Notas iniciais
Baseada nos meus próprios sentimentos para com um antigo amor. Espero que gostem, que se identifiquem com a personagem.

Sem revisão prévia dos erros. Sintam-se livres de os apontar. Obrigada.

Enfim, o manual diz para chorar e extravasar tudo o que sinto. Então irei fazê-lo desta forma, escrever uma carta para mim mesma dirigida a ti, com tudo o que me fizeste sentir e tudo o que me fizeste sofrer, rir e amar:

Por quê terminar um namoro num dia de sol? Não me conheces à tempo suficiente para saber como amo dias soalheiros? Para compreenderes o quão fantástica me sinto quando os raios solares aquecem a minha pele de morta-viva e quando todas as cores da cidade parecem mais vivas e alegres? Se nem isso notas-te quero nem saber o que realmente viste em mim. Foi muito cioso da tua parte a escolha do dia. Dois dias antes estava a chover. Pelo menos darias-me um bom motivo para chorar.

Odeio a forma como me fizeste sentir, o choro, a gritaria que reprimi. O sentimento a formar-se na boca e a ser puxado para baixo formando-se num coagulo na minha garganta dorida e seca de palavras agradáveis. Praguejei baixinho durante meio segundo e depois senti-me vazia. Como se tivesses levado tudo o que havia em mim contigo e deixado simplesmente um infimio resquício de sentimento para eu sobreviver. Acontece que consegui o regar bem, que ele voltou a crescer que nem um girassol no pico do Verão.

Amo a maneira como me elogiaste um dia, como era agradável para ti, interessante e te surpreendia dia após dia sem fazer nada em especial a não ser eu. Pelos visto esse sentimento de interesse esvaziou-se depressa. E fiquei aqui sozinha segurando-me pelos últimos fios de sanidade durante algum tempo.


O manual explica-me que agora devo seguir para o segundo passo : Ter cuidado com os conselhos que recebo.

Nesta altura até o cão deseja aconselhar-me no que fazer, onde ir, o que comer, com quem sair e se devo ou não comprar uma nova escova de dentes.

Não sou mulher para acatar um monte de ordens sem sentido que a única coisa que me fazem na vida e sentir-me uma inútil. “Ela foi deixada, coitadinha, agora nem uma escova de dentes consegue comprar”. Deixaram-me, mas não levaram o cérebro com eles, nem a força de vontade, nem o humor, deixaram foi uma grande merda para trás e agora dêem-me tempo para a recompor. Peço desculpa se escolho escovas de dentes com base na cor. Eu gosto de cor-de-rosa.

“Supere a dor, mas devagar” é o terceiro passo para curar um coração partido. Que manual retardado. Obrigada pelo óbvio, criatura. O autor era claramente alguém muito inteligente, cheio de sentimentos complexos. Claro que é ruim perder alguém, claro que é necessário passar por lá, até uma criança de nove anos percebe isso e nem tem idade para ter o coração partido por um homem ou mulher. Não, não estou bem. Obrigada livro por me fazeres novamente perceber o quão estragada estou neste momento.


Quarta regra e provavelmente devia ser a primeira: Não lhe deseje o mal. Ora é fácil falar, primeiro deixa-me praguejar o quanto preciso. O que acha fiz? Desejei-lhe bebés redondos e fofinhos com a miúda por quem me trocou? Toque-se autor do manual, e analise bem a ordem destes passos.

“Não confunda” quinta regra sábia! “A dor de um coração partida é muitas vezes confundida com uma dor no ego”. Oras, meu caro escritor. O meu namorado de longa data troca-me por uma loiraça mais burra, mais peituda e menos eu. Vai coração, vai ego, vai a barriga lisa e vai o bom humor para o raio que o parta! A lista de doces aumenta, o preço dos clinex nunca pareceu tão caro no fim da semana. A maquilhagem sente a minha falta e a massa instantânea torna-se a minha nova melhor amiga, fácil, rápida e não chega a magoar-me o coração.


Sexta regra, o manual indica-me numa dose absurda de floreado que me devo respeitar, amar e não me sentir um lixo. Cuidar da mente, do corpo é fundamental quando o companheiro se vai, leva o cão, a torradeira e só não leva a televisão porque ele não é uma formiga. Caro livro cor-de-rosa, laranja e verde. Com letras pretas e títulos a cores alegres, livro que grita “SOU FELIZ MESMO SOLTEIRA E RECENTEMENTE ABANDONADA”. Não estás a ser útil.

“Arranje um hobbie” sugere criativamente a regra número sete! Claro que algo saudável, nada de perseguir o ex quando este vai shopping, ao trabalho ou jantar com a nova namorada. Ficamos então por desportos. E para melhorar “LEVE CONSIGO AS AMIGAS”. Otário livro, quer realmente fazer-me sofrer ainda mais? Sou perdidamente, completamente e definitivamente apaixonada, vidrada por olhares de pena, palavras de consolo e passeios estranhos porque nenhuma das amigas sabe muito bem reagir ao meu humor de velha. Onde anda o autor desta coisa? Realmente preciso esfregar-lhe isto na cara e ver se ele enxerga uma vez por todas o quão mau psicólogo é.

Oitava regra diz-me para ser mais transparente. Mostrar mais do meu verdadeiro eu. Não sei como é que isto me pode ajudar a ultrapassar uma relação falhada. Se é para arranjar uma nova, não é neste momento que a irei encontrar. Mau humor, choro compulsivo, os principais pontos que atraem qualquer homem. Técnicas de sedução por “10 Passos para Ultrapassar um Coração Partido!”- Fique-se pelos livros de auto-ajuda pós rompimento, se já estes são mais imagine-se os de sedução.


Nono passo: “Não se entregue”. Primeiro quer que engate pessoas e depois que desista antes de abrir as pernas para elas. E a pensar que era eu a bipolar.

Décimo e o mais inteligente dos conselhos: Tenha paciência. Já descobrimos que essa em mim é santa. Ainda não rasguei o livro, não o atirei pela janela fora ou bati no chato do vizinho do apartamento ao lado que passa duas em duas horas a telefonar e perguntar se está tudo “na maior cena, meu”.

Ora o que penso eu agora?

Levanto-me atiro o livro para cima de outros que repousam estaticamente em cima da mesa da sala de estar. Vou para a casa de banho. Ofereço-me uma careta, depois um elogio digno de trolha e sigo caminho para o duche.

Arranjada, saio de casa. Pronta a começar novamente um romance para futuramente comprar um manual de novos dez passos.

Notas finais
O que acham? Gostaram? Espero que sim. Obrigada.