Diamantina
4 Dezesseis carvalhos ao Sol — Capítulo 4
Notas iniciais
Definitivamente, a enfermaria não é o melhor ambiente para passar a noite. Exausta, tudo que realmente esperei foram três pílulas amarelas e um copo d'água para levá-las ao meu organismo. No entanto, apenas adormeci (algumas horas após o toque de recolher, mas ainda cedo). É claro que eu conseguiria dormir bem antes disso se não fosse pelo paciente ao lado de minha cama, um garoto de dezessete anos chamado Thomas. Suas madeixas eram curtas e de uma cor escura, assim como seus olhos. Durante a conversação, soube que ele fora internado dias antes de mim, e que sofria de depressão antes dos primeiros delírios. Encantei-me com suas palavras de início, que resumiam-se mais ou menos assim: "Quero sair daqui, uma vida nova.", "Tomo todos os comprimidos, durmo no toque de recolher, e daqui a pouco tempo estarei fora.", "Só consigo pensar em minha família. Eles merecem meu avanço, minha melhora iminente. É algo que não posso simplesmente ignorar.", e então Thomas repetiu-as pelo menos cinco vezes enquanto conversávamos. Sem dúvida alguma, ele sairia. Dentro de alguns meses? Não sei. Mas antes de mim, certamente. Além de sua grande vontade de sair daquela clínica, tinha algo no que se apoiar. Família. Seu enorme desejo de voltar correndo para os braços de seus amados parentes. O que eu tinha? Medo de ficar presa aqui pela eternidade? De repente, senti que isto não bastava.
— Todos piram aqui, você tem de ver. Se entram bem, saem malucas. Se entram malucas, saem ainda pior. — Cochichou, fitando-me de modo espantador.
— Pensei que fosse um fato único dos filmes de terror.
E era. Para o meu azar, só não era único. Em resposta, Thomas apenas assentiu com um gesto e deitou-se em sua cama, engolindo uma carreira de dois comprimidos da mesma cor. Por conta de sua cor pálida, Thomas poderia assustar alguém com uma incrível facilidade, se assim preferisse. Como uma versão masculina da branca de neve. Pele extremamente clara, os fios de cabelo tão escuros quanto o céu ficaria sem a Lua (assim como seus olhos, profundos e misteriosos como um buraco negro).
Quando finalmente acordei, me dei conta de que a mesma dor de cabeça perturbava-me de maneira entornadora. Nancy trouxera meu café numa bandeja de alumínio, desta vez um pacotinho de bolachas integrais e somente um suco embalado (de laranja, o meu preferido). Sentou-se ao meu lado e obedecendo aos comandos de seus superiores, realizou em mim uma série de exercícios respiratórios, ato que dali em diante tornaria-se constante. Mais cedo, deixaram-me novos comprimidos, as quais recolhi e desfiz-me com agilidade. Diabos, de onde foi que tiraram a ideia de minha loucura? Todos surtamos alguma vez em alguma ocasião. É natural. Ninguém tem consciência o suficiente para aguentar tanta pressão (e as novas, aquelas que surgem a cada dia).
Imersa em tantos pensamentos, não me dei conta de que Nancy havia saído (o que não precisei tornar uma preocupação, porque ela logo voltara com um papel e caneta nas mãos).
— O que é isso? — Perguntei, apanhando os objetos deixados sobre o colchão.
— Segundo dia. Dezenove. — Respondeu, deixando escapar um sorriso de canto.
— É o meu aniversário.
Como pude esquecer-me da data do meu aniversário? Rabisquei mais um tracinho, marcando o segundo dia de internação e a data em que fiz dezesseis anos de idade. Indaguei à Nancy como ela havia lembrado disto e eu não, já que ninguém dissera absolutamente nada. Soube da forma mais agoniante possível. Minha mãe ligara, perguntando por uma visita. Eles negaram. Era cedo demais, e eu acabara de ser punida por um delírio, o surto do dia anterior. Culpei-me por tudo, como esperava fazer de início. Não pude nem mesmo receber a ligação de meus pais. Este fora, dentre todos os momentos que vivenciei aqui dentro, o pior de todos.
Thomas falara comigo assim que Nancy deixara a enfermaria. Parabenizou-me, logo após eu tê-lo informado de meu aniversário. Disse que levariam-me para o jardim, porque esta era uma data importante (e porque isto era o mínimo que poderiam fazer, já que eu estava presa numa clínica para doentes mentais). Entretanto, recusei. Pelo que me lembrava, aquele pequeno bosque era o último local no qual gostaria de estar, pois faz-nos sonhar com um universo imaginário e espetacular, algo totalmente contrário ao nosso atual estado. Não, minha resposta foi não. Pedi que deixassem-me conversando com Thomas, e eles assentiram.
Se soubesse que falaríamos apenas de sua mudança de comportamento e força de vontade, passaria o resto de meu dia no jardim. Ainda assim, era bom ter companhia. De alguém como eu, e não de uma enfermeira. Falei de minhas melhores lembranças e ele retribuiu, contando alguns dos momentos que já vivenciara com sua mãe, seu pai e seus três irmãos (todos mais novos). Depois de certo tempo, o frio tornara-se suportável e senti uma enorme necessidade de lavar meu corpo. Uma das atendentes da enfermaria (estagiárias, supostamente) levou-me para o toalete, um espaço plano e separado por cubículos emparedados e fechados por uma porta de vidro fumê. Entregou-me uma toalha e avisou que poderia demorar o tempo que precisasse, mas que provavelmente arrombariam a fechadura se este tempo passasse de seis minutos. Agradeci-a, entrando numa das pequenas áreas dali. Maravilhoso. Tudo que podia pedir.
Lavei-me com calmaria, entretanto esperando sair antes do horário determinado. Deixei que a água do chuveiro caísse sobre meu corpo e senti a fervura de cada gota caída em meus ombros. Acerca de três minutos depois, enrolei-me na grossa toalha que prostrava-se sobre a bancada de mármore e troquei minhas vestimentas por iguais.
— Sabe que daqui pouco tempo o banho não será mais prioridade sua, não sabe? — Thomas perguntou, assim que cheguei à enfermaria.
— Tanto faz. — Dei de ombros, sentando-me ao seu lado.
— Não vamos nos ver de novo, a não ser que apareça por aqui mais vezes. Sou da ala oposta. Três corredores após a sua.
— Olívia diz que vou surtar mais algumas vezes — Ri, debochando de toda a situação — Não será um problema, então.
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