Diário de uma Descontente Crônica
3 Pela madrugada
Notas iniciais
Esbaforida com a corrida pelas escadas, Lily bateu a porta do dormitório atrás de si, atirou a mochila sobre a cama, e motivada a esquecer o ocorrido no Salão Comunal, com o presente em mãos, escondeu-o entre o colchão e o estrado. Quando a vontade de chorar não lhe for presente e as discussões amenizada, voltaria seus pensamentos ao presente e identidade de seu admirador secreto. Por agora, precisava de um banho quente.
Tomou a toalha e seu pijama favorito – uma camiseta de quadribol mais larga que a proprietária, e a calça de moletom mais felpuda que pode encontrar no Beco Diagonal – dirigindo-se ao banheiro que dividia com as três amigas, e suspirou aliviada ao trancar a porta. Só queria um momento para si.
Porque os amigos não permitiam-a guardar segredos? Amava-os de todo o coração, claro – até Potter e Black fazia parte do círculo de confiança e carinho da garota, vez ou outra – mas a superproteção que lhe aplicavam tirava-a do sério. Tímida e pequena, atribuíam a Lily fragilidade e inocência atípicos: era mais forte que qualquer um dos amigos, e magoava-se com o fato de não o perceberem. As lágrimas vieram misturadas com a água quente e a angústia subira para a garganta, liberada em forma de grito.
— Lily! Você está bem?! — indagou Dorcas, aflita, que recém chegara ao quarto – Quer que eu chame alguém? — batia na porta.
— E-estou bem! Vá dormir! — gritou. Pensando melhor... — Dorcas, ainda está aí?
— Estou — a loira se prontificou ainda magoada com a grosseria da amiga.
— Me desculpe por hoje mais cedo — sentiu as lágrimas escorrerem novamente — Não queria magoar niguém.
— Está desculpada, mocinha — disse Dorcas, e a amiga poderia jurar que esta sorria. — Amanhã conversamos mais sobre isso. — e deixou-a terminar o banho.
Perdeu-se em seus pensamentos pelo que pareceram horas, e por fim, deu o banho como encerrado. Desligou o chuveiro, secando-se com a toalha, e vestiu o pijama. Encarou o próprio reflexo no espelho, atenta ao inchaço de seus olhos. Deu de ombro. Nada poderia fazer sobre isso, então para quê preocupar-se? Abriu a gaveta do banheiro e puxou um elástico similar aos que recebera da mãe pela última coruja e prendeu os cabelos ruivos, agora mais encaracolados devido ao vapor, em um coque mal feito, deixando o banheiro.
Surpreendeu-se com as amigas já adormecidas, e deitou-se na cama com o máximo de cuidado possível. Marlene poderia ser ótima amiga, mas visto a discussão mais cedo e o temperamento difícil da morena quando acordada, uma bronca para entrar para história não estava nos planos para a noite.
Puxou as cobertas na altura do pescoço, e relendo uma última vez o bilhete do diário, adormeceu.
***
— Você me disse que tinha sumido com ele! — James esbravejou, andando pelo Salão Comunal.
Intrigados com a descoberta de Lily, James e Sirius preencheram a madrugada do Salão discutindo sobre o artefato misterioso. James rodeava os móveis, impaciente, como revelado por seu incessante bagunçar dos cabelos negros. Através das lentes dos óculos embaçados, o apanhador da Grifinória encarava o melhor amigo, Sirius, que deitara-se em um dos sofás olhando para o teto.
— Sirius, você está me ouvindo? — indagou, impaciente.
— Estou, veado! — Sirius diz, saindo de seu transe – Disse que sim, não disse?! Já faz mais de um ano! Pensei que nunca mais veria essa coisa de novo…
— Disse que tinha cuidado do diário. Que estava em um lugar seguro. Que ninguém iria encontrar! — James elevava a voz, claramente descontrolado – Parece que alguma coisa deu errado, não acha!
O moreno de cabelos longos abandonou o sorriso presunçoso e suspirou com a reação do irmão de consideração, sentando-se ereto e enlaçando os dedos. James precisava acalmar-se de uma vez por todas e entender a real gravidade da situação.
— Criamos o Diário com propósito. Você entregaria à Lily no dia do aniversário dela ano passado, monitoraríamos o que ela escrevesse com o Diário Irmão decidindo quando você se comunicaria com ela através dele, fazer ela se apaixonar por você, ou descobrir se ela era apaixonada por você. — explicou, categórico – Se vocês não tivessem brigado uma semana antes por causa do O’Connor, e Remus descoberto nosso plano e nos ajudado a entender “o conceito de privacidade e como ela não deve ser invadida” — parodiou o maroto – Teríamos levado o plano a diante, como pode ser feito agora. Não precisa me agradecer por me livrar mal das coisas…
O maroto de cabelos negros encarou incrédulo o amigo despreocupadamente sentado no sofá. Como Sirius poderia ser tão eficiente em suas pegadinhas, e tão burro para todo o resto?
— Você se esquece que não estou com o Diário Irmão – James alegou, respirando profundamente, como tentativa de reestabelecer a calma – Fiquei encarregado de me livrar dele, como você ficou de se livrar do outro.
— Ah! Então supera isso, cara! — deu dois tapas nas costas do amigo, levantado-se – Ficou um ano sem ele, mais um ano não vai matar ninguém. Olha só! Consciência limpa e não desobedecemos o Remus!
— Um pequeno detalhe, pulguento – o maroto, recém chegado às escadas, interrompe o passo – O Diário de Lily só pode ser encontrado por ela se ativado pelo Diário Irmão.
— Quer dizer que…
— O Diário foi ativado. Mas eu não faço ideia por quem.
— E esse alguém está com o Diário Irmão – completou o maroto de cabelos longos.
O estrepitar do fogo na lareira era o único som ouvido no Salão Comunal. Ninguém desconfiaria da presença de dois alunos do quinto ano fora de suas devidas camas.
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