Diários de uma Loira
5 Ás vezes
Notas iniciais
É o que acontece na vida, as pessoas mudam, os gostos mudam, a forma como vemos e sentimos parecem ao nosso antigo eu, estranhas, intoleráveis. "Que pessoa és tu?"; "Se soubesse que serias assim teria desistido de mim há muito". Ainda bem que não recebemos o poder da premonição e da leitura do futuro.
Hoje não sou a mulher que era há uns meses atrás, a sofrer por um rompimento abrupto. Hoje sou a mulher feliz do espelho, os mesmos cabelos bagunçados, as olheiras provocadoras que tapo com corrector e base. As sardas menos visíveis no inverno e incrivelmente sedutoras no verão. Os meus olhos mudam a cor, assim como a minha vida anda e desanda, se encaminha e depois encontra atalhos. Hoje a mulher do espelho era a visão turva da menina de há seis meses atrás, que não sabia que finais felizes podiam acontecer, bastava apenas querer e lutar para que tudo ficasse melhor. Não é um filme ou livro. É a felicidade que intimamente não procurávamos mas quando nos deparamos com ela é como se sempre soubéssemos que era aquilo que queríamos para nós.
Não sou um reflexo da vida perfeita, do cânone da perfeição de tudo o aquilo que deveria acontecer para sermos incrivelmente felizes para sempre. Sou o reflexo que criei com as escolhas que encontrei. É isso, espelho. Sou uma mulher jovem, que encontrou a felicidade nos braços e na vida de um homem. Que a ergueu e ajudou a construir-se e remontar a sua vida.
Uma mulher sai de um pequeno cubículo e vem para junto de mim lavar as mãos no lavatório de mármore clara. Estamos num restaurante, não nos conhecemos mas naqueles momentos breves conversas surgem que podem revelar algum outro traço de personalidade. Pelos vistos a dela é fácil de enxergar, snobe até à ponta dos cabelos, e incrivelmente falsa como as suas unhas postiças de gel vermelhas. Ela vai-se embora, e deixa-me novamente sozinha. Com as sanitas, sabonetes delicados, toalhitas de papel e velas perfumadas e tornam tudo tão surreal.
Dou uma volta, pareço fora de hora, de local e de região, não combino com as roupas, o meu cabelo não combina com o travessão, os meus sapatos com o chão e a minha educação com aquele lugar. Suspiro levemente e volto a engolir o ar. Quero ser estupidamente feliz, não estupidamente errada. Deve ser por isso que o vestido se ajusta ao corpo e não à personalidade.
Molho os pulsos, inspiro e expiro. Uma ultima olhadela ao espelho. "Seja o que vier, tu és incrível, feliz e nada agora te pode mandar para o poço". É mentira, mas posso acreditar por algum tempo, pelo menos o suficiente para desaparecer dali.
Abro a porta e o meu namorado espera-me sentado no banco à entrada das casas-de-banho. Quem é que se lembra de tal coisa? Ele sorri, pega-me na mão e leva-me dali para fora. Como se a meia hora que passei à frente do espelho o tivessem alarmado e secretamente avisado que sítios finos não fazem o meu género. Eu juro que tentei, por ele tentaria tudo.
Caminhamos de mãos dadas pelo parque, ridiculamente vestidos para um Domingo e com a personalidade ajustada para o local. Comemos cachorros sentados num banco, atiramos as migalhas às pombas, encostei-me ao ombro dele e esperamos pelo pôr-do-sol. Quando finalmente se fez frio, e o casaco dele já repousava nos meus ombros há tempo suficiente para eu desconfiar da sua resistência às temperaturas levantei-me. Peguei-lhe na mão e puxei.
–- Sabes, nunca fui tão feliz -- comentei. Sem saber exactamente o que me levara a falar naquele momento. Quase como que quebrando o ritual do dia. Sem palavras apenas gestos. Eles suspirou e curvou os lábios num sorriso.
–- Ainda bem que pude fazer parte disso -- comentou num gracejo provocador. Bati-lhe com o ombro no seu braço e ele fingiu estar magoado. Rimos e beijámos-nos.
–- Ás vezes, pergunto-me o que te levou a sentares-te naquele dia no café ao meu lado.
–- Ás vezes, pergunto-me como é que fui o primeiro a fazê-lo.
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