Diário de uma paranormal
16 É ela mesma
–É ela mesma.
Todos ficaram em silêncio, como era possível?
Amber não se controlou e veio correndo até nós. Mesmo com os protestos de Liester no fundo.
–Katherine...
–Eu sei, sei — falei.
A garotinha saiu do beco e chamou os outros demônios. Deviam ter uns dez deles entre homens e mulheres. Eles olharam para os lados se apressando. E entraram na escuridão.
–Alguém pode me explicar do que vocês estão falando? — Harry exigiu uma resposta.
Josh olhou para mim pedindo permissão para contar.
Olhei para a garota estranhamente familiar. Ela tinha quase a minha altura, mas seu rosto tinha algo que a fazia parecer mais velha. As suas roupas escuras e com muito couro só acentuavam a falsa fragilidade da menina.
–Não, é uma coisa de família.
Harry não se sentiu ofendido e fiquei feliz por isso. Isso não interessava a ele.
Liester cansou de nos esperar e foi sozinho para a viela.
–Droga, nós temos que ir agora. — Josh falou puxando a sua adaga. Incrível como ele tinha tantas. Sei que não é hora de comentar isso mas...Harry me disse que o meu primo tinha uma parede em seu quarto só para facas e coisas do tipo. Josh é daqueles que odeia bagunça. O contrario do seu colega de apartamento.
Dei uma corridinha para acompanhá-los, como eu odeio ter pernas curtas.
Encostamos na parede no lado do beco. Revirei os olhos mentalmente. Até parece que ninguém nos viu. Puxei a minha adaga da bainha de coxa. Pois é, eu já estou meio que me apropriando dela. Mas não tem problema, Becky tem outra igual.
Ouvimos um grito terrível e tremi só com o som. O grito pertencia a Liester. Olhei para Amber, preocupada com a sua reação. Ela que devia estar no lado de Becky, não se encontrava lá.
–Cadê Amber?- perguntei a eles.
–Ela tá no meu ...Droga. — Becky replicou.
Bati na minha própria testa, frustrada. Essa garota não pensa?
Já que o elemento surpresa não pode ser mais usado, entramos no beco como um bando de destreinados que somos.
A cena parecia — Graças a Deus — diferente do que havia imaginado. A realidade era um pouco melhor. Liester estava no chão esfaqueado e a minha morta-viva segurando Amber. Os três — Josh, Becky e Harry — vaporizaram alguns demônios. Um momento depois os outros perceberam que estavam sendo atacados e tentaram retaliar. Entrei de fininho ali, chegando cada vez mais perto de salvar Amber.
Minha mente fez observou que eles deviam ser demônios de nível baixo, por não terem nenhum poder.
Uma luz vermelha cortou o ar a minha frente. Procurei da onde havia vindo isso. Droga, porque eu fui pensar sobre eles? O cara que seguia me jogando raios de luz vermelha era um demônio mais avançado. Esquivei por pouco deles e saí correndo. A manga da minha jaqueta tinha sido vaporizada na ponta.
–Ei!
Virei por reflexo brandindo a adaga. O raio escarlate refletiu na lâmina queimando próximo do demônio que me seguia.
–Legal- falei olhando admirada para a arma em minha mão. E dei uma risada que foi interrompida. O demônio deu uma nova investida. Levantei a faca na altura dos meus olhos e raio refletiu novamente. O demônio se abaixou, o raio passou bem perto.
Becky jogou o meu perseguidor contra a parede, só com o movimento de abrir as mãos. Becky deu uma luta justa a ele. Invejei nesse momento quem tinha poderes mais uteis que o meu.
A Garotinha estava se movendo de um lado para o outro como se estivesse perturbada. Não entendi o que ela fazia, mas ainda parecia apertar a faca contra o pescoço de Amber forte o bastante para que eu fosse cuidadosa enquanto me aproximava. A alguns passos de distancia da menininha-demônio vi o que a perturbava. Harry sorriu e acenou para ela em um gesto de zombaria. Ela deu um giro –ainda segurando Amber – e jogou um raio escarlate em Harry. O garoto parecia já conhecer o meu truque de refletir o golpe com a adaga.
Era agora ou nunca.
Me joguei nas costas da garota sabendo que ela era forte o bastante para me sustentar. Coloquei minha adaga contra o seu pescoço, já que era o único ponto letal que estava mais perto. Ela balançou, surpresa, mas não me deixou derrubar e nem soltou Amber.
–Quem é vivo sempre aparece – falei amargurada. –Não é, irmãzinha?
Harry que perturbava Emma parou por um instante. Emma lhe deu um chute. Ele foi parar na parede do beco, com o canto da cabeça sangrando. Eu não podia me distrair me preocupando com ele.
O rosto de Emma se virou olhando para mim parcialmente. Uma inundação de emoções passou pelo rosto da minha querida irmã. Irritação, ódio, confusão, medo e –finalmente- reconhecimento.
Seus olhos totalmente pretos se tornaram castanhos e normais. Ela desabou no chão e Amber se deixou cair junto com ela.
–Katherine? – Emma perguntou com uma expressão esperançosa.
***
– O que vamos fazer com ela agora? – perguntou Amber , andando de um lado a outro.
Harry ainda tinha uma expressão culpada. Ele estava tão aflito com a proximidade que estávamos de Emma que não pensou antes de apagá-la. Não apagar do modo que você está pensando.
–Eu juro, eu não tinha a visto acordar.
–Não foi culpa sua. Se estivesse mais perto eu teria feito o mesmo. – Becky disse ao garoto.
Josh e Liester tinham carregado Emma, que estava desmaiada, para um quarto.
Eles ainda não voltaram.
–Porque os dois ainda não voltaram? –perguntei.
–Quem? Liester e Josh? Não faço ideia.
Me levantei do braço do sofá e fui olhar por mim mesma.
Atravessei vários corredores que não tinham nenhum sinal dos garotos. Por fim escutei uma conversa entre eles, que pareciam estar próximos.
–...faz alguma ideia de porque ela voltou a ficar assim?
–Não. Nunca vi nada assim. Você acha o asinha pode ajudar?
Pausa. Provável olhar de reprovação de Josh. Sussurros.
Não quis que eles achassem que eu estava escutando a conversa, mesmo estando acidentalmente, então dei alguns passos para que parecesse que estava me aproximando.
–Tava procurando vocês – lutei para parecer natural falando e continuei – Aconteceu alguma coisa?
Houve uma troca de olhares, decidindo quem contaria.
–Bem...Aconteceu sim. –Liester.
Fale com o autor