Diamantina
3 O Jardim dos Encantados — Capítulo 3
Notas iniciais
O bosque era lindo. Digo, extremamente lindo. Maravilhoso. Um gramado preenchido pelo verde mais vivo que já vira. Árvores em desenvolvimento, brotos e flores dos mais variados tipos (e as minhas favoritas, as orquídeas). Bancos e cadeiras espalhados pelos cantos do jardim (com coqueiros logo ao lado), dezenas de pacientes ocupando-os e uma pequena porcentagem de pessoas cantarolando músicas que juro nunca ter escutado na vida. Eles pareciam felizes com o local, ou que só estivessem dopados demais para perceber sua própria situação. De algum modo, preferiria estar em suas peles, estando num eterno encantamento e num esplêndido bosque de flores.
Sentei-me num dos bancos de madeira, parando para pensar em algo (qualquer coisa que me tirasse daquele estado de bobice). Por fim, acabei por não dizer ou fazer nada. Apenas esperei. Respirei e esperei. E após alguns minutos, fui chamada para voltar. Quando me dei conta, eu estava de volta ao meu quarto branco (quarto do pânico, para ser mais exata). Cada cantinho daquele local estava me tirando do sério. O silêncio, o frio, a cor predominante em todo o sanatório. Antes de entrar num estado de delírio quase que iminente, agradeci Olívia pelo passeio e deitei-me em minha cama. E então, acordei. E vi pelo menos oito homens tentando me pôr numa camisa de força. E depois, escuro. Acordei novamente. O centro psíquico (melhor que a enfermaria, de fato). Olívia me encarando com seus profundos olhos azuis. A luz cegante do local.
Não havia entendido muito bem como fora parar ali, segurada por doses de calmantes e outras pílulas que enfiaram-me garganta abaixo. Tudo que a psicóloga pôde me contar fora que eu tive um surto psicótico de vinte minutos (o que foi de mínima ajuda, porque todo idiota perceberia que eu havia surtado). Perguntei por minha família, mas Olívia afirmou que eles não saberiam até que meus pais solicitassem. Por algum motivo que nem mesmo pude definir, pedi desculpas pelo acontecido. Ela disse que tudo bem, porque coisas assim aconteciam com frequência e que aconteceriam mais vezes pois eu havia chegado há pouco tempo, e era difícil acostumar-me com tal situação. Mesmo inconsciente, Olívia ressaltou que respondi dezenas de perguntas sobre meu estado mental, então olhei em seu colo e percebi que ela não havia anotado nenhuma de minhas respostas.
Fora algo repentino, assim como minha depressão. Lembrei-me então de como tudo começou, de cada fiasco que ignorei e guardei em meus pensamentos, lotando minha mente de todo e seja qual for aborrecimento que tive de ignorar. Talvez este surto fora só o começo, como Olívia me dissera. O primeiro de muitos. Talvez eu precisasse encarar cada fragmento de complicação, e não simplesmente ignorá-los (como fiz por tantos anos). Por certo, minha mente está cheia disso. E daqui a pouco tempo acabarei como os pacientes do jardim, loucos e presos num conto de fadas eterno, como se não existissem inconveniências em suas vidas.
Mergulhada em turbilhões de teorias, esqueci da presença de Olívia na sala e acabei por deixá-la apenas observando-me. Perguntei por Nancy, entretanto a resposta da psicóloga fora de que não a conhecia (pensei que fosse pelo fato de Nancy ser nova no cargo). Frustrada por não poder vê-la, bufei e afundei-me na cadeira almofadada. O lugar no qual estava apresentava um aspecto totalmente diferente do resto da clínica. Impressionantemente, as paredes eram pintadas de bege, assim como o chão era de madeira pintada e não de blocos enormes de cerâmica (branca). Haviam no teto três luminárias que transmitiam uma luz extremamente forte, quase que cegante para mim. Reparei também que aquela era de fato o maior cômodo que já estive, contando com o detalhe de que todos os espaços eram divididos apenas com uma grande cortina branca (é, desta vez não deu para fugir).
— Por quanto tempo vou ficar aqui? — Perguntei, com a voz um tanto sonolenta.
— Não muito. Mas acho que precisa dormir na enfermaria. — Murmurou pausadamente.
— O que é? Acham que vou pirar de novo?
Olívia respondeu com uma risada de escárnio, porém não disse absolutamente nada. Por um minuto remoto, pensei no que poderia ter feito enquanto surtava de modo espantador, já que da última vez que me lembro pelo menos oito homens tentavam manter o controle da situação. Ninguém quis contar-me detalhadamente. Não me importa, na verdade. Fora somente uma curiosidade que surgira sem precedentes.
Mais uma vez, o frio tornou-se um enorme problema. Eu vestia a mesma camiseta de manga curta que estava usando quando visitei o jardim. Por falar nisso, aquele lugar refletia-me no estado em que estava. Dormente, mas ainda sóbrio. Um anestésico de distúrbios, o remédio para todo padrão de adversidade. Era como eu. O eterno filtro de absorção e fingimento, o amplo espaço pronto unicamente para esvair qualquer tipo de controvérsia que dá a vida, e torná-los (ou pelo menos tentar) ignoráveis. Não, definitivamente não quero ser como eles, e viver num perfeito jardim encantado. Quero realidade, encarar o que há de ser encarado. É isto ou fugir, certo?
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