Diário de uma Judia

3 Página 3 - Que dia é hoje?


Notas iniciais
Capítulo 3 pronto. Espero que gostem. Perdoem qualquer erro e boa leitura.

1940

10, Januar

– O inverno será rigoroso este ano – comentava o senhor Klaus enquanto me dava uma xícara de chá. Estávamos sentados em sua casa, conversando.

– Eu sei. Estou receosa com a cabana. Não sei se ela pode aguentar um inverno rigoroso.

Hoje de manhã resolvi visita-lo. Estava até são, conversamos quase normalmente. Ele anda se sentindo muito sozinho desde que seu filho mais novo foi chamado pelo exército. Fala que está bem e não precisa de uma babá, entretanto, eu sei que ele está sofrendo. Seus filhos eram o porto seguro dele. Agora ele não tem nada com que se agarrar. Quer dizer, tem a mim.

– Você pode ficar aqui. – murmurou.

– Não posso, é perigoso para o senhor e, além do mais, seu sobrinho sempre está por aqui, esqueceu?

– Sobrinho? – perguntou, confuso.

Respirei fundo – Já vai começar? – reclamei.

– Era só uma brincadeira.

Rimos juntos.

– Como andam os verbos? – perguntou, casualmente.

– Bem. Melhores agora que os estou treinando. Obrigada pelo diário. – Sim, ele quem me deu o diário.

– Disponha.

Sua casa é simples e pequena, porém, bem organizada. O admiro muito. Ele passou por muitas coisas difíceis na vida. Perdeu a esposa no parto do segundo filho e criou seus dois filhos sozinho desde então. O senhor Klaus era alfaiate, todavia, um problema nas mãos fez com que parasse de costurar. Elas tremem muito na hora de realizar movimentos finos.

Seus filhos trabalhavam para ele, quase não paravam em casa, ele sempre foi muito sozinho até me conhecer, só que eu sou uma companhia arriscada. Agora ele depende da boa vontade de seu sobrinho. Ainda não o conheço, mas tenho que conhecê-lo, só para me certificar de que esse sujeito é uma boa pessoa e não irá maltratá-lo.

– É para você – estendeu-me um bloco de folhas.

– O que é isso?

– Um calendário. Assim você pode colocar datas mais precisas em seu diário.

– Que dia é hoje?

Pôs a mão no queixo tentando lembrar-se. Claro que ele não iria saber. Depois de um tempo, balançou a cabeça negativamente, desistindo. Sorri. Ele é meio doido, mas é uma boa pessoa. E como eu já comentei, ele é extremamente esperto. Por isso, quando deixei escapar a frase a seguir, ele percebeu no mesmo segundo.

– Sem problemas. Logo descobrirei.

– Como assim: “logo descobrirei”? – perguntou, desconfiado.

Dei de ombros – nada – ponderei.

– Nada? – respirou fundo – Não acredito...

– O que? – perguntei com falsa inocência.

– Ah, eu conheço essa cara, mocinha.

– Você está ficando paranoico.

– Não estou! Você... Você está frequentando o lanterna de novo?!

– O que?! – fiz minha melhor cara de ofendida – Não estou! – ele não sabe, mas eu frequento o lanterna quase todos os dias... E noites.

Ele continuou me encarando com uma expressão severa. É, ele me pegou. Rolei os olhos e acabei cedendo, não ia adiantar mais fazer cena. – Ta bom, eu voltei a frequentar o lanterna.

– Eu sabia! Mas... Por que? Você sabe caçar, a cabana está inteira e... você tem um diário!

Ri sem humor – Eu não aguento mais ficar lá sozinha. Eu só falto enlouquecer com tanto silêncio.

– Ah! Que bobagem! Eu vivo sozinho e ainda não enlouqueci! – Falou com tanta segurança que quase acreditei.

Depois de alguns segundos ele cansou de ver minha face debochada e resolveu falar – Não me olhe assim. – reclamou – Tudo bem, talvez ficar sozinho possa enlouquecer um pouco...

Balancei a cabeça positivamente.

– Alguém viu você?

Minha expressão mudou na mesma hora, pois a pergunta ligou um alerta interno. Aquela noite ainda me dava calafrios. Sim, alguém havia me visto. Minha fisionomia deve ter me entregado, pois logo ele pigarreou.

– Quem?

Bebi um gole de chá – Uma mulher. Enquanto eu tentava pegar o r... – a palavra morreu na minha boca assim que percebi que estava falando sobre o rádio.

Continuou me olhando, esperando eu terminar a frase. Não o fiz.

– Razel...

– É Rachel.

– Tanto faz.

Fixou o olhar em mim, insistindo no término da frase. Ah, merda. Eu e essa minha boca. Tive de admitir tudo para ele.

– Eu vou furtar um rádio – confessei rapidamente.

Ele arregalou os olhos, pronto para surtar.

– Ah, não precisa de tanto. Não é algo tão ruim assim! – tentei acalmá-lo.

– Claro que é! Você está ficando maluca?! – e começou a surtar. Me encostei na cadeira esperando a cena começar – Nunca que vou deixar você fazer uma coisa dessas!

Soltei um riso – E como pretende me impedir? – desafiei.

– Eu te amarro, amordaço, prendo. Mas daqui você não sai até tirar essa ideia descabida da cabeça!

Ele conseguia ser um chato quando queria, não iria deixar eu furtar o rádio, sempre conseguia o que queria e eu sou a prova viva disso. Se não fosse essa teimosia dele, eu não estaria viva até hoje.

Eu precisava fazer algo.

Até que uma pequena luz se acendeu e encontrei a solução. Eu sou um gênio.

– O rádio é do senhor Gal... – comentei esperando o efeito que a informação causaria.

De repente seu estado de ira se transformou drasticamente.

– Você disse Gal? – um sorriso brotou nos meus lábios.

Acenei positivamente.

Ficou em silêncio por alguns minutos – Vê se não deixa esse nazista idiota pegar você.

Gargalhei satisfeita. Sabia que depois de falar do senhor Gal, ele iria deixar. Eles se odeiam, Klaus fala barbaridades sobre Gal e já ouvi senhor Gal falar barbaridades sobre o senhor Klaus. Não sei o motivo, sempre que toco no assunto, Klaus fica nervoso e rabugento. Mas enfim, o importante é que alcancei o resultado planejado.

– Sabe qual é o verbo do momento? – perguntou-me após alguns minutos.

– Qual?

Sobreviver. – afirmou sério – Não seja pega, menina. – terminou inseguro. Ele realmente parecia preocupado comigo.

Sorri compreensiva – vai dar tudo certo.

Voltei andando para casa passando pelas pradarias sulistas e suas plantações. O vento frio marcando o início do crepúsculo. Apertei meu casaco com mais força contra meu peito. Minha cabana não ficava muito longe, nada é muito longe por aqui, se você souber escolher o caminho certo. Logo cheguei nas cordilheiras onde se encontra meu vale, meu lago, minha cabana. Pelas coordenadas, ela deve ficar mais ou menos a sudoeste.

Quando voltei à cabana, já era quase noite. Liguei a lamparina e fiquei a observando por um tempo. Minha cama de madeira com um colchão velho e uns panos cobrindo-o. Logo ao lado uma espécie de lareira, mal feita, mas funcionava. Minha aljava e arco pendendo na parede, meu diário sobre a mesa de madeira, meu guarda-roupa com minhas poucas vestimentas e um espelho ao lado.

Fiquei me fitando por certo momento. Os cabelos negros e curtos, que cortei para facilitar minha vida, cabelos longos precisam de cuidados e atrapalham na hora da caça. Minha pele mais corada, desde que comecei a sair por ai, conheci o sol e os machucados, meu corpo está mais magro e maltratado, tenho até cicatrizes. E os olhos escuros e decididos.

– Você até parece uma mulher de verdade – sussurrei sorrindo – Esse rádio será seu. – afiancei.

A noite estava mais escura que o normal. A lua não quis aparecer hoje, não é culpa dela, pois sempre gosta de se mostrar. A culpa é das nuvens ciumentas, que adoram cobri-la. Direcionei-me rumo ao leste com meus clássicos trajes, o clássico capuz branco, faca na cintura e uma bolsa para meu troféu. Como a noite estava escura, resolvi levar uma lanterninha.

No instante em que cheguei no lanterna, tomei o maior cuidado possível. Andei pelas ruas mais estreitas e silenciosas. Flanei por cima dos telhados até chegar à casa do senhor Gal. Eu estava no telhado da casa ao lado da dele, e a janela estava aberta com o rádio tocando. Tentei vê-lo, sem sucesso.

Esfreguei minhas mãos uma na outra e percebi que estavam suando. Sim, eu estava nervosa. Iria fazer uma insanidade. Respirei fundo tentando me concentrar. Foco, Rachel. Voltei à borda do telhado tentando ver se ele estava por lá, porém não consegui ver muita coisa. Sem lua, sem luz. Arfei impaciente. Como eu iria fazer isso?

Só havia uma maneira: Eu tinha de descer.

Confesso que a prática do verbo furtar sempre me deixa apreensiva, pois corro o risco de ser pega e nem gosto de imaginar as consequências. Todavia, eu tinha que fazê-lo. Escorreguei ociosamente até alcançar o chão com meus pés, encostei-me na parede da casa do senhor Gal, perto da janela. Permaneci lá por alguns instantes, a espera de qualquer ruído que denunciasse sua presença. Só ouvia o som do rádio, não muito forte. Meu coração parecia que iria rasgar meu peito de tão forte que batia. O nervosismo tomava conta de mim.

Não sei quanto tempo esperei que o senhor Gal se manifestasse e não obtive a resposta esperada. A janela estava bem ao meu lado. O rádio tocava sagazmente como sempre fazia.

Olhei para o céu.

Nada de lua.

Merda. Hoje não é minha noite de sorte.

De repente...

Rio da Lua

Rio da Lua,

Mais largo que uma milha

Uma canção começa a tocar.

Eu o atravessarei

Com elegância, algum dia

Respirei fundo.

Oh, criador de sonhos

Seu partidor de corações

Onde quer que você vá

Eu irei

É agora.

Aproximei virando-me delicadamente para ficar de frente para janela. Praticamente parei de respirar para não produzir nenhum ruído.

Dois nômades

Saindo para ver o mundo

Olhei para dentro da casa e nada vi. Só o breu tinha espaço. Estiquei os braços em direção ao objeto precioso. Ele não era muito grande, eu mal conseguia vê-lo.

Tem tanto

Do mundo para ver

Toquei-o. Segurei-o e o tomei para mim.

Nós estamos atrás

Do mesmo fim do arco-íris

Dei um passo para trás.

Esperando fazer a curva

Meu doce amigo

Um barulho veio lá de dentro.

Rio da lua

E eu

Mexi em alguns botões e a música cessou.

– O que está acontecendo aqui? – ouço uma voz se aproximando.

– Mas o que é isso?! – Senhor Gal esbravejava.

Olhei para trás enquanto fugia e o vi me acompanhando. Droga. Ele era magro e parecia ter um bom físico. Não seria tão fácil me livrar dele. A rua pareceu estreitar enquanto eu passava por ela. Resolvi dobrar em uma viela. Olhei para o céu e vi que a lua resolvera aparecer. Soltei um riso nervoso. Filha da mãe.

– Volte aqui!!! – ouvi se aproximando novamente.

– Porra!

Olhei para um lado e para o outro, vi algumas casas acendendo suas velas para ver o que estava acontecendo. Ele estava chamando muita atenção com seus gritos. A adrenalina se espalhou pelo meu corpo rapidamente. Apertei o rádio contra meu peito e corri o mais rápido que pude. Eu tinha que sair dali. Saí me esbarrando pelos cantos, sem direção. Fiquei um bom tempo dobrando em qualquer rua que via pela frente.

E então me vi bem no meio do encontro de quatro ruas. A casa ao meu lado tinha uma escada bem ao lado que provavelmente levava para uma espécie de laje. Subi.

O local era lindo. Era um jardim. Minha respiração ainda ofegava quando parei para admirá-lo. O chão ladrilhado, bancos de madeira sofisticados, uma linda macieira no centro. Sentei-me em um banco ao pé da árvore e tentei recuperar meus sentidos. Comecei a rir.

– Você é louca, Rachel. – murmurei para mim mesma. Satisfeita.

Depois que consegui me recuperar, olhei para o rádio ainda pressionado contra meu peito. Tirei o capuz e afastei meu troféu para visualizá-lo melhor. Preto, com alguns botões que eu não sabia para o que serviam, entretanto logo descobriria. Esperei o tempo passar. Talvez eu tenha passado horas lá em cima quando resolvi levantar para dar uma olhada por cima das casas, para ver onde estava. Pus o rádio na bolsa de pano que havia levado especialmente para ele.

Eu ainda estava no lanterna. Só que nas casas atrás dos comércios. Há alguns metros atrás da casa tinha uma floresta, por onde eu deveria seguir. Desci ociosamente por onde subi. Olhei para os lados e vi que a poeira baixou. Sem confusões, sem barulho, nada. Assim que desci, andei em direção à floresta.

– Fugindo de algo? – uma voz soou do meu lado.

Travei. Hoje com certeza não é minha noite de sorte.

Olhei na direção da voz. Ela me fitava encostada numa parede com os braços cruzados.

– Você... – sussurrei.

– Falei que nos veríamos novamente – um sorriso maligno brotou em seus lábios.

A fuzilei com os olhos. Dava para vê-la melhor, já que estava sem o capuz. A pele clara, lábios rosados, dentes extremamente brancos e cabelos loiros. Deu dois passos na minha direção. Senti meu sangue gelar. Ela definitivamente é uma deles.

– Que mania irritante de se aproximar – reclamei, dando dois passos para trás.

– Que mania irritante de se afastar – murmurou, ainda sorrindo sombriamente.

– O que você quer? – perguntei.

– Que tire o capuz.

Engoli em seco.

– Por que eu faria isso?

– Eu não pareço querer me esconder, pareço? – deu um passo para frente.

Coloquei a mão sobre a cintura, onde guardava a faca. Ela acompanhou meu movimento com os olhos.

– Por que tem medo de mim? – inquiriu com a voz sempre confiante.

Soltei um riso nervoso pelo nariz – Não tenho medo de você. – eu morro de medo dela.

– Então você continua roubando por aqui... – sorriu e começou a andar ao redor de mim – Mesmo sabendo que é extremamente perigoso.

– O-o que você quer? – indaguei.

– Muito simples. – murmurava convencida – Que você não volte mais aqui. – Parou na minha frente.

Então era isso. Ela se sentia dona do lanterna. Sorri. De repente, uma confiança brotou em meu peito. Ninguém iria impedir que eu viesse aqui sempre que me der vontade. Levantei as mãos e tirei o capuz. Sua expressão mudou assim que me viu. Aquela confiança pareceu desaparecer. Deu um passo para trás. Eles sempre nos reconheciam.

– Melhor não ficar no meu caminho. – afirmei decidida.

Ela parecia sem saber o que fazer. Comecei a me distanciar. Mas antes...

–Espera um segundo.

Ela continuava me fitando sem reação.

– Que dia é hoje? – questionei.

Respirou fundo, tentando se recuperar – 10 d-de Janeiro de 1940.

Dei um passo para trás e vim para casa. Ela não iria me denunciar ou vir atrás de mim. Estávamos no meio da madrugada e ela teria de se explicar caso fizesse um escândalo. Não tinha muita opção a não ser se calar.

Cheguei exausta na cabana. Mesmo assim, resolvi escrever tudo o que me ocorreu. O rádio já descansava lindamente sobre a mesa.

Que dia!

Que noite!

Melhor eu ir dormir.

Notas finais
A canção do momento é Moon River, 1961. Espero que tenham gostado. Até a próxima!