Holanda, Maastricht, 27 de abril de 2015.

Se tem uma coisa que eu amo em meu país são as festas. As datas comemorativas que são festejadas a todo vigor e todos amam. As luzes, as ruas, as cores. Tudo me encanta demais.

Hoje não era diferente. Estávamos comemorando o Dia do Rei, era o segundo ano com o novo governante Willem-Alexander. Não que eu me importe com o dia propriamente dito, mas sim o momento. A festa.

Assim como 85% dos jovens da minha idade, meus olhos faíscam só de ouvir a palavra “festa”. Gente pra todo lado, comida, música, amigos, não ter hora pra voltar pra casa... Infinitamente encantador. Na verdade, ficou menos encantador no momento em que eu tive que trazer Alex comigo.

- Carlie, eu quero ir no banheiro. – O projeto ser humano reclamava cruzando as pernas.

- De novo Alex? Mas nós voltamos de lá não tem nem meia hora! – Bufei.

- Você me comprou duas latas de refrigerante de limão pra eu calar a boca, devia ter previsto isso. – Rebateu cruzando o seu projeto de braços. Ele seria uma fofura fazendo essa carinha de irritado se não estivéssemos falando do meu irmão mais novo.

- Me lembre de nunca, nunquinha mais te pedir pra vigiar a porta do meu quarto quando eu precisar sair escondida a noite de novo. – Essa era realmente uma nota mental a ser feita e jamais esquecida, já que era o motivo pra eu ter trazido ele.

Alex mais que depressa entrou em um dos banheiros químicos espalhados pela praça e eu, mais que depressa voltei a fazer qualquer coisa no celular que não envolvesse o Dia do Rei, postagens sobre o Dia do Rei e fotos tiradas no Dia do Rei. Acho que era a primeira vez na vida que eu estava ignorando uma festa acontecendo bem ao meu redor.

- Você está atrapalhando a passagem. – A voz surgiu ao mesmo tempo em que uma fumaça de cigarro surgia fazendo meu nariz coçar.

- E você está se matando lentamente. – Cruzei os braços e encarei as belas pérolas achocolatadas a minha frente. – A não ser que isso seja uma metáfora.

Ele bufou: — Por favor, diz pra mim que você não está citando aquele livrinho que todo mundo resolveu ler de uma hora pra outra e sai do caminho, antes que eu tenha que mijar no seu pé.

- Algum problema com o livro, americano? – Arqueei as sobrancelhas.

- Como sabe que sou americano? – Ele fez a mesma cara que eu.

- Na verdade eu chutei. – Dei de ombros. – Da pra perceber que é turista. Mas geralmente os turistas são mais educadinhos. – Fiz uma pausa. — Olha só: temos uma exceção. – Usei toda a ironia possível.

Ele olhou pra cima e respirou antes de voltar a falar: — Tudo bem, eu sou americano. – Assentiu. — Tyler McKane, da California. Você é? – Sorriu timidamente.

Não me segurei e ri do seu sorriso. Tão forçado. Há três segundos estava todo “sai do meu caminho ou te faço de hidrante e mijo em você” e agora está “sou Tyler, vamos ser amigos”. Da onde eu venho isso não se chama se redimir — até porque adolescente não conhece muito essa palavra -, se chama atuar.

E digamos que eu estava certa. Parados a alguns passos de nós, dois garotos que deviam ter a mesma idade do tal Tyler. Eles nos olhavam atentamente enquanto discutiam e quando eu os encarei pareceram congelar. Aposta. Isso tem o belo cheiro de aposta. Meu Deus, quantos anos esses caras têm?

- Quantos anos você tem? – Perguntei depois do longo tempo em silêncio.

- 18, e você? – Pareceu animado ao ver meu interesse.

- Idade suficiente pra não ficar fazendo apostinha. Você devia experimentar. – Sorri com sua cara pasma. Tão envergonhado quanto os amigos logo atrás.

- Aposta? Que? – Riu nervoso. Cadê o “sai do meu caminho ou te faço de hidrante e mijo em você” agora? Cômico.

- Devia falar pros seus amigos não tirarem fotos com flash.

- Oh não, eles não usaram flash. – Ficou mais vermelho e até olhou pra trás brevemente antes de voltar a me encarar.

- Realmente não usaram. – Gargalhei. – Só estava concluindo minha tese. – Pisquei. – Não me siga. – Disse antes de sair andando.

- Como sabia que eu ia te seguir? – Fez o oposto do que eu pedi.

- Você tem aquela cara de previsível. Uma pena, tão bonito. – Neguei com a cabeça em sinal de desaprovação.

- Me acha bonito? – Riu quando eu corei.

- Apenas modo de falar. – Se ele não estivesse me encarando eu teria feito uma careta por ter deixado escapar essa nota mental pessoal. – Então, de quanto era a sua aposta? – Mudei de assunto e me dirigi até um carrinho de sorvete com uma fila semelhante à de banco, nada legal.

- Eles iam completar o que falta pra eu comprar minha moto. – Pôs as mãos nos bolsos e encolheu os ombros. Seria fofo se não fosse um turista mal educado.

- Sabe, tem outras formas de conseguir dinheiro. – Comentei.

- Eu pensei em montar uma barraquinha de limonada na frente da casa da minha avó, mas iria parecer que eu tenho 8 anos. – Falou me fazendo rir.

- Mas você já não está muito longe de parecer ter 8 anos fazendo esse tipo de aposta com seus amigos. – Ri.

8 anos. Barraca de limonada. Bexiga cheia. Alex.

Minha risada morreu instantaneamente.

- Droga, droga, droga! – Abandonei a fila e comecei a andar apressadamente por entre as pessoas procurando com os olhos o banheiro químico onde estava antes.

- Ei! Espera. O que ouve? – Tyler segurou meu braço.

- Você! Eu. Vou. Te. Matar. – Antes que minha mãe me mate por eu ter perdido meu irmão.

- Isso é tudo é por causa da aposta? – Arqueou as sobrancelhas.

- Não, dane-se a aposta. – Usei a outra mão para soltar a mão dele do meu braço. – Você me distraiu. – Murmurei voltando a andar. Na verdade tentei, já que ele tornou a segurar meu braço.

- Me desculpa por ser irresistível a ponto de te distrair, não faço de propósito. – Brincou.

- Totalmente ridículo. – Rolei os olhos. Não que eu discordasse, mas ele não precisa saber. – Acontece, Senhor Tyler O Irresistível, que eu esqueci meu irmão naquela bosta de banheiro químico enquanto ouvia sua ladainha. – Soltei sua mão do meu braço novamente e voltei a andar, conseguindo dessa vez.

Vamos Alex, apareça pedindo pra comer algodão doce laranja, guarda-chuva de chocolate embrulhado em embalagem laranja e comprar carrinhos de plástico laranja que você quebra no dia seguinte.

- Alex. Alex. Alex. Sai dai! – Bati repetidas vezes na porta do banheiro. Ele tinha que está ali ainda.

A porta destrancou. Eu dei dois passos pra trás pra que ela pudesse ser aberta com facilidade. Ela abriu... e não era o Alex.

Um homem imensamente gordo que eu realmente não sabia como havia conseguido entrar ali saiu. Realmente não era o Alex. Talvez uma versão mais adulta, mas não o meu Alex no momento.

- Feliz Dia do Rei. – Ele falou. Sua face pouco movia enquanto ele falava, realmente não dava pra distinguir se ele estava feliz. – Meu nome é Pablo. – Ele estendeu a mão e eu fiz cara de nojo.

- Tenho certeza que esse não é o seu irmão. – Tyler me puxou pela mão para um banquinho afastado do banheiro químico.

Eu realmente não sabia se ria do cara ou se chorava até meu corpo desidratar.

- Quanto laranja. Você viu a roupa dele? – Ele ria enquanto observávamos o cara gordo com uma blusa laranja que nem cobria toda sua barriga andar na direção oposta a nossa. Ele parou para abaixar e pegar algo no chão, mas graças a Deus sua calça também laranja cobria toda a sua traseira e nos poupou de uma verdadeira visão do inferno.

- Caso não tenha reparado Mago da Inteligência, todo mundo está de laranja. Bem vindo a uma festa holandesa. – Ironizei. – Agora eu preciso realmente achar o meu irmão que é uma versão menor do Pablo. – Me levantei pronta para correr como uma louca, mas novamente Tyler me impediu.

- Senta ai. – Rolou os olhos me impedindo de levantar e parando na minha frente. – Eu vou te ajudar.

- Você ajudaria muito me deixando levantar.

- Eu vou procurar ele com você. – Já estava pronta pra protestar quando ele continuou. – E não adianta reclamar, você está num lugar público, eu posso te seguir a vontade. – Cruzou os braços.

- Não se eu chamar a polícia. – Rebati.

- Experimenta. Ai eu aproveito e conto que estou tentando te ajudar a achar seu irmão. Eles vão querer falar com seus pais e você com toda certeza não vai querer dizer pra eles que perdeu, à noite, seu irmãozinho. – Disse tudo de uma fez, sem poupar um sorriso vitorioso no final.

- Touche. – Encolhi os ombros e suspirei. – Imagine uma versão do Pablo menor e com oito anos. – Comecei a explicar e ele assentiu. – Agora imagine ele loiro só que com a minha cara. – Tyler fez uma careta engraçada. – Agora junta tudo isso e imagina ele com as pernas cruzadas com a cara de quem vai morrer se não por pelo menos cinco mililitros de urina pra fora. – A careta dele aumentou. – Depois de tudo isso põe um moletom laranja no seu personagem e tcharãm, teremos Alex Veltmein na sua mente.

- Isso não é nem um pouco atraente. – Comentou.

- Realmente, até porque estamos imaginando um projeto de ser humano e não uma modelo da Playboy. – Ri começando a vasculhar nas minhas imagens do celular uma foto dele. Eu devia ter feito isso antes, mas vamos considerar que estou nervosa. A foto da minha formatura era a única que tinha com ele. Uma gracinha de roupinha social.

- Por que não me mostrou essa foto antes de me fazer imaginar a versão bizarra do Pablo criança, Carlie Veltmein? – Ele ria.

- Como sabe...

- ‘Tá no seu diploma. Foto de formatura... Sabe como é. – Sorriu satisfeito.

- Droga. – Murmurei.

E então começamos a procurar. É, estava procurando meu irmão de 8 anos, a noite, junto com um turista desconhecido. Puff, quem nunca fez isso? Eu. Todos os cantos, todas as lojas, ponta a ponta do rio. Até binóculos eu comprei pra tentar enxergar dentro dos barquinhos que passavam no lento rio. Vai que ele tinha se enfiado lá? Estamos falando do meu irmão. Tyler dizia que se Alex era realmente uma versão criança do Pablo a gente não precisaria de binóculos para encontra-lo. É claro que eu bati nele, mas não deixava de ser verdade.

- Não dá, é muita gente. Muita criança, muito adolescente, muito adulto. Pra tudo quanto é lado. E principalmente: ‘tá todo mundo de laranja. – Suspirou cansado. – Qual é a de vocês com essa cor? – Franziu a testa.

- Ei, não fala da gente com essa cara. Não esquece que o de fora aqui é você. – O empurrei com o ombro. – Você é um péssimo turista, como não sabe nada do país que visita?

- Te garanto que se pudesse estaria curtindo o calor da California. – Ele riu olhando pro céu. – Estou aqui porquê minha avó se mudou pra cá faz alguns anos. Ela insiste que a gente venha visita-la e a gente nunca vem. Agora cedemos ao pedido e a família toda veio. – Explicou voltando a me olhar. – Mas eu sei alguma coisa sim, Senhorita Carlie A Patriota. – Ergueu as sobrancelhas e me olhou dos pés a cabeça, parando para me encarar nos olhos. — Eu sei que essa combinação de roupa vermelha e azul é por causa das cores da bandeira e você deve ser a única além de mim que não está usando nada laranja. – Observou. Eu apontei para as minhas pulseiras, mas ele ignorou. – E também sei que Amsterdã é a capital, onde a festa acontece com 10 vezes mais barulho que essa aqui. – Sorriu com satisfação no final.

- Aposto que só sabe essa ultima porque sua avó devia estar morrendo de vontade de ir pra Amsterdã só porque a família de ouro passa por lá. – Ergui as sobrancelhas e ele gargalhou concordando.

- Touche. – Piscou. – Agora me explica o porquê de tanto laranja. – Pediu pegando meu pulso e mexendo nas minhas pulseiras, que tilintavam cada vez que ele passava o dedo por suas pedrinhas.

- A gente tem que procurar meu irmão... – Murmurei enquanto observando ele fazer o mesmo movimento de antes. Do meu pulso ele correu os dedos para a palma da minha mão e agora desenhava com o dedo as linhas que nela tinha.

- Tenho certeza que seu irmão está bem. – Ele riu me olhando. Ele estava me desconcentrando de novo.

- Como tem tanta certeza, Senhor Tyler O Esperto? – Arqueei as sobrancelhas.

- Em menos de 3 minutos ele vai entrar no banheiro químico atrás de você. – Riu despreocupado. Ao contrário de mim, que virei bruscamente para trás.

Exatamente como eu tinha descrevido. O projeto de gente com seus projetos de pernas cruzadas parado na porta do banheiro. Ele praticamente pulou pra dentro do banheiro quando um homem gordo saiu de lá.

Homem gordo. Blusa laranja que não cobre a barriga. Pablo.

- Eu. Vou. Te. Matar. – Falei pausadamente dando um tapa em Tyler a cada palavra. Ele apenas riu, novamente, e segurou meu pulso voltando a fazer o que fazia antes. – Ele estava ali o tempo todo?

- Ele parou faz um tempinho, considerando que Pablo estava ali dentro já fazia um tempão, logo a versão adulta iria passar o trono pra versão criança. – Fez graça.

- Você é um desgraçado. – Bati nele de novo.

- E também sou um belo ator. Minha vontade era de gritar “êba, chega de correr por essa festa cheia de gente laranja”. – Suspirou como se estivesse realmente cansado. – Merecia até um prêmio. – Movia as sobrancelhas em malicia e eu novamente bati nele.

- Laranja é a cor da família real. – Desconversei, respondendo por fim a sua pergunta anterior. – Eles têm o sobrenome “Orange” na dinastia. Por isso que no Dia da Rainha, que virou Dia do Rei, tudo fica assim: laranja. Na verdade não só nesse dia, laranja meio que virou a cor do país, até mais que as cores da própria bandeira. – Expliquei.

- Você é patriota assim, é inteligente ou apenas adquire informações pra encantar turistas? – Se aproximou.

- Um pouquinho das três opções. – Maneei a cabeça sorrindo quando ele soltou meu pulso pra envolver minha cintura com os braços.

- Que bom. Preciso informar que a última ‘tá funcionando muito bem. – Foi a ultima coisa que ele disse antes acabar com qualquer espaço que ainda estivesse entre nós e me beijar.

Quando o beijei senti o leve cheiro do cigarro que eu não me recordo em que momento ele se livrou. Era estranho como o cheiro não se impregnou nele. Mas ignorando totalmente o cigarro, os seus lábios tiveram o poder de como se eu tivesse passado uma noite apenas consumindo álcool: me deixou desconcentrada. Não era o efeito literal, mas me deixou feliz e com vontade de não largar.

Eu já podia mudar no calendário de Dia do Rei para Dia do Turista. Era um dia que eu podia esquecer amanhã, na semana que vem ou no próximo mês. Mas se eu pudesse por um cadeado na minha memória apenas para que nenhum outro acaso substituísse esse pequeno acaso, eu colocaria. Eu definitivamente não queria esquecer.

Notas finais
Bom, é só isso.

Comentem alguma coisa, nem que seja: péssima história. Ou, "gostei". Até mesmo um "♥" ou "3". Apenas me digam o que acharam.

Twitter: @whossdiley
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!