Diamantina

12 Segunda parte: Mitchell — Capítulo 12


Notas iniciais
Boa leitura! Nos vemos nas notas finais.

O sujeito do qual estava desconfiada mostrou-se uma ameaça ainda maior quanto treze novos pacientes mudaram-se para minha ala. Deste modo, o barulho noturno triplicou. Talvez estivesse com pressa de terminar o que havia para finalizar. Nesta noite, alguma das enfermeiras que estiverem de plantão, levar-me-á para uma pequena volta aos corredores da clínica, e eu poderei finalmente sair deste pequeno cômodo num dia razoavelmente ensolarado. Até que a esperada hora chegasse, teria de ocupar-me praticando qualquer que fosse o ato, afinal, paciência jamais fora minha principal virtude (se é que algum dia já fora uma delas).

Sentei-me no canto do cômodo e suspirei, incerta de meus pensamentos. Como pude deixar tudo para trás? Família, colégio, amigos. Tantos sonhos que mal posso contá-los. Quanta coisa jogada por um deslize. É o que me faz perguntar todos os dias quando levanto-me deste colchão raso e inconfortável. O quanto podemos agüentar, até que nada mais em nossa vida faça o mínimo sentido? Minha nossa, acabo de perceber que preciso urgentemente d'uma noite de sono. Meus olhos estão profundamente inchados e vermelhos, tão horríveis quanto meu estado corporal. Guiada por este pensamento, deitei-me e cobri meu corpo com um fino cobertor, evitando ter de cozinhar naquele pequeno lugar. Em pouco tempo, adormeci por completo. Não pude pensar ou sentir pelo resto da tarde, presa n'um sonho ainda mais estranho que os já existentes.

Estava sentada sobre a grama mais verde e fresca que já vira, tão linda que se torna indescritível. Lembro-me de ver uma parecida no natal do ano retrasado, quando nos mudamos para conhecer minha nova prima. O quintal da casa de tia Beth, revestia-se por um espetacular gramado, vivo e corado. O céu, igualmente incrível. Dezenas de pássaros cantavam e sobrevoavam n'uma perfeita sintonia, tornando-se extremamente superficiais. Era uma maravilhosa música para meus ouvidos. No entanto, aquele não era o sonho do qual deveria orgulhar-me, pode-se dizer. O motivo, de fato, é o que torna-o tão estranho quanto peculiar. Por horas, vi-me parada na imensidão florestal, sem chances de qualquer ato sequer. Apesar do maravilhoso cenário, era horrível não ter controle sobre meu corpo e meus atos (os quais nem sequer existiam). Quando me dei conta, percebi que meus pés estavam amarrados ao tronco d'uma grande árvore, tal como minhas mãos. O aspecto sujo e desgastado de meus membros, faziam com que me perguntasse de onde viera todo aquele torturamento, visto que estava n'um local espetacular e cercada apenas de árvores. Desesperadamente, tentei desamarrar-me de qualquer modo imaginável e correr daquele local, porém eram apenas desejos. Nem sequer podia me mover, imagine só soltar-me daquelas grossas e pesadas cordas.

Para ser sincera, tinha uma aparência tranquila e feliz. Como se quisesse tanto algo, mas tanto, que me tornasse obcecada. Em poucas e simples palavras, uma louca. Por ora, não pude definir quem, ou o quê. Somente permaneci naquele local, rindo aos quatro ventos e aproveitando o máximo daquele sádico sonho (ou devo dizer, pesadelo?).

Levantei-me, suando além do normal. Minhas mãos prostravam-se gélidas e trêmulas, o que me espantou de súbito. Procurei apoiar-me na parede, recompondo-me então. Repeti os exercícios respiratórios que vinha praticando, puxando e soltando o oxigênio ao máximo. Calmamente, pude por fim recuperar o fôlego, pensando assim nos próximos atos. Horas? Ainda não anoitecera, ao menos. O sol já não estava tão forte quanto quando adormeci, indicando que havia dormido a tarde toda. Se tivesse sorte, ainda estaria no início do pôr solar, antes das sete horas. Troquei minhas roupas com agilidade e procurei arrumar o rabo de galo que envolvia meu cabelo, da melhor maneira possível.

Não demorou muito para que Olívia batesse à porta (algo estúpido, porque ela sempre a abria logo em seguida, sem chances de resposta). Com seus profundos olhos azuis, fitou-me descaradamente, esperando por qualquer ação minha. Desta maneira, apenas arqueei as mangas de minha blusa e prostrei-me com rapidez. Seu corpo parecia desgastado, como o de quem trabalhara o mês inteiro sem poucas horas de descanso. Não lhe perguntei coisa alguma, seguindo-a somente. Diferente do costumeiro, não me indagou absolutamente nada, principalmente sobre meu estado mental (o que sempre considerei inválido, já que a primeira resposta d'um louco seria de imediato, "está tudo legal"). Por outro lado, exibia um largo e ansioso sorriso, o que me fez questionar se ainda não estaria sonhando. Não, certamente não.

Como pude imaginar, minha saída fora mais curta que o normal, tendo saído por menos de vinte minutos. Os passos longos e apressados de Olívia fizeram com que a volta pelos prédios fosse ligeiramente tediosa e indiferente. Não que tivesse sido ruim, é claro, porque qualquer escapada daquele cubículo braquiúro já poderia ser considerado um lucro e tanto. Na volta para minha ala originária, demo-nos de cara com um terrível caos. Tudo o que vi foram dezenas de pessoas ziguezagueando pelo comprido corredor e o dobro de médicos tentando contê-las. Como algo tão caótico pudera instalar-se n'um curto período? Incompreensível, de fato.

Feliz por ter me despistado de Olívia e sua péssima conduta de "passeio", procurei uma mínima brecha para passar pelo espaço lotado, já que pelo menos trinta pessoas prostravam-se ali (pelo que havia entendido, parte dos novos pacientes haviam surtado repentinamente, atacando grande maioria dos que estavam próximos). Com tantas complicações, acabei perdendo-me de minha guiadora, correndo até meu quarto. Decididamente, andei até a sala ao lado e percebi que a mesma estava aberta. Isto, esta é a minha deixa. Descobrirei finalmente o que diabo Mitchell anda aprontando há dias. Espremi meu corpo por entre os outros e adentrei o quarto. Detrás d'um criado-mudo desbotado, avistei a ponta do que poderia ser um grande buraco.

— Eu vou gritar! — Ameacei imediatamente, vendo que ele aproximava-se de mim, correndo sem maiores delongas.

— Não. — Levou o dedo à boca em sinal de silêncio, parando no mesmo instante — Por favor.

— Quero ir com você, então. Ou eu canto como um pássaro. — Sabia que aquele era um passo arriscado e tanto, porém concretizei minha voz e esperei pela resposta.

— Preciso pensar sobre isto. Dê-me três dias.

— Não entendeu o que disse? Eu vou. É um anúncio, e não um pedido. Sua escolha, afinal. Leve-me, ou fique.

Notas finais
Não se esqueça de comentar.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.