Diamante Bruto
2 Capítulo Um - Pronta Marionete
Notas iniciais

Natsumin acordou cedo. Era até um pouco estranha a ansiedade que ela estava sentindo. Mas, ela sabia que precisava de uma vida nova. Precisava recomeçar. Precisava reconhecer que tinha que mudar, tinha que esquecer o passado. Ela não admitia mais sofrer.
Ela escovou os longos cabelos negros e depois fitou-se no espelho do quarto. Todos falavam para ela que ela era linda. O rosto de boneca, os olhos azuis celestiais, o cabelo negro em contraste com os mesmos...
Mas apenas ela discordava.
Nos últimos tempos ela se sentia um lixo. Já havia se sentido bem antes e, quem diria até mesmo bonita. Mas agora, ela não conseguia se ver como uma garota bonita. Ela não conseguia sequer pensar que algum dia alguém poderia olhá-la de forma diferente.
Natsumin pegou a mochila que jogara na cama anteriormente e respirou fundo. Sentiu o cheiro do frescor da manhã que emanava da janela do quarto e se misturava ao cheiro de torradas frescas que sua tia-madrinha deveria ter acabado de fazer.
Mais uma vez ela havia sido tomada pelas lembranças...
Era um dia até um pouco parecido com o de hoje quando ela estava pronta para partir. Pronta para viver, para seguir seus sonhos. Ela havia atravessado o país para conseguir o que queria e, no final, apesar da aversão inicial, seus pais acabaram aceitando, afinal, naquela época ela era apenas mais uma rebelde.
Uma rebelde de verdade.
Ela estava bebendo, chegando até tarde em casa, matava aulas, gastava muito dinheiro com porcarias, nunca tinha paciência com os pais, sempre estava com raiva e sempre descontava sua raiva neles.
Até decidir ir embora, ser livre.
Mas, foi essa sua rebeldia que os obrigou a irem atrás dela.
Natsumin sentiu as lágrimas escorrerem pelo seu rosto. Tudo havia sido culpa dela.
Nessa viagem, o avião que levava seus pais caiu. Não houve sobreviventes.
As lágrimas saíam tão rapidamente que ela chegava a se sentir sufocada. Sentiu uma dor forte no peito, que a obrigou a se ajoelhar no tapete do quarto. E, se entregar à dor.
Era muito difícil mudar, esquecer quando a culpa de tudo era sua.
Ela se levantou e enxugou o rosto com as costas das mãos. Ela havia prometido a si mesma que nunca mais choraria.
Contrariando seus princípios, já que ela não queria que ninguém a olhasse, que ninguém a quisesse, ela passou um pouco de maquiagem, apenas para disfarçar o rosto inchado pelo choro. Ninguém deveria saber que ela havia chorado. Em seguida, desceu as escadas que levavam à copa. Como se nada tivesse acontecido.
— Bom dia, madrinha! — ela abriu um largo sorriso falso e depois deu um beijo no rosto da tia. — Já estou indo. Não quero perder meu primeiro dia de aula.
— Não vai nem tomar café? — a voz da tia foi se dissipando à medida que ela atravessou a porta da frente e seguiu seu caminho. Feliz e satisfeita. Como uma perfeita marionete.
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