Diary
4 SooJin´s Diary - 13 de Maio de 2011
11 de maio de 2011, 15h20min
Eu estava quase dormindo durante a aula, quando meu celular vibrando dentro do estojo me fez dar um pulo na cadeira. Olhei ao redor, preocupada, mas todos pareciam igualmente sonolentos – exceto umas três pessoas lá na frente, que olhavam para a professora como se ela fosse uma espécie de deusa. Tinha uma senhora que passava a aula toda balançando a cabeça num gesto de afirmação, provavelmente querendo demonstrar como ela estava entendendo bem o conteúdo pra ganhar alguns pontos. Acho que é mais fácil ela ganhar um torcicolo, desse jeito. HaNa, do meu lado, parecia fitar os cabelos da colega da frente com tanta atenção que tenho quase certeza de que ela estava dormindo de olhos abertos.Peguei apressadamente o celular, porque aceitaria qualquer coisa que me desse uma boa desculpa pra sair dali por alguns minutos.Assim que olhei para o nome que piscava na tela eu tive um pressentimento de que não podia ser boa coisa, mas decidi tentar a sorte.- WooYoung? – eu disse, atendendo a ligação. Saí silenciosamente da sala de aula, para não atrapalhar a professora que falava sem parar há quarenta minutos, no mesmo tom de voz e com a mesma cara de peixe morto.- Oi, SooJin. Tudo bem?Suspirei.- Estou na aula de Sociologia da Educação. A matéria é um saco. A professora é um zumbi. Pergunta se podia ficar pior.Ele riu.- Eu só queria desejar boa sorte no seu primeiro dia de trabalho.Hesitei.- Obrigada, Woo... Mas nós não combinamos de nos ver depois que a aula terminasse? – eu não podia estar fantasiando que a gente havia combinado, podia? Por outro lado, eu ando fazendo tanto disso...- Bom, na verdade eu... hm... a JiEun ligou e... – ele parecia reticente.Eu engoli em seco. Ah, claro. Não precisava que ele terminasse a frase. – Ah... Tudo bem – embora não estivesse tudo bem, estivesse muito longe de estar tudo bem. - Algum problema? – ele perguntou. Claro que ele tinha notado o meu tom de voz. Eu não consigo disfarçar quando alguma coisa me incomoda, parece que minha garganta fecha e o ar não tem como sair por ela.- Não, imagina. Saia com ela, e divirta-se – tentei soar normal, embora não tenho certeza de que tenha funcionado.- Okay. A gente pode se ver amanhã, o que você acha?- É, vamos ver. Eu... tenho que voltar pra aula. Tchau, Woo.E desliguei.20h45minMe senti muito mais nervosa do que gostaria de me sentir quando entrei novamente naquela casa enorme e linda. O barulho do meu sapato ecoava ruidosamente por todo o lugar enquanto eu andava atrás da empregada, e aquilo estava me incomodando. Pressenti que devia ser TPM. Eu estava muito irritada desde o dia anterior, e aquilo não era muito normal. Fora o sentimento de que meu cabelo estava horrível, minha roupa não era adequada, o material que eu trouxera comigo não agradaria a garota – na verdade, pelo combinado em si eu sequer precisaria de material, mas decidi coletar alguma coisa do mesmo jeito, caso fosse necessário – e, principalmente, a certeza de que MiYoung seria uma bruxa em um corpo de adolescente.Não é assim em todos os filmes, afinal? Ou ela deveria ser mimada, ou devia ser estranha e nem abrir a boca. Ela podia se vestir toda de preto e ter o cabelo raspado, vai saber. Uma garota normal? Impossível. Aliás, agora que eu pensei no assunto: o que seria uma garota normal? Existe uma garota normal? Eu não sei, mas na hora era tudo o que eu mais desejava encontrar. Agora me parece ridículo que eu desejasse uma coisa que eu nem acho que existe. Enfim.Quando a porta se abriu – primeiro eu achei que fosse outro escritório, já que não era o mesmo cômodo da outra vez que eu estive ali, mas depois vi que era uma espécie de biblioteca – cheguei à conclusão de que a opção certa era provavelmente a primeira. Ela me pareceu uma patricinha mimada.Por um momento quis que ela se vestisse toda de preto e tivesse a cabeça raspada.Eu tenho um certo problema com adolescentes, sabe – não todos eles, na verdade, mas alguns. Quando eu olho para garotas como a MiYoung – lindas, ricas, bem vestidas, autoconfiantes – eu lembro de quando eu era adolescente. Ok, eu tenho vinte e um anos, não é como se eu já tivesse esquecido como é ter dezesseis... Embora esteja caminhando para isso. Enfim, eu olho para elas e lembro de quando eu era adolescente e não preenchia nenhum daqueles requisitos. Como a minha falta de autoestima e timidez não me deixavam sequer conversar com aquelas garotas sem gaguejar e me sentir horrenda. Não que eu quisesse ser amiga delas, na verdade elas nunca sequer me interessaram, eu só... me sentia inferior. Tudo bem, “me sentia inferior” soou realmente dramático, mas era por aí. O ponto é que hoje eu cresci e apareci, não tenho mais nem metade da timidez que eu costumava a ter – acho que é uma dessas coisas que a gente perde com o tempo, uma das melhores delas – mas quando eu me deparo com essas adolescentes, ainda hoje eu travo e não consigo agir naturalmente. Quero dizer, como entender algo que eu nunca fui?
O fato é que lá estava MiYoung, olhando pra mim com aqueles olhos enormes. Ela é como uma boneca, dá pra imaginar? Pequena, pálida, rosto redondo, cabelo castanho bem cuidado e ondulado nas pontas, com um vestido cinza estampado e uma boina verde tão bonita que tive vontade de roubar pra mim.Eu sorri, nervosa. Não, pensei comigo mesma, se você demonstrar que não se sente a vontade na presença dela ela vai ter motivos pra não gostar de você. - MiYoung? – eu pedi, caminhando hesitantemente para dentro do cômodo, enquanto a empregada saía para nos deixar a sós.Ela me olhou de cima a baixo. Foi horrível.- Você é diferente do que eu achei que seria – disse, parecendo pensativa.- E isso é uma coisa boa ou ruim? – consegui perguntar, tentando fazer com que minha voz não tremesse.Ela sorriu, embora não fosse o sorriso mais acolhedor do mundo.- Bom, eu esperava que você tivesse uns oitenta anos, como o resto das minhas professoras... Então eu espero que seja uma coisa boa.Relaxei um pouco. Nesse momento ela não pareceu tão ruim – podia ter sido pior, afinal. Ela podia ter dito que eu parecia ter oitenta anos, ou alguma coisa assim. E pelo menos ela estava sorrindo.Avancei mais alguns passos e depositei meus materiais na grande mesa de madeira maciça que havia ali.- Podemos sentar aqui? - Claro – e, então, fez uma careta. – Eu vou ter que escrever muito?- Não, a não ser que você queira. – Ela negou com a cabeça, sentando-se em uma das cadeiras. Eu sentei na que estava mais próxima dela. – Sua mãe disse que você tinha mais dificuldade em conversação.Ela deu de ombros. – É.- Então vamos focar nisso... vou te passar alguns sites que vão te ajudar, mas fora isso... não, você não vai precisar escrever. Ela me olhou e assentiu. - Bom, você ainda não me disse o seu nome.Interpretei aquela curiosidade como uma boa coisa. A aula em si transcorreu bem. Eu acho que MiYoung é um caso típico de adolescente que estuda inglês obrigada pelos pais. Com certeza ela acha que poderia estar usando o tempo da aula para coisas mais úteis, como ir passear no shopping, dar uns amassos em algum carinha bonito da escola-Tudo bem, acabei de me dar conta de que estou sendo ridícula e preconceituosa. E todo aquele papo sobre respeitar as diferenças e não pré-julgar as pessoas? Não estou só sendo ridícula e preconceituosa, mas hipócrita também. Eu tenho que parar de ficar achando defeitos em todo mundo... É por isso que é tão difícil eu me aproximar de verdade de alguém. Saí de lá sem saber direito sobre o que esperar, a despeito do tempo que passamos conversando – em inglês, é claro, o que não me deixou conhecer muito sobre ela. Falei um mais sobre mim e ela me pareceu ser uma garota bastante curiosa. Isso me surpreendeu porque, de repente, eu descobri que tínhamos alguma coisa em comum. Quando eu contei que sou brasileira, ela disse que já viajou para lá duas vezes, nas férias, porque a empresa do pai dela tem uma filial bem grande no Brasil. Isso me fez reparar novamente quão grande era minha vontade de voltar pra lá. Mas é melhor ignorar as coisas que eu sei que não posso fazer, pelo menos por enquanto.Estou com coisas demais na cabeça, mas continuo com a impressão de que nenhuma delas parece importante o suficiente. MiYoung, a faculdade, o Brasil... e WooYoung, que não deveria ser uma preocupação. Mas nem quero pensar nisso agora. Acho que vou ver se a Elken está por aí e tentar conversar com ela... Esse sentimento de solidão não é bom...12 de maio de 2011, 14h10minNão tenho aula hoje de tarde, então resolvi passar algum tempo na biblioteca. Era pra eu estar lendo, mas preciso aliviar um pouco – aliás, é isso que um diário significa pra mim, por mais ridículo que possa parecer: o lugar aonde eu posso aliviar o que eu estou sentindo. É como desabafar com alguém real, sem o perigo de se arrepender de ter falado, depois.De qualquer forma, HaNa me ligou hoje de manhã, quando eu havia acabado de acordar. Conversamos um pouco sobre a aula de ontem e sobre a MiYoung, mas logo o assunto recaiu naquilo que eu estava tentando evitar falar sobre: WooYoung.- Chegou a falar com o Woo?- Não...- Ele me ligou pra falar sobre o encontro que teve com a JiEun ontem – ela disse.Eu suspirei e me escorei na parede, sentindo minhas costas protestarem pela posição desconfortável em que me encontrava, sentada na cama. - O que ele disse?- Que vai pedir pra namorar com ela.Mordi o lábio inferior. Não sei que parte da notícia foi pior. Ele ter decidido pedir a garota em namoro ou ele não ter sequer me dito que pretendia fazer isso. Embora talvez o meu comportamento esteja refletindo no comportamento dele comigo, ainda assim... ele está agindo como se eu não o conhecesse.E eu o conheço desde que vim para cá, no intercâmbio, na minha turma da escola. A vida não é fácil para um estrangeiro aqui, não adianta fingir que é. Mas lá estava WooYoung, onde eu achei que não haveria ninguém, e de repente eu não estava mais sozinha. Conheci – conhecemos – HaNa depois, quando eu comecei a faculdade e todo aquele bando de dificuldades – com a língua, com a cultura, com a minha própria auto-estima – já tinham sido resolvidas, com a ajuda dele. Se não fosse ele, eu nem sei... E agora...- SooJin? – só quando ela me chamou que eu percebi que a tinha deixado sem resposta.- Anh... bem, isso é... bom. Eu acho. Ela ficou calada por alguns minutos.- Eu não entendo você.- O que foi? – perguntei, arregalando os olhos. O tom dela era de censura, mas uma censura séria, que eu raramente a via usar.- Já não passou pela sua cabeça que você só se sente desse jeito sobre ele porque está carente?- Do que você está falando? – embora, óbvio, eu soubesse do que ela estava falando, muito melhor do que ela mesma.- Que... bom, que talvez você não se sentisse incomodada com o fato de que ele está saindo com alguém se você estivesse saindo com alguém.HaNa está chegando lá, eu acho, mas esse ainda não é o ponto. E eu sou reservada demais para dizer para ela o que realmente está acontecendo. Aliás, eu me sinto ridícula até mesmo em escrever isso, mas já que eu preciso me dar a liberdade de no mínimo ser franca comigo mesma, vou tentar.Eu não estou com inveja de que WooYoung tem alguém e eu não, como HaNa estava dizendo implicitamente. Eu estou... carente, como ela mesma diz – só Deus sabe como eu odeio essa palavra, principalmente quando ela se aplica a mim mesma – e WooYoung está aqui, sempre esteve e então... Eu não sei. Parece que eu simplesmente não consigo mais separar as coisas. Não foi o que eu disse para ela, no entanto. Apenas fingi que era o que ela estava implicando que fosse... E, francamente, eu conheço a HaNa. Ou eu mudo de atitude, ou ela vai sacar sem demora o que está realmente acontecendo por ela mesma.- Em outras palavras, eu devia arrumar uma vida própria pra me preocupar e parar de me importar com a dos outros.- Dizendo dessa forma até que parece meio rude, mas sim, basicamente.Suspirei.- Mas eu não quero um homem na minha vida.- Sim, você e a Madre Tereza de Calcutá – ela respondeu rindo. – SooJin, querida, aí está uma coisa que todas as mulheres querem, mesmo as que acham que não querem: um homem.Não discordei dela na hora porque eu sabia que iríamos começar uma discussão que duraria semanas, mas não concordo. Tudo bem, pode ser que no meu caso, láaa no fundo, eu realmente queira um homem, nem que seja um só pra passar o tempo, mas essa generalização que ela tinha acabado de fazer fere profundamente meus instintos feministas. Tenho certeza de que tem muitas mulheres por aí que não querem porcaria nenhuma e que são felizes assim! Eu não quero querer um homem. Aliás, sinto um profundo respeito pelas lésbicas do mundo, que não sofrem dessa sensação ridícula que é querer um homem. Se bem que elas devem ter seus próprios problemas com mulheres, também. Enfim, viajei de novo.- Bom, não ia ser exatamente ruim ter alguma coisa acontecendo – pra que eu não precisasse ver meu próprio melhor amigo com olhos de predadora, quase acrescentei.
- SooJin, você é linda. Se parasse por algum tempo de lutar contra o que você sente e estabelecesse melhor suas prioridades, sua vida seria muito mais fácil.- O que você está querendo dizer? – perguntei, sem ter certeza de que queria saber.- Não tem nada de errado em criar oportunidades para que alguém apareça na sua vida, sabe.Não. Ainda me parece extremamente ridículo.- Deixa isso pra lá – suspirei. – Tenho que ir tomar banho e sair pra almoçar. Eu vou tentar... ligar para o Woo e agir normalmente com ele.- Você devia mesmo fazer isso. Porque ele está feliz.Já faz umas três horas que isso aconteceu, mas ainda não consegui parar de pensar no assunto – outro sinal de que eu provavelmente deveria arrumar o que fazer da vida, se estou perdendo tanto tempo pensando numa coisa tão estúpida.É ridículo me sentir desse jeito sobre WooYoung, porque... ele não é uma opção. Não é alguém pelo qual eu possa ou não estar apaixonada. Se houvesse outra pessoa – não precisava ser um relacionamento, uma simples paixonite já resolveria o problema – eu não estaria me sentindo desse jeito por causa dele.É claro que eu me preocuparia com quem ele está namorando se não gostasse da pessoa, mas JiEun é uma garota legal. E eu sei disso porque eu os apresentei, na época em que eu estava saindo com um idiota e não tinha outras ideias na cabeça.Ele é meu melhor amigo. A nossa amizade é a relação mais importante que eu mantenho com qualquer pessoa desse lado do globo. Transformar essa relação de quase fraternidade em uma obsessão doente é ridículo. Simplesmente ridículo. Talvez HaNa tenha razão. Eu deveria, sei lá, criar alguma oportunidade pra conhecer alguém – nem precisa ser alguma coisa drástica, como um anúncio no jornal. Eu poderia simplesmente ir pra alguma festa, um final de semana desses. Mas, de novo, eu ia me sentir ridícula se fizesse isso. Como se eu tivesse que ter alguém. Especialmente porque todos os garotos que eu já conheci em festas na minha vida eram idiotas completos. Eu tenho o dom de atrair ou idiotas, ou aqueles que não tem futuro nenhum na vida. E quando, por acaso, ele não é nem uma coisa nem outra, então ele vai acabar descobrindo que não gosta de mim.De qualquer forma, alguma coisa vai ter que acabar acontecendo. Ou eu vou ficar louca – mais louca do que eu já sou.23h30minEncontrei WooYoung sem querer, na saída da aula. Quero dizer, ele estava lá esperando por mim, então não foi exatamente sem querer, mas eu não achava que ele estaria lá.Sorri para ele, que estava escorado do outro lado da parede, e estava prestes a passar reto, achando que ele viera até ali para falar com JiEun, quando ele me chamou, soando indignado.- SooJin, vai me deixar plantado aqui?Eu parei de andar, assustada. Merda! Comecei a rir. Nem sei o que deu em mim, mas subitamente aquela situação me parecia muito engraçada.- Ah, Woo... – eu comecei, tentando parar de rir, o que não estava acontecendo – D-desculpa, eu achei... eu achei que...Nesse momento JiEun saiu da sala, e eu me apoiando com uma mão no ombro dele e a outra na barriga, rindo feito uma doida lá. Não sei a cara que ela fez, porque meus olhos lacrimejavam, e também não estou interessada.- Oi, Woo – ela disse, e de repente eu não tinha mais a mínima vontade de rir, quando ela o chamou pelo apelido. Mas continuei rindo um pouco, só de maldade mesmo, pra deixar ela se perguntando qual era o motivo. É. Pode acreditar.- Oi – ele respondeu, sorrindo. Eu ainda não conseguia enxergar muito bem, mas posso dizer pelo tom de voz dele quando ele está sorrindo.Mas ela não ficou lá, pelo menos. Eu não sei o que eu faria se ela ficasse. Provavelmente teria um ataque de ciúmes – a conversa que eu tive com HaNa pela manhã não resolveu nada, aparentemente – ou outro ataque de riso, ou alguma doidice qualquer.- Hm... eu estou com um pouco de pressa... Até amanhã – ela falou, sorrindo, e continuou andando.- Até – respondemos, em uníssono.Quando ela já estava longe o suficiente, WooYoung perguntou, rindo: — O que foi que te deu?- Não sei – eu falei, secando os olhos. – Desculpa por quase ter passado reto por você, é que eu achei que você tinha vindo até aqui por causa da JiEun, então eu-- Sim, como se eu tivesse decorado os horários dela!Finalmente consegui ficar totalmente séria.- HaNa me disse que você vai pedir pra namorar com ela. Eu não queria atrapalhar nada, se essa fosse a grande hora – não consegui retirar todo o tom de sarcasmo que a frase possuía originalmente, na minha cabeça. E, pior, acho que ele percebeu.- Eu ia te contar isso agora – ele disse, na defensiva.Eu suspirei, sem ânimo pra discutir aquilo. – Tudo bem. Mas e aí, quando vai ser?Dessa vez eu consegui soar realmente animada, e ele abriu um sorriso lindo pra mim. Que era por causa de outra garota, mas ainda assim era pra mim.- Eu não sei. Pensei em ligar pra ela e marcar alguma coisa pra amanhã, mas tenho que confessar que estou em pânico. - Naaah, você vai ter que parar de ter medo, uma hora ou outra. – Não faço ideia de por que dei esse conselho, mas achei que seria muito egoísmo da minha parte incentivá-lo a não pedir ela em namoro. - Mas e se ela não aceitar?- É um risco que você tem que correr. A não ser que prefira esperar que ela peça pra namorar contigo.- É. Infelizmente, tem certas coisas que um homem precisa fazer.Olhei indignada pra ele, embora eu tivesse certeza de que o único propósito daquele comentário era me irritar. Ele sempre fazia aquilo.- Você não tem que pedir pra namorar com ela porque é o homem da relação! Você vai pedir pra namorar com ela porque quer isso!Ele riu.- Como se você fosse pedir algum cara em namoro.- Bom, eu não faria isso porque sou tímida, não por ser mulher!Ele franziu o cenho, pensativo. – Mulheres com iniciativa são sexy, sabe. - Quem me dera ter alguma iniciativa, então! – reclamei, derrotada, mais para mim mesma do que para ele.WooYoung olhou pra mim por alguns segundos. Eu já estava começando a me dar conta de que tinha falado a coisa errada.- SooJin... – ele começou, devagar. – Quer que eu te apresente algum amigo meu?Nossa! Se eu tivesse um martelo ao meu alcance naquela hora, juro que ele teria voado na cabeça de WooYoung! Respirei fundo umas mil vezes antes de responder.- O que você está insinuando? – eu estava tentando manter a calma.- Nada! Só estou querendo ajudar!- E eu pareço alguém que precisa ser ajudada?! – perguntei, muito mais alto do que eu deveria.Ele me olhou desconfiado.- Isso é TPM, não é?Pior que era.- Sim, e é por esse motivo que eu estou indo embora, antes que não sobre mais WooYoung pra pedir pessoa nenhuma em namoro. Tchau.Dei as costas a ele e fui embora, sem esperar resposta. Acho que ele percebeu o meu estado, porque não tentou vir atrás de mim. Um amigo dele! Vê se pode? Eu no auge da minha solidão e a criatura vem me dizer que vai me apresentar um amigo? Faça-me um favor, então agora foi isso que eu virei? Um objeto pra ele apresentar pra uma droga de amigo que eu não quero conhecer? Se é que existe algum amigo, mais parece que nem ele sabe quem ia me apresentar. Será que eu pareço assim tão infeliz e desesperada? Ele nunca tinha oferecido nenhum amigo antes! Aliás, sempre que eu conhecia alguém ele ficava só colocando defeitos na pessoa. Maldita JiEun saída do inferno e maldita hora que eu resolvi apresentar eles dois!Estava tão nervosa que nem olhava por onde eu estava indo, então acabei esbarrando em alguém pelo caminho. Ergui os olhos pra ver quem era – um garoto, e me chamou atenção por ser extremamente bonito e um pouco familiar.Ele ficou olhando pra mim, então eu me curvei um pouco e murmurei um “desculpa”. Ele sorriu – não foi um sorriso muito amigável, no entanto. Na verdade, foi bastante cínico. Continuei meu caminho, e mal havia dado três passos quando um garoto ao meu lado gritou “ChanSung!” na direção do garoto em que eu havia batido. Então a compreensão me atingiu, e entendi porque ele parecera familiar. Era o idiota que havia esbarrado em WooYoung no outro dia – ainda lembro do nome dele porque ele tem o mesmo sobrenome da MiYoung. Bom, ele deve ser do tipo que esbarra em todo mundo, mesmo. Apesar de ser bem gostoso. Enfim, estou saindo do assunto.Eu nem sei se esgano alguém ou me encolho na cama e choro. Eu sei que é a TPM que está me deixando desse jeito – é típico, afinal – mas saber disso não faz com que eu me sinta melhor.E o pior: WooYoung veio falar comigo numa boa e eu, idiota, briguei com ele em uns dez minutos. Agora é bem capaz de ele nunca mais querer me dizer nada, mesmo. E ainda vou ter que dar a razão pra ele.Se nem eu me aguento mais, tenho pena das pessoas que convivem comigo.13 de maio de 2011, 21h40minQuando eu cheguei na casa de MiYoung para nossa segunda aula, ela ainda não estava. A empregada me disse para esperar uns dez minutos, então eu coloquei minhas coisas em cima da mesa e sentei. Logo, porém, comecei a sentir um tédio desgraçado.Vamos lembrar que eu estava na biblioteca da casa, e que haviam várias prateleiras cheias de livros ali. Quem foi que disse que eu consegui resistir, então? Eu sabia que ficaria muito chato se ela entrasse e me achasse xeretando as estantes – eu era só a professora, afinal, não uma visita – mas não consegui continuar parada no lugar.Levantei e caminhei em direção à primeira, observando com atenção as lombadas. Havia alguns livros em inglês lá no meio, e tive que me controlar para não pegá-los. O cômodo não era muito grande, mas eu diria que tinha o tamanho ideal. Eram quatro estantes, duas em cada parede. A enorme mesa no meio e uma janela na parede oposta à porta. Vi alguns porta-retratos em cima de uma mesinha entre duas estantes e caminhei para lá, curiosa. Aliás, minha curiosidade é uma coisa muito difícil de satisfazer.A primeira foto era só de MiYoung, linda como uma boneca. Na seguinte ela estava com a os pais – quero dizer, presumo que aquele senhor fosse o pai dela. Na outra, os pais dela estavam com um garoto que parecia ter uns 13 anos, mas a foto era mais antiga que as demais, então eu supus que ela deveria ter um irmão mais velho. Na última foto, minha suposição provou-se certa. Parecia bastante recente, e MiYoung estava sentada ao lado de um rapaz mais velho. Alguma coisa se remexeu dentro de mim quando vi a foto, então peguei o porta-retrato e o aproximei de mim. Aquele garoto era surpreendentemente parecido com Hwang ChanSung. Eu sorri, sem querer acreditar. Era o que me faltava. Admirei a beleza dele por alguns segundos, e depois cheguei à conclusão de que não parecia tanto assim, e que talvez simplesmente não fosse ele. Bem, caso não fosse ele talvez MiYoung pudesse nos apresentar.Coloquei o retrato de volta e sentei novamente. Alguns minutos depois ela chegou, parecendo alegre, e começamos a conversar em inglês. Ela parecia mais confortável do que na aula anterior, e acho que eu também estava mais segura, de forma que a conversa fluiu muito melhor. Ao invés de ficar monologando sobre mim, comecei a fazer algumas perguntas sobre ela, para que falasse mais. Coisas banais como o que ela gostava de fazer, que tipo de músicas ela ouvia, o que queria ser no futuro.Fiquei com aquele garoto na cabeça, entretanto. Seria muita coincidência eu vê-lo no campus duas vezes em uma semana e então ir dar aulas para a irmã dele. Para acabar com a dúvida resolvi arriscar uma pergunta. Eu não tinha nada a perder, de qualquer forma.- Do you have any brothers or sisters? - Yes, a brother. Franzi o cenho. Um irmão. - What’s his name? - ChanSung – ela respondeu, sorrindo. Posso jurar que meu coração pulou uma batida. Então eu estava certa. Só podia ser ele.- Ele é mais velho? – disse, na hora, sem sequer me dar conta de que eu havia voltado a falar em coreano.MiYoung sorriu e levantou-se da cadeira, pegando o mesmo porta-retratos que eu havia observado mais cedo. Ela apontou para o garoto alto e bonito ao lado dela.- It’s him. E, como se aquilo fosse proposital, na mesma hora a porta do escritório abriu e a versão real do garoto na foto passou por ela.
Notas finais
N/A: MIL DESCULPAS PELA DEMORA. Eu estou realmente sem tempo ultimamente T_T
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