Diamantina

7 12 andares para o Amanhecer — Capítulo 7


Notas iniciais
Boa leitura! Nos vemos nas notas finais.

Esta noite, li um de meus livros prediletos. Uma emocionante história de José Mauro de Vasconcelos. É claro que detestei o final, porque esperava que o Portuga estivesse vivo e que Zezé pudesse ter um bom fim de infância (o que não ocorreu). Felizmente, eu já o estava lendo pela terceira vez e esperava o trágico encerramento. Mesmo que decepcionada, aquela ainda era uma maravilhosa obra de meu autor favorito. Por sorte, encontrei-o na prateleira de meu quarto (nunca havia reparado a quantidade de boas autorias que ali estavam), descobri que a leitura (por fim) fazia com que me entretece e ao menos por hora, desligasse-me de meus delírios psicológicos.

Emprestei para Thomas o Meu Pé de Laranja Lima (o último livro que eu lera antes de ser internada), e ele o adorou. Disse que era um dos enredos mais fantásticos que já lera em toda a sua vida (exatamente o mesmo que eu disse quando o li pela primeira vez, e nada menos do que esperava escutar). Papeamos sobre o destino dos personagens principais e Thomas afirmou que nunca havia lido uma autoria nacional (apenas histórias estrangeiras).

— Incrível, não acha? Pensar que a literatura estrangeira é incrível até conhecer a nacional. — Murmurou, devolvendo-me o livro.

Novamente naquela semana, recebi alta da enfermaria (resultado d'um repentino surto). Rabisquei na folha o trigésimo quinto dia, pensando que poderia deixar a clínica brevemente (num prazo de três meses, quem sabe). O grande obstáculo (na realidade) são os delírios. Um atrás d’outro, cada vez mais complicado, tomando-me a consciência da situação e qualquer controle que eu devera tomar. Algo que me derrota lentamente, que arranha-me o corpo e a mente, destrói-os sem precedentes.

Infelizmente para mim, nada parecia querer dar trégua. Os ventos todos estavam soprando contra minha recuperação, e meu estado fora de mal à pior. Remédios não me ajudariam em absolutamente nada, por isso aproveitei quando as enfermeiras não esperavam para engoli-los e os joguei na lata de lixo (triturados o bastante pelos meus dentes para que não percebessem). Nancy comprara um passaporte para visitar sua mãe doente de câncer, o que achei extremamente lindo (afinal, ela não a via por pelo menos dois anos). O novo emprego lhe proporcionara dinheiro o suficiente para a compra da passagem.

De um jeito ou de outro, fora inevitável. Eu ficara sozinha. Tiraram-me da enfermaria e transferiram-me para o centro de psiquiatria. Passei a não ver Thomas por semanas seguidas, apenas com vagas notícias de sua repentina melhora (até mesmo diminuíram a remessa de comprimidos). Neste momento, a única cor diferente do branco que podia ver eram os esbeltos olhos azuis de Olívia, encarando-me de maneira espantadora. Minhas únicas companhias no momento são os livros prostrados sobre a estante de madeira pintada, clássicos estrangeiros e as exceções (as obras nacionais, minhas prediletas).

Sobretudo, sinto falta de casa. Dos almoços entre parentes de domingo (a macarronada caseira, todos sentados em volta d’uma mesa de mármore, burburinhos pela casa inteira), dos passeios pelo parque, de tudo que nos envolvesse. Sinto falta de minha família. Acho que são eles o motivo de ainda estar aqui, agüentando esta barra da pior maneira possível. Deve ser minha base de apoio (assim como a normalidade é para Thomas). Saudade, o sentimento que me invade noite adentro, que me sufoca durante o dia, que arranca-me o sono de todas as maneiras possíveis.

— Sinto tanta falta de casa. — Cochichei, sem ao menos perceber que acabara de dizê-lo em claro tom.

— Bem, se te serve de consolo... — Olívia respondera, fitando-me com pesar — Eu também.

— Sua família mora muito longe?

— Longe demais para visitar. — Riu, entretanto cabisbaixa — Eles morreram num acidente de carro.

— Sinto muito. — Não sentia.

— Quatro anos, e ainda não consegui me acostumar com a ideia de que nunca mais poderei vê-los. Complicado, não é? Pensar que toda a sua vida se baseia em algo que nunca poderá voltar.

— Tudo bem. — Não estava.

Pensei que os psicólogos não tinham problemas pessoais, que já carregassem o bastante de outras pessoas para não terem tempo o bastante para as próprias complicações. Pelo jeito, estava completamente errada. Olívia aparentava obter uma vida inteira de mágoas, e ainda assim mantinha uma postura extremamente séria e profissional, diferente de qualquer um que já vira (que despejavam seus problemas em álcool e drogas). Qual era seu segredo, afinal? Sofrer o suficiente para enlouquecer e ainda assim segurar seu estado emocional de maneira surpreendente. Ia contra tudo que eu acreditava, contra minha ideia de que ninguém pode vencer a si mesmo e que nenhum psicológico é forte o bastante para segurar-nos eternamente. Olívia contrariara isso.

Havia algo completamente diferente naquele final de tarde. O céu não apresentava nenhuma nuvem sequer e o Sol brilhava maravilhosamente. Não como todos os dias, o tempo prostrava-se perfeito (se eu não estivesse de dentro d’uma enorme sala para controle psicológico estaria ainda mais incrível, é claro). Da ala psiquiátrica, podia ouvir o estilhaçar de objetos vindos da cozinha e o jardineiro regando as plantas do jardim, tal como os portões do corredor principal abrindo-se para o início do horário de visitação ao parque. No salão principal (um enorme espaço feito unicamente para pacientes bem mais antigos que os outros), tocavam num antigo aparelho as antigas e alegres (ou pelo menos era esta intenção) músicas de mil novecentos e quarenta. Os internados há mais de dez anos sentavam-se ali, escutavam as antigas sinfonias e papeavam entre si (ou até mesmo sozinhos), burburinhando coisas paralelas e palavras que eu nunca ouvira em toda a minha vida. Sobretudo, era um excelente fim de tarde. Todos pareciam estar impressionantemente bem e pela primeira vez em dias, também tranqüilos. Senti-me do mesmo modo, entretanto para meu pesar, o pôr do Sol estava próximo e logo a noite cairia, trazendo consigo o gélido vento do centro da cidade e o mortal silêncio da madrugada (e Deus, como eu odeio este silêncio).

— Não se preocupe — Olívia me dissera, analisando-me com os olhos miúdos e murmurando na mesma calmaria de sempre — Quando se der conta... — Parou por um instante, fitando-me — Tudo estará claro novamente.

Notas finais
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