Diários de Verônica

6 07 de Janeiro de 1989


Notas iniciais
Mil perdões pela demora!!

07 de Janeiro de 1989

Querido Diário,

Por que eu fiquei sem escrever por cinco dias? Porque não tem a menor chance de eu deixar a louca da Ritinha ver esse diário. E quem é Ritinha?

Maria Rita Dias da Costa.

Minha prima. Filha da tia Ana, irmã do meu pai. Dezesseis anos nesse exato momento, vinte centímetros a mais que eu e uma cabeleira muito ruiva que saiu não se sabe de onde.

Segundo meus tios uma garota adorável, simpática e gentil, que adora ajudar a todos. Eles sempre a mandam para cá por uns dias por ser muito solitária a vida de filha única. Segundo Verônica uma garota chata, falsa, dissimulada e fofoqueira, que adora arranjar intrigas e só vem pra cá torrar a minha paciência.

Normalmente ela vem na época do meu aniversário, mas graças a Deus esse ano ela decidiu vir antes e ficou menos tempo do que normalmente costuma ficar. Ano passado, durante a minha festa de aniversário, ela decidiu dar em cima do irmão mais velho de uma amiga minha. Claro que quando as coisas fogem do controle dela ela se faz de vítima, então até hoje “minha amiga” não fala mais comigo. Coisas boas não acontecem quando ela está aqui.

E logicamente eu não teria coragem de puxar esse diário pra escrever nada na frente dela, por que se ela visse isso o mínimo que ela iria fazer era dizer que eu sou louca e contar pra todo mundo que eu acho que vejo fantasmas. E como ela dorme sempre no mesmo quarto que eu, o jeito foi ficar sem escrever, só pra garantir.

Essa semana foi um tormento! Ritinha me seguiu para cima e para baixo, queria ver tudo, queria saber de tudo. Queria conhecer meus amigos e os amigos dos meus amigos e sair todos os dias. E eu tinha que ir com ela. Tradução: nada de paz, nada de conseguir falar com o velho Jorge de novo e nada de saber mais sobre o meu avô.

Ritinha bebe e fuma e só tem dezesseis anos. Não que os pais delas saibam ou que ela faça isso aqui dentro de casa, ela não se arriscaria tanto. Mas ela não tem vergonha de fazer isso na minha frente, ou seja, ela me usa de desculpa. Então é “Tia, posso ir ao cinema com Verônica?” e “Tio, não prenda muito verônica em casa, aproveite que estou aqui e deixe-a bla-bla-blá”... E sabe o que acontece? Eles me deixam ir com ela!

Ontem ela saiu de casa dizendo que nós íamos comprar presentes para meus tios, mas ela parou no meio do caminho, puxou um cigarro e começou a fumar. Eu sempre fico nervosa quando ela faz isso, e ela sempre ri de mim.

-Olha, quando eu tinha a sua idade eu já fazia isso, você devia tentar também! – Ela ofereceu, me estendendo o cigarro.

Eu educadamente peguei o cigarro da mão dela, atirei no chão e pisei em cima, apagando-o. Ela nem se importou com isso, simplesmente pegou outro cigarro.

-Você deveria se preocupar menos. Qual é o problema? Não vai doer nada, eu prometo.

-Fumar é feio, fumar mata, e você sabe disso!

Ela riu com desdém e deu outra baforada no cigarro. Eu olhava nervosamente pra os lados.

-Ah! – ela resmungou – estou entendendo agora... Você está com medo que alguém nos veja aqui, não é? Olha, não se preocupa, tá tudo bem, ninguém vai ver.

Eu continuava nervosa, e olhava para todos os lados, qualquer sombra que eu visse era um sobressalto. Então Ritinha começou a ficar com raiva disso.

-Tá! Tá bom, você venceu, vamos procurar um lugar mais calmo pra fazer isso antes que você surte de vez!

Dito isso, ela me puxou pela mão e voltou a andar. Caminhamos por algumas quadras e eu comecei a sentir um cheiro muito estranho e aquilo não estava me fazendo muito bem. Então nós paramos. Ritinha sorriu encarando o lugar do outro lado da rua.

-Vê, aqui ninguém vai nos incomodar. Pode ficar mais calma agora!

-Mas Ritinha – disse eu me sentindo um pouco enjoada com aquele cheiro que estava cada vez mais forte – isso é um cemitério!

-Eu sei – ela escancarou mais o sorriso – E é exatamente por isso. O que uma pessoa iria fazer no cemitério, certo? Estamos seguras aqui!

Na verdade, eu não tinha experiências muito boas com cemitérios, segundo minha mãe. Mamãe me disse que no enterro do meu avô, quando eu tinha três anos, eu dei um escândalo no cemitério. Ela contou que eu chorei até passar mal, e que gritava muito, às vezes parecia que estava gritando com vovô, às vezes eu estava simplesmente gritando. Bom, eu só sei que eu saí de lá arrastada pelo meu pai e ainda estava muito afetada. Papai acha que isso aconteceu por que eu gostava muito do meu avô, mas mesmo assim nunca mais me deixou entrar em cemitério nenhum. Mas agora, graças à Ritinha, eu estava prestes a entrar em um.

Ela me puxava com dificuldade em direção ao outro lado da rua. Eu não queria ir, aquele cheiro me dava náuseas e elas aumentavam à medida que eu me aproximava dos portões. Desvencilhei-me da mão de Ritinha e parei. Aquele odor estava realmente insuportável.

-Você não está sentindo isso? – perguntei colocando uma de minhas mãos sobre meu nariz.

-O quê? Não estou sentindo nada. – ela disse fungando o ar – Deixa de ser medrosa, vamos entrar logo!

E sem me esperar ela passou pelo grande portão de ferro. Eu tentei segui-la, mas não consegui.

Não sei descrever como era aquele cheiro que eu estava sentindo. Só sei que ele passava pelas minhas narinas queimando e fazia meu estômago dar voltas. Aquele enjôo fazia minhas pernas ficarem fracas, e, para piorar, eu estava começando a ouvir vozes leves, sussurros. Nada mais normal, afinal eu estava em um cemitério, e cemitério significa fantasmas. Mas elas eram diferentes, eu podia sentir o sofrimento delas, a tristeza, a agonia... Tão fortes que me deixaram tonta.

A mistura de tudo isso foi um mal-estar terrível. Tentei me segurar na parede, mas minhas pernas estavam realmente muito fracas, não consegui me manter de pé e caí de joelhos no chão, sentia espasmos e ânsias de vômito. Tentei respirar fundo, mas aquele cheiro invadiu minhas narinas novamente, queimando tudo. Não resisti e acabei vomitando ali mesmo, no meio da rua.

Ritinha finalmente deu por minha falta e voltou para me buscar. Quando me viu ali, naquele estado, soltou todos os palavrões que conhecia. Me ajudou a levantar e então disse que não tinha sido mesmo uma boa idéia me levar para lá e já estava pensando em outro lugar para irmos, mas eu nem deixei ela concluir aquele pensamento. E a contragosto ela concordou em me levar de volta para casa.

Quando estávamos na porta de casa eu disse a ela que se ela falasse para meus pais que eu tinha passado mal na porta de um cemitério, eu falaria qual era o motivo de ela ter me levado lá. Com esse acordo, nós entramos em casa como se nada tivesse acontecido. E eu não pretendo, nunca mais, voltar em um cemitério novamente.

Hoje à tarde ela finalmente voltou para casa, mais cedo do que o planejado. E eu finalmente me sinto livre de novo. Muitas coisas diferentes estão acontecendo esse ano, talvez esse ano seja muito bom!

Eu realmente não pensei que fosse sentir falta de escrever nesse diário, mas parece que agora isso já é importante para mim.

Notas finais
**

Pode falar: tá meio fraco esse capítulo, né? eu seeeeiii, também achei u.ú
É que eu tou com muita coisa na cabeça. Imaginem vocês que eu resolvi tentar vestibular de novo, agora tou cheia de coisas pra fazer aí quando eu tento escrever a minha consciência dá um bloqueio legal em mim. x.x"
Mas eu já estou me adiantando pros próximos capítulos, e espero não atrasar mais. então sejam paciente comigo, ok? ;]

Beijos a todos.