Diários de Panthea
1 25/2º mes
Querosquia 25 do 2º Mes
O ocorrido se passa no 108º ano de reinado da Igreja dos Quatro Cantos. Em uma pequena cidade à sudeste de Panthea, chamada Querosquia, uma família pobre se reúne para jantar em volta de uma mesa de madeira cinza e ressecada pelo tempo. O alimento está bem longe de ser farto, apenas duas coxas de galinha cozida e um tanto de cevada para cada um dos quatro membros da família. O pai e a mãe decidem deixar a maior parte da pouca comida para os filhos, o garotinho com menos de cinco anos e a menina com aproximadamente nove são magrinhos de dar pena. O apartamento onde moram é minúsculo e suas estruturas estão bastante maltratadas pelo tempo. O apartamento da família se encontra num agrupamento de outros tantos apartamentos velhos, em ruelas estreitas e de vizinhança tão pobre quanto eles. Não pode-se dizer que as crianças ficam saciadas com aquela pouca comida, apesar do filho mais novo às vezes reclamar de fome, de forma geral os dois entendem no olhar dos pais o esforço feito para não deixá-los com o estômago vazio. O olhar do pai está sempre abatido e no olhar da mãe sempre há um ar esperançoso que ela não se dá ao luxo de perder, ela sabe que se o perder estará condenando a própria família a um destino cruel demais para imaginar. — Mãe, eu ainda tô com fome... – Suplicou o filho mais novo. — Querido, não temos mais por hoje, tudo bem? Vou levar vocês para cama, a fome vai passar logo logo. – Disse a mãe levando as crianças Dalí para um quarto pequeno, onde ficava a única cama da casa. O pai permaneceu ali imóvel e com as mãos sobre a mesa, ficou fitando a janela que dava para a ruela. Seus olhos sempre marejavam nesse momento do dia, todas as noites precisava ver sua família ir para a cama com o estômago apenas um pouco menos vazio. O ar de esperança no olhar de sua esposa não era mais o suficiente para dar-lhe forças há muito tempo. A única faísca de vontade que ele ainda tinha de viver mais um dia vinha pouco depois daquele momento. Saindo do quarto e com os pés silenciosos a filha mais velha retornava à mesa e abraçava o pai com bastante força, lhe dizendo a frase de todas as noites. — Mais um dia amanhã, papai. – Dizia ela, olhando em seus olhos. — Mais um dia amanhã, Ellana. – Respondia ele com uma voz baixa e suave, devolvendo-lhe o abraço. Depois saía, retornando para o quarto na mesma silenciosidade que havia vindo. Deixando na mesa, um homem com o coração mais confortado e motivado para sacrificar tudo que fosse necessário para manter sua família de pé.
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