Diamante Bruto
76 Capítulo Dois - Fins e Princípios
Notas iniciais
A voz dele, tão intimamente conhecida, ecoou pelo vazio daquele estacionamento e a fez parar. Apesar disso, Natsumin não se virou. O coração nervoso a alarmava que era preciso recuar. Engraçado. Tudo que o que ela não queria naquele momento era recuar.
— Você se parece com alguém que conheci.
Encostado à picape preta que pertencia à ele, Castiel olhava as costas nuas de Natsumin dentro daquele vestido escuro e brilhante, na esperança de fazê-la olhá-lo nos olhos. Ela não o fez. No lugar disso afastou-se dele e se aproximou de um carro preto pequeno, abriu a porta e entrou.
Sentada ao volante, Natsumin suspirou. Pôs a chave na ignição, mas os dedos teimosos se recusavam a girá-la. Ela olhava para o painel do carro, perdida, a cabeça ia longe em seus pensamentos, no quarto de veludo rubro na forma como fizeram amor até o amanhecer, naqueles cabelos ruivos que agora estavam ainda mais compridos, na altura dos ombros, caindo como cascatas grossas e vermelhas. Nas notícias dele que por todos esses anos evitou, mas que a rádio e os tabloides não escondiam. Nas tatuagens que ela sabia que ele tinha nos braços, no romance com Debrah que a fez decidir esquecê-lo para sempre e dar chance ao Viktor, no filho que ela segurou na barriga sozinha por um tempo enquanto ele se divertia pelos quatro cantos do país, esbanjando-se de fama e bebida, uma vida que ela já havia conhecido, já saíra com músicos antes, uma vida que ela um dia almejou para si, jogou fora e...
E agora resgatava aos poucos.
Natsumin sabia que seja lá qual relação tinha tido com Castiel, uma coisa era certa: Ele a atraiu para a música novamente. Aquilo encheu sua alma mais do que as carícias que trocaram. Era aquilo que a instigava nele, era a sua paixão e a certeza de que por mais que ele falasse, ela sabia que ele voltaria para ela.
Para a música.
E Debrah seria um brinde extra a aturar.
Ela fora culpada. Sim, por fazê-lo ir, por não ter dado a notícia da gravidez, por... Ah!
Natsumin bateu os dois punhos fechados no volante. ELA NÃO TINHA CULPA NENHUMA! Não poderia ter! Castiel nunca a ligou uma vez sequer, nunca fez questão de saber se ela estava bem, mesmo depois de tudo o que aconteceu. Castiel nunca quis saber. Castiel nunca tentou. Castiel apenas desapareceu de sua vida.
E talvez tivesse sido melhor que continuasse daquele jeito.
Finalmente ela tomou coragem para ligar o carro. Mas uma pessoa à frente a fez parar.
Ele soltou uma baforada do cigarro, que passou também por suas narinas. O rosto olhava fixamente através do painel. Para ela. Para Natsumin.
Natsumin acelerou o carro, provocando um barulho alto. Ele não se abalou.
— Eu juro que não é uma cantada barata! — Castiel levantou as mãos para o alto, se rendendo.
Natsumin suspirou. Ela podia ir embora e fingir que nada daquilo aconteceu, ou encarar a realidade naquele momento.
Preferiu a primeira opção.
Natsumin deu ré com o carro e rapidamente dirigiu para a saída do estacionamento. Do retrovisor, pôde notar Castiel dar um soco enfurecido no ar e então voltar a fumar.
E então ela voltou atrás na própria decisão.
Através do vidro do para-brisa, ela viu o corpo dele virar-se para ela enquanto tragava. Algo de diferente iluminou o rosto do ruivo naquele. Algo de diferente acendeu entre os dois e os poucos metros que os separavam.
— O que você quer de mim?
Castiel arregalou os olhos. Aquela mulher que por muitos dias dominou seus sonhos mais intensos, que o fez muitas vezes perder o sono o encarava com uma expressão esquisita, como se o abominasse. Ele tragou mais uma vez e virou de costas, andando em direção ao outro lado do estacionamento, onde estava seu carro.
— Um olá, como você está, quanto tempo... talvez tivessem sido suficientes. — pronunciou enquanto andava, as palavras se dissipavam pelo ar gelado da noite.
Natsumin suspirou e voltou a andar em direção ao próprio carro. Definitivamente estava perdendo seu tempo. Então Castiel parou de andar. Jogou o cigarro no chão e pisou, forçando-o a apagar.
— Só queria deixar claro que você está sendo um desperdício como garçonete.
Natsumin também parou.
— Você não foi o primeiro a dizer. — Natsumin voltou a andar e abriu a porta do carro.
— E não serei o último, eu sei. — Castiel aproximou-se do carro dela como um tufão, Natsumin sequer teve tempo de reagir ou entrar.
***
Os pelos de sua nuca se arrepiaram com o toque dos lábios dele. Os cachos rebeldes escapavam do coque mal feito que ela não conseguiu ajustar pois as mãos estão cheias de espuma e ele que teve de ter o trabalho de fazer. Ela deixou escapar um sorriso ao senti-lo excitado às suas costas, o corpo nu sob a água da banheira abraçando o seu, as pernas na lateral de seu corpo ensaboado. Ela olhou para trás e deixou escapar um sorriso travesso.
— Tsubaki?
— Hm? — ela soltou uma risadinha quando ele apertou sua cintura com as duas mãos e foi descendo-as para sua intimidade.
— Lembra quando nos beijamos pela primeira vez? — ele desceu os beijos de sua nuca para seus ombros, beijando um de cada vez.
— Você quer dizer o dia em que você deu um soco na minha cara? — ela virou o rosto para frente novamente enquanto assoprava a espuma entre os dedos das mãos.
— Ah, não, não foi de propósito! — ele a abraçou mais forte, o que a causou arrepios, apesar de a água estar quente.
— Sem problemas, te paguei com um beijo forçado. — ela piscou para ele levemente.
Tsubaki sentiu a vibração da risada de Nathaniel em seu pescoço.
— Eu amo você. — os lábios dele ficaram um tempo em seu pescoço e Tsubaki sentiu o coração apertar. Um arrepio ruim subiu por sua espinha e um sentimento estranho de culpa a petrificou.
O loiro notou o corpo da moça enrijecer e movimentou o corpo na banheira de forma que pudesse vê-la de frente. Olhou-a com ternura. Tsubaki desviava o olhar.
— Acho que esse é o momento que você diz alguma coisa. — ele a olhava com os olhos rígidos.
Tsubaki levantou o corpo nu e sem dizer uma palavra, enrolou-se numa toalha e saiu da banheira, caminhando em direção à cama de frente para o banheiro.
— Você não é obrigada a dizer que me ama. — Nu, Nathaniel caminhou em direção a ela, enquanto Tsubaki vestia a lingerie e lutava com os fios de cabelo que cismavam de cair por seu rosto. — Tsubaki. — Nathaniel insistiu, olhando-a perplexo e nu.
Tsubaki nada dizia. Apenas desviava o olhar. Nathaniel nunca seria capaz de entender. Nunca entenderia os olhares das pessoas na rua, como se ela fosse algo pior do que lixo, como se ela estivesse condenada pra sempre. Uma mulher que vive com homem casado. E não qualquer um, mas Nathaniel, o ex representante de turma, filho de Francis e uma promessa para a faculdade de direito que, ultimamente, ele mal frequentava.
— Isso tem que acabar. — ela balbuciou tão baixo que ele teve que se aproximar para ouvir.
— Eu não entendi, meu amor. — ela olhou para aquele rosto angelical e sentia a tristeza abatê-la de uma forma tão forte quanto inexplicável. Ele ainda a lembrava do representante de turma que conheceu, do dia em que se beijaram naquela academia onde Nathaniel costumava lutar boxe escondido do pai e onde agora nunca mais colocou os pés. Depois que se casou com Melody, Nathaniel se forçou a fazer o que o pai quisesse em prol de se manter na zona de conforto com a emancipação e não ser deserdado.
Pena que ela descobriu isso tarde demais.
Já estava apaixonada, perdidamente, pelo namorado que terminou com ela para se casar pouco tempo depois do que ninguém menos do que a Melody. A MELODY! Pelo amor de Deus, ele se tornou tudo o que nunca quis ser. E ela tinha medo do dia em que ele libertaria sua verdadeira face. Não sabia se podia decepcioná-la para sempre, ou se seria possível ser pior do que vê-lo interpretar um papel e vestir uma máscara.
— Eu estou indo embora, Nathaniel. — ela o disse entre os dentes e as lágrimas enquanto procurava o sutiã perdido entre os lençóis, já vestida com metade do vestido, apenas a parte de cima abaixada, expondo os seios sem pudor na frente daquele que foi o único que conheceu toda a sua intimidade.
— Você... — Nathaniel a encarava com uma expressão de incomum. Os olhos estavam arregalados, surgiram lágrimas discretas, ele estava boquiaberto.
Tsubaki finalmente encontrou o maldito sutiã e voltou a se vestir.
— Minha mãe vai inaugurar uma nova franquia do restaurante no outro estado. — ela subiu o zíper do vestido com dificuldade, mas sozinho, enquanto Nathaniel a encarava nu e espantado.
***
Ele permitiu-se um sorriso de canto de boca.
Mesmo que tentasse impedir que isso acontecesse, Natsumin estremeceu. Ela abriu a porta do carro com pressa e entrou rapidamente, abaixando o vidro para esconder a falta de ar. Ligou o carro, e o ruivo curvou-se sobre o vidro aberto. Ela acelerou o carro parado, provocando um forte estrondo que sequer o abalou. Na verdade, o fez sorrir.
Ela olhou para ele de soslaio e não conseguia dizer um motivo, mas aquela situação que os dois estavam passando naquele exato momento, de certa forma pareceu engraçada. Os dois riram sozinhos.
— Talvez seja verdade o que alguns idiotas dizem por aí.
Natsumin ficou em silêncio, à espera de que ele completasse o que começara a falar.
— O tempo não muda a alma das pessoas.
Natsumin surpreendeu-se com as palavras de Castiel, mas não esboçou reação. De fato, ela acreditava nisso. E naquele momento, vendo Castiel sorrir através daquela barba bem pintada, um sorriso de canto de boca que ela bem conhecia e apelidava como de coiote, junto àqueles olhos cinza que sob aquela escuridão do estacionamento pareciam um par de ônix, estampados claramente na face bela do homem por quem se apaixonou perdidamente.
Há quase três anos.
— Pelo visto você se inclui. Nos idiotas. — ela esboçou um sorriso nos lábios sem mostrar os dentes enquanto olhava para frente e não para ele.
— Acho que nós dois. — ele afastou-se da porta e a abriu por fora. — Natsumin.
Natsumin desligou o carro.
— Castiel. — ela olhou para ele finalmente.
Os dois olharam-se por alguns segundos até que Natsumin saiu do carro finalmente. Inesperadamente, Castiel avançou em sua direção para um abraço apertado. Pega de surpresa, Natsumin ficou sem reação por um instante, mas logo retribuiu o abraço. Eles ficaram ali, em silêncio, um sentindo o calor do outro, ela nos saltos altos percebeu o quanto ele cresceu assim que passou os braços pela cintura dele e levantou a cabeça para apoiar o queixo em seu ombro.
As mãos de Castiel apertaram delicadamente a sua cintura e ele sentiu ligeiros arrepios quando elas passaram por suas costas nuas antes de envolve-la completamente. O abraço durou um suspiro antes de os dois se separarem, ambos um pouco sem graça com a situação.
— Acho que não fomos apresentados devidamente, meu nome é Castiel Hayes. — ele sorriu com aquele sarcasmo no rosto. O cabelo caía vermelho sobre os ombros. Ele realmente tornara-se um homem magnífico.
— Eu sou Natsumin. — ela sorriu timidamente naquele teatro de ironia. — Mas você deve saber. A moça que canta ali. — ela apontou com a cabeça para o bar.
— Também conhecida como a mulher que ignorou meu guardanapo.
— Pensei que fosse só mais um guardanapo com rabiscos. — ela levantou os ombros e sorriu.
— "Só mais um". — ele passou a mão pela própria barba antes de cruzar os braços. — Pelo visto você está sendo bem requisitada.
— Talvez não tanto quanto você. — havia ironia nos olhos dela.
Castiel soltou uma risada. Ela nunca o tinha visto sorrir daquela maneira.
Por um momento o assunto ruiu. Natsumin olhava em volta do estacionamento, Castiel não desviava o olhar. Notando que ele a encarava, Natsumin decidiu não ficar por baixo e passou a encará-lo também, séria. Aquele olhar dele... Era como se ela estivesse nua.
Castiel passou a mão pelo rosto para livrar-se da vontade que um pouco de álcool ajudou, tinha que confessar, de tomá-la nos braços naquele momento. Apesar de terem tido um passado, Natsumin não era mais a mesma garota que ele conheceu e ele tinha certeza que qualquer movimento dele naquele momento o levaria à rejeição.
Castiel pigarreou.
— Eu estou morrendo de fome e tem uma hamburgueria logo ali. — Talvez pudéssemos...
— Obrigada, mas estou satisfeita. — ela respondeu de pronto, olhando-o nos olhos. — Tá bem, vou reformular a pergunta. — ele cruzou novamente os braços. — Quer ir para algum lugar comigo? Qualquer um? Agora?
Natsumin olhou-o perplexa. Em seguida, aproximou-se.
— Se é tão fácil pra você, como está parecendo, melhor pedir à outra pessoa. — ela entrou no carro novamente.
— Você está me interpretando mal. — Castiel aproximou-se e segurou a porta, impedindo-a de fechá-la.
— Será? — ela olhou para a mão dele que segurava a porta, em seguida para ele.
Castiel soltou a porta.
— Me desculpe. — ele deitou novamente o rosto no vão do vidro. — Eu só queria conversar com você, saber como está.
Natsumin suspirou. Em seguida, olhou para ele com ternura.
— Talvez uma outra hora. — ela ligou o carro e rapidamente deu ré e virou o carro para a saída do estacionamento. — E jogue esse cigarro no lixo. — ela colocou a cabeça para fora do vidro do carro antes de partir.
Castiel encarou aquele carro até ele sumir na escuridão. Depois, retirou o maço do bolso. Repentinamente, olhou para trás, para o cigarro que jogara no chão.
Castiel pegou o cigarro no chão e caminhou para a primeira lixeira que viu.
Merda. Ela realmente mudou.
***
Num ímpeto, Nathaniel a abraçou por trás. Tsubaki sentiu todo o corpo se arrepiar com a nudez do dele sobre o tecido do vestido que os separava. Ela sentiu lágrimas quentes descerem por seus ombros. Lágrimas dele.
Tsubaki estremeceu. Seu corpo inteiro amoleceu. Ela não era forte o suficiente, não se sentia forte o suficiente para deixa-lo. Mas ela precisava. Ela forçou sua mente a lembrar-se dos olhares alheios à sua volta, dos homens que ela havia rejeitado simplesmente pela presença de Nathaniel em sua vida, quando ele não recusou Melody e o acordo entre suas famílias, quando eles terminaram o namora e alguns meses depois que Nathaniel casou, ele a esperou do lado de fora do restaurante, era mais de meia noite. Ele a beijou com intensidade naquela noite, confessou seu amor e ela não foi forte para recusá-lo, ela entregou-se à adrenalina daquele amor proibido, uma adrenalina que manchou sua alma. Porque não se desligar de um amor que a trazia tanta dor manchava sua alma dia após dia.
E ela não queria mais isso.
Reunindo as forças que tinha, Tsubaki pousou a testa na de Nathaniel e chorou junto dele. O loiro em meio às próprias lágrimas viu esperança naquele momento e beijou-a com a intensidade da sua alma naquele momento. Tsubaki entregou-se àquele beijo e empurrou-o na direção da parede mais próxima. Ele desceu uma das mãos da cintura dela para as coxas e abaixou sua calcinha. Tsubaki afastou-se um pouco e retirou a calcinha antes de levantar uma das pernas. Nathaniel fundiu-se à ela mais uma vez e os dois iniciaram a dança impetuosa que sabiam fazer muito bem. Ele tentou levanta-la, mas os braços estavam sem forças. Tsubaki separou-se dele.
— Por favor. — ela pronunciou enquanto voltava a vestir a calcinha.
Nathaniel ofegava diante da intensidade daquele momento. Tsubaki jogou para ele a calça jeans dele. Nathaniel a pegou, respirando alto.
— Me prometa que você encontrará esse homem que esconde de todos. — Tsubaki o olhou com ternura enquanto Nathaniel vestia a calça sem colocar a cueca.
Nathaniel nada respondeu, apenas caminhou em círculos pelo quarto. Não conseguia olhá-la nos olhos.
— Nathaniel. — ela deu dois passos em direção à ele.
— Minha vida está em ruínas sem você. — ele a olhou, as lágrimas desciam pelo seu rosto de príncipe.
— Faça com que não seja. — ela tocou seu rosto e beijou com ternura seus lábios. — Seja quem você é. Não por mim, nem por ninguém além de você. — ela enfatizou com ternura a última palavra. — Eu te amo. — ele a puxou para um abraço forte ao ouvir aquelas palavras. — De todo o meu coração. — ela terminou com o rosto no pescoço dele.
Os dois se afastaram e Nathaniel estava sem reação. De alguma forma, seu coração não acreditava que aquilo estava acontecendo.
— Nathaniel. — Tsubaki tocou seu rosto com ternura. — Viva.
A menina-mulher afastou a franja loura do rapaz e, subindo no salto dos sapatos, depositou um beijo terno na testa de Nathaniel antes de ir embora sem olhar pra trás.
Nathaniel permaneceu inerte pro alguns segundos.
— Tsubaki! — ele correu por aqueles corredores quando caiu em si. Mas ela já tinha descido o elevador. Nathaniel correu como um louco pelas escadas descalço e trajando apenas calça-jeans. — Tsubaki! — ela o olhou uma única vez antes de entrar no táxi que a aguardava.
Ele correu até cansar, perdendo-se no meio da estrada vazia. Ofegante, viu a única pessoa que conhecia quem ele era de verdade, a única que conseguiu decifrá-lo, o amor de sua vida... partir.
***
— Nats? Está tudo bem?
Alexy a encarava com a porta entreaberta e o cenho franzido. Natsumin deu um sorriso leve e assentiu, enquanto retirava os sapatos antes de entrar em casa.
Ou no quarto de hotel que costumava chamar de casa.
— Eu não quero te preocupar, mas... — ele tinha a expressão triste nos olhos róseos.
Natsumin atropelou o amigo na porta, entrando rapidamente. — Meu filho? Ele está bem?
Alexy apontou para o sofá com a cabeça, onde uma Tsubaki envolta em um cobertor e com os olhos vermelhos tomava uma xícara de café.
— Você cheira a quem aprontou. — Alexy pronunciou com um sorriso travesso assim que Natsumin sentou-se ao lado de Tsubaki no sofá. Arrancou um sorriso do rosto das duas.
— Então finalmente falou com ele. — Natsumin abraçou com força a amiga, que se entregou em choro mais uma vez.
— Vai ser o melhor pra você. — Alexy sentou do outro lado e deitou a cabeça no ombro de Tsubaki.
— Eu sei. — Tsubaki deitou a cabeça na de Alexy. — Mas sabe o que me deixa com mais raiva? — Natsumin e Alexy prestavam atenção na moça. — Eu que fiquei manchada. Ele continua intacto.
— Infelizmente é assim. — Alexy murmurou triste.
— Mas quer saber? — No rosto de Natsumin havia insatisfação ao pronunciar. — Não tinha que ser assim. Você não tinha que ir, Tsubaki. — ela olhou profundamente nos olhos da amiga. — Afaste-se dele e viva sua vida. Você é linda e encontrará alguém.
— Não sou forte o suficiente, Natsumin. — Tsubaki suspirou e desenrolou-se do cobertor, expondo um belo vestido vermelho. — Você teve isso, não foi? De uma forma ou de outra, Castiel ir embora foi o melhor para esquecê-lo.
— CASTIEL!
Alexy falou tão alto que assustou as duas presentes. O rapaz rapidamente levou a mão à boca e correu para o quarto de Ethan. Ficou aliviado ao ver que o menino ainda dormia. — Sorte sua que é filho dele. — pronunciou quando virou-se para trás e deparou-se com uma Natsumin de cenho franzido.
Ela balançou a cabeça para os lados. — Você está louco? — sussurrou no pequeno corredor de volta.
— Está estampado na sua cara.
— O assunto agora é a Tsubaki.
Do sofá, Tsubaki revirava os olhos enquanto sorria. — Gente.
— Tsubaki não vai se importar, ela também vai querer saber.
— Gente.
— Alexy, eu não... não aconteceu nada de mais.
— AHa! Então aconteceu alguma coisa.
— Gente, eu posso ouvir vocês daqui do sofá!
As cabeças de Alexy e Natsumin surgiram do corredor, ambos com sorrisos amarelos.
— Eu quero que você conte todos os detalhes. — Tsubaki sorriu para Natsumin. — Não quero mais ouvir falar de Nathaniel.
Alexy e Tsubaki encararam Natsumin assim que ela se sentou no sofá. Como dois cachorrinhos pidões.
— E então, rolou beijo? — Alexy sorriu como uma marionete.
— Ok, o Alexy está me assustando. — Tsubaki pareceu ler os pensamentos de Natsumin naquele momento. — Ele falou com você?
Natsumin relutou um pouco e suspirou. — Vocês são impossíveis.
— O mistério está me matando. — Alexy a pressionou mais um pouco. Vendo que a amiga continuava a enrolar, ele cheirou seu pescoço.
— Perfume de homem. — Alexy mordeu os lábios e sorriu de forma travessa. — Agora desembucha.
— Foi só um abraço. — Natsumin suspirou.
— Hum abraço não é bom.
— Abraço não é bom.
Tsubaki e Alexy falaram simultaneamente.
— Isso não é tudo. — Natsumin suspirou, um pouco impaciente. — Essa semana, quando chegou à cidade, ele apareceu no restaurante.
— Sim, eu lembro desse evento impressionante. — Tsubaki revirou os olhos. — Natsumin fugiu igual o diabo foge da cruz.
Natsumin sorriu.
— Você já foi melhor, Natsumin. — Alexy empurrou o ombro da amiga com o seu.
— Vocês especulam demais. — Natsumin revirou os olhos. — Além disso, eu tenho uma vida agora, finalmente me dedico ao que amo, tenho o meu filho e... e eu estou com o Viktor.
— Você citou o Viktor por último. —Tsubaki tocou a mão dela.
— Você deixou claro que não estavam assumindo relacionamento algum. Ele sabe disso. — Alexy balançava a cabeça enquanto falava. — Quando Rosa souber disso...
— Vocês não me deixaram terminar. — a moça encarou os amigos. — Nesse dia, ele me deu o telefone dele.
Tsubaki ficou boquiaberta. Alexy sorria de forma safada.
— Ele colocou num guardanapo e pediu pra Pryia me entregar. — Natsumin continuou.
— E você ainda vai dizer que não é nada de mais? — Alexy revirava os olhos.
— Não. Ele está parecendo um idiota, Alexy. Como se já achasse que eu fosse cair nos braços dele. Vocês não viram como foi ridículo.
— É, isso podia acontecer. — Tsubaki apertou os lábios. — Ele está famosinho, tem uma legião de meninas na puberdade tirando a calcinha por ele...
— E, convenhamos, ele melhorou bastante. — Alexy fez cócegas na barriga de Natsumin. — Fala sério. Aquelas tatuagens nos braços, aqueles cabelos nos ombros, a barbinha bem feita... Nada disso mexeu com você?
Os três se dispersaram ao ouvirem o ruído de chaves na porta.
Um corpo alto entrou, balançando os cabelos negros. Olhos castanhos repousaram em Natsumin.
— Eu juro que tentei chegar a tempo para o show.
Natsumin correu para os braços de Viktor, deixando um Alexy e uma Tsubaki perplexos no sofá.
— Então a resposta é não? — Alexy sussurrou para Tsubaki, arrancando um sorriso dela.
***
— Expresso bem forte.
Na manhã seguinte, seus olhos cinza percorriam o restaurante por motivos óbvios. Entretanto, o único olhar que recebia de volta era o da garota indiana.
— Mais alguma coisa? — a bela garçonete se distanciou depois que ele negou com a cabeça.
Alguma coisa havia mudado naquele local. Aquela menina do ensino médio, qual era mesmo o nome dela? Tsubaki. Isso. Tsubaki não estava por ali chefiando, ontem mais cedo. Aparentemente o restaurante pertencia a ela. Hoje, no entanto, em seu lugar havia uma mulher bem mais velha, mas com os mesmos olhos amarelos. O cabelo era curto, na altura do queixo e liso. Talvez fosse a mãe.
— Sandy, mesa três. — ela ordenou para uma moça de longos cabelos loiros, uniforme como o de Natsumin naquele dia em que o evitou. Castiel olhou enquanto ela se aproximava de sua mesa. Era bela e rebolava bem os quadris. Sandy passou ao lado da mesa dele propositalmente olhando para ele com um sorriso no rosto. Em seguida, foi para a mesa três.
O dia começava bem. O céu estava limpo e sem nuvens. De alguma forma, o retorno à cidade o fizera bem, mesmo que temporariamente. Depois de um longo tempo na estrada, olhar rostos conhecidos era um prêmio impagável.
Ainda mais o dela.
Tinha que confessar que errou muito com Natsumin. De certa forma, partira com o conhecimento dela, mas nunca mais manteve o contato. Nem da parte dele, muito menos da dela. Natsumin sequer ligara uma vez, ele esteve ocupado demais para lembrar de ligar. Eles simplesmente fadaram seus destinos ao esquecimento, como se nada tivesse acontecido entre os dois. Mas, de fato, o que aconteceu? Eles tiveram pendências, dormiram juntos, trocaram carícias, mas nada tinha ficado claro. Mesmo que ele tivesse escrito uma música para ela, mesmo que eles tivessem passado um tempo inesquecível juntos, ela fez questão de manter distância dele. E ele se viu mais próximo de Debrah, que era o ambiente que ele conhecia. Natsumin ainda habitava o desconhecido.
E depois de ontem, esse desconhecido pareceu ainda mais turvo e distante.
Ele passou a mão na cabeça. Doía feito a peste. Os outro dois tríades bebiam tanto que pra ele seguir o ritmo era difícil. Ora, quem diria. E ele bebia bem.
Sandy, entretanto, o fez perder-se de seus pensamentos, ao colocar em sua mesa um par de donuts de chocolate e o expresso forte.
Castiel franziu o cenho.
— Não pedi isso. — ele a olhou rapidamente, apontando para os donuts com a cabeça antes de pegar a xícara de café.
— Cortesia da mesa nove. — ela apontou com os olhos para trás.
Castiel sentiu um aperto no coração e rapidamente virou-se. Abriu um sorriso. Era Lysandre.
— Então o bonitão aqui me mandou donuts? Tem que me conhecer bem pra isso. — ele levantou-se rapidamente e caminhou em direção aos fundos do restaurante, à parte que ficava mais próxima ao palco.
— Três anos não são nada para quase dez de amizade. — Lysandre levantou-se em sua serenidade habitual e caminhou em direção a Castiel, que fazia o mesmo.
Os dois se abraçaram fortemente.
— Tem razão. — os dois se separaram e Castiel puxou a cadeira à frente da sua para que Lysandre se juntasse à ele. — Mas são suficientes para você arrumar uma noiva. — Castiel sorriu maliciosamente.
— Você vai se divertir então com essa. — Lysandre sorria de uma forma que Castiel nunca antes havia visto. Realmente, ele estava feliz.
Castiel o olhou esperando a resposta.
— Ela está grávida. — Lysandre recebeu o café que Sandy trazia. A moça piscou para Castiel, que a olhou de volta.
— Você não perdeu tempo mesmo, hein? — Castiel deu uma risada. — Estou feliz por você, meu velho. — Castiel pôs a mão no ombro do amigo.
— Obrigado. — Lysandre assentia enquanto sorria.
— Quantos meses tem o moleque?
Lysandre balançou a cabeça. — Ainda não dá pra saber o sexo. Mas Ayuminn acha que vai ser um menino. — ele sorriu um sorriso bobo, apaixonado.
Castiel sorriu.
— Suponho que sua vida também esteja muito bem. — Lysandre parou os olhos no amigo.
— Não tenho do que reclamar, é verdade. — Castiel levantou os ombros. — Mulheres, bebidas, guitarras e camaradagem.
Lysandre balançou a cabeça. — E Debrah? — perguntou um pouco sem ânimo.
— O que aconteceu com Natsumin na formatura me fez perceber que tudo já estava acabado entre nós há muito tempo.
— Mas..? — Lysandre conhecia bem o amigo.
— Mas nos aproximamos durante a turnê., é inegável. — Castiel olhava pela janela, pensativo. Agora de dia, o estacionamento onde encontrara Natsumin parecia menor. — Ela disse que o tal do Viktor a obrigou a fazer o que ela fez.
Lysandre soltou um suspiro.
— Não acreditei a princípio, mas ela era o único rosto conhecido e, apesar de tudo, a estrada é por vezes solitária.
Lysandre só balançava a cabeça para os lados.
— Mas se durou uma semana foi muito. Depois daquela reportagem no site de fofocas falando do “guitarrista gato” da banda dela... — ele abriu aspas com as mãos e suspirou. — Ela começou a fazer questão de forçar um relacionamento.
— Eu vi essa matéria. — Lysandre pareceu zombar do amigo naquele momento.
— Você lê essas porcarias agora? — Castiel cruzou os braços.
— Ayuminn lê. — Lysandre levantou os ombros. — Além disso, era uma maneira de ter notícias de você. Já que não dava nenhuma.
Castiel esfregou a nuca.
— Foi mal por isso. — o ruivo ajeitou-se na cadeira. — Acho que me deslumbrei demais e acabei me esquecendo de algumas coisas que importavam. — Uma moça de cabelos negros surgiu no balcão. Castiel sentiu um aperto no peito, mas quando ela se virou, não era quem procurava.
— Você sempre gostou dela, né? — Castiel virou o rosto para o amigo. — Sempre foi um cara decidido.
— Debrah? — Lysandre parecia apreensivo.
— Ayuminn. — Castiel sorriu.
— Você sempre gostou dela, né? — Castiel curvou os lábios. — Pelo visto você é um cara decidido.
— Não vou mentir. — Lysandre assentiu. De alguma forma ele parecia desconfortável desde que tocaram no assunto Debrah. — Ela me encantou desde o princípio.
— O bom e velho Lysandre. — Castiel tomou um gole do seu expresso com chantilly que estava quase esfriando e ofereceu os donuts a Lysandre, que recusou.
— Estou trabalhando numa produtora. — Lysandre anunciou.
— De música? Isso é ótimo! — Castiel levantou as sobrancelhas.
— Na verdade é de filmes. — Lysandre corrigiu-o. — Componho trilhas para filmes.
— Não deixa de ser bom. Compor e poesia sempre foram sua melhor arte.
— É verdade. — Lysandre balançou a cabeça.
— E os outros, como estão? — Castiel realmente parecia interessado.
— Rosa e Leigh ampliaram a loja e estão divulgando a marca agora. Já tem até filiais em mais duas cidades.
— Legal. Eles sempre foram bons mesmo nesse negócio de costura e tal.
— É. — Lysandre parecia pensativo.
— E o restante? — Lysandre sabia onde o amigo queria chegar, mas não podia contar muita coisa. Acabaria chegando ao assunto do filho de Castiel e não cabia a ele contar. Mas sobre Debrah... Castiel precisava saber que ela não era quem ele estava pensando. Precisava saber o verdadeiro motivo de ela não voltar à cidade. As pessoas sabiam que ela era culpada. Debrah não era vítima, mas cúmplice do bandido que agora estava preso.
— Estão ótimos. — Lysandre respondeu um pouco apático.
— Tem algo te incomodando. — Castiel pontuou, sereno.
— Tem algo que ninguém disse depois que você foi embora. — Lysandre passou a mão pelos cabelos prateados, agora mais curtos.
Castiel aproximou o rosto para ouvi-lo.
— Desculpe o atraso, Margarida, eu não dormi bem essa noite.
O ruivo olhou para a porta. Natsumin passava a mão pelo uniforme um pouco amarrotado, mas ainda caindo otimamente pelas suas belas curvas.
— É sobre Debrah. — Lysandre notou o olhar de Castiel em Natsumin. A chegada da garota o deu coragem suficiente para contar o que ninguém teve coragem de dizer.
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