_ 6 anos depois... – tossi, a voz já estava falhando.

_ Quer água? – Niko perguntou e me ofereceu o seu copo com as mãos trêmulas.

_ Obrigado. – dei um sorriso e tomei poucos goles, logo lhe devolvendo.

_ Engraçado... – Niko disse sorrindo. – Você conta essa história com tanta emoção, parece que sabe o que eles estão sentindo.

_ Você acha? – suspirei, seus olhos verdes não perderam um tom sequer, estavam mais intensos a cada dia e eles encaravam os meus com curiosidade.

_ Eu acho. – ele não tirou o sorriso do rosto. – Fico triste pelo rapaz, pelos dois, não foi fácil...

_ Com certeza, não. Quer que eu pare? – questionei.

_ Não, por favor. Continue, eu quero saber o que vai acontecer.

_ Pois, então... – eu assenti. – Seis anos depois...

Os anos me tornaram mais introspectivo. Meses depois da minha volta para casa, minha mãe adoeceu e definhou com a ausência de meu pai, atualmente todos nós sabemos o nome dessa doença que é a terrível depressão. Passei mais poucos meses naquela casa, mas eu comecei a me sentir muito mal, parecia que não pertencia mais ali. Meu lar tinha se perdido com a ausência dos seus mantedores e eu não tinha nada que me prendia ali.

Acabei vendendo a casa e com o dinheiro resolvi voltar para cidade, lá eu teria mais oportunidade de arrumar um emprego, ajeitar minha vida e de ter um recomeço. Apesar daquela cidade sempre me trazer lembranças tão fortes e doloridas. Comprei uma casa pequena, três vezes menor que a de meus pais no interior, afinal, era só eu e mais ninguém.

Não foi muito difícil de arrumar um emprego, naquela cidade tinham três escolas e com falta de professores. Mesmo não sendo formado, eles acabaram me contratando e eu comecei a lecionar para um turma de crianças entre 10 e 11 anos. Eles eram gentis e extramente educados, mal olhavam pro lado, eram os costumes da criação daquela época. Mas, além de dar as aulas, eu tentava a todo custo passar um pouco de amor e carinho a cada um. Acabei me afeiçoando a todos.

Pela primeira vez em anos, criei amizades com meus colegas de trabalho, muitos tinham opiniões distintas em relações as minhas sobre política, educação, e quase tudo. A primeira coisa que reparei era que na entrada da escola tinha um retrato do prefeito da cidade, que mesmo com o passar dos anos, ainda era o mesmo. O senhor Khoury. E toda vez que eu mirava aquela foto tinha ânsias. Outra coisa que tinha reparado era que todos os professores eram brancos, loiros, olhos claros, era outra coisa que não concordava. Os faxineiros e ajudantes eram negros e eu me sentia mal por isso.

Um dia, eu fiquei até tarde na escola corrigindo trabalhos e provas das crianças, quando uma das faxineiras entrou para limpar a sala. Elas nunca apareciam durante o horário de aula. Ela cantava uma música de Carmen Miranda suavemente, sua voz era maravilhosa.

_ Eu... Senhor, sinto muito, volto mais tarde... – ela se acanhou e se virou para se retirar.

_ Não. Por favor, fique. Pode limpar a sala, eu já estava com medo de ficar aqui sozinho.

Ela me olhou com seus olhos cor de mel, uma mistura de castanho com verde, e deu um leve sorriso, meneou a cabeça e começou a varrer o chão e limpar as mesas.

Minutos depois, parecia que ela tinha se acostumado com a minha presença, e voltou a cantar a canção e quando percebi estávamos conversando sobre a escola, os alunos. Ela me contava sobre sua vida, que ela não teve estudos e que seu sonho era saber escrever e ler. Seu nome era Isabel. Então, todos os dias, comecei a ficar mais tarde para ensina-la, ela limpava as salas, eu adiantava o meu trabalho e quando ela estava pronta, íamos para uma lanchonete próxima dali e eu estava ensina-la a escrever.

Ela era minha primeira amiga depois de anos e eu adorava a sua companhia, e adorava ouvi-la cantar e sua empolgação com o novo. Me preocupei quando um dia, Isabel não pareceu para o trabalho, nem para o nosso suposto encontro. No outro dia, quando apareceu, ela estava nervosa, seu rosto estava marcado, como se alguém tivesse batido nela, quando me viu, ela chorou, seu olho estava inchado, e eu só pude abraça-la. Seu suposto marido a tinha espancado ao encontrar os cadernos que tinha dado a ela e o pior, a tinha expulsado de casa quando soube que ela estava grávida. Ele acreditava que eu e ela tínhamos um caso.

Jamais tinha sentido tamanha compaixão de alguém, levei Isabel para minha casa e começamos a morar juntos. Dormíamos juntos na cama de casal, mas não éramos um casal e sim, amigos. Trabalhamos juntos até que sua barriga tinha crescido consideravelmente, sua gestação estava sendo complicada. Ela passava mal com frequência e precisava de repouso, a convenci de ficar em casa e assim fomos levando até o dia do parto.

Eu lembro de ter saído correndo feito um desesperado atrás de uma parteira, não daria tempo de chegar em um hospital, Isabel teve o filho sobre a nossa cama, e me fez jurar que eu cuidaria dele. Ainda lembro de seus olhos brilhando ao segurar o filho nos braços e em seguida, ela faleceu. Dei a ela um descanso digno com o pouco dinheiro que tinha, e agora eu tinha um filho para criar. Eu andava com ele no colo pela casa, cantando as músicas preferidas de sua mãe até que ele dormiu.

_ Eu vou te registrar e você vai ser meu filho, e como sua mãe tanto queria vai ter o nome do seu avô, Jaime. – eu sorria para o bebê e fazia carinho no seu rosto. – Jaiminho.

Contratei uma babá para me ajudar e mesmo apertado com o pouco de dinheiro que recebia da escola estava determinado a criar aquela criança. Na escola, o convívio com os professores não era mais o mesmo. Eles me olhavam com um olhar de desprezo, um pai solteiro, pai de um filho adotado, pai branco de um filho negro. Não sei como não me demitiram, acredito que era o bom trabalho que eu fazia com as crianças e os elogios que recebia dos pais.

Eu tinha acabado de chegar na escola, dormiria mal a noite, porque Jaiminho estava com febre, meus olhos estavam fundos, mas eu jamais reclamaria de nada. Eu tinha saúde e isso bastava. Uma das professoras desprezíveis comentava a novidade.

_ Eu sabia que ele ia seguir os passos do pai! Vai ser tão bom prefeito quanto ele!

_ Quem? – uma outra professora que chegou, perguntou.

_ Félix Khoury, vai ser candidato a prefeito nas próximas eleições.

Eu deixei cair um livro que tinha acabado de tirar do meu armário, eram tantas coisas acontecendo na minha vida que eu tinha simplesmente ocultado a existência dele no meu cérebro, mas o meu coração jamais o tinha esquecido. Ele estava a disparado.

_ Pois, imaginem, a família dele é um exemplo para todas as famílias dessa cidade. Sua mulher é o exemplo da elegância e seu filho, extremamente educado. É um exemplo a ser seguido pelos outros...

Eu senti a indireta, mas eu não ia me deixar abalar ali. Continuei guardando minhas coisas e parti para a sala de aula. Ele jamais teria o meu voto. Não queria ter que engolir sua família perfeita e dentro dos padrões. Aquele Nicolas adorável e ingênuo foi destruído por ele e sua sagacidade.

Mais tarde eu soube que por causa da campanha eleitoral, ele iria visitar nossa escola. Parecia destino, perseguição, mas eu o enfrentaria de frente, quero que ele olhe nos meus olhos e veja o quanto mudei. O quanto me fez sofrer.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.