Diário de uma vida maçante
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu não vejo a hora de ir embora. Todos os dias, eu não vejo a hora de ir embora.
— Ainda faltam quarenta e dois minutos... – diz Emily, com um tom exaustivo, me fazendo querer ir embora ainda mais rápido. Talvez, por odiar ficar rodeada de pessoas que odeio, talvez por querer dormir e esquecer do mundo.
Estou tão entediada que qualquer coisa que eu pense em fazer me faz ter vontade de morrer. Ontem, se eu estivesse assim, eu abriria o livro que emprestei de minha mãe e me perderia no tempo. Agora, eu já não tenho disposição para nada. Eu não sei por que ao certo, mas estou me desgastando cada vez mais.
Coloco os fones e deito sobre meus braços cruzados, escondendo-me da luz do sol, que entra abruptamente pela janela da sala. Sinto meu rosto suar, o ar que sai pela minha boca me causa tontura, está ficando cada vez mais quente aqui e ainda tenho quarenta minutos.
— Essa professora é um saco – alguém resmunga, e não me dou o trabalho de espiar pelo vão entre meus braços para saber quem disse isso, por mais que eu concorde.
Acordo num pulo, tiro o celular da mochila e olho as horas, um tanto contente por faltarem apenas quatro minutos para eu me levantar e – correr até a estação tubo, pegar o primeiro ônibus que passar – ir embora, mas também irritada por ainda estar sentada nessa cadeira dura e quente.
— Vai a pé até o terminal de novo? – Pergunto à Emily, que nem se importa em olhar para mim e me responder.
Ela fecha a mochila, concorda dando um breve sorriso e volta a atenção ao celular.
Talvez eu devesse parar de perguntar isso todos os dias, esperando que ela diga algo diferente. Talvez eu devesse não perguntar nada, esperando que ela me diga o que vai fazer. Ou talvez eu deva não querer saber sobre isso, porque, na verdade, não é relevante.
Eu tento levantar mais lentamente o possível, porque eu sei que se eu pegar o primeiro ônibus que passar e chegar cedo no terminal e pegar o ônibus que passa perto da minha casa, não vou ver uma certa pessoa...
Bom, desde que esse garoto sentou do meu lado, eu quero ter coragem para sentar ao lado dele mais vezes, mesmo que não nos olhemos, muito menos falemos um com o outro. Ele se levantou para eu descer do banco faltando pouco para chegar ao meu ponto, ele sabia onde eu ia descer, ele olhou pela janela quando as portas do ônibus se fecharam, ele olha desde então. Bom, pelo menos eu comecei a reparar desde este dia, talvez ele olhasse antes, mas eu não reparei.
Essa multidão de alunos me deixa mais irritada ainda, mas um pouco contente porque eu sei que vou demorar para sair do colégio. Eu gostaria de poder ver aqueles olhinhos puxados e melancólicos através da janela do ônibus outra vez. Eu sabia que ele ia me olhar de novo, e sabia que eu ia sorrir dessa vez.
Então vou andando tranquilamente até o tubo do ônibus, sabendo que vou chegar na hora certa. Bom, pelo menos na hora certa para ver aquele japa baixinho e triste. Não que eu seja alta, mas para um garoto, ele é baixo. Então vejo um outro garoto, ele é amigo de um colega meu, – um colega maldito que me jogou pedaços de papel cuspido com uma zarabatana improvisada de caneta – e ele é muito bonito. Ele está com mais dois amigos, os quais eu não conheço, um deles se vira e olha para mim por uma fração de segundo e se vira de novo.
Não acelero o passo, e ele ainda está na minha frente, ele vai entrar no mesmo tubo que eu, e provavelmente no mesmo ônibus que eu.
Passo meu cartão transporte rapidamente, revirando os olhos pela demora da garota atrapalhada da minha frente, que derrubou todas as suas moedas no chão. Então, ele olha para mim e para a garota e logo ri da cena que vê. Seu sorriso me deixou um tanto vermelha, consegui sentir o sangue subir no meu rosto, mas desvio o olhar e fico na frente dele, impedindo que me veja desta maneira.
Logo o ônibus chega e entro, vejo que não há bancos livres, então me seguro em uma das barras de ferro e espero que este ônibus vá depressa. Vejo que minha suposição foi confirmada, o garoto entra e fica de pé com seus amigos ao meu lado.
O ônibus passa os semáforos rapidamente antes que fechem, então chego no terminal mais rápido que eu esperava, mas ainda no tempo certo. Eu e o garoto descemos do ônibus, ele se despediu de seus amigos com aquele cumprimento que só os homens dão com um aperto de mão e um tapinha nas costas. Ele vai para seu caminho e eu para o meu, que é bem ao lado.
Meu coração dispara e então vejo o japonês parado em minha frente, ele olha sobre os ombros, notando minha presença e logo se vira, tentando disfarçar. Eu sorrio, abro a mochila e pego meu livro, eu queria ter algo para fazer, que não fosse constrangedor quando eu sentasse ao seu lado no ônibus. Ainda faltam alguns minutos para que o ônibus chegue, então eu vou me aproximando dele, mas para que não cheguem mais pessoas e tomem meu lugar ao seu lado.
O ônibus chega e eu subo logo depois dele. Ele senta ao lado da janela, mas eu sinto uma pontada no estômago e um constrangimento tão grande que não sou capaz de sentar do lado dele, então sento no banco da frente. Olho de relance para ele, agora está apoiando a cabeça na janela.
Volto minha atenção para o livro, mas agora não consigo me concentrar. Fico imaginando os motivos pelos quais não sentei ao lado dele, me sinto culpada, agora eu gostaria de ter sentado. Eu sou tão estúpida. Fico tentando olhar seu reflexo pelo vidro, mas só consigo ver o topo de sua cabeça, mas sei que ele ainda está ali, e sei que ele também está com raiva de mim.
Agora que reparei estou chegando perto do meu ponto e preciso descer. Eu levanto e olho para ele na esperança de que ele me olhe, mas ele continua olhando para o lado de fora da janela. Então eu desço, desanimada comigo mesma.
Eu olho para a janela em que ele está sentado.
Mas ele não olha para mim.
Ele continua a olhar para o nada.
Então eu sinto uma onda de decepção vinda de meu estômago.
Por que eu não encarei minha vergonha e me sentei ao lado dele?
Por que eu tive medo?
Agora eu devo esperar até segunda-feira para tentar algo de novo. Esse fim de semana irá parecer eterno. E eu ainda quero que ele olhe para mim pela janela de novo. Eu estraguei tudo...
Eu sempre estrago tudo.
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