Diários de Verônica
7 08 de Janeiro de 1989
08 de Janeiro de 1989
Querido Diário,
Hoje, depois do café, encontrei o velho Jorge à minha espera no quintal. Eu fiquei muito feliz quando o vi ali, pois graças à Ritinha eu ainda não havia tido outra oportunidade de conversar com ele. Mas ele me respondeu secamente e me encarou sério, disse que queria falar comigo e que era importante.
Olhei para trás e vi a empregada trabalhando distraidamente na cozinha com o rádio ligado, tocando uma música brega que eu simplesmente odiava. Então eu fiz o que tinha que fazer para falar com um fantasma sem chamar a atenção de ninguém: subi no pé de seriguela, no galho mais alto, e ele sentou ao meu lado. Ele não estava exatamente sentado. Estava com as pernas cruzadas, e seu corpo flutuava levemente acima do galho da árvore.
Puxei um seriguela que estava pendurada em um galho próximo e coloquei na boca enquanto esperava que ele começasse a falar.
-O que exatamente aconteceu ontem, Verônica?
Engasguei na mesma hora, quase engolia o caroço da seriguela que estava mastigando. Mas me recompus rapidamente.
-Não sei do que está falando, não aconteceu nada ontem.
-Ah, não? Então você foi até um cemitério com sua prima, passou mal e isso não é nada?
-Você tá me vigiando, seu velho xereta? – Perguntei cuspindo o caroço de seriguela na cara dele. Claro que o caroço de seriguela atravessou a cabeça dele, mas eu esperava algum tipo de reação dele. Ele só ficou lá parado como se não tivesse sentido nada.
-Eu não estava te vigiando. Só que eu acabei ouvindo, por acaso, vocês duas conversando na porta quando chegaram naquele dia.
-É feio ouvir atrás da porta sabia? E eu acho que o que aconteceu comigo não tem nada a ver com você!
-Gente morta não tem nada a ver comigo? – ele perguntou erguendo uma sobrancelha.
Tá, eu sei, eu formulei aquela frase de uma maneira totalmente errada, mas eu sei que ele entendeu perfeitamente o que eu quis dizer. Eu estendi o braço para pegar outra seriguela e quase me desequilibrei do galho onde estava sentada. Fiquei imaginando se o velho Jorge faria algum tipo de esforço inútil para tentar me segurar se por acaso eu caísse, já que ele parecia estar tão preocupado assim comigo, e me veio à mente que essa seria uma cena realmente engraçada.
Então eu continuei lá, encarando aquele fantasma à minha frente, sem falar nada, só esperando para ver se ele cansava e ia embora. Sabia que dá pra ver as coisas através dele? Não nitidamente, eu quero dizer, às vezes ele consegue ser um fantasma muito nítido até, mas se a gente se concentrar bem e apertar os olhos um pouco, dá pra ver algumas coisas do outro lado. Mas a imagem fica meio borrada.
Eu estava distraída tentando ver imagens através do velho Jorge quando ouvi a voz dele novamente.
-Você acha isso divertido? – ele perguntou com a voz irritada e impaciente.
Parece que fantasmas não se sentem nada confortáveis quando tentam enxergar através deles.
-Na verdade, até que é... – eu o provoquei – olha lá! Tem um ninho de passarinho atrás de você!
-Muito engraçado... Podemos voltar ao assunto que interessa agora?
-Ah, mas por quê? Tem ovinhos no ninho, olha só que fofo!
-Quer parar de mudar de assunto?!
-Mas foi você que começou...
-Eu não comecei nada, apenas pedi pra você parar de tentar ver coisas através de mim, eu não sabia que você ia usar isso pra fugir e... – ele parou e refletiu por um momento, e depois olhou para mim novamente – Eu não tenho que me explicar sobre isso. Agora, será que você poderia, por favor, falar sobre ontem?
Eu ia responder que também não devia explicações para ele, mas eu realmente fiquei com medo da maneira como ele estava me olhando, então eu contei tudo para ele. Falei sobre aquele cheiro horrível, que só eu senti, que revirou meu estômago e sobre ele ser a causa de um mal estar que quase me fez desmaiar. E no final perguntei para ele se ele sabia o que era aquilo.
-Ah, isso... – ele começou a falar com uma expressão muito séria, se a irritação de antes – isso é bem comum em pessoas como você, mas as reações mudam muito de acordo com quem sente. Eu já conheci pessoas que não tinham problema algum para lidar com isso, outras sentiam um mal-estar, mas nada tão forte como isso que aconteceu com você. Eu nunca vi uma reação forte assim. Você deve ser uma pessoa realmente muito sensível...
-Mas você vai ou não me dizer que raios era aquilo?! – eu o interrompi bruscamente.
-Aquilo? Aquilo é o cheiro da morte. Puro mal. – ele falou com uma voz meio sombria, parecia até que estava com medo.
Eu me limitei a continuar olhando para ele. Não me ocorreu nada para falar ou fazer além de ficar lá com os olhos arregalados, esperando que ele falasse mais alguma coisa.
-Escute, Verônica, quando você sentir esse cheiro novamente, saia de perto imediatamente!
-Mas por quê? O que pode acontecer de mal?
-Coisas piores vêm depois dele.
Aquela conversa estava começando a me dar medo. Mas eu não ia me entregar, de jeito nenhum! Afinal são apenas fantasmas... A gente os atravessa! Que mal eles poderiam fazer?
Lembrei daquele fantasma maluco na casa da Tânia, Alberto, ele poderia fazer coisas piores acontecerem. Mas eu preferi não pensar nisso naquela hora. Além disso, eu nem senti esse cheiro estranho quando ele apareceu, e muito menos passei mal.
-Mas são só fantasmas... Tudo bem que lá era um cemitério e devem ter muitos lá, mas mesmo assim eu não vejo o que eles possam fazer.
-Não é disso que se trata. De fantasmas. O problema não são eles, mas sim as outras criaturas que também vivem lá.
OK, você conseguiu, velho Jorge. Estou morrendo de medo até de perguntar o que pode ser.
Mas a curiosidade foi maior e eu perguntei. Ele aproximou o rosto do meu e perguntou quase em um sussurro:
-Me diga, você acredita em Deus?
-Eu... – mas o que é que isso tem a ver? – Sim... Eu acho...
-Então você também deve acreditar em...
-VERÔNICA!!
Mamãe estava gritando comigo do portão do quintal. Ela sempre gosta de aparecer nas horas mais impróprias.
-Quantas vezes eu já falei pra você não subir nas árvores a essa hora? Desça já daí! Já está quase na hora do almoço, e eu não quero ouvir a desculpa de que você não está com fome!
-Tá bom, já vou descer... – respondi olhando para ela com cara de poucos amigos.
Quando me virei de volta, o velho Jorge tinha sumido. Maravilha, tudo o que eu queria! Soltei um palavrão, desci da árvore, e fui para o meu quarto tomar um banho antes de almoçar.
Na hora do almoço nem meu pai nem minha avó estavam à mesa. Quando perguntei à mamãe onde eles estavam ela respondeu que ele haviam ido ao médico novamente, que tinha qualquer coisa a ver com os resultados dos exames da vovó. Eu comecei a ficar preocupada, vovó estava tendo umas dores de cabeça terríveis e cada vez mais constantes. Mas eu espero que não seja nada de grave.
Eu até tentei perguntar para ele se estava tudo bem, mas quando papai chegou em casa, ele não disse nada e foi direto para o quarto. Mas vovó parecia bem tranqüila e sorridente, isso me deixou mais despreocupada.
Agora só faltava terminar aquela conversa de hoje de manhã, mas o velho Jorge fez o grande favor de evaporar do mapa. Odeio fantasmas! Perdi o resto da tarde procurando por ele, mas não o achei em canto nenhum. Vou ter que me conformar com o fato de que ele só fala comigo quando ele quer.
Fale com o autor