Diamantina
8 Saudades de Casa — Capítulo 8
Notas iniciais
Nancy voltara da viagem que fizera para reencontrar sua família (tagarela e ansiosa como sempre fora). Contou-me cada detalhe, não deixara escapar um só desvio. Desde o vôo para a capital até a volta no aeroporto errado (longa história). Ajudara com o abastecimento alimentar da família e os levara para passeios ao longo da cidade. Felizmente, tudo ocorrera muito bem e Nancy trouxera consigo um presente para mim. Espantei-me, e imaginei mil e uma possibilidades de recordações. Um cartão da cidade onde fora, uma roupa que não fosse branca, minha liberdade. Mas não. Por fim, era uma carta escrita por meus pais. Impressionantemente, o melhor presente que poderia pedir. Agradeci-a dezenas de vezes seguidas e apanhei o papel com agilidade, as mãos trêmulas e geladas. Abri o envelope desesperadamente, esperando notícias de cada parente que conhecera (e até mesmo os que eu não conhecera). Suspirei lentamente, tentando me acalmar. Preparei-me para ler as palavras escritas por minha família depois de tanto tempo e finalmente iniciei a leitura.
“Estamos com saudades de você, todos nós. Não precisamos falar muito para que perceba o tamanho do espaço que deixou em nossas vidas. Seu pai está convicto que poderemos vê-la no final de semana, mas não nos espere. Não crie falsas expectativas, pois este é apenas um fragmento de esperança que nos surgiu a partir do novo horário de visitação para novos internados (é uma longa história, que você não precisa saber). Desejo do fundo do meu coração que esteja tomando todos os remédios e dormindo ao toque de recolher. Nós te amamos muito. Mamãe e Papai.”
Era um pequeno pedaço de papel amassado, sujo de tinta na ponta, preso por um grampo enferrujado e dentro d’um envelope amarelado, desgastado com o tempo. Somente pouquíssimas palavras rabiscadas apressadamente, poucas linhas escritas por mão e um letreiro enorme que dizia a referência e o remetente (digo, enorme mesmo), como se eu fosse cega o bastante para não enxergar a letra de meu pai (que era horrível, por sinal). Sobretudo, era uma carta de casa, escrita por aqueles que me criaram, que há tanto tempo não davam sequer uma pista de vida. E de um jeito ou de outro, dizia que estava tudo bem, que não haviam se esquecido de mim (pelo menos, por hora), que ainda me amavam muito e que sentiam minha falta. Isto bastava, e era tudo que importava para que pudesse prosseguir aquela recuperação.
Senti-me ainda mais desolada, percebendo que não os veria tão brevemente (ou talvez jamais). Ziguezagueei pelos cantos do quarto, li e reli a carta pelo menos dez vezes, não deixando passar nenhum detalhe sequer. Por fim, perguntei à Nancy como conseguira manter contato com meus pais, e ela afirmara ter visto o envelope no correio há semanas (os familiares dos internados os deixavam ali para serem entregues no final de cada mês). De início não estava claro para mim, e demorei um bocado para perceber a gravidade da situação a qual havia me metido.
O que diabo está acontecendo, oras? Acabo de receber a súbita notícia de que meus parentes enviaram-me notícias que deveriam ser entregues há dias. Não, não pode ficar assim. Quem eles pensam que são para fazer tal atrocidade? Afogando-me em desespero e mágoas de uma antiga vida, de saudades daqueles que tanto amo. Quem é capaz de fazê-lo? Isto não pode ser parte do tratamento. Como é que irei melhorar na recuperação sabendo que a clínica esforça-se para que eu não receba palavras de meus próprios pais? Para mim, isto não está nem no começo de certo. É proposital. Apesar dos apesares, jurei a mim mesma e para todos naquele local que me apoiavam que não teria outro daqueles surtos novamente. Prometi que seria forte o suficiente para controlar-me, não fazer nenhuma loucura até que o semestre terminasse. Era isso, ou ficar mais três meses aqui.
Entretanto, após alguns minutos, peguei-me destruindo parte de minha estante (assim como os outros móveis que ocupavam meu quarto), insultando a maioria dos que trabalhavam por ali, arrastando meu corpo pelos arredores e encontrando um jeito de atrair atenção o suficiente para que me dessem uma explicação. Gritei euforicamente, espantada com meu próprio comportamento. Estavam privando-me de falar com minha própria família, mantendo-me afastada o suficiente para que não soubesse o paradeiro de meus pais (assim como os mesmos não sabiam do meu). Se a carta estava ali por dias, então não puderam me visitar. O final de semana já se fora, assim como minhas esperanças de poder rever aqueles que amo.
Estão prendendo-me, fazendo de mim uma louca de merda. Não posso ficar calada sobre isso, é muito para mim. Está no entalo de minha garganta, em cada sombra de pensamento que me ronda e em todas as vozes que me enchem à cabeça enquanto tento posicionar-me bem. Thomas estava certo, afinal de contas. As pessoas piram aqui dentro, se não já entrarem piores do que pudessem piorar. Ironia, não? Algo que deveria me ajudar e que está fazendo totalmente o oposto.
Passei o resto de minha semana na enfermaria. Transferiram-me novamente do centro psíquico, já que depois de tempos sem perder o controle eu finalmente surtara. Pelo menos Thomas estava por ali, um alguém para suportar o peso de minha cabeça em seus ombros e murmurar qualquer coisa (digo, qualquer mesmo) que pudesse me acalmar. Consolou-me e começou mais um de seus intermináveis discursos sobre superação e força de vontade. Apesar de estar cheia daquilo, era bom revê-lo.
— Obrigada.
— Disponha. Então, o que vai fazer a respeito?
— Não sei. Nada. Que se dane. O que posso fazer?
— Por favor, que isto seja o efeito dos comprimidos que lhe deram. Ficou louca de vez? Precisa denunciá-los.
Acenei negativamente com a cabeça, fitando-o. Seus olhos exibiam medo e transmitiam o mesmo, por conta da profusão escura.
— Então, use ao seu favor. Tenho certeza de que seus pais a querem em casa logo.
— Não estou bem, Thomas. Mas não posso fazer nada. Qualquer coisa que tentar fazer agora só irá piorar minha situação aqui dentro. E é claro que querem. Mas pelo jeito, a clínica não.
— Se este é o problema, não se preocupe. Estamos nesta juntos. Então sairemos por aquele portão juntos.
Era o que eu mais admirava em Thomas. Apesar de tudo, seu senso de normalização e perseverança continuava intacto. Seria um enorme desperdiço contrariá-lo, afinal.
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