Diários
40 Capítulo 40 - Reação!
Não posso dizer que este é um dos melhores dias que eu já vivi.
Acordei e, de certa forma, fugi para o CEFM, com a esperança de acalmar meu espírito.
Não houve ensaios hoje, apenas os jogos.
No treino de beisebol eu não conseguia me concentrar, a todo o momento olhava paras outras meninas sendo ensinadas.
Elas aprendiam arco e flecha. Era como se eu me visse ali.
\"Maldito seja!\"
Arremessei duas vezes, mas minha mira estava horrível! Eu nem conseguia fazer a bola ir à direção do rebatedor
Lancy ficou irritado com isso:
- Qual é Cloe! Você acertava essa, tenho certeza! — ele falou me encarando
Tirei a luva e empurrei contra o peito dele, baixei a aba do boné e andei depressa para o banheiro feminino
Lavei o rosto e sai andando, meio que sem rumo, até entrar no auditório e sentar no palco. Fiquei lá encarando o chão, meus olhos podiam estar nele, mas meu pensamento estava muito longe.
Ryan entrou uns instantes depois
- O que houve?
Não respondi
- Cloe. Que foi?
- Eu... Não me sinto bem
- Quer ir para casa?
- Não, não estou doente, é que...
- É que o que?
- Ele morreu Ryan, e dessa vez é verdade!
- Ele quem?
- Meu avô.
Ele fez menção de dizer alguma coisa, mas não disse
- Faz tanto tempo... — continuei — Tanto tempo que eu não sentia esse vazio. É... É estranho
- Eu também sinto
Alguém entrou no auditório, mas não demos atenção, afinal não tinha vindo em nossa direção
- Eu não sei... Acho que ele se foi mesmo, sem volta.
Eu disse que não \"lembrava\" daquela sensação porque senti o mesmo quando minha avó morreu, aos meus cinco anos, bem no dia do aniversário do meu avô, ele chorou dias.
- Se chama saudade. — ele concluiu — meu pai me deixa assim
- Então você deve mesmo saber. Eu só não queria que fosse tudo de uma vez: o acidente, o coma, a morte... Pareci que... Que tudo vai acabar para mim — confessei
Até então eu não tinha encarado o Ryan nos olhos, mas quando encarei ele tinha um olhar serio e rígido, como se estivesse agüentando os horrores de uma guerra a muito tempo
Notei uma sinueta atrás dele, mas o Ry não a tinha notado. Era o Lancy.
Ele devia ter ouvido toda nossa conversa.
Um carro anunciava um enterro:
\"- Peter Alphonse Sauviour, nota de morte, falecido na manhã de ontem em função de enfarto...\"
Eu não quis e nem ouvi o resto, por que o carro se distanciou.
Olhei o Lancy de novo, ele estava com o olhar tipo \"Você vai mesmo ficar ai parada sem reagir?\" e saiu. Ryan nem havia notado a presença e a saída dele.
Decidi seguir o conselho daqueles olhos e reagir,
\"O mundo não acabou, ainda...\"
Respirei fundo:
- Melhor eu reagir não acha?
- Faz muito bem! — ele sorriu — promete que melhora? — ele me ajudou a descer do palco
- Vou tentar
- Bem, já é um começo... Vou para o campo, você vem?
- Depois de lavar meu rosto
Fui para o banheiro feminino, lavei o rosto bastante para tirar toda e qualquer evidência de que eu havia chorado um dia.
Quando eu estava secando a face vi o Lancy refletido no espelho
- Melhor? — ele perguntou
- Não! Mas conformada... Um pouco
- Acho que não entendo isso muito bem, mas sei como você se sente
Balancei a cabeça negativamente
- Não... Não sabe!
Ele me virou e me prensou na parede do banheiro, como tinha feito quando estávamos no armário
- Olha Cloe, minha mãe é alcoólica, meu pai me abandonou e fui chamado de lixo a vida toda! Talvez não pareça tão ruim, mas o que você acha que é pior?!
Desviei meu olhar do dele
- Eu...
- Vai ficar esperando?
- Eu...
- Vai ficar esperando o que?
- Não!
Eu me olhei no espelho, estava com o rosto cansado, abatido e triste
- Eu sei que é ruim, e eu estou sendo mal, mas... — ele me soltou
- Mas às vezes pareci que eu tenho mais sorte que você... — conclui
- Pareci que você lê pensamentos
- Eu tento...
Ele suspirou
- Melhor irmos
- É...
- Você me fez uma promessa lembra, então levante e lute!
- Está mais interessado no jogo do que em mim?
- Estou interessado em te ver bem! E bem você joga, suponho
- Jogo.
- Espera — ele foi a pia e molhou o rosto, daí eu me lembrei
- Você sabe que este o banheiro feminino não é?
- Hã?! É?
Eu ri da situação
- Pelo menos só tem a gente aqui e parece que você está melhor... Então meu trabalho está feito
- Tinha planejado isso?
Saímos, mas a sineta logo tocou dispensando os alunos
- Não exatamente... Tchau
Sai correndo para acompanhar o Ryan e Binho, no caminho achamos a Nick voltando da Font de la Vide
- Oiiiii! - ele me deu um abraço bem apertado quando me viu
- E eu não ganho abraço? — Binho pediu
Nick o olhou de cima a baixo e respondeu
- Não! — ele se voltou para mim — Fiquei sabendo... Sinto muito
- Eu supero... Só não sei quanto tempo vai demorar.
- Mas, não falar nisso não é?! Que tal a olimpíada?
- Arremessadora e atiradora
- Eu sabia que você ia passar
- Como ela sabia e eu não?! — Ryan protestou
- Esqueci de contar — justifiquei
A companhia deles me fez bem e por uns instantes me esqueci de tudo, apenas estava onde eu queria estar...
Cheguei em casa cansada, o corpo do nono não estava mais lá. SUbi tomei um banho e fui para meu quarto
Lembrei o nono, sua fala calma e doce, seu jeito sereno. também recordei os bons e maus momentos e os engraçados, nisso adormeci
-- Boa noite!--
Notas finais
Eu espero...
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