Dia das Mães

1 Johann, Beatrice e Pietro


Notas iniciais
Fiz essa estória pensando no dia das mães, que é um dia muito lindo ♥ Não sou mãe, portanto não sei se descrevi exatamente como uma mãe se sente, mas fiz meu máximo T^T

Segunda-Feira

Eu estava exausta. Tinha acabado de chegar do trabalho. Suspirei cansada, segurando de qualquer jeito as sacolas, louca para entrar em casa, tomar um belo e maravilhoso banho e deitar. Abri a porta, entrando apressada. Logo que cheguei à sala, balançando o cabelo para tirar da frente dos olhos eu paralisei. Vi meu filho, meu filho, sentado no colo de outro menino, beijando-o avidamente, como se não houvesse amanhã.

Não soube como reagir àquilo. Fiquei parada ao lado do sofá vendo aquela cena, estupefata. Por um momento eles se separaram, arfando e foi nesse momento que meu filho me viu. Ele olhou para mim um pouco horrorizado, arregalou os olhos. Logo o outro menino também me viu e rapidamente eles se puseram de pé.

– Mãe! – Ele exclamou, mas eu não soube o que dizer e o ignorei.

Pisquei umas duas vezes e, sem saber o que dizer, passei direto por eles e entrei no meu quarto, que ficava adjacente à sala. Encostei-me a porta, respirando fundo. Larguei minha bolsa, a chave, e as sacolas no chão, andando meio tonta até a cama. Sentei e passei a mão pelos cabelos.

“Mas que diabos foi aquilo?” Pensei.

Depois de algumas horas, sentada na cama e pensando freneticamente sobre me filho e seu comportamento anormal, cheguei à conclusão de que talvez fosse uma fase. Levantei da cama, exausta psicologicamente e fisicamente, me direcionei ao banheiro. Tomei um bom banho, lavei os cabelos, limpei a maquiagem seca do rosto, tirei o cheiro de suor, cigarro e perfume. Saí do banheiro, peguei um pijama no meu guarda-roupa, e vesti. Um pequeno e simples pijama de seda bege. Sentei na cama, me cobri até a cintura e puxei meu ultrabook do criado-mudo. Apoiei umas almofadas nas minhas costas e ignorei friamente meus objetos no chão frio. Liguei a máquina e passei a procurar sobre gays na internet.

Pesquisei por horas, e só descansei quando eu tive algumas certezas sobre o que eu meu filho era e o que eu supostamente devia fazer. Descobri que, independente do que eu quisesse, ele não iria mudar. Que não havia nada que eu pudesse fazer e isso me fez chorar, porque eu podia não saber muito de gays, mas eu sabia que muitos deles morriam e sofriam a vida toda por causa de gente ignorante. Descobri que não era uma fase, descobri que já houveram milhares de tentativas de cura através de rituais cristãos, e psicologia, mas homossexualidade era uma constante. Não mudaria. Nunca.

Mas aquilo não era suficiente para mim. Eu queria mais, eu ainda não entendia. Na verdade eu talvez entendesse, mas não me entrava na cabeça. Já era duas da manhã quando desliguei meu ultrabook na intenção de dormir. Amanhã eu acordaria cedo para o trabalho. Liguei o ar condicionado e me cobri até o pescoço. Tentei dormir, mas tudo que eu consegui foram alguns cochilos no meio da madrugada até o despertador tocar.

Terça-Feira

Bom, não havia muito que dizer desse dia da semana. Acordei de manhã cedo, tomei banho, me arrumei para o trabalho, e saí do quarto para o café da manhã. Maria, a empregada da casa, avisou que Johann já havia saído, muito mais cedo. Ela me perguntou se havia acontecido alguma coisa por causa das minhas olheiras gigantescas e informou que o Jo também estava do mesmo jeito.

Suspirei cansada.

No trabalho o dia tinha sido longo, ficar no escritório, indo à reuniões, ouvindo problemas. Às vezes eu simplesmente não queria ser dona de uma empresa, mas sabia que isso me trazia algumas vantagens. Queria poder ir embora, ter uma conversa franca com seu filho, mas estava cheia de problemas e não podia sair. Ontem havia sido o único dia que pôde sair mais cedo, e o fez para descansar e talvez assistir um filme com seu filho, mas, bom, seu plano caiu por terra.

Cheguei em casa tarde da noite, pronta para ter uma conversa com meu filho, esperando que ele estivesse acordado, mas enganei-me. Quando entrei na casa fui direto para o quarto, tomei outro banho, vesti um novo pijama e fui em direção ao quarto do Jo, mas ao entrar lá o vi deitado, claramente fingindo que dormia. Meu filho nunca dormia a essa hora. Queria tanto entrar no quarto, depositar um beijo em sua testa e dizer que o amava, mas algo travava suas pernas. E se ele não me amasse mais? Por quê?

Fechei a porta e fui para meu quarto. Deitei na cama, chorei um pouco, mas consegui dormir melhor que a outra noite.

Quarta-Feira

Johann havia saído mais cedo de novo. Minha garganta apertou suavemente porque, de uma forma ou de outra, meu filho estava se afastando de mim. Não nos víamos mais, antes era difícil por causa do meu trabalho, mas agora não nos víamos nunca. Eu acho que ele tinha medo de mim e eu tinha medo dele. Tinha medo, mas não sabia do quê.

Fui trabalhar, desanimada. Triste, por estar perdendo meu filho. Mas meu dia só piorou quando eu estava numa mesa com meus empregados. Sabe, sou uma chefa muito legal, gosto de interagir com meus funcionários, por isso temos um salão com várias mesas, com lugares contados para todos, inclusive pra o pessoal da limpeza. Eu fazia questão que não houvesse separação de grupinhos, portanto era gente da direção conversando com o pessoal da limpeza, e era assim que eu queria, mas não era nada forçado, aconteceu que as amizades foram se formando mais rápido do que eu esperava. Estava sentada à uma mesa, rindo e conversando quando o assunto, inexplicavelmente, tomou o rumo dos “viados”.

Bom, cada um que desse sua opinião e a maioria delas não era lá positivas. Alguns comentários eram de muito ódio, algo como; “Enfiar uma vassoura pelo rabo, e eles param com essa frescura.” E muito deles concordaram. Nessa hora, parecia que pregos estavam descendo pela minha garganta, porque eu imaginei meu filho. Fechei os olhos, levantei da mesa, abandonando minha comida e indo para a varanda. A área do almoço era no terceiro andar e a varanda era o lugar de fumantes. Não me importei com o cheiro forte, na verdade, eu realmente queria um cigarro naquela hora. E ele surgiu.

Um dos fotógrafos – sei disso por seu crachá – da empresa, apareceu do meu lado, encostando a cintura na bancada da varanda e meu estendeu um cigarro. Não recusei. Segurei o cigarro na boca e ele o acendeu, logo fumando o seu também. Apoiei meus braços na bancada, ao lado do fotógrafo Dário. Ele era um ótimo profissional, não era de muitas palavras também. Acho que ele estava na mesa também. Não dissemos nada, apenas fumamos juntos e separados.

Quando terminei meu cigarro eu voltei à mesa, decidida, destemida. Subi em uma mesa e logo todos me deram atenção. Um silêncio sepulcral ficou naquele lugar.

– Àqueles que não forem a favor da homossexualidade, e achem errado por seus motivos religiosos, seus princípios, ou até mesmo por sua ignorância tem seu direito de se expressar sem desrespeitar ninguém, mas àquele que fizer qualquer comentário de ódio será imediatamente despedido. – Olhei diretamente nos olhos do humano que falou da vassoura. – Fui clara? – Ouvi um “sim” uníssono. – Homofobia é crime e eu não aceitarei nenhuma demonstração aqui dentro.

Desci da mesa me sentindo uma super pessoa e caminhei altiva para minha sala. Antes de entrar no elevador vi o sorriso do Dário para mim e sorri de volta. Eu precisava conversar com esse homem.

Quando cheguei em casa eu fui direto para o quarto do meu filho, ele o outro menino estava lá também. Os dois estavam sentados um de frente para o outro, de mãos dadas. Estavam sérios e eu não pude deixar de imaginar que talvez estivessem acabando um possível relacionamento. Não quis me meter e fechei a porta.

Quando cheguei ao meu quarto eu cheguei a conclusão que não queria que meu filho terminasse seu relacionamento, porque, pensando calmamente, ele parecia feliz uns dias atrás e essa felicidade devia ter algo a ver com esse namoro.

Quinta—Feira

Acordei disposta a por um fim nessa situação de merda. Queria meu filho de volta e pronto. Quando cheguei à sala Maria me informou que Jo já havia ido à escola, não que eu estivesse surpresa, mas eu tinha que dar um jeito de encontrar com ele. Não poderia continuar desse jeito. Sentia falta do meu menino.

Fui trabalhar e na hora do almoço encontrei com o tal Dário, fumamos juntos na varando e tivemos uma pequena conversa. O tema foi filhos, mais especificamente, filhos gays, porque o filho dele também era.

– Quando meu filho me contou – Ele contou, olhando para o céu. – Eu o bati e o expulsei de casa. – Ele suspirou triste. – Nunca me arrependi tanto de algo na vida. Não deu uma semana e eu estava implorando pra ele voltar.

– E ele voltou?

– Sim. Ele chorou, eu chorei, o amigo dele chorou. Depois eu descobri que não era o fim do mundo. Acabou que eu fiquei bem mais próximo dele e ele agora confia em mim. E eu nele. – Ele sorriu e eu sorri.

Eu baixei o olhar.

– O Jo ‘tá fugindo de mim e eu não ‘to lá fazendo muito esforço para ir atrás dele. – Suspirei.

– Ele tem medo que você o rejeite, então ele prefere não te ver. – Ele pôs a mão no meu ombro. – Você deve falar com ele antes que seja tarde, antes que suponha que você o odeia.

– Mas eu não o odeio! – Exclamei exasperada.

– E quem odeia? Só que eles não sabem disso. Você tem que entender que é difícil até mesmo pra eles se aceitarem e se eles se negam tanto a fim de evitar que nós, os pais, os odiemos, como acha que ele pensa que vamos reagir? Entende?

No começo, minha cabeça tinha dado um nó, mas depois eu entendi. Era basicamente: Se ele se crucificou, o que faria eu? Eu continuaria o amando, mas ele não sabe disso. Ainda.

Peguei minha bolsa na minha sala e entrei no meu carro, indo em direção da escola do Jo. Essa hora ele deve estar na última aula. Dirigi o mais rápido que pude para chegar a tempo. Cheguei.

Saí do carro e me encostei-me à porta do carro e fiquei esperando o sinal tocar, o que não demorou muito. Uma multidão de alunos saiu e eu fiquei atenta a achar meu bebê de 16 anos. E lá veio ele, sendo carregado pelas costas pelo possível namorado. Ele estava rindo e falando “me solta, me solta”. Os dois estavam sorrindo, mas o sorriso deles sumiu quando me viram do outro lado da rua. Eles estavam tão fofamente sérios que eu não pude não sorrir. Eles vieram até mim.

– Mãe? O que a senhora está fazendo aqui? – Jo perguntou tenso.

– Bom, você esteve fugindo de mim esses dias então eu furei trabalho pra vir te ver porque eu estava com saudades. – Fiz um biquinho fingido e vi ele sorri um pouco nervoso. Sorri aberto. – Também vim te convidar para um sorvete. – Ele pareceu surpreso nessa hora e o menino ao lado dele, sorriu. Muito bonito, vale constar, meu filho tinha bom gosto. – Quer vir conosco? – Eu perguntei sorrindo.

Nessa hora eles se olharam sorrindo felizes e deram as mãos.

– Claro!

Os dois entraram no carro, meu filho ao meu lado e o outro no meio.

– Afinal, querido, qual seu nome? Meu filho mal educado não me disse ainda. – Eu disse, feliz, porque meu menino sorria.

– Meu nome é Pietro, senhora Beatrice.

– Ah, pode me chamar de Bea. – Sorri, olhando para estrada. Não demorou muito e uma conversa divertida se instalou no carro. Ríamos e brincávamos. Foi uma das melhores tardes da minha vida, eu também estava nervosa, mas não deixei transparecer, queria passar confiança para meu filho e para o seu possível primeiro amor.

Depois de uma tarde agradável eu deixei Pietro em casa e fui para casa com meu filho. Assim que cheguei em casa eu fui em direção ao sofá.

– Filho, nós precisamos conversar. – Eu disse. O vi suspirar e sentar na outra extremidade do sofá. Não ficou muito distante de mim, já que o sofá era pequeno. Ele abaixou a cabeça, com uma expressão triste que eu lutei anos para não ver e odiei ser o motivo de tal feição. Levantei seu rosto com um dedo e olhei em seus olhos, vendo uma pequena luz de esperança. Sorri compreensiva.

– Johann, eu te amo. – Vi um sorriso genuíno surgir. – Independente de qualquer coisa. — Ele se jogou nos meus braços e me abraçou com força. Retribuí com tanto amor que me era permitido. – Deita aqui no meu colo. – Pedi.

Ele deitou e fechou os olhos, com um sorriso pequeno na boca.

– Vocês estão juntos há quanto tempo? – Perguntei começando um carinho gostoso em seu cabelo cacheado.

– Faz um ano já. – Ele disse um pouco hesitante. Suspirei.

– A mãe dele sabe também?

– Sabe sim. – Agora eu fiz um bico.

– Me sinto excluída. Fui a última a saber. – Ele riu. Corei um pouco em pensar na outra pergunta. – Vocês... Usam camisinha? – Ele sorriu aberto. E concordou com a cabeça e eu corei mais. – Muito bem. – Dei um tapinha na testa dele. – Ele não te apressou né?

– ‘Tá mais pra eu que apressei-o. – E ele riu mais alto ainda.

– Tá certo, tá certo. – Eu disse sem graça. – Vou dormir. – Vi ele se levantar e me dar outro abraço, o que era raro.

Ele sussurrou ao meu ouvido que me amava e eu senti que tinha ganhado o melhor presente da minha vida toda. Uma declaração do meu filho era uma coisa tão rara quanto borboletas mongolianas. Ok, elas não existem.

– Até amanhã, mãe.

– Até, filho.

Sexta-Feira

Eu entrei no quarto, tomei meu banho e me deitei. Demorei a dormir, mas dormi bem e feliz. De manhã a rotina havia voltado ao normal, levei Jo para a escola, vi ele beijar o Pietro na entrada e segui para meu caminho. Na empresa tudo estava bem, ou aparentava assim, porque era assim que eu me sentia. Bem.

Na sexta à noite, quando cheguei em casa eu encontrei o Pietro sentado no sofá, rindo e conversando enquanto comia uma pizza. Juntei-me aos meninos e vimos um filme, depois eu decidi os deixar sozinho, tentando, em vão, bloquear minha imaginação.

Até que eles eram fofinhos juntos.

Notas finais
Oi, povo. Eu fiquei com tanta vontade de escrever essa fic. Eu fiquei pensando na minha mãe quando minha irmã contou à ela que era bi. E na mãe do meu melhor amigo quando ele disse que era gay, e em todas mães do mundo. As mães que amam de um jeito e de outro e que demonstram de forma diferente e eu realmente sinto muito pelos jovens cuja as mães não lidam bem com sua sexualidade, enfim. Pra você que se sente sozinho, eu lhe digo algo; Encontre em si mesmo o amor que lhe é necessário. ♥ Então néeee, sou tão gay T^T *abraça* Obrigada por ler e lembre-se que comentar não vai te matar, na verdade você vai ganhar até um beijinho *pisca*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!