Dia a dia, lado a lado
1 Exatamente aqui
Notas iniciais
♫ Eu sonhei que estava exatamente aqui,
Olhando pra você... ♪
Ela nem percebeu que acabou dormindo afogada de tantos mimos, sentia uma sensação gostosa e peculiar de satisfação percorrendo todo o seu corpo, e à medida que as memórias voltavam um sorriso se abria em seu rosto. Nami estava na biblioteca, nua e enrolada nos cobertores, devia ser por volta das cinco da manhã por causa da pouca luz. Logo sentiu aquele cheiro apimentado, e quis se intoxicar dele mais uma vez.
Virou-se e encontrou o homem nu, ignorava os cobertores sem pudor algum, a silhueta branca e franzina sutilmente iluminada pela brecha da cortina, as madeixas loiras espalhadas no travesseiro, os olhos azuis solitários e distantes, os lábios rosados e inchados da noite anterior tragando um cigarro já aceso. A visão perfeita para se ter ao acordar, segundo Nami, ou qualquer outra pessoa com bom gosto.
A rotina estava, sem dúvida, ficando mais animada. As visitas na cozinha quando todos ainda estavam dormindo, as escapadas até a parte traseira do navio, as noites intermináveis na biblioteca. Mas acordar juntos? Essa era nova. O laço entre a navegadora e o cozinheiro estava ficando mais estreito a cada dia. Nami temia que ele acabasse ficando mal acostumado. Que ela acabasse ficando mal acostumada.
“O que estamos fazendo?”
♫ Pronto para despertar...
Perto mesmo de explodir ♪
Seu coração deu um pulo quando aqueles olhos azuis a capturaram, e um sorriso gentil se abriu naqueles lábios tentadores.
— Bom dia – sua voz era aconchegante, mas ela o respondeu com um tom impaciente.
— Bom dia – afogou o rosto no travesseiro e sentiu o corpo dele se aproximar.
— Quer café? – ele a beijou no ombro e fez um cafuné. Nami o respondeu com resmungos que ele não soube decifrar, mas riu. – Vou fazer algo pra você. Já volto.
Sanji ergueu o corpo e se preparou para sair da cama, mas sua dama o segurou, mostrando o rosto quase tampado pelos seus cabelos rebeldes que mais pareciam um fogaréu.
— Não precisa – ela se virou novamente e se livrou dos cobertores, dando-lhe enfim a visão de seus seios magníficos, macios só de olhar, impossíveis de não hipnotizar qualquer um que tivesse a benção de vê-los desnudos. Há uns dias atrás, Sanji jamais imaginaria que ela lhe concebesse essa benção. – Fica aqui.
♫ Tanto para acordar...
Tonto de tanto te ver ♪
Como ele poderia recusar um pedido desses? Deitou-se novamente e contemplou o corpo nu de sua vênus. Ela não estava em sua forma mais elegante, seu cabelo estava bagunçado e armado, a maquiagem borrada, olheiras nos olhos, e quem olhasse atentamente veria um pouco de baba no canto da boca.
Sanji se viu perguntando se ela deixava alguém vê-la desse jeito, será que houve outro felizardo? Seria essa a visão de quem acorda ao seu lado todos os dias?
— Você é tão linda, Nami-san – disse num tom meloso, mas sincero.
— Você nunca cansa de dizer isso? – respondeu ainda impaciente, mas riu um pouquinho.
Ela esperou que ele tivesse uma resposta melosa na ponta da língua, como sempre, mas esse não era o caso. Sanji a contemplava da cabeça aos pés como se fosse uma obra de arte, tanto envolvimento, tanta intensidade, tudo tão de repente e incontrolável. Ela não sabia o que dizer, apenas tentou desviar sua atenção roubando o cigarro de sua boca, tragando-o sem a menor dificuldade.
— Você gosta? – ele perguntou num tom surpreso, nunca tinha a visto fumar.
— Já estou acostumada com cigarro – ela respondeu, Sanji deixou um cinzeiro entre os dois. – Mas não exatamente por gostar.
Ela tinha um ar distante e de certa forma misterioso, qualquer um se atiçaria com aquele olhar pesado de intensidade.
— Então por que?
♫ Por que um raio cai?
Por que o sol se vai? ♪
Aproximou um pouco mais o rosto para captar melhor as reações dela, Nami aspirou fumaça e se viu completamente perdida em nostalgia, deixando um sorriso escapar.
— A minha mãe fumava – Sanji ficou um pouco acanhado apesar dela não parecer melancólica. – Acho que não teve um único dia em que não a vi fumando, o nosso vizinho sempre brigava com ela dizendo que ela era uma má influência, mas ela não tava nem aí. – Nami riu ao lembrar das broncas que Gen-san dava em sua mãe, e das respostas mais indiferentes que ele recebia. – Eu comecei a fumar bem cedo, e fumei por anos até perceber... que só estava fazendo isso pra me sentir um pouco mais próxima dela.
A navegadora se espreguiçou, totalmente desleixada e sem perceber que o loiro estava cada vez mais perto. Ele, por sua vez, não sabia o que dizer, estava em transe por vários motivos. Nem nos toques mais íntimos a sentiu tão aberta e entregue quanto agora, e se perguntava se era honrado o suficiente para receber tudo o que Nami tinha para lhe dar.
Depois de alguns minutos em silêncio, ela tentou tranquiliza-lo com um sorriso no rosto.
— Mas eu parei quando percebi que não me fazia bem. Hoje eu posso fumar de consciência limpa, só... não tenho vontade. – ela se aconchegou mais no travesseiro e o olhou no fundo dos olhos. – Só senti saudade do cheiro de cigarro por um tempo, mas... Aí você entrou no bando e não tive mais esse problema.
Ambos riram, Nami apagou o cigarro no cinzeiro enquanto Sanji tirava mais dois da caixa, oferecendo a ela e acendendo ambos.
— Eu também comecei a fumar cedo – disse ele, rindo com as próprias lembranças. – Vai acreditar se eu disser que foi com nove anos?
— Nossa! Me superou!
— É... eu queria provar pra um certo velhote que eu era um homem adulto, e a primeira coisa que veio na minha cabeça foi virar fumante.
Nami riu, quase gargalhando.
— Essa foi a coisa mais idiota que já ouvi! Você era uma criança engraçada!
— Parecia uma boa ideia na época, tá bom? – ele tentou se defender, rindo de si mesmo. – Mas realmente não deu certo, e até hoje dependo dessa merda.
Nami coçou a cabeça e sorriu, contemplando o rosto corado do cozinheiro.
— Vai me achar estranha, e também uma péssima influência por dizer isso, mas... eu gosto de te ver fumando.
Sanji levantou uma sobrancelha.
— Por quê?
♫ Se a nuvem vem também...
Por que você não vêm? ♪
— Eu não sei... traz uma certa... ah, deixa pra lá – Nami virou o rosto e tragou o cigarro mais uma vez, soprando fumaça de maneira sensual. Tudo o que ela fazia conseguia ser sensual, para Sanji.
Ainda um tanto absorto por Nami ter falado sobre sua mãe, um assunto nunca tocado antes, sentiu-se à vontade o bastante para se abrir.
— Eu não tenho tantas lembranças da minha mãe – sua voz era calma, mas fisgou o olhar de Nami numa intensidade imensa. – Ela morreu quando eu era bem pequeno... as únicas vezes que a vi foi deitada numa cama, sempre doente, nem tinha forças pra se levantar.
Nami balbuciou algo indecifrável, a surpresa foi grande ouvi-lo falar sobre a mãe, considerando os acontecimentos recentes com a família Vinsmoke ele certamente teve de reviver muitas lembranças desagradáveis. Nunca tocaram nesse assunto, até então.
— Mas de uma coisa eu lembro – ele começou, com um sorriso nostálgico e orgulhoso no rosto. – Por mais que as coisas estivessem claramente difíceis, ela nunca abandonava a gentileza.
Nami sorriu, o sorriso mais quente que ele já viu.
— Não é atoa que é sua mãe.
— Você acha? – Sanji sorriu, um pouco tímido, uma das raras vezes que isso acontecia. Nami estudava cada reação dele, nem percebendo que estava se deixando levar pelos instintos mais uma vez, era orgulhosa demais para admitir que nunca conseguia levantar a guarda para aquele homem. E a nova proximidade, por mais que a assustasse, a confortava. Esta que estava prestes a se estreitar ainda mais a partir da próxima fala do cozinheiro. – Sabe... Eu nunca falei isso pra ninguém.
Aquele olhar azulado e manhoso a fez se derreter por completo, agora, definitivamente, ela se conformaria a ficar mal acostumada com a nova rotina. Nami se engatinhou até o corpo de Sanji e ficou sobre ele, que a abraçou em resposta, com os rostos muito próximos, ela dedilhou as madeixas douradas do cozinheiro, afastando a franja para ver os dois olhos azuis bem amostra. Sanji recebeu um cafuné tão terno que fechou os olhos involuntariamente, saboreando cada sensação que os deuses estavam lhe presenteando naquele momento. Dava para ser mais abençoado do que aquilo?
♫ Nada a ver ficar assim sonhando separado...
Se no fundo a gente quer o dia a dia, o lado a lado ♪
A ruiva beijou o queixo e subiu até a boca, esfregando seus lábios naquela pele macia e quente que a recebia um tanto preguiçoso. Voltou a olhá-lo nos olhos, com um sorriso iluminado pela pouca luz que ia aumentando no cômodo.
— Somos companheiros, Sanji – ela disse um pouco rouca. – Podemos contar tudo um pro outro.
— Eu sei – ele respondeu, tão rouco quanto ela. Nami sentiu o coração dele acelerando contra seu peito, Sanji tomou a mão macia e a levou até seus lábios, beijando-a como uma obra divina. – Eu sei...
Por pouco ele não disse que a amava, sabia que isso iria assustá-la, mas estava cada vez mais difícil segurar o que estava entalado. Mal sabia ele que, por um breve momento, aquilo era tudo o que ela queria ouvir.
— Sanji-kun, eu... – sua voz escapou, tomando a atenção dele por completo. Ela pensou que teria coragem de dizer aquelas palavras, mas mais uma vez seu orgulho a impediu. – Acho... que estou com fome agora.
♫ Eu não vou deixar você com esse medo de se aproximar...
Pra ter um fim toda história um dia tem que começar ♪
O orgulho do cozinheiro ferveu como um fogão aceso, beijou-a rapidamente para coloca-la no canto da cama, se levantando em prontidão e começando a se vestir.
— É pra já, Nami-san! – ele sorriu com corações nos olhos enquanto abotoava a camisa. – O que vai querer?
Ela se espreguiçou manhosa e sorriu em resposta.
— O que você faz de melhor – piscou para ele, fazendo aquele pobre coração apaixonado dar uma pirueta.
Sanji fez mais algumas declarações de amor antes de sair do cômodo, deixando a navegadora aos suspiros enquanto sorria contra o cigarro, perguntando como se deixou se apaixonar tão fácil assim. Mas, de alguma forma estranha e cautelosa sentia que eram tão amigos quanto eram amantes.
♫ É natural que seja assim você aí
E eu aqui, exatamente aqui ♪
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