Diário de uma Judia
10 Página 9 - 1 + 1 = 3 (Parte 1)
Notas iniciais
1940
20, Febuar
Nem sempre temos o controle exato do que ocorre na nossa vida ao longo dos dias, mesmo assim, tentamos controlar o tempo com calendários, relógios, como se fosse possível encontrar uma unidade de medida tão exata e artificial para algo tão natural e além de qualquer compreensão humana.
E nós humanos que também somos naturais, no entanto, adoramos nos fechar em termos artificiais. Somos tão exatos a ponto de não caber em nós mesmos, somos tão inexatos a ponto de sermos imprevisíveis. Nós não conseguimos nos compreender, estamos sempre divididos. O meio determina quem você é, mas você sempre sacrifica o que é pelo novo. Por isso somos sempre invadidos pelo imprevisível.
Eu arrisco a dizer que somos exatos em uma coisa: na imprevisibilidade. Não adianta o quanto o meio te determina, você sempre faz o contrário.
Nessa última semana o imprevisível me pegou de jeito e abalou o pouco de exatidão que eu tinha das coisas.
Perguntei a Aaron se ele poderia falar com sua amiga nazista e pedir um favor para mim.
— Eu queria voltar a estudar, sinto que meu cérebro está definhando. Você podia pedir para aquele ser humano desprezível que você chama de amiga arrumar uns livros para mim.
Aaron sorriu – ser humano desprezível? Vocês não baixam a guarda nunca.
— Só não conta para ela que sou eu que estou pedindo! – adverti.
Mesmo assim ele concordou e disse que conversaria com ela. Por outro lado, demorou uns três dias para que ela aparecesse aqui, já que o frio estava tão insuportável que duvido que alguém conseguisse ficar andando aleatoriamente pelas estradas.
Sempre que ela chegava aqui, eu me retirava. Não era uma situação confortável. Eu preferia congelar no frio do que me sentir acuada pela presença de alguém que me causava tantos sentimentos ruins e que claramente me queria morta.
Era de manhã cedo quando ela apareceu e eu fui para fora da cabana para não ter que lidar com a presença dela. Mas fiquei a espreita do lado de fora tentando ouvir a conversa dos dois.
— Como está sua perna? – ouvi a voz dela perguntando a ele.
— Está bem melhor, acho que não vai demorar muito até poder tirar os pontos.
— Vai demorar sim – contrariou ele – seu corte foi muito profundo. Não pense que você já pode sair da cidade.
— Eu não tenho muito tempo, Elza.
Franzi o cenho. Fiquei realmente curiosa para onde ele teria que ir. Espero que não esteja pensando em me deixar de lado e esquecer da promessa que fez de me levar até meus pais.
— Você vai morrer se sair daqui agora! Você não está curado!
—Shhh! Silêncio! A Rachel não pode escutar – a reprimiu.
— Por que você se importa com ela? – rebateu.
— Por que eu não me importaria?
— Garotos são tão previsíveis – ouvi ela sorrindo.
— Para de implicar com a Rachel, ela não fez nada de errado. Tá tão ferrada quanto eu nessa história toda.
— Você a trata como se ela fosse vítima! – ouvi o tom de voz dela se alterar.
— E não é?! Ela não tem culpa do que aconteceu! – a voz dele também ficou mais grave.
— Para de ficar protegendo ela, Aaron!
— Para de ficar atacando ela, Elza!
Houve uma longa pausa na conversa até que alguém falasse algo.
Droga, que frio! Pensei na hora.
— Preciso de um favor – Aaron rompeu o silêncio – Preciso de uns livros de colegial.
— Pra que? Achei que já tinha alcançado o auge do conhecimento humano nos livros marxistas – ironizou.
— Ha-ha – Aaron riu sarcasticamente – Não é pra mim.
Filho da mãe, eu falei pra ele não falar que era eu! Praguejei mentalmente.
Houve uma longa pausa novamente.
— Você gosta dela – afirmou Elza em tom de deboche.
Não houve resposta do Aaron. E ouvi ela arrumando suas coisas. Tratei de sair de perto da cabana. Ela foi embora rapidamente.
Aaron gosta de mim.
Pelo silencio dele, eu presumo que sim.
Mas não sei o que significa. Gostar pode significar muitas coisas.
Mas o fato é que fiquei meio estranha com ele depois daquele dia e acho que ele percebeu.
— O que você tem, garota judia? – perguntou me olhando enquanto eu sentava na cama.
Dei de ombros – não sei do que você está falando.
Ele soltou um grunhido da boca que não entendi ao certo o que significava e se aproximou para sentar do meu lado na cama. Estava muito frio, mas aquilo fez meu corpo esquentar de nervosismo.
Eu não ia conseguir mentir, sempre fui péssima nisso.
— Você mente mal pra caramba – me olhou sorrindo.
Eu me senti mais embaraçada ainda.
— Está com frio? – perguntou pondo sua mão direita sobre minhas mãos entrecruzadas.
Queria sair da situação embaraçosa, mas não consegui me mover. O calor da mão dele gerou um conforto nas minhas mãos.
Depois de um tempo sem ninguém falar nada, eu não me segurei, tive que perguntar. – Você já mentiu para alguém que você gosta?
Ele me olhou mordendo a parte interna da boca demonstrando dúvida. Aquela situação era tão estranha. Ele estava muito perto, tocando na minha mão. Não conseguia nem olhar para ele direito.
— Uma vez quando eu era pequeno... – começou a responder – falei pra minha mãe que ia para a escola, mas na verdade fui na cidade vizinha em um parque de diversões passar a tarde brincando.
Olhei pra ele sorrindo.
Ele sorriu de volta.
Notei que ele tinha um sorriso bonito.
— E você já mentiu pra quem você gosta? – me devolveu a pergunta.
— Você não pode plagiar minha pergunta – me neguei a responder com um sorriso de canto.
Ele cerrou os olhos de um jeito engraçado.
E eu sorri mais ainda.
— Você tem um sorriso lindo. – Soltou de repente.
Meu sorriso morreu automaticamente.
— Desculpa – tentou se retratar. Devo ter feito uma cara muito feia – Não queria te constranger.
— N-não estou constrangida – afirmei, limpando a garganta.
Sua mão ainda estava nas minhas e senti que ele começou a fazer carinho com o polegar.
Olhei para baixo reflexamente.
Senti um negócio estranho na barriga, parecia que tinha pessoas sapateando nela e causando uma sensação de desconforto. Não sabia explicar.
— Você gosta de mim? – questionei involuntariamente.
Ele ficou calado.
Virei meu rosto para olhá-lo e ele estava sério, com os olhos mais escuros que o normal. Tinha um tom decidido no olhar.
Ficamos alguns segundo nos olhando quando senti seu rosto se aproximar um pouco do meu até ficar perto o suficiente para eu sentir sua respiração batendo no meu rosto. Segurei minha respiração na garganta em defesa ao gesto, mas não me movi.
— Gosto – sussurrou com seu hálito gélido.
Ficamos parados naquela proximidade, nenhum dos dois tomou uma atitude a mais. E senti meu coração acelerar os batimentos.
Até que ele encostou a testa na minha e perguntou também – você gosta de mim?
Minha respiração estava irregular. E a dele também. Mas ainda consegui responder baixinho – você não pode plagiar minha pergunta.
Ele sorriu.
E continuou aproximando sua boca até encostar nos meus lábios.
Foi a sensação mais diferente que eu já tinha sentido até ali.
Eu parei de respirar e fechei os olhos para sentir cada segundo daquele beijo. Baixei a guarda completamente. A boca dele era tão macia e se movia tão suavemente sob meus lábios. Senti sua mão esquerda na minha nuca para me aproximar mais enquanto a lentidão e doçura do beijo se transformava em pressa...
Mas aí eu lembrei que precisava respirar e o empurrei, ofegante.
Ele me encarava com um olhar intenso.
Nos entreolhamos sem falar nada por alguns segundos.
E ele aproximou-se novamente, me beijando. Foi tão lento e doce e ao mesmo tempo urgente e intenso.
Eu não esperava esse beijo e nem gostar tanto dele. Sentia sua língua quente e molhada pedir permissão para entrar na minha boca e eu arqueei o corpo com a sensação de prazer que aquilo me causou. Ele percebendo, subiu as mãos para meus cabelos e outra na minha cintura mantendo meu corpo contra o dele.
Não sei quanto tempo durou, mas em certo momento ouvimos um barulho vindo de fora e nos separamos rapidamente. Senti minha cabeça zonza. Masmeu coração gelou com o barulho vindo lá de fora.
Me levantei para ir até a porta e entender o poderia ser, quando vi um homem parado olhando para a cabana próximo ao lago. Aaron apareceu mancando logo atrás de mim e saiu da cabana em direção ao homem.
— Fica aqui! – ordenou, sério.
Eu arfei incrédula. Ele acha que pode me dar ordens?
Ele parecia conhecer o homem, pois os dois gritavam furiosos. Não conseguia entender o que eles estavam falando, pois estavam um pouco longe. Então resolvi entrar, pegar a faca, guardar na cintura e ir até lá. Quando o homem desconhecido me viu aproximar, calou-se abruptamente e Aaron virou para me olhar com reprovação.
— O que está acontecendo aqui? Quem é ele? – indaguei de maneira rude.
— Eu falei pra você não vir até aqui! Por favor! Volta pra cabana! – pediu estarrecido.
Ignorei o pedido de Aaron e encarei o homem desconhecido. Ele era careca, branco e tinha uma barba rala, era um pouco mais baixo que o Aaron, mas tinha um olhar desagradável.
— Quem é você?
Ele sorriu de canto e disse: — ela é judia.
Arfei sem paciência.
— Parabéns por dizer o óbvio. – retruquei.
— Melhor você ir pra dentro, já que te explico tudo. – insistiu Aaron.
— Conta logo pra ela, cara! – o homem afirmou.
Aaron se voltou para o homem – Não!
— Conta.... – o homem repetiu o pedido – ou conto eu!
— Holandês... – Aaron apontou o dedo para ele – Você não pode se meter nas minhas missões assim!
— Claro que posso! Foi o chefe que me mandou atrás de você. Você tá ficando mole demais!
Observei aquela discussão sem entender qual era o ponto dos dois.
— Eu me machuquei, agora que estou voltando a andar de novo!
— Teu tempo de provar fidelidade tá esgotando! – ameaçou o homem – Ele quer te ver hoje. Você tem que ir comigo.
Coloquei a mão no ombro do Aaron como proteção – Ele não vai a lugar nenhum! Ele mal consegue andar.
— Hm... – percebi o sorriso cínico desse tal de Holandês.
Revirei os olhos.
Eu ia avançar nesse cara.
— Como descobriu que eu estava aqui? – indagou Aaron.
— Sua namorada enfermeira me contou. – falou me olhando provocativo – mas agora vejo que você arrumou uma nova namorada, não é...
É oficial: Eu odeio esse cara.
— Rachel, me dá um segundo com ele? – Aaron me pediu mais uma vez, beirando o desespero.
O encarei com ódio nos olhos, mas não insisti em ficar.
Voltei para cabana, sentei na cama de novo e fiquei refletindo.
Aaron não demorou muito a aparecer.
— Me desculpa pela situação. – sentou ao meu lado cauteloso.
Ficamos calados alguns segundos, até ele romper o silêncio.
— Eu não minto pra quem eu gosto, Rach... – me encarou.
— Então quem é esse cara? – fui direta.
— Eu não posso falar ainda, não tenho tempo de explicar. – continuou – Mas eu tenho que ir com ele.
— O que ?! – quase gritei incrédula.
— Não por muito tempo, só preciso resolver uma coisa muita rápida com ele. – percebi aflição em suas palavras – eu vou voltar!
Sorri incrédula.
Puxou meu queixo delicadamente para que eu olhasse novamente pra ele. – eu prometo!
— Você vai romper seu ferimento. – retruquei me desvencilhando e levantando da cama.
— Eu preciso ir! – colocou um casaco grosso e se aproximou de mim mais uma vez. – Sinto muito.
Ele ainda tentou me abraçar, mas eu o afastei. Estava muito chateada. Aquela situação me incomodou profundamente. Ele, em contrapartida, suspirou me olhando tristonho e foi mancando pra fora da cabana, se afastando devagar com o homem.
Tudo culpa da Elza, o que tinha a ver ela contar que o Aaron estava aqui para esse cara!? E quem era ele? O que queria? Que missão o Aaron estava metido? Ele me conhecia?
E esse beijo que demos? O que significava? Eu nunca tinha beijado alguém antes, não sabia da sensação e não sabia que tipo de sentimentos podia despertar. Só sei que não parecia um caminho seguro a percorrer.
Eu tinha tantas perguntas e nenhuma delas estava respondida. Minha cabeça latejava com tantas informações.
Fale com o autor