Dia após dia.
2 Coincidência?
Passando por minha rua, vejo ao longe o portão de minha casa, alcanço-o e o empurro, pego minhas chaves e abro a porta.
– Já chegou, filha? — ouço minha mãe perguntar.
– Já, sim, mãe — respondo.
Vou correndo para a cozinha e dou-lhe um grande abraço.
– Como foi seu dia Sra. Marissa? — brinco.
– Bom... mas senti falta da minha pequena.
Eu não me importava por ela me chamar assim, ao contrário, até gostava, ela era uma das pessoas que eu mais amava e adorava o fato de ela ainda me achar uma criança, mas ela sabia que eu era uma pessoa responsável, grande e madura o suficiente para medir meus atos, ela só me chamava assim por simples afeto e por saudades de minha infância.
– E o seu? — ela me arranca de meus pensamentos.
– Bom. Dependendo do que vem à ser bom no seu ponto de vista.
– Tivemos uma melhora? De horrível foi para bom! O que houve?
– Fiz uma nova amizade.
– Qual é o nome dele?
– Como pode ter certeza de quê é um menino?
– Puro palpite — ela olha para mim com uma cara de felicidade.
– Sim, é um menino, e, se chama Ethan. Ele é primo da Natalie.
– Ah sim... falando em Natalie, ela está bem?
– Está, está sim. Mas não veio comigo para casa.
– Por que?
– Porque ela teve que acompanhar Ethan, junto com sua mãe, até à casa dele, para ele conhecer o caminho, e, em seguida a deixou em casa.
– Ah bom... Já estava pensando que havia acontecido algo.
– O que tem para o almoço hoje? — digo enquanto abro a geladeira.
– Lasanha.
Meu queixo caiu. Lasanha era minha comida favorita e a Lasanha da minha mãe era uma coisa dos deuses.
– Ai meu deus! Sério?
– Absolutamente sério.
Nos sentamos à mesa e comemos aquela maravilha, comi uns três pedaços, quando me senti farta parei de comer.
– Obrigada, obrigada mesmo mãe. Ai meu deus. Ainda não estou acreditando, estava muito bom.
– A noite tem mais. Vá trocar de roupa.
Olhei para baixo e percebi que ainda estava com a roupa do colégio.
– Ta bom. Obrigada de novo. Vou trocar de roupa e fazer o dever de casa.
Me arrastei para a escada com uma preguiça enorme, comecei a subir. Entro em meu quarto, abro meu armário, boto uma roupa confortável, abro minha mochila, pego os livros e começo a fazer o dever.
Sinto minhas pálpebras se fecharem... Eu não posso dormir, tenho que terminar o dever.
Dou um salto quando ouço a open de SAO tocar em meu celular.
Meu celular deve estar dando problema, era para isso tocar só às quatro — Penso.
Olho para o visor: 4:05 pm.
Não acredito que eu dormi. Não acabei o dever de casa — penso.
Me levanto e vou correndo para meu banheiro. Tomo um banho rápido, saio e visto minha calcinha e meu sutiã. Boto minha blusa e quando tento passar a calça pelas minhas pernas me embolo na calça, piso-a e caio em cima da cama. Dou um longo suspiro.
Pego meu skate, meu celular, meu fone e saio de casa.
Conecto meu fone em meu celular e dou play na música. Subo em meu skate e começo a andar.
Chego no final de minha rua, onde se encontra uma pequena ladeira. Fecho meus olhos e sinto o vento em minha pele e em meus cabelos. A música tocava no volume máximo em meus fones.
Sinto algo encostar-me continuamente. Abro meus olhos e vejo Ethan à minha frente. Um instante de confusão me ocorre. Como ele estava correndo tão rápido? Como não sai da minha frente? O que está acontecendo?
– Como você... — começo, mas logo paro quando olho para baixo e percebo que ele estava em cima de um skate. — Ah...
Tiro um de meus fones do ouvido.
– Não sabia que você andava de skate — ele diz.
– É... eu ando. Também não sabia que você andava. E o que você está fazendo aqui?
– Moro aqui perto, resolvi dar uma volta. E você...?
– Moro nessa rua mesmo, lá no começo — digo apontando para trás -, todo dia às quatro eu saio e fico dando umas voltas por aqui.
– Eu passei aqui quando voltei da escola, amanhã vou voltar sozinho, se importa se eu vier com você? — ele pergunta.
– Claro que não, eu adoraria — respondo -, eu venho metade do caminho sozinha, Natalie mora antes de mim.
– Ta certo, então — ele confirma. — Está ouvindo qual música?
– By the way da banda Red Hot Chili Peppers, e você?
– Red Hot Chili Peppers... minha banda favorita, agora, respondendo a sua pergunta, Can't Stop, nem preciso falar qual é a banda.
– Vou tatuar uma frase de Can't Stop quando eu for maior de idade.
– Qual frase? — ele pergunta.
– Choose not a life of imitation — respondo.
– A melhor frase dessa música. Tem quantos anos?
– Dezesseis.
– Olha, ela é mais nova — diz como se estivesse falando com uma outra pessoa.
– Mais nova? Você tem quantos?
– Dezessete.
– Oh! Meu deus! Quanta diferença! — ironizo.
– Ta bom, não é muita coisa, mais ainda sou mais velho. Eu jurava que vc tinha dezessete ou mais.
– Eu sei. Apesar de eu ser um pouco baixa, aparento ser mais velha.
– Um pouco? — ele diz arqueando uma sobrancelha.
– Perto de você sou muito baixa, mas, perto de outras pessoas sou um pouco — digo, já no começo de uma ligeira irritação.
– Se você diz...
– Vamos ver do que você é capaz, que tal uma corrida? Daqui até a minha casa? — Enquanto conversamos eu havia lhe mostrado minha casa, então ele já a conhecia.
– Fechado.
Levantamos e nos preparamos. Quando ele deu a largada eu dei um impulso muito forte. Eu vou mostrar para ele que eu posso ser pequena, mas sou capaz de muitas coisas!
Estávamos empatados e quase alcançando à linha de chegada, que marcamos como uma árvore, quando eu o passei.
Fui diminundo a velocidade até parar. Sentei-me no meio fio e Ethan fez o mesmo.
– Você é boa — ele diz.
– Muitos anos de prática — brinco.
Ele da uma risada com a pequena brincadeira.
– Então... mudando de assunto — ele diz -, qual é o seu lance com a Rachel?
– Sei lá, ela é doida, só gosta de me infernizar.
– Mas você sabe por que?
– Infelizmente não.
– Depois que eu sai da sala, eu fui no meu armário, vi você falando com ela — diz ele. — Ela lhe fez algo? Você saiu tão depressa.
– Não, só falou um monte de besteiras.
– Do tipo...?
– Me chamou de covarde porque me escondi no recreio e te chamou de bonitinho.
Ele fez uma cara que dizia: "Como assim? Que coisa ridícula."
– Não vamos falar mais dela, ela só serve para atrapalhar — eu disse.
– Uhum — ele concordou.
Um minuto de silêncio se passou. Ele me olhou nos olhos de repente e disse:
– Seus olhos são lindos.
– Ahm... Obrigada, os seus também — respondo sem saber muito bem o que dizer -, quer dizer, são realmente lindos.
Desvio o olhar, mas ainda sinto seu olhar sobre mim.
– Perfeitos — sussurro, tento falar baixo, sei que ele ouviu, mas não falou nada.
– Nossa! Já são sete horas, passou muito rápido, tenho que ir para casa — minto.
– Vou até sua porta com você.
– Não precisa.
– Eu faço questão.
Ótimo. Nessas horas que eu detesto minha incapacidade de falar não e a educação de Ethan.
Vamos andando em direção à minha porta. Quando chegamos, encaixo minha chave na porta e abro-a.
– Kaly? Kaly é você? — minha mãe aparece na porta.
– Sim, mãe.
– Chegou ced... — arregalo meus olhos para ela, ela entende o sinal e tenta concertar sua frase. — tarde, já falei que é para chegar às sete.
– Okay, me desculpe.
– Quem é esse rapaz?
– Ele é o primo da Natalie.
– Ah... aquele que você falou — fico vermelha. — Prazer, Marissa — ela diz estendendo a mão para Ethan aperta-la.
– Ethan, o prazer é todo meu — ele pega sua mão, pensei que iria aperta-la, mas em vez disso ele a beija. — Agora entendi de onde veio essa esplendorosa beleza de Kaly.
Minha mãe me lança um olhar rápido. Pronto, penso, hoje era oficialmente o dia de "faça a Kaly passar vergonha".
Mas em uma coisa ele não mentiu, eu e minha mãe somos assustadoramente parecidas, só que ela é mais alta e seu rosto já não está tão jovem quanto antes.
– Obrigada, querido, você é muito gentil. Mora por aqui?
– Sim, moro algumas ruas à frente.
– Gostaria de ficar para o jantar? — ela oferece.
– Não, Ethan disse que estava muito ocupado, não foi Ethan? — lanço-lhe um olhar que dizia "se você negar eu te mato".
– Foi, foi sim. Eu realmente tenho que ir. Adeus senhora Marissa, tchau Kay. — ele disse. Kay? Quem me chama de Kay?
– Adeus querido — diz minha mãe e vai para a cozinha.
– Tchau Ethan.
– Ah, só mais uma coisa.
Ele segura meu queixo, me olhando nos olhos, vira de leve meu rosto e beija minha bochecha.
Por que ele insiste em fazer isso?
– Até amanhã — ele diz ainda segurando meu queixo.
Recuo um passo, retirando meu rosto de suas mãos. O canto de sua boca se levanta, um sorriso.
Ele recua dois passos, se vira, pega seu skate e se mistura a escuridão da noite.
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