A-há! — Tirei o pequeno aparelho do bolso e entreguei-o — Então hoje é o seu dia de sorte.

Nos sentamos na parte de trás da sala iluminada pela luz da lua que atravessava a janela. Carl colocou um fone no meu ouvido e outro no dele, e ligou a pequena relíquia do velho mundo.

— O que vamos ouvir hoje, cowboy?

— Nada de Katy Perry — Ele pulou Roar, Dark Horse e It Takes Two. Pulou Coldplay, Bad Company, Ellie Goulding, Mumford and Sons, Foreigner, Ed Sheeram (what?!) ... E sintonizou numa música do Shawn Mendes. Like This— No dia em que eu e a mamãe fugimos de casa, o rádio estava ligado, tocando essa música do Shawn Mendes. Enquanto ela ligava desesperada pro hospital em que o meu pai estava internado, eu sentei na sala e escutei essa canção do início ao fim. Quando ela acabou, o colega de trabalho do meu pai chegou e nós fomos embora sem ter notícias dele. Semanas depois, após alguns dos parentes de membros do nosso grupo ficarem presos durante uma excursão em Atlanta, eles conseguiram voltar pro acampamento. Meu pai estava com eles.

Meditei naquela pequena história e cheguei a conclusão de que a vida continuava a pregar peças nas pessoas que se amavam, só pra depois uní-las de novo. Quase poderia dizer o mesmo do tio Daryl e eu, se o mesmo não me odiasse. Qual era a probabilidade de encontrá-lo quando já não nos víamos muitos anos antes antes da epidemia começar?

Como diria a minha amiga Kate, as probabilidades são uma droga. Você nunca sabe se é o noventa e nove por cento ou o um por cento. Fodam-se elas, fodam-se todas elas.

Nós dois ouvimos aquela música em silêncio, apreciando a melodia suave e a voz encantadora do Shawn cantar uma verdadeira declaração de amor. E o meu coração não poderia deixar de acelerar pela pessoa que estava ali, bem ao meu lado, escutando aquela canção comigo.

And I love it how she's honest

You don't find that nowadays

She's not even drop dead gorgeous

But she kills me anyway, oh

(E eu adoro a honestidade dela

Não se encontra mais isso hoje em dia

Ela nem é linda de morrer

Mas ela me mata do mesmo jeito)

Antes que me desse conta, estávamos nos beijando outra vez. Mas algo havia mudado, porque o beijo não era mais tão delicado e suave, mas urgente, como se não fôssemos ter tempo para fazer aquilo novamente. Comecei a entender o que a Kate me dizia sobre o efeito da atração entre corpos opostos.

Ele começou a beijar o meu pescoço. Eu sentei no colo dele. Podia sentir que o desejo já dominava a situaçåo e qualquer resquício de consciência tinha ido pelos ares. É claro que eu não poderia deixar de sentir um certo frio na barriga; não sabia se aquele era o momento certo, se me arrependeria depois ou se estávamos apenas nos deixando levar pelo que sentíamos um pelo outro.

O garoto virou o jogo e deitou por cima de mim no chão frio, com as minhas pernas enroscadas em sua cintura. Eu queria-o mais do que tudo naquele momento. E ele parecia sentir o mesmo -alguém tem duvidas disso-. E quando um não quer, dois não brigam ou tran... op.

E Carl foi o primeiro a ceder. Nos afastamos um do outro, sem fôlego.

— Mia, nós não... Eu não quero que seja aqui, desse jeito. Eu não quero me sentir como se estivesse tirando proveito de você. Estamos no fim do mundo, mas não precisamos pensar nisso agora — disse Carl. Ele me deu um beijo na testa — Eu quero que nossa primeira vez seja especial.

— Eu também — Eu sorri abertamente. Céus, esse garoto é um sonho— E imagina a cara do Rick ao descobrir que será avô. E a tia Judith.

Nós dois gargalhamos. O Carl em cima de mim. Eu enroscada nele. Rindo. Tá bom, produção, já pode cortar essa cena.

Ele rolou para o lado e ficamos deitados no chão frio, admirando o céu estrelado e a lua cheia em toda a sua imponência na vastidåo entre as nuvens.

— Eu não te vi no refeitório pro jantar.

— Meu pai me obrigou a ir falar com o Patrick sob a alegação de que a culpa tinha sido inteiramente minha — Eu sabia que Carl revirara os olhos. Abafei a risada — Faz muito sentido, não acha? O Patrick xinga a Mia, a Mia bate nele, e o Daryl bate na Mia, e Carl é o culpado por tudo.

Não aguentei. Chorei de rir, literalmente. E ainda me engasguei e tossir.

— Rick Grimmes teria sido um grande perito criminal — comentei — Mas me fala como o Patrick reagiu.

— Bem, melhor do que eu esperava na verdade. Eu ia bater no Patrick e fazer jus a minha fama de culpado. Mas ele foi quem pediu desculpas primeiro, disse que mereceu o soco que levou, e devia um pedido de desculpas a você também. Disse que tinha ficado zangado por você ter me escolhido, mas depois de apanhar percebeu que era um completo idiota e imbecil. Eu disse que brigar pela garota mais bonita da prisão fazia parte do fim do mundo.

Ai que massagem no meu ego. Corei, não sei nem porquê. Talvez porque gostei de ouvir aquilo.

— Estamos bem. Depois fomos com o meu pai ao Bloco D, para provar que tínhamos feito as pazes, ou eu iria acabar me oferecendo de lanche pros errantes de tanto que o meu pai me atormentaria.

— Vão ocupar o Bloco D? Beth disse que é único conjunto de celas vazio.

— Não. Ele vai continuar servindo como depósito e de...

— E...?

— Nada.

— Qual é.

— Nada, Mia.

— Você ia dizer alguma coisa.

— Deixa pra lá.

— O que vão fazer com o Jesus?

Carl bocejou longamente, o que me fez repetir o gesto.

— Eu não sei — O garoto parecia lutar contra o sono. Deixei que a natureza seguisse o seu curso e esperei até ter certeza de que Carl estava dormindo profundamente. Eu não tinha certeza se deveria fazer o que eu estava prestes a fazer. Mas a agonia de tantas perguntas sem respostas acabaria me matando por dentro, ou explodindo de novo.

Eu iria encontrar o Jesus e Carl sem querer já tinha me dado a informação de que eu precisava.

Jesus estava sendo mantido no Bloco D.

Notas finais
Essa Mia tá demais *__*