Diário de uma Judia
4 Página 4 - Jovem comunista
Notas iniciais
1940
20, Januar
Aquela noite era fria e mais sombria que o normal. Meu espaçoso e confortável quarto estava pouco iluminado. A única luz presente era a luz da minha mesa, onde eu estava debruçada esboçando o desenho de um avião. Um avião de guerra. Ele não sai da minha cabeça desde quando o vi ontem na TV. A ideia de um homem poder voar é aterrorizantemente incrível e ameaçadora. Enquanto este homem está imponente lá no céu, o outro homem, da terra, é impotente diante da máquina voadora.
Tudo estava calmo naquela noite, pelo menos até certo ponto, pois um estrondo lá fora desencadeou uma série de acontecimentos que definitivamente abalaram a placidez noturna.
Soldados invadiam casas, quebravam vidraças, arrombavam portas, gritos, gemidos, dor e sangue. O que estava acontecendo? Ao olhar pela janela do meu quarto e me deparar com as mais horrendas cenas, senti meu sangue gelar. Mas que loucura é essa?! Sai correndo pelas escadas. Meus pais estavam sentados, quase que tranquilos, pareciam não se importar com a gritaria lá fora.
– Pai, mãe, o que está havendo?
Fitaram-me por algum momento, as feições se modificando para algo diferente, algo que eu nunca vira antes. Minha mãe de repente pôs-se a chorar.
– Acalme-se, querida – meu pai puxou-a com carinho afagando seus cabelos escuros.
Senti uma angustia no meu peito, algo de muito ruim estava prestes a acontecer. Continuei estática observando-os. Depois de um tempo, meu pai conseguiu acalmar minha mãe e voltaram a pôr os olhos em mim, sem dizer nada. Aquilo já estava começando a me assustar.
Outro estrondo fez com que eu caísse no chão e apagasse. No mesmo segundo, abri os olhos respirando ofegantemente. Um teto velho e acabado pairava sobre minha cabeça.
– Cabana, Rachel, cabana... Você está na cabana. – repeti em bom tom para tentar não pirar. Sentei na cama.
É, meu dia começou muito bom como já visto. Sentei-me no chão da varanda da cabana e recostei-me no batente da entrada. Inspirei tranquila o ar frio da manhã e o expirei sentindo todo meu corpo relaxar. O sol estava quase para aparecer destemido por trás da colina para onde eu olhava. O lago tão imóvel quanto eu preparando-se para se regozijar assistindo ao nascer de um novo dia. Provei do café extremamente quente e amargo, do jeito que eu adorava. E antes que pergunte: Não, não roubei o café. Klaus costuma me doar algumas coisas quando pode.
Ontem, alguém já deu seu aviso “Estou chegando!” com neves que esbranquiçaram todo o solo ao redor. O dia amanheceu normal, como se nada pudesse atrapalhar a opulência de uma bela manhã ensolarada. Mas a verdade é que dou dois dias para tudo ficar branco e frio, incluindo o sol. Meus carvalhos já não têm mais folhas, as que resistem não dão frutos, minhas flores já se recolheram, e meus animais escondem-se ainda mais. O que fazer sobre isso? Nada. Só tentar conjugar o verbo sobreviver na primeira pessoa do singular. E que tarefa complicada.
Eu aqui reclamando da vida sentada, sem fome, com um cobertor e uma vida tranquila. E meus pais, como não devem estar? Imagino-os nas piores condições humanas, tratados como animais primitivos. Certo dia no Laterna, vi algumas pessoas comentando sobre como era dentro das prisões.
– São extremamente seguras. Impossível alguém tentar fugir de lá. E se tentar, é morto sem piedade. – explicava um senhor de cabelos grisalhos.
– Todos deveriam ser executados – uma senhora com expressão rude exclamava – Esses vermes sujam nosso país.
– Disseram-me que o banqueiro e a mulher dele vivem reclusos de todos e praticamente não comem. — comentou o mesmo senhor.
Engoli em seco. Os dois de quem ele falava eram meu pai e minha mãe. A conversa me deixou um pouco receosa. E se... E se meus pais tentassem fugir ou desistissem de viver. Não consigo nem imaginar, não costumo ser pessimista, sempre gosto de pensar que as coisas já estão ruins o suficiente. Porém, esse aperto no meu coração não diminui, respirar dói e as lembranças me destroem.
Limpei a lágrima rebelde que saiu sem permissão.
Fique tranquilo, vou ficar bem, é só eu não pensar. Eu só tinha que ocupar minha mente, já sabia o que fazer.
É hora de caçar.
Tirei o relógio do bolso e vi que já era meio-dia. Eu andava sorrateiramente pela floresta, quando se tem certa camada de neve, fica mais fácil não fazer barulho e isso pode ser bom ou ruim. Não quero nenhum predador voraz no meu encalço querendo me lanchar.
De repente, ouço um estalo de um galho a minha direita, meu ouvido se aguça automaticamente. As árvores de tronco fino não conseguiram esconder o pequeno veado que caminhava despreocupadamente, parando de vez em quando para comer o resto de capim do solo.
Praticamente parei de respirar. É extremamente difícil conseguir matar um desses, eles sempre conseguem escapar. Mas, desta vez será diferente. Levantei meu braço até a altura das costas onde se encontrava a aljava e puxei silenciosamente uma flecha. Levantei o arco na direção do animal e encostei a flecha puxando-a para trás vagarosamente.
Juro, odeio matar esses animais, porém não tenho escolha. Preciso de alimento para alguns dias. Alimento fortificante, já que faz um tempo que eu não como nenhum tipo de carne. Em qualquer parte que eu mirasse ele morreria, a flecha é banhada com veneno de sapo, bastante forte, um leão cairia em 30 segundos com uma dessas em contato com seu sangue.
Aumentei a força da flecha no elástico e...
– Ahhhh! Socorro! – um grito escrachado soou vorazmente.
O veado tomou um susto imenso e correu rapidamente mata adentro. Algumas aves levantaram sobressaltadas.
– Mas que merda é essa? – rosnei.
Direcionei-me em direção da voz masculina. Eu com certeza ia matá-lo
– Ahhhh! Alguém me ajude! Tem uma monstro tentando me matar!
– Ah, pode crer que tem – o ódio na minha voz transparecia involuntariamente. Eu estava com fogo nos olhos.
Ninguém caça na parte da floresta onde eu estava. A mata é muito densa e tem animais perigosos em vantagem aos meros humanos idiotas. Só eu caço nessa zona, ninguém mais. Como pode um ser humano se meter onde não é bem-vindo? A voz gritava mais, e eu me aproximava dela o mais rápido que podia. Logo senti que a voz estava bem a minha frente, depois do carvalho de caule grosso.
– Ah Meu Deus! – ele bravejava.
Do jeito que ele gritava, com certeza não parecia estar em condições de tentar qualquer investida contra mim. Então eu andei cautelosamente até ultrapassar a árvore, esticando o arco com a flecha de madeira e aço na ponta. E foi aí que o avistei na cena mais boba que já vira em toda minha vida, até abaixei minhas armas. Tentei conter o riso, mas não foi possível. O que esse maluco pensa que está fazendo? Meus risos viraram gargalhadas.
O monstro do qual ele tentava se defender era um pequeno gato do mato que lambia seus pés descalços. Era um homem, não exatamente um homem, era bastante jovem, talvez tivesse a mesma idade que eu. Sua pele era queimada pelo sol, cabelos extremamente escuros, seu corpo estava bastante machucado, havia cortes em seus braços, pernas e até no rosto, e todos os membros estavam amarrados, sua camisa e calça também estavam degradadas.
– Ei, você! – depois de um tempo, acho que ele cansou de me ver rindo da cara dele – Ajude-me, por favor! Por favor! Ah! – sua voz saiu trêmula. Ele devia estar com muita dor.
Minha expressão mudou no mesmo segundo, ouvi um quebrar de galhos no meio da mata, não era do gato que ele temia. Olhei ao redor institivamente, não era seguro para mim ali. Dei um passo para trás para sair de cena novamente.
– Não! – exclamou, quando percebeu que eu estava me afastando.
Eu dava passos vacilantes em direção à floresta, não era seguro eu ficar lá, quem o deixara lá provavelmente iria voltar. Apertei os olhos com força tentando afastar a vontade de dar meia volta e ajuda-lo.
– Por favor! Por favor! – ele estava praticamente chorando. – Eu imploro!
Cheguei perto da árvore por onde acabara de passar. Parei e encostei minha mão nela, me apoiando. Que tipo de ser humano eu me tornei?
– Faço tudo o que você quiser, só não me deixe morrer aqui!
– Cale essa boca, eu estou tentando pensar. – ordenei.
Se eu salvá-lo, vou ter que sair rápido daqui, porém, ele está machucado, como irá rápido?
– Eu sei fazer chocolate quente! É muito gostoso, juro! Eu ponho mel e fica ótimo! Eu cozinho outras coisas também!
– Shhhhh!
Continuei sem me virar para ele, meu braço ainda apoiado na árvore. Por outro lado, seria bom ter alguém para conversar, mas, espera... Eu nem o conheço. Ele pode ser um assassino.
– Sabe, tá bem frio aqui, eu posso morrer congelado, um lobo pode comer minhas entranhas enquanto eu estou imóvel assistindo, ou um caçador pode-
Parei de escutar depois da palavra caçador, pois ela me fez lembrar o fato de ele ter espantado meu veado minutos atrás. Desencostei-me da árvore e fui em direção a ele com a arma em posição de ataque.
– Você...
Ele arregalou os olhos de susto.
– Eu posso te matar agora mesmo e acabar com seu sofrimento.
– Eu também sei cantar e tocar, até danço se quiser – ele apertou os olhos com medo de eu soltar a flecha. – Tá bom, só faz isso rápido.
Respirei fundo tentando conter a raiva. Guardei a flecha e encaixei o arco em meu peito, eu não sou uma assassina.
– Se você conseguir andar, te ajudo. Se não, te solto e você se vira sozinho.
Nesse instante, ele abriu os olhos cautelosamente para me visualizar e se certificar do que eu acabara de falar. Respirou aliviado e um pequeno sorriso brotou timidamente dos seus lábios. Puxei a faca brutalmente, o que o assustou de novo.
– Eu preferia morrer com a flecha.
Soltei um riso e cortei as amarras de seus pulsos.
– Seu idiota. – comentei enquanto o ajudava a levantar – Agora é a hora da verdade.
Pus seu braço ao redor dos meus ombros e meu braço ao redor de seu tronco.
– Ah! – soltou um gemido de dor quando ficou na posição ereta.
Deu um passo vacilante e depois outro.
– Espero que possa fazer melhor do que isso.
Fez uma careta e continuou com passos mais firmes e ágeis. Seu semblante o entregava e dava para sentir o esforço que ele estava fazendo.
– Espero que seu chocolate quente seja realmente bom – ele me olhou – e as músicas também.
Riu timidamente.
– Tem alguém atrás de você? – Indaguei.
– Muita gente.
Ficamos em silêncio enquanto caminhávamos e depois de um tempo, ele também me perguntou:
– E de você?
Um sorriso brotou no canto da minha boca – Muita gente. — Depois de um tempo olhando seu estado, resolvi perguntar – Como conseguiu ficar nesse estado?
– Fui um menino muito travesso.
Ficamos em silêncio por alguns minutos.
– Você é judia? – finalmente perguntou. Eu realmente não me esconderia, nem se tentasse mudar de corpo.
– Como sabe?
– Têm alguns cartazes espalhados pela cidade com fotos suas. Estão escritos: Procura-se Judia imunda.
Revirei os olhos – Senhor Gal...
Faz tempo que eu não vou à cidade, justamente por conta desse último incidente do rádio. Eu sabia que se ele tivesse me visto, saberia que fui eu.
– Então ele está realmente empenhado em me pegar.
– Você não devia ter roubado rádio dele.
O fitei desconfiada, quem era ele afinal?
– Como sabe dessas coisas?
– Eu tenho ouvidos, garota judia, olhos e ouvidos.
– Quem é você?
– Um jovem comunista, estamos juntos nessa.
Ficamos nos olhando por um tempo, tinha certa tensão no ar. Estávamos desconfortavelmente próximos demais. Respirei fundo, tentando cortar o clima e percebi o quão cansada estava. O dia já estava acinzentado, prestes a acabar. Andamos muito, e aquele braço pesado dele não ajudou nem um pouco.
– Você pesa – reclamei.
Ele soltou uma pequena risada e tirou o braço de cima de mim.
– Desculpa. Falta muito para chegarmos ao seu destino?
– Não. Na verdade, já chegamos.
Ele levantou o olhar e se deparou com o lago e a cabana logo ao lado. Era uma cena tão linda, quase uma pintura de Da Vinci, qualquer um que quisesse tranquilidade na vida, moraria num local como esse.
– Bela cabana.
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