Diary
2 Soojin´s Diary - 11 de Maio de 2011
11 de Maio de 2011, 09h00min
Alevantei de um pulo da cama, sabendo que já estava mais do que atrasada. O despertador havia tocado de dez em dez minutos pela última meia-hora, o que não era exatamente uma novidade na minha rotina. Eu sempre colocava ele despertar no mínimo vinte minutos antes da hora que eu precisava alevantar, ou eu sabia que me atrasaria. Ontem à noite a ideia de acordar às 9h parecera brilhante. No momento, senti que havia muito para fazer e pouquíssimo tempo.Corri até o banheiro, diminuindo o passo ao passar pelo quarto da Elken, a menina que divide o apartamento comigo. Ela não fica de muito bom-humor quando eu faço barulho e acordo ela antes de tipo, 2h da tarde, que é a hora em que ela geralmente acorda. Bom pra ela, né. Se eu pudesse, acordaria essa hora também.Quando eu já estava tomando banho, ouvi alguém bater na porta. Considerei a hipótese de ir atender, mas isso só ia me atrasar ainda mais. De qualquer forma, quem iria até o meu apartamento a essa hora da manhã, sem avisar? Só podia ser má coisa. A pessoa continuou batendo por algum tempo. Na hora em que finalmente saí do banho, porém, as batidas pararam. Lindo.Olhei no relógio pelo que deveria ser a milésima vez. Ainda tinha meia hora. Calculei mentalmente meu tempo. Dez minutos para me vestir e escovar os dentes, quinze para secar o cabelo, cinco para... é. Se tudo desse certo, eu ainda teria cinco minutos de folga.Não deu certo, óbvio.Não sei o que eu fiz de errado, mas no final de tudo o que eu tinha que fazer eu estava cinco minutos atrasada, não adiantada. Provavelmente a culpa era de quando eu estava colocando as meias e tinha parado por um tempo, encarando a parede e pensando na vida. Eu sempre faço esse tipo de coisas pela manhã, parece que eu não funciono direito. Por isso é que eu queria ser como a Elken e acordar no meio da tarde. Saí correndo do quarto, quase tropeçando em alguma coisa que, numa olhada mais atenta, mostrou ser Alemão, o gato da minha colega de apartamento. Tinha que ser. Se eu tivesse caído por causa daquele gato...Abri a porta com tudo e evitei por milímetros me chocar com alguém que estava parado ali. Soltei um berro. - Quem é você? – perguntei, assustada.Na minha frente, um homem jovem que eu nunca tinha visto antes. O que ele estava fazendo, parado na frente da porta do meu apartamento? Será que a Elken tinha arrumado um namorado e não tinha me dito nada?- Hm, oi. Eu sou vizinho desse apartamento – na hora em que ele disse isso, o achei vagamente familiar, com aqueles cabelos bagunçados e aqueles olhinhos pequenos. — Eu bati na porta mais cedo, mas-- Ah! Eu ouvi você, mas estava tomando banho – respondi, tentando sorrir sem muito sucesso, ao mesmo tempo em que trancava a porta do apartamento. O cara não tinha culpa que eu estava atrasada, mas eu não estava no clima para uma política de boa vizinhança naquela hora. – Posso te ajudar?- Na verdade... você é a dona do gato?- Gato... – repeti, confusa. Então lembrei. – Ah, não... Ele é da Elken, mas ela está ainda dormindo. Por que, algum problema?- Bom... ele engravidou minha gata.Demorei alguns segundos para processar a informação. E mais alguns segundos tentando pensar no que dizer. Nada me ocorria. Então lembrei que eu já estava atrasada, e que ficar ali pensando no Alemão era a última coisa que eu deveria estar fazendo.- Olha... desculpe, mas eu estou realmente com muita pressa. – abri a bolsa e tirei um bloco e uma caneta que eu sempre deixava ali dentro.- Ah, não tem problema. – ele disse, enquanto eu anotava alguma coisa no bloco, arrancava a folha e estendia para ele.- Liga pra esse número, se quiser falar com ela – respondi. Eu realmente não estava com a mínima vontade de me envolver nas aventuras sexuais de um gato que nem ao menos era meu.- Ok. Obrigado.- De nada. Bom, eu tenho que ir – falei, já andando em direção ao elevador. — Tchau.- Tchau – o estranho respondeu.- Ah! – lembrei, a meio caminho. – Ela geralmente acorda tarde, então é melhor não ligar antes das 13h.Ele sorriu. Parecia mais confuso do que eu.- Tudo bem.Sorri de volta, tentando fazer com que ele se sentisse melhor – não devia ser muito fácil ter uma gata grávida, afinal – e, finalmente, fui em rumo ao meu destino.10h15minOlhei, assombrada, para os portões gigantes de ferro à minha frente, assim que desci do taxi. Eu já havia gastado uma quantidade de dinheiro que sabia que não podia gastar, tentando não chegar atrasada até a entrevista. Bem, pelo menos dera resultado, já que eu ainda tinha quinze minutos. Era uma rua realmente bonita, com uma calçada bem cuidada e árvores aparecendo atrás dos altos muros de pedra que protegiam os casarões que haviam ali. Exatamente como eu havia imaginado que um dos bairros mais nobres de Seoul seria. Acabei me perguntando, não pela primeira vez, o que eu estava fazendo ali. Não era como se fosse ser a primeira aula particular da minha vida, mas de qualquer forma-
Meu celular tocando interrompeu minha linha de pensamentos. Olhei para a bolsa, surpresa. Primeiro, incomodada porque aquela não era exatamente a melhor hora de receber uma ligação. Segundo, aliviada que alguém resolvera ligar antes que eu entrasse, porque daquela forma eu percebi que tinha esquecido de colocar o aparelho no modo silencioso.Abri o bolso lateral onde eu sempre o deixava e olhei no visor. Como eu já suspeitava, era HaNa, minha melhor amiga.- SooJin! – ela disse, assim que eu atendi. – Está indo para a entrevista?- Já estou aqui – falei, girando sobre meus calcanhares para olhar novamente a rua. Alguns carros passavam de lá para cá, mas não havia ninguém na calçada. – Quero dizer, parada na frente da casa.- Sem coragem pra entrar? – ela perguntou, rindo.- Não, estava ainda tentando me habituar ao ambiente quando você ligou – me justifiquei.- Eu sei que prometemos não ligar pra você até pelo menos o meio-dia – ela disse, e sabia que ela se referia também a WooYoung, meu outro melhor amigo. – Mas eu sabia que a entrevista era às dez e meia, e resolvi conferir como você está.- Estou bem... Eu acho. - Não deixa eles impressionarem você. - É que eu ainda não estou entendendo. Quero dizer, você tem que ver esse portão! Deve ter no mínimo três metros de altura. E se eles tem tanto dinheiro, por que eu? Eu ainda estou na faculdade, eu não tenho muita experiência e-- Bom, talvez eles tenham dado uma olhada em suas notas, ficado sabendo que você morou anos nos Estados Unidos, falado com os pais de algum dos seus alunos...- Nenhum dos pais dos meus alunos tem uma mansão.- Não exatamente, mas alguns são muito bem de vida! SooJin, quer parar com o pessimismo e entrar lá como se, pelo menos, parecesse que você acha que é digna do emprego?Suspirei. Ela tinha toda a razão.- Eu sei, tudo bem. Eu... vou entrar agora. Quero chegar pelo menos alguns minutos adiantada, pra causar uma boa impressão. - Ok. Boa sorte. E confie em você mesma.- Obrigada, HaNa.Desliguei, me sentindo um pouco mais confiante do que quando ela havia ligado. Aproximei-me cautelosamente do portão, conferindo rapidamente se estava tudo certo com a minha roupa. Eu definitivamente não gostava daquela parte.Mordi o lábio e então, arrumando coragem, toquei o interfone.11h12min- Então, por último – a alta mulher de cabelo cuidadosamente preso disse, e eu me senti relaxar na cadeira, embora não fosse intencional – resta saber se o emprego a interessa e se você se considera capaz de exercê-lo.Ela sorriu, o que me deixou mais tranquila. Aquilo provavelmente significava que ela tinha gostado de mim.Na verdade, havia sido muito melhor e mais fácil do que eu esperava.Não havia nenhum segurança de óculos escuros querendo minhas credenciais na entrada do portão, ou um mordomo estrangeiro atendendo a porta, como eu havia fantasiado. A casa em si era bem menor e mais simples do que eu havia imaginado inicialmente – embora ainda fosse linda, eu tinha que reconhecer.Uma empregada me atendera, mas eu fora entrevistada pela própria dona da casa, que não era esnobe como eu havia imaginado. Ela tinha sua elegância, disso eu definitivamente não poderia discordar, mas até que era bem simpática e me fez sentir muito à vontade.E eu gostara muito da perspectiva do emprego, e, desde que entendera porque queriam me contratar, fiquei bem mais solta.- Eu me considero plenamente capaz – respondi, tentando não soar falsa, o que não era lá muito fácil porque eu não gostava muito de me elogiar. – E é claro que estou interessada, me sinto muito grata por essa oportunidade.Minha mãe é brasileira e meu pai é coreano. Eu morei no Brasil até meus dez anos, quando nos mudamos para San Francisco, nos Estados Unidos. Quando eu fiz dezessete anos meus pais sugeriram que eu fizesse intercâmbio na Coréia do Sul, já que eu sempre falei coreano, porque meu pai me ensinou, e que sempre gostei do país.Resolvi fazer faculdade aqui. Eu sei que poderia estudar Inglês em cursos melhores nos Estados Unidos, mas gosto daqui. Mesmo que eles ainda me vejam como uma estrangeira – e tenho a impressão de que sempre verão – eu sinto como se fosse o meu lugar.Atualmente, dou aulas particulares no tempo de folga da faculdade, para ajudar a pagar algumas contas. E essa mulher – Choi ChaYeon – queria me contratar para dar aulas para a filha adolescente dela. Mas não simplesmente dar aulas. A menina já havia passado por várias escolas de idiomas e já sabia a gramática... mas ainda não era capaz de se comunicar direito. Em resumo, ela queria que eu conversasse com a menina em inglês.Ser paga para conversar me parecia mais do que justo. Aliás, não podia parecer melhor.- Então... sinta-se contratada, Srta. Kim SooJin. MiYoung está na escola agora, de modo que não posso apresentá-las ainda, mas seria perfeito se já pudéssemos marcar o horário das aulas.- Tudo bem – eu respondi, sorrindo. Ela tinha me feito mais ou menos umas mil perguntas na última meia-hora, sobre praticamente minha vida toda. Eu não gostava muito de falar sobre mim mesma, especialmente com estranhos, mas naquela situação eu não parecia ter muita escolha.- Poderia ser nas terças e quintas-feiras, aqui em casa mesmo?- Claro – eu respondi. – Por uma hora, das cinco até as seis da noite?- Sim, seria perfeito. Então... acho que nos vemos amanhã.Eu entendi que essa era a deixa para que eu fosse embora. Alevantei-me e me curvei um pouco.- Até amanhã – eu respondi, e nunca havia pronunciado aquelas palavras com tanto alívio antes. Aquela meia-hora que eu havia passado ali parecia ter durado três dias.Quando eu estava saindo, me perguntei que tipo de menina MiYoung seria. Bem, por pior que fosse, não era como se eu não estivesse acostumada a lidar com adolescentes, embora a grande maioria – nem tão grande assim – dos meus alunos até então tivessem sido meninos.E, pelo salário que me pagariam, ela que fosse um monstro, se quisesse. Ainda valeria a pena.11h55minAssim que sentei à mesa do restaurante da universidade, me arrependi da minha decisão de não ligar para ninguém pedindo companhia para o almoço. Às vezes eu me confundo comigo mesma. Acho que quero ficar sozinha, mas não quero realmente. Só queria ficar com alguém que respeitasse minha necessidade de silêncio... Pensei em ligar para a Elken, porque ela geralmente não se importava se eu não estivesse afim de papo. Mas ela provavelmente ainda estava dormindo e, quando eu a visse novamente, certo que viria me xingar por ter passado o número de telefone para o tal vizinho. Não que eu tivesse tido outra opção, naquela altura caótica da minha manhã.Ela é estranha. Tem olhos hipnóticos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Às vezes eu tento fazer alguma coisa, mas não é tão fácil quanto parece. Por mais que eu goste dela, parece que ela não permite, então eu deixo as coisas como estão, porque não gosto de me intrometer na parte das pessoas que elas preferem deixar guardadas.Antes que eu me desse conta, puxei o celular do bolso e mandei uma mensagem para WooYoung, pedindo se ele queria vir e almoçar comigo. Ele respondeu logo depois, dizendo que tinha saído da aula e já estava a caminho. Eu sorri, recostando a cabeça no braço que estava em cima da mesa, com vontade de dormir. Olhei para a mensagem dele por algum tempo, pensativa.Eu tinha pensado em ligar para HaNa, mas ela iria querer conversar e eu não estava afim. Sabia que ela viria correndo, mas não entenderia minha necessidade de paz. Eu não a culpo por não entender. Ela não tem a obrigação de saber que ultimamente eu tenho a impressão de que alguma coisa está faltando e não sei o que é. Posso até ouvir o que ela diria “você sabe sim, SooJin. Fecha os olhos. Por mais que a gente diga que não, lá no fundo a gente sempre sabe.” Ela teria razão. Mas eu não queria fechar os olhos, porcaria nenhuma – pelo menos não para descobrir o que quer que fosse. Para dormir, talvez.- O que exatamente você está fazendo aí, olhando para o celular com essa cara de enterro?Olhei para cima, assustada, e sentei direito na cadeira. Então vi que WooYoung estava sorrindo, e sorri também.
- Ah, não era nada. Eu estou com sono – eu falei, me apressando em fechar a mensagem dele, antes que ele acabasse vendo e me achasse ainda mais estranha... não que tivesse muito mais para achar, sendo que ele era provavelmente a pessoa que me conhecia melhor naquele país todo.- Como foi a entrevista? – ele disse, largando a mochila numa cadeira e sentando em outra, de frente para mim.- Foi bem, melhor que eu esperava. Ela quer me contratar pra ter aulas de conversação com a filha adolescente dela.- Ah, então vai ser moleza – ele disse, brincando.- Espero que sim... ainda não conheci a menina.WooYoung sorriu.- O que pode ser pior de aguentar do que a HaNa?- Cala a boca! – eu protestei, embora soubesse que os dois se adoravam e que ele não achava aquilo de verdade. – Não, eu também acho que vai ser tranquilo.Ele olhou bem pra mim por alguns momentos. - Então o que é que está te preocupando?Droga. Talvez tivesse sido realmente melhor almoçar sozinha.- Nada. Nada que eu queira “fechar os olhos e descobrir”.Ele me olhou com cara de quem não tinha entendido. Fiquei esperando que ele fizesse mais alguma pergunta, mas ele não fez. Ao invés disso, simplesmente pulou da cadeira e me puxou pelo pulso em direção ao Buffet.- Pois eu desconfio qual é o seu problema, SooJin: fome. Garanto que não comeu nada a manhã inteira!Eu rolei os olhos – como se eu tivesse tido escolha sobre comer ou não, apressada como eu estava e com aquele vizinho maluco me atrasando mais ainda – mas deixei que ele me guiasse. 13h55minEu estava indo para a aula com WooYoung, que estudava música, quando HaNa nos alcançou, sorridente. Ela nem me deu tempo para pensar em dizer “oi”.- Kim SooJin, eu achei que você fosse me ligar quando saísse de lá! Já estava esperando que tivessem sequestrado você ou alguma coisa parecida-- Sim, seria tão típico, não é? – WooYoung debochou. – “Universitária vai para uma entrevista de emprego em uma mansão e terminada sequestrada pelos patrões”.Ela franziu o cenho. Sempre a achei muito bonita. HaNa tem um olhar marcante que, de alguma forma, ela consegue transformar de um charme quase infantil para uma espécie de explosão de feminilidade... enfim, algo que eu mesma nunca conseguiria. - O que ele já está fazendo aqui? – ela perguntou, me olhando.Revirei os olhos e recomecei a andar pela calçada que cortava o extenso gramado que separava o restaurante do bloco em que eu e HaNa teríamos aulas em uns dez minutos.- Nem comecem – eu reclamei e eles vieram andando em minha direção, WooYoung alcançando minha esquerda e HaNa a direita.- Como foi a entrevista, de qualquer forma? – ela perguntou.Foi a minha vez de franzir o cenho. – Você não recebeu minha mensagem? A que dizia que eu fui contratada?- Sim, mas quero saber os detalhes! Como era a casa? Você foi entrevistada por um mordomo estrangeiro?- Não que ela fosse ficar particularmente impressionada, sendo ela própria uma estrangeira – WooYoung me respondeu.- Obrigada por jamais me deixar esquecer – respondi, sem tentar esconder o tom de aborrecimento na voz.Ele sorriu.- Ah, para! Qual o problema em ser uma brasileira muy caliente?Levei alguns segundos para entender o que ele tinha dito.- Woo, acho que eu já te disse que isso é espanhol, e que no Brasil se fala português.- Ah, e qual é a grande diferença, afinal?- Eu vou falar em chinês com você, esperando que você entenda, e daí você me conta qual é a grande diferença – falei séria, mas sabia que ele perceberia que na verdade eu estava só brincando.- Deixa esse babo pra lá e me conta como foi a entrevista! – HaNa voltou a pedir, impaciente.- Bem, não tinha nenhum mordomo estrangeiro lá, mas tinha uma empregada... coreana, mesmo. A casa era muito bonita, mas acho que os portões eram ainda mais bonitos. Provavelmente para as pessoas passarem na rua e pensarem que ali tem um palácio.- Ou vai ver eles compraram os portões antes da casa e gastaram quase todo o dinheiro da obra neles – WooYoung tentou.- É, essa é uma boa hipótese – respondi, sorrindo. – Ainda não conheci minha aluna. Mas o nome dela é MiYoung, e tem dezesseis anos, então-Não cheguei a terminar a frase. Um grupo de garotos – quatro, talvez cinco, não lembro direito – vinha rápido na nossa direção, e só os notei quando estavam praticamente passando por nós. O mais adiantado deles estava quase correndo, com uma expressão dura no rosto. Antes que eu conseguisse avisar WooYoung, que ainda estava olhando para mim, e puxá-lo para o lado, o garoto passou por nós e bateu no ombro de Woo que, desavisado, caiu sentado no chão.- Ya! – HaNa gritou para ele, mas o garoto simplesmente continuou andando e nem sequer se incomodou em olhar para trás. Segundos depois os amigos dele – bem, pelo menos eu acho que eram amigos dele – nos alcançaram. Meu primeiro pensamento foi o de que eles eram todos realmente altos, pelo menos pelos padrões de altura coreanos. Deviam ser uma espécie de gangue, embora não parecessem com membros de gangue, todos impecavelmente vestidos. Aquilo me irritou instantaneamente. Se tem uma coisa que me irrita nessa universidade são esses babacas que se acham melhores do que os outros.WooYoung olhou para mim confusamente. Fiz um gesto de estender a mão para que ele se levantasse do chão, mas um dos garotos foi mais rápido.- Hey, Woo! – o desconhecido disse, sorrindo, enquanto os outros se apressavam atrás do primeiro, correndo para alcançá-lo. O mais surpreendente, no entanto, foi ver WooYoung retribuindo o sorriso e aceitando a mão que o outro lhe estendia. – Você está bem?- Hm, acho que sim. O garoto pareceu constrangido. – Desculpa, ele só...- É um idiota? – HaNa completou, sorrindo cinicamente para o garoto.Não me contive e olhei para trás quando ela disse isso. Não conseguia ver muito do garoto que havia trombado em WooYoung, só que era alto como todos os outros e que tinha cabelo escuro. - Deixa isso pra lá – WooYoung disse, olhando para ela com uma cara de quem preferia que ela ficasse quieta. – Eu estou bem.Olhei para o garoto que estava ao meu lado, me sentindo um pouco assustada. Ele notou e sorriu para mim. Não parecia ser uma má pessoa, embora nunca se sabe.- Bem, então eu... é... – ele disse, e apontou para o grupo com o qual ele viera, ainda olhando para mim. Subitamente tímida, me limitei a acenar levemente com a cabeça e sorrir um pouco. Ele aumentou o sorriso em seu próprio rosto e saiu apressado na direção dos demais.- Você está bem mesmo? – perguntei, girando meu amigo pelos ombros para verificar se ele estava inteiro.- Claro que sim, foi só um tombo.- Quem era aquele? – HaNa perguntou, no momento em que recomeçamos a andar. Quando olhei para ela percebi que ela ainda olhava para trás, na direção deles, com o cenho franzido. – O que bateu em você.WooYoung deu uma risada debochada.- Hwang ChanSung.- E você o conhece? – ela pediu.- Já ouvi falar. Muita gente por aqui gosta dele. E muita gente não gosta, também.- Eu posso imaginar o motivo – eu disse, seca. – E o outro garoto, é um amigo seu?- Não exatamente, a gente se conhec-- Olha lá, Woo, não é a JiEun*? – HaNa o interrompeu, sorrindo e apontando para algum lugar perto da porta do bloco, do qual já estávamos bem próximos.Estreitei os olhos, procurando por ela ao mesmo tempo em que WooYoung.- Vem, vamos lá falar com ela! – HaNa continuou sem esperar por resposta, puxando-o pelo braço na direção da garota.- Claro que não, tá louca? – ele puxou o pulso que ela segurava.Ela olhou para ele com uma expressão dura no rosto. – Até quando você pretende continuar fugindo dela?- Eu não estou fugindo!Tecnicamente, ele estava fugindo, mas eu não disse nada, porque sabia que não adiantaria. JiEun estudava Língua Inglesa, assim como eu e HaNa, e nós costumávamos fazer trabalhos em grupo com ela. Já fazia algumas semanas que WooYoung estava afim dessa garota e, embora eles já tivessem saído algumas vezes, ele continuava a evitá-la sempre que possível.Por mais que eu tentasse, não entendia o que ele estava tentando fazer, e isso de certa forma me incomodava. Ele não me dizia se gostava mesmo dela, o que já não era uma atitude muito típica, e aquilo me deixava mais do que desconfortável. Eu os tinha apresentado, afinal. Por mais egoísta que fosse, não me agradava saber que ele não estava comentando comigo o que acontecia.- Nós temos que ir pra lá de qualquer forma, a aula já vai começar – comentei, distraída, olhando brevemente para JiEun. - Vocês tem que ir, né? Esse não é o meu bloco.HaNa continuou olhando feio para ele.- Desse jeito vocês dois nunca vão sair dessa, seu palerma! Agora vá lá e faça alguma coisa!- Não!- Jang WooYoung! – ela exclamou, muito mais alto do que mandava a etiqueta, e várias pessoas ao nosso redor se viraram para nos olhar. - Deixa ele, HaNa. Sabe como ele é teimoso – eu disse, em voz baixa, tentando disfarçar. Eu sempre detestei a sensação de que as pessoas estão me observando.- Tudo bem, então – Woo disse. – Mas vamos só passar por ela e cumprimentá-la. Nada de parar para conversar.HaNa deu de ombros, parecendo irritada. Quando começamos a andar, porém, ela deu a volta e ficou do meu lado direito, para que Woo passasse diretamente ao lado de JiEun. - Oi! – ela sorriu, assim que viu que nos aproximávamos. Eu não entendo por que Woo queria fugir dela, porque ela não é o tipo de pessoa que amedronta os outros. É linda, sim, mas nem parece se dar conta disso, além de ser simpática com todo mundo.- Oi – respondemos, em coro. Já estávamos quase passando por ela quando ela continuou.- Meninas – eu e HaNa nos viramos automaticamente. WooYoung fez menção de continuar andando, mas eu o segurei pelo pulso — vocês sabem se o trabalho de literatura é pra apresentar na semana que vem ou na próxima?- Hm... não – HaNa respondeu.- Acho que é só pra outra semana. Na aula passada a professora não disse nada... – eu disse. - Então acho que sim – ela sorriu, e olhou para WooYoung, que fitava seus sapatos com muita atenção. – Woo, eu soube que os alunos de música vão fazer uma apresentação na semana que vem.Ele olhou direto para ela, sorrindo um pouco, e a expressão no rosto dele fez com que eu sentisse um desconforto no estômago. Nem adiantava fingir pra mim mesma que eu não sabia que aquilo era ciúmes.- Sim, na sexta-feira. Você vai?- Hmm... você vai estar na apresentação? – ela pediu, e por um momento muito confuso imaginei meu punho voando até o olho dela. Foi só por um momento, no entanto, e depois disso me senti ainda mais confusa.- Sim – ele disse, e desta vez o sorriso se ampliou totalmente. – E eu adoraria que você fosse.- Claro – ela respondeu, sorrindo para ele. Ele parecia que ia desmaiar. – Vou fazer isso, sim.- Só não vá esperar muita coisa – ele piscou para ela, e ela riu. Pra quem estava todo apavorado, até que ele estava se saindo bem. Bem demais, eu diria.- Bom... a gente tem que ir pra aula – HaNa disse. – Até mais.- Até – ela respondeu, voltando-se para continuar a conversar com as amigas dela.Não estou muito melhor desde então, e sequer consigo prestar atenção na aula. Acho que hoje meu humor não vai melhorar muito – embora eu seja uma pessoa fácil de agradar. Só que parece que ultimamente nem o pouco que eu precisaria para me animar vem acontecendo. Não era por causa de WooYoung, nem de nada. Eu só... queria que alguma coisa acontecesse. Queria que as coisas mudassem na minha vida, mas não sei o que fazer. Voltar pros Estados Unidos? Pro Brasil? Me deu uma vontade louca de sair falando português... bom, pelo menos ainda posso escrever.Procurei minha agenda na bolsa para anotar a tarefa que a professora passou e achei as folhas de anotações que eu tinha feito sobre as aulas que eu iria começar a dar para aquela menina. Corri os olhos rapidamente por elas, mas então alguma coisa me chamou a atenção, na primeira linha. O nome dela.Hwang MiYoung. Engraçado. Não é o mesmo sobrenome que o do garoto que havia esbarrado em WooYoung? É bem comum, mas só por via das dúvidas, é melhor desejar que minha mais nova aluna não resolva ter um gênio parecido com o dele...
Notas finais
* É a IU xDDDD Eu achei que colocar "IU" ia ficar meio forçado, então acabei optando pelo nome verdadeiro dela :)
N/A: bem, gente, aqui está o/ Não tá tão bom e nem tão divertido quanto o da Elken eu não escrevo tão bem quanto ela, afinal xD, mas eu gostaria muito que vocês comentassem dizendo o que estão achando ^^
Annyeong ~
Tati :)
N/A: bem, gente, aqui está o/ Não tá tão bom e nem tão divertido quanto o da Elken eu não escrevo tão bem quanto ela, afinal xD, mas eu gostaria muito que vocês comentassem dizendo o que estão achando ^^
Annyeong ~
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