Diary of a Savior
2 A Prisão
Notas iniciais
“E eu não posso prometer que vai ficar tudo bem
Mas aqui estou, se você estiver pronto para tentar...
Aqui está minha vida, para o melhor ou para o pior.”
(“Yes”, Demi Lovato).
Eu segui o Rick pela rua à direita e, aos poucos, fui me despedindo da antiga vizinhança dos meus avós. Não tinha motivos pra voltar ali outra vez e carregava a certeza de que não voltaria nunca mais. Era preciso aprender a deixar para trás, seguir em frente e viver a nova vida que o fim do mundo generosamente havia nos dado de graça. Entendi isso quando, de alguma forma, reencontrar o meu tio me deu a esperança de que lutar pra sobreviver todos os dias pode trazer benefícios além daquilo que a nossa fé é capaz de imaginar.
Me peguei pensando nos momentos em que estive perto demais de desistir. Quando julguei que não valia mais a pena viver, que era hora de tudo acabar de uma vez. Que eu não podia mais lutar, por que não havia mais pelo que lutar.
Quando, em um ataque de errantes ao nosso acampamento, o meu pai foi mordido, tive vontade de dar um tiro na minha cabeça pra acabar com a dor que eu estava sentindo. Por que, se todos nós caminhávamos para o mesmo fim, de que valia lutar apenas para adiar o inevitável? Um dia, cedo ou tarde, iríamos morrer. E tirar a própria vida era uma forma mais digna do que ser devorado por infectados. Mas a minha mãe estava viva e mais do que nunca precisava de mim.
Pouco tempo depois, nós e os outros remanescentes nos juntamos com outros sobreviventes; fomos atacados pelos Lobos e dizimados a menos da metade do número inicial. Durante o ataque, a minha mãe foi decapitada por um deles. Lembro de passar dias em descrença, sem acreditar no que tinha acontecido, me apegando a ideia que tudo não passava de um pesadelo que eu tinha todas as vezes que fechava os olhos. Porém, um dia, eu acordei e me dei conta de que era tudo era real e que, daquele momento em diante, eu estava sozinha.
Mais uma vez, eu quis desistir. Mas todas as vezes que eu pegava na minha arma com o intuito de acabar logo com tudo, escutava a voz da minha mãe repetindo o que ela havia dito quando o papai morreu: “Enquanto há vida, há esperança”. Eu me apeguei aquela frase e tentei segui em frente, sobrevivendo um dia de cada vez e acreditando que o amanhã poderia ser bem melhor do que o hoje.
Percebi que já estávamos nos aproximando do carro e logo abandonei os meus devaneios. Uma mulher alta e negra estava encostada na caçamba com os braços cruzados e me analisava minuciosamente a medida que nos aproximávamos. Ela possuía dreads no cabelo e usava uma faixa de pano na testa; cheguei a me perguntar se aqueles eram traços de uma ascendência africana. Eu já estava começando a ficar completamente sem graça, mas quando cheguei perto ela deu um sorriso.
— Então você é a nova recruta Dixon encontrada pelo Carl — disse ela, estendo a mão para mim – Seja bem-vinda ao grupo. Eu sou a Michonne.
Tive vontade de dizer que aquele idiota não me encontrou e sim ameaçou me matar, mas seria um desrespeito para com os meus salvadores.
— Obrigado. Eu sou a Mia – reparei no sabre longo pendurado nas costas dela e os meus olhos faíscaram. Eu tinha perdido a minha katana de sabre médio durante o ataque dos Lobos ao meu grupo. Aquela era uma arma tão rara que eu duvidava que veria uma belezinha daquela outra vez – Você é uma ninja?
Ela deu risada e respondeu:
— Aos moldes apocalípticos. Mas a minha lâmina não faz jus a lenda do sabre longo.
— Isso é mentira, Mia. Ela só está sendo modesta — disse Rick que estava arrumando as sacolas na caçamba – Michonne é uma guerreira que consegue se virar sem armas de fogo.
E ela tinha mesmo a aparência de uma guerreira forte e determinada. Tentei imaginar como deveria ser o seu desempenho contra os errantes. Notei que um certo babaca estava olhando pra mim da janela do carro, mas quando olhei de volta ele desviou o olhar. Reparei que ele era único dentro do veículo.
— Eu tinha uma katana de sabre médio, mas a perdi durante o ataque… de outro grupo – por um momento exitei em dizer aquilo. Revelar informações a respeito do meu passado levariam as perguntas as quais eu não queria responder – Ela era mais útil do que qualquer arma que eu poderia ter.
— Disso não tenho dúvidas. Não sou muito fã de armas de fogo.
— Onde está o Daryl? — perguntei apreensivamente.
— Foi embora de moto há algum tempo. Já deve estar chegando em casa.
Acho que tem alguma coisa errada com o meu tio.
— Nós temos que ir – avisou Rick dando a volta para entrar no carro – Sasha e Abraham disseram que tem uma horda vindo do oeste na nossa direção.
Ele não precisou falar duas vezes. Dei a volta no carro para não incomodar a última coca-cola do deserto pedindo para ele chegar mais pra lá e sentei ao lado da janela.
Querido Diário,
Eu estou a caminho do meu novo lar neste momento, então por favor, perdoe a minha caligrafia mais horrorosa que o normal. Mais uma vez, eu não deveria estar escrevendo agora e sim interagindo com os meus salvadores, mas é que eu sou um pouco bicho do mato quando se trata de gente nova. Além do mais, Rick e Michonne estão conversando um com o outro e Mr. Carl está sentado do lado da outra janela, aparentemente emburrado o neném, fingindo interesse no matagal da estrada. Não que eu queira conversar com ele ou espere que iremos trocar palavras novamente algum dia. O meu tio por algum motivo voltou na frente sem se preocupar em me deixar aqui com eles; na verdade, eu não devo esperar nenhuma aproximação da parte do Daryl, por que o Daryl é o Daryl, um Dixon de sangue frio, e afeto não combina com o nosso sobrenome.
Duvido que a nossa relação vá ultrapassar um laço sanguíneo.
— Então, Mia, de onde você é? — perguntou Michonne me olhando do retrovisor do motorista.
Enfiei o meu diário dentro da mochila e respondi:
— Hinnesville.
— Eu estive lá algumas vezes antes disso começar. Era uma cidadezinha confortável.
— O Daryl disse que aquela é a casa dos pais dele – disse ela – Foi uma grande coincidência vocês se encontrarem lá.
Dei um sorriso sincero.
— Pensei que a minha família inteira estivesse morta. A última pessoa que eu esperava encontrar era o tio Daryl.
Rick soltou uma risada e balançou a cabeça.
— Acho que ele não vai gostar muito de ser chamado de 'tio''.
— É verdade – concordou Michonne também rindo – Não faz muito a cara dele.
Depois que as risadas acabaram, todos ficaram em silêncio. Resistindo ao vício a vontade de pegar o meu diário e voltar a escrever, comecei a olhar a paisagem da janela do carro, tentando aproveitar a minha primeira viagem de carro em meses. A natureza, em toda a sua beleza e complexidade, parecia não ter mudado com o apocalipse ou simplesmente ter ligado o “foda-se” para o que aconteceu com os humanos. As florestas ainda serviam de esconderijo para homens e infectados, mas os dois, em uma guerra infindável, não se importavam mais com a natureza.
A natureza, finalmente, havia encontrado a paz. Talvez a infecção tenha sido a sua vingança contra a humanidade.
— Já estamos quase chegando, Mia – disse Rick.
Com essa frase, os meus pensamentos migraram de um pólo a outro, agora focados no meu novo lar. Em todos os grupos do qual eu fizera parte, havia um líder. Mesmo não conhecendo os outros membros, tinha certeza de que já havia conhecido o líder deles.
— Você é o líder do grupo? — a curiosidade fez as palavras saltarem da minha boca.
— Não. Nós temos um conselho onde as decisões são tomadas em grupo – disse ele – Funciona basicamente como uma comunidade onde todos desempenham uma função.
— E, temos regras, é claro – Carl resolveu se pronunciar – Regras que precisam ser seguidas.
— Desde quando você se tornou tão carrancudo, rapazinho? — disse Michonne humoradamente – Vai acabar perdendo a chance de conhecer a garota.
Ah, fala sério, pensei, mas o meu rosto deveria estar da cor de um tomate. Desviei o olhar para a janela, fingindo estar interessada na paisagem do lado de fora.
— Chegamos – anunciou Rick com um sorrisinho.
Quando finalmente pude avistar a prisão, eu cheguei mais para o meio do banco disfarçadamente e pude sentir o olhar de Carl em mim. O lugar era realmente grande e tive vontade de perguntar como eles tinham conseguido aquilo. A propriedade era inteiramente cercada por muros e grades – a visão do paraíso no apocalipse – e onde não havia proteção, havia grama, plantações e cercados de criação de animais. Assim que passamos pelo primeiro portão — que foi empurrado por um japonês, coreano ou chinês ou qualquer outra ascendência que tenha os olhos puxados— pude ver que tinha muitos errantes nas grades e várias pessoas estavam enfiando estacas e facas neles, como se aquela fosse uma espécie de tarefa doméstica.
Estacionamos perto de outros dois carros e uma moto que eu daria qualquer coisa pra dar uma voltinha, se não soubesse que era do tio Daryl e com certeza ele não ia deixar. Eu desci num salto pra ajudar Michonne e Rick a carregar as sacolas — Carl disparou na frente sem olhar pra trás – mas eles recusaram a oferta. O cara que arrastou o portão veio ao nosso encontro seguido de uma garotinha de rosto redondo e cabelos loiros que me olhava com curiosidade.
— Então além de suprimentos encontraram também gente nova – disse ele com um sorriso amigável e estendeu a mão para mim – Prazer, eu sou o Glenn.
— Mia – disse simplesmente.
— Daqui a algum tempo vamos ter que construir mais um bloco por aqui, não é, Rick? – disse o Glenn.
Rick assentiu, parecendo satisfeito, embora estivesse com o olhar distante.
— Estava pensando em sugerir ao conselho uma mudança na divisão dos blocos, já que estamos trazendo cada vez mais pessoas – disse ele e depois acrescentou tentando não transparecer preocupação – Na verdade, vou pedir que você convoque uma reunião para mais tarde.
— Está bem – assentiu ele e saiu. Só então percebi que a garotinha estava esse tempo me observando, ao que ela sorriu e saiu correndo em disparada.
— Mika – disse Michonne – Ela é uma criança adorável.
Segui o Rick e a Michonne sem saber ao certo para onde estávamos indo; passamos por várias pessoas no caminho que nos cumprimentavam com sorrisos e me olhavam com curiosidade e surpresa, e eu acenava com a mão. Paramos no pátio em frente a um bloco grande que imaginei ser o maior do conjunto de quatro.
— Esse é o Bloco C – disse Rick apontando – Eu, Carl e o Daryl estamos aqui, mas ainda tem o A, B e D. Imagino que queira ficar por aqui.
— Quero. Acho que vai ser melhor ficar perto do Daryl, embora ele não pareça muito preocupado em me introduzir por aqui. O meu tio não é um cara sentimental.
— Não faz o tipo dele. Mas não se preocupe. Qualquer coisa, pode falar comigo, com a Michonne ou com o Carl. Vai conhecer mais gente e agora em diante faz parte do grupo – avisou ele e aquilo me soou como um abraço reconfortante.
— Mais uma vez, muito obrigado.
— Não tem pelo que agradecer. Você é uma sobrevivente e merece estar aqui – disse ele e já íamos seguindo quando ele parou e acrescentou – O Carl… é um bom garoto. Só não está acostumado com gente nova e… Bem, todos passamos por coisas que mudaram que nós somos.
Assenti sem comentar nada e senti uma pontada de culpa por achar que o filho dele era um idiota por que era um idiota mesmo. Assim que entramos no bloco me deparei com uma sala enorme cheia de estantes com suprimentos de todos os tipos – galões de água, alimentos perecíveis e não perecíveis e enlatados – onde Michonne, Carl e uma mulher bonita de cabelos curtos estavam estocando mais itens. A mulher se apresentou como Maggie – ela realmente parecia jovem – e disse que estava a disposição para qualquer coisa que eu precisasse. Agradeci, meio contrariada com toda a atenção que estava recebendo, quando Rick disse:
— Eu tenho que ir agora. Preciso cuidar das plantações e matar um porco para o jantar – A palavra porco soou como uma música doce ao meus ouvidos e me deu água na boca – Carl, filho, dê a arma para a Michonne e vá mostrar o bloco a Mia – E, virando-se para mim, acrescentou – Estamos seguros atrás desses muros. Não vai precisar delas aqui.
Entreguei a minha arma para o Rick meio chateada por ter que seguir aquela regra. A minha arma me dava a segurança de que eu poderia me defender a qualquer sinal de perigo e agora me sentia como se tivesse perdido uma extensão de mim. Mas concluí que se eu quisesse ficar ali teria que seguir todas as regras da casa, mesmo que eu achasse privativas ou ruins. Talvez por perceber a minha expressão, Rick completou:
— As armadilhas na cerca impedem que os errantes entre aqui e grupos fazem rondas para matá-los quando estão se acumulando demais. Há também postos de vigia nas torres – disse ele – Você não precisa se preocupar, ela vai estar guardada para eventuais necessidades. O Carl vai te mostrar a prisão.
Ele saiu do bloco e Carl revirou os olhos – ele ainda não tinha nem sequer olhado pra mim – esvaziando as mochilas e enchendo as prateleiras. Eu já ia oferecer ajuda a Maggie, quando a Michonne quebrou o silêncio:
— Me dê a arma, rapazinho – pediu Michonne e ele ja entregou parecendo contrariado – Eu e Maggie podemos terminar isso aqui. Vá levar a garota pra dar uma volta — disse com um sorrinho malicioso.
— Eu posso ajudar vocês a terminarem. Pelo visto todo mundo aqui tem uma função e eu quero ajudar – ofereci prontamente, já que não queria também passear com ele.
Michonne balançou a cabeça negativamente.
— Não precisa fazer nada hoje, Mia. Apenas se preocupe em se acomodar e conhecer a prisão – disse ela.
— Deve ter passado por muitas coisas lá fora. Você merece descansar um pouco – completou Maggie.
— Vá mostrar o lugar a garota, Carl, ou não me responsabilizo pelo que o Daryl vai fazer com você mais tarde – disse Michonne humoradamente e completou com um sorrisinho malicioso – Seja gentil com a garota ou pode perder a chance.
O garoto largou o que estava fazendo bruscamente e, com passos pesados, seguiu em direção ao corredor. Eu o segui, concluindo que ele era, de fato e para todos os efeitos, um grande panaca e estava agindo como uma criança emburrada cujo pai havia mandado fazer a lição de casa contra a vontade. Mesmo querendo dizer em voz alta alguns adjetivos nada agradáveis como idiota babaca panaca imbecil cuzão neném criança, mas que se aplicavam perfeitamente a ele, decidi manter a compostura e aproveitar a primeira oportunidade para acabar com o tour forçado.
Passamos por várias celas com cortinas improvisadas penduradas na grades – aquelas pareciam ocupadas — até chegar ao fim do corredor, próximo a uma escada que dava para o segundo andar, onde o vossa Excelência parou e indicou uma das celas:
— Pode ficar com aquela ali. Está desocupada – disse de má vontade.
Não respondi nada, apenas entrei no lugar e observei o que tinha no “quarto” a minha disposição: um beliche com duas camas o/ e uma cômoda de madeira em um dos cantos. Tirei imediatamente a minha mochila das costas e ia começar a desarrumar, mas o cowboy ridículo me interrompeu:
— Será que dá pra fazer isso depois? — ele disse ríspidamente.
Eu posso ser nova por aqui, mas não tenho sangue de barata não, pensei, irritada.
Larguei a minha mochila aberta em cima da cômoda e me aproximei dele, disposta a resolver o problema.
— Qual é o seu problema, afinal, cowboy? — Ele fez uma carranca – Eu não pedi a sua ajuda e, se a minha presença por aqui te incomoda, me desculpa, mas eu não posso fazer nada por você.
O garoto estreitou os olhos e ficou me encarando. Eu encarei de volta, fuzilando-o com o olhar.
— Nem todas as pessoas lá fora são boas. Acreditamos em alguns que não eram – disse ele.
Ah! Então o problema é confiar. Basta olhar pra mim pra deduzir que eu sou a versão apocalíptica do Ozama Bin Laden, eu entendo.
— Isso não é nenhuma novidade, babaca! Mas adivinha só? Não é crime ser gentil – eu visivelmente tinha perdido as estribeiras – Se não me queria aqui, por que não meteu uma bala na minha cabeça quando teve oportunidade?
Ele deu alguns passos na minha direção sem dizer nada e, quando os nossos rostos estavam a apenas alguns centímetros de distância – e os nossos olhares fixos um no outro – ele disse:
— Eu ia atirar em você, garota – disse ele levantando uma sobrancelha — Mas aí você apontou a arma pra própria cabeça e me fez perceber que era uma sobrevivente.
Aquelas palavras me surpreenderam de uma forma que não pude não deixar de transparecer. O meu ato quase suicida havia sido o sinal vermelho para ele não puxar o gatilho. Por um segundo de dúvida, as mesmas palavras que ele tinha usado pularam da minha boca sem pedir permissão:
— Você está blefando.
Passos no corredor fez com que nos afastássemos rapidamente e fingíssemos estar fazendo outra coisa que não discutindo. Um garoto alto, magricela e com óculos fundo de garrafa se aproximou com uma expressão animada. Ele devia ter sido um nerd antes do apocalipse.
— Então você é a garota nova na prisão – ele sorriu abertamente e estendeu a mão para mim – Eu sou o Patrick. Prazer.
— Mia Dixon.
Ele arqueou as sobrancelhas, parecendo surpreso.
— Os boatos são verdadeiros. Você é mesmo parente do Daryl – disse ele como se isso fosse algo extraordinário – Qual o grau de parentesco?
— Sobrinha, mas não vai me ver chamando ele de tio.
Patrick deu risada.
— Já conheceu o resto da prisão? — perguntou Patrick com os olhos brilhando – Se você quiser, eu posso mostrar pra você.
Olhei para Carl que rapidamente desviou o olhar, colocando as mãos nos bolsos e abaixando a cabeça. Dei de ombros e respondi que ficaria grata se ele fizesse isso. Patrick começou a subir as escadas e eu o segui, me surpreendendo ao constatar que Carl estava nos seguindo. Enquanto andávamos pelo segundo andar da prisão – onde ficava mais um conjunto de celas habitacionais – Patrick tagalerava e Carl permanecia no modo mute sobre eles tiveram que lutar por aquele lugar quando um cara chamado Governador isso é nome? Tentou tomá-lo quando a cidade murada dele caiu. Pelo que pude entender, Patrick e a maioria dos que estavam ali tinha visto de Woodbury – a tal cidade do vilão – a convite do Rick depois que a guerra acabou. Furando a linha cronólogica da história, ele disse que, no início de tudo, a prisão estava cheia de errantes, mas que eles haviam conseguido limpar o lugar tomando um bloco de cada vez.
Aquela era uma história e tanto.
A medida que passávamos pelas pessoas, Patrick ia repetindo a apresentação “Esta aqui é a Mia Dixon, a sobrinha do Daryl. Encontraram ela hoje na cidade” como um disco arranhado. Nós passamos pelo lugares que funcionavam como um refeitório, como lavandeira, como área para estender roupa e onde as refeições eram preparadas, e Patrick me explicava cada detalhe de como tudo funcionava, desde o racionamento de água e comida até os postos de vigilância nas torres.
Quando chegamos do lado de fora – onde pude ver o Rick a distância trabalhando na horta como um fazendeiro e algumas crianças correndo de um lado pra outro – tive a sensação de que a humanidade poderia recomeçar apartir dali. Tudo naquele lugar era organizado, todos desenpenhavam suas tarefas sem reclamações exceto Carl e tudo parecia funcionar de forma equilibrada.
Em um mundo jogado ao caos da infecção e da luta entre sobreviventes, como pudia existir um lugar daqueles?
Avistei o tio Daryl de longe – parecia estar mexendo no motor da moto – e ele também me viu, mas desviou o olhar de volta para o que estava fazendo.
— Se você quiser, posso te mostrar os outros blocos, mas lá não tem nada além de conjuntos de celas. O C é como se fosse a capital da prisão – disse Patrick.
— Não precisa, acho que agora já conheço tudo por aqui – dei um sorriso sincero, agradecida por ter encontrado um guia gentil – Obrigado, Patrick.
Inclinei e dei um beijo na bochecha dele. O pobre Patrick deu uma risadinha sem graça e ficou parecendo um tomate.
— Eu… Bem… Eu tenho que… — ele limpou a garganta, atrapalhado – Vou ajudar a … Preparar o jantar. Qualquer coisa pode contar comigo. Até o jantar, Mia!
E saiu andando rapidamente em direção ao Bloco D. Sem olhar para o Carl, entrei novamente no Bloco C e segui para o meu novo quarto disposta a arrumar as coisas e descansar um pouco antes do jantar. Mas, primeiro, me joguei no chão e fiquei observando o lugar, faltando só cuspir arco-íris de tanta felicidade por tudo ser tão perfeito ali. Sem armas, sem facas, sem medo.
Um sorriso atravessou o meu rosto e me permitir de dizer em voz alta, como se ela pudesse de alguma forma escutar e compartilhar daquilo tudo comigo:
— Você tinha razão, mãe. Enquanto há vida, há esperança.
Levantei do chão sentindo uma sensação boa e ruim ao mesmo tempo. Decidi pegar a minha mochila e tirar o meu diário de dentro.
Tantas coisas aconteceram desde que cheguei aqui, Diário, que estou com preguiça de descrever cada detalhe e descobrir que estou sonhando e que nada disso é real. E, de fato, não parece real. Sei que tenho que ser otimista e acreditar que sempre haverá esperança, mas o apocalipse está aí pra provar que nada é para sempre. Que tudo um dia, uma hora ou outra, acaba.
Quando esse sonho irá acabar?
O ranger do portão da minha cela sendo aberto desviou a minha atenção. Ele entrou sem dizer nada, se encostou em uma das paredes com os braços cruzados e ficou me encarando, como se esperasse que eu falasse primeiro, parecendo incomodado. Ele parecia estar me evitando até ali, sem ter se preocupado em me acompanhar com os outros até a prisão ou me mostrar o lugar após a minha chegada. Sem acenos, sem boas-vindas, sem nenhuma explicação de nada. Apenas preservando a carranca inetirável (não sei se essa palavra existe) do rosto e a complexa ausência de emoções.
— Tio Daryl – eu disse.
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