Diamantina
11 Primavera das Folhas Caídas — Capítulo 11
Notas iniciais
Que maravilhoso modo de iniciar-se uma semana, devo dizer. Vestimentas consideravelmente encardidas, pílulas escondidas sob o travesseiro e colchão, dedos dos pés cheios de pequenos relevos e calombos. Os últimos dias mostraram-se extremamente claros e quentes (digo, muito quentes), o que indicava o início d'uma nova estação. Pelo acúmulo de chuvas n'um curto período de tempo, deduzi que estivéssemos na primavera. Afinal, os últimos meses do ano sempre choviam deste modo. Por conta da umidade, o bosque fora fechado por indeterminado tempo. O que claro, impediu-me de visitá-lo com continuidade, plano para descobrir a obra de meu vizinho (o qual descobri, chamava-se Mitchell, e apenas Mitchell).
Também nos dias anteriores, o barulho diminuíra bastante. Optei por visitar a enfermaria ao invés dos corredores, encontrando-me assim com Thomas. Seu rosto estava mais pálido que o normal e ele usava uma calça branca manchada, resultado d'um desequilíbrio da bandeja de café. Seu cabelo parecia um tanto bagunçado, jogado para o lado de maneira indiferente. Além de sua inabitual aparência, apresentava calos nos dedos, afirmando ter de exercitar-se nas últimas noites (o que eu sinceramente desacreditei, porque nenhum atleta que eu já conhecera, apresentou calos tão grandes e inchados). Desinteressado, pediu que saíssem de perto da maca e deixasse-nos sós, o que poderia ser considerado um insulto (mas não por Thomas, é claro, porque ninguém jamais sentira-se ofendido pelo mesmo). Interessante, não? A clara diferença entre o modo como tratavam-me, tal como os outros pacientes, e a forma de tratá-lo. Cômico, até.
Olhei-o com ansiedade, pois parecia estranhamente calado. Seus lábios mostravam-se secos e desfiados, uma péssima mania de arrancar a pele superior da carne labial. Mas que diabos? Tom estava calado, ora essa. Pela primeira vez em meses, não disse uma palavra sequer. Não deu-me uma palestra sobre superação ou ânimo, e tampouco tentou puxar qualquer tipo de assunto, qualquer faísca do início d'uma conversa. Ainda dava-me a impressão de estar escondendo o rosto, virando-o cada vez que o fitava. Depois d'um tempo, tomei a coragem de dar início ao nosso papo, mesmo que este fosse unilateral.
— Quando vai parar de desviar o olhar e me dizer exatamente o que está acontecendo? — Murmurei, encarando-o com frieza. Mesmo que nervosa, não esperava uma rápida resposta de Thomas.
— Nada está acontecendo, Fernanda. — Mentiu. Dava para percebê-lo somente ao sibilar aquelas poucas palavras. Ao chamar-me pelo nome, também. Ele não conseguira. Deixara os remédios de lado, tivera um surto psicótico. Era tudo que pudia imaginar naquele momento. Tudo de pior que havia.
— Pare de me enrolar... — Sussurrei, ainda que quisesse levantar o tom de voz. Desconfiada que alguma enfermeira pudesse ouvir-nos, optei por abaixá-lo — Diga agora. É sua última chance. Sabe como me sinto com insistências.
Não reagira. Desviou o olhar novamente e forçou um bocejo, num desesperado ato de ignorar-me. Tão estúpido que mal podia acreditar. Era o mesmo que eu conhecera há tempos? Qual o problema de confessar-se, afinal? Eu já o fizera dezenas de vezes. Não é ruim como parece. Para ser sincera, é o contrário. Algo de muito errado acontecera com Thomas. E pelo jeito como respondera-me, não ficaria sabendo o motivo, ao menos não tão cedo.
Levantei-me de sua cama e caminhei até a porta de saída (uma enorme tábua de madeira consistente, muito bem pintada e rebocada d'um branco extremo). Um dos reguladores de exercícios respiratórios esperava-me por ali, fingindo guiar-me pelo caminho (já que apresentava-se totalmente entretido com um folheto de compras). O som da sala de descanso estava diferentemente alto, emitindo uma antiga canção de Mary Hopkin, algo como "These Were The Days" ou "Those Were The Days". De qualquer jeito, podia escutá-la do outro lado da ala, metros e mais metros de distância. Apesar de enjoativo, o refrão estabilizou-se em minha mente. Pelo resto do dia, forcei uma voz fina e enojada, cantando-o numa batida contrária (como um rock'n'roll ou algo do tipo).
Cansada pelos últimos tempos, joguei-me ao chão do quarto e rolei pelo mínimo espaço, procurando refrescar-me na cerâmica gélida. Ainda que exausta, previ que aquela seria outra indomável noite, a qual provavelmente passaria cantando ou sibilando música alguma. Ótimo plano para as possíveis próximas trinta noites, para ser sincera. Afinal, que outro melhor planejamento eu teria?
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