Diabolic Lover
6 06 - Vampiros também sabem ler
Notas iniciais
– Não. Eu não vou aceitar essa merda toda de cabeça baixa. Eu não admito que esse cara pise nessa casa. Olha o que ele fez comigo Alicia – eu levanto todo o cabelo para cima e deixo as marcas roxas bem expostas para ela ver. – Sem contar que ele invadiu a casa e roubou a minha toalha – digo incrédula.
– Marie, se acalme, você está muito nervosa – diz Alicia.
– Óbvio que estou nervosa, você contrata pessoas que nem sabe quem são e muito menos se o caráter é duvidoso, pois se você não quer enxergar a verdade eu digo; o Ian é um vampiro pervertido nojento que quase abusou de mim em um beco sujo! – grito, não me importando com que os vizinhos possam ou não escutar.
Não sei por quanto tempo depois que aqueles dois imbecis saíram eu e Alicia estamos discutindo sobre essa ideia tosca de Anfitriões, mas sei que não darei o braço a torcer.
– Agora chega Marie – Alicia se levanta do sofá e anda até onde estou. – A única pessoa aqui que não conhece aqueles garotos é você, que nem os conhecendo já está julgando e agredindo. Eu sei tudo o que preciso saber sobre aqueles dois. E sei também como o Ian é. Sim, ele pode ter feito tudo isso que você falou, mas eu o conheço e ele não faria sem um propósito – ela termina de falar com um tom sério que nunca antes a vi usar comigo.
Não é óbvio o motivo dele? Ele queria abusar de mim e depois me matar. Não preciso ser uma agente do FBI para saber que todos os indícios levavam a resultados muito prováveis como esse. Só a Alicia que não quer ver e parece confiar cegamente naqueles dois, tanto, a ponto de arriscar a minha vida e virtude.
– Você nunca falou assim comigo – declaro como uma idiota.
– Eu te amo e você sabe disso. Posso ser uma pessoa feliz e meio estabanada na maioria das vezes, mas também sou uma adulta e nunca colocaria você em risco algum, por isso, estou cansada de ver a forma como você definha sozinha.
– Eu já disse que estou lidando a minha maneira, por que você não respeita isso?
– Não, Marie. Você não está lidando a sua maneira, você está procurando uma válvula de escape para tudo que aconteceu, está tentando evitar tudo que pode te levar a lembrar do acontecido e o que a faça feliz porque acha que não tem mais direito.
– Você está sendo ridícula. Você não pode me forçar a fazer algo que eu não queira – cruzo meus braços, para deixar claro que não vou ceder as suas declarações.
– É aí que você se engana. Eu sou sua guardiã legalmente, posso te obrigar a fazer tudo que eu quiser até você ser maior de idade. Eu decido o que é melhor para você e o melhor no momento é essa ideia dos Anfitriões e você vai fazer, goste ou não – ela coloca uma mão no meu ombro e o afaga, dando as costas em seguida.
– Não, eu não vou fazer isso – balanço a cabeça negativamente, estou incrédula, porque sei que ela está certa e é isso que me deixa mais fula da vida.
– Vá reclamar com a lei, meu bem – dizendo isso ela some pelo corredor.
Respiro fundo para não soltar o grito de ódio que está preso no meio da minha garganta. Eu nunca imaginei que a minha madrinha um dia faria isso comigo e muito menos que jogaria na minha cara tudo que aconteceu no passado; só faltou carimbar na minha testa que a culpa foi minha.
– Não, eu não vou aceitar aquele vampiro pervertido junto com o carinha de bebê me dando ordens de como agir – falo para mim mesma em voz alta.
Conto até dez em minha mente e tento aliviar a pressão das minhas mãos fechadas em punhos, mas eu preferia praticar tiro ao alvo – sendo que os alvos são Ian e o Derek – para me acalmar.
Passo a mão no cabelo, me despenteando ainda mais e ando a passos pesados pelo corredor em direção ao meu quarto, pois sei que o único conforto que irei achar está lá me esperando.
Abro a porta e o cheiro de páginas de livros invadem as minhas narinas. Esse é o cheiro mais relaxante que eu conheço na minha vida e nem preciso pegar a minha bombinha de ar para recuperar o fôlego. Fecho a porta atrás de mim e entro diretamente em meu mundo. Imediatamente meu humor muda de ódio súbito para alegria incondicional, como se tivesse um botão de liga/desliga em minha mente.
Tiro a blusa pela cabeça e jogo em um lugar qualquer do quarto, ficando só com minha combinação de lingerie simples e subo os degraus do segundo andar para procurar o moletom mais largo, confortável e velho que tenho.
Subo cada degrau cantarolando uma música do AC/DC e rebolando sem ao menos perceber.
Abro a porta do meu guarda-roupa minúsculo que não cabe nem um corpo e começo a fuçar a procura do meu moletom. O acho escondido atrás de um vestido de tule lilás e uma saia de couro – que Cassie insistiu em me dar, falando que tinha que ter pelo menos duas peças de roupas decentes em meu arsenal –, mas eu sei que nunca vou usar aquelas coisas, por isso tive que esconder meu moletom para minha prima não jogá-lo fora.
Coloco uma regata branca e em seguida a calça preta de moletom. Dou um suspiro de alivio e finalmente me sinto eu mesma outra vez.
– Ah, preferia você de lingerie. Se bem que se tivesse renda seria muito melhor do que só preto... bem, é melhor que cor da pele pelo menos – alguém protesta atrás de mim e rapidamente eu me viro de encontro a voz.
– O quê...? Como você entrou aqui? – pergunto vendo Ian sentado no corrimão da escada, me encarando com seus olhos felinos azul-celeste.
– Pela janela – dá de ombros.
– Estamos na cobertura de um prédio de mais de vinte andares – digo incrédula e levanto uma sobrancelha, que é coberta por minha franja reta.
– Sou o Batman – diz divertido.
– Como? – pergunto sem entender.
– Você se surpreenderia com o que uma pessoa pode fazer com fio dental e um garfo – ele dá um sorriso de canto.
Fico boquiaberta, não sei o que falar e nem como agir com ele infiltrado no meu quarto da forma mais libidinosa possível.
– O que é isso? Livros? – ele pergunta, descendo do corrimão e pegando um livro em cima de uma pilha de uns vinte, posta no chão. – Você realmente lê essas velharias?
– Sim, eu leio, mas uma pessoa pervertido e que nem deve saber o alfabeto como você nunca iria compreender a magnitude de um livro, nem os com ilustração, já que eles exigem pelo menos um certo nível de inteligência que eu sei que você não tem – estreito meus olhos para ele, que anda em minha direção com o livro na mão.
Me aproximo mais de Ian e tento pegar o meu livro de suas imundas mãos, mas toda vez que tento pegar ele desvia e coloca mais alto, onde não alcanço.
– Você me subestima demais, ovelhinha – ele agarra a minha cintura com uma das mãos e cola seu corpo com o meu. – Você não deveria julgar as pessoas sem conhecê-las inteiramente.
– Acredite, essa é a última coisa que eu quero de você, te conhecer inteiramente – protesto e me contorço para sair de perto dele, mas não consigo. – O que você quer aqui? – pergunto sem rodeios.
– Dizer que entendo o porquê você não quer aceitar os Anfitriões, mas se não quer aceitar por você, aceite pela Alicia, ela não merece o que você faz com você mesma – diz de forma séria.
– Ah, que lindo, agora você se importa com alguém além de você mesmo? Quase me convenceu, sério – digo de forma desdenhosa e já um pouco ofegante.
– Fique calma, ovelhinha, nós dois sabemos o que acontece quando você fica nervosa e eu não quero que você fique sem ar por mim – ele diz com um sorriso no canto dos lábios e de forma desdenhosa.
Ian aproxima seu rosto do meu, ficando a apenas dois centímetros dos nossos narizes roçarem um no outro e seu olhos continuam com a expressão felina, mas parece suplicantes, o que eu acho ridículo. Ian, suplicando? Só quando o inferno congelar de vez.
– É desculpas que você quer por eu ter te agarrado? Eu me desculpo então, mas aceite o que a sua madrinha está pedindo – diz sem um pingo de divertimento.
Seu hálito de menta com hortelã bate em meu rosto e aquilo me deixa desconcertada, pois não quero sentir isso novamente, tudo isso me lembra quando ele me agarrou no beco e me vejo vulnerável como uma velhinha de andador.
– Pro inferno com as suas desculpas – continuo a me contorcer ainda mais, mas ele aperta a minha cintura com a sua mão e eu quase ofego. – Por que você e o Derek querem tento que eu aceite? O que a Alicia fez a vocês? Ou melhor, quanto ela está pagando? – pergunto, tentado me distrair da situação e do sentimento de vulnerabilidade que sinto crescer dentro de mim.
– Isso não se trata de dinheiro e mesmo que eu te eu diga o porquê queremos fazer isso, uma garota mimada e infantil como você nunca entenderia.
Tudo bem. Acho que já fui xingada muito para um dia só. Agora chega.
Ele solta a minha cintura e se afasta alguns centímetros de mim, com uma expressão não muito divertida em seu rosto.
– Só... só aceite, pelo menos pelo o mês e meio que o Derek disse a você, pela Alicia, ok? – ele me olha com olhos meio suplicantes.
Eu nem posso acreditar no que meus olhos vêem. Eu nem consigo ficar com raiva por ele invadir o meu quarto e me ver de calcinha e sutiã, apenas fico em choque.
Com certeza, o inferno congelou de vez.
– Tudo bem? – ele insiste na pergunta, levantando uma de suas sobrancelhas perfeitas.
– E-eu vou pensar no caso
– Ótimo – ele dá um sorriso sincero para mim, o que é mais chocante ainda. Ele olha para a capa do livro e joga de suas mãos, eu ainda o pego no ar. – O Diário de Anne Frank é bom, mas as melhores edições são as mais antigas, onde pode se notar mais a força da narrativa da Anne.
Sem esperar que eu diga qualquer coisa, ele acena com a mão e me dá as costas, descendo os degraus e tendo o cuidado para não pisar nos livros.
Minha boca abre e fecha várias vezes, sem sair um único som, estou em choque total. Ele não só me provou que se importa com a minha madrinha – por razões desconhecidas –, mas também me provou que sabe ler; o que é mais chocante do que se me falassem que alienígenas invadiram a Terra e querem levar a Stephenie Meyer, porque ela criou vampiros que brilham no sol.
Meu precioso livro, será que eu estou errada e julguei Derek e o Ian antes mesmo de conhecê-los? Eu devo aceitar o julgamento de caráter da Alicia e aceitar toda essa palhaçada de Anfitriões só para agradá-la?
Notas finais
Beijinhos com açúcar
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