Diário de uma Comensal
3 Capítulo III
Notas iniciais
Hermione acordou no quarto novamente, embora não se lembrasse de sair da biblioteca. Não se podia dizer que a garota estava realmente acostumada com a nova convivência com os Malfoy, ou com a proposta de Draco, que insistia em voltar à sua mente. Mas ela não podia! Quer dizer, havia combatido Comensais desde o quinto ano, e depois da Batalha de Hogwarts, os Comensais que não estavam presos, estavam mortos ou haviam fugido. E estes últimos eram poucos. Depois que Quim Shacklebolt assumiu o Ministério, cada Auror caçou cada Comensal. Ou seja, o mundo bruxo estava em paz. Mas ao mesmo tempo, a garota imaginava como seria se aceitasse. Talvez... Talvez não fosse mais passar imagem de sabe-tudo. Mas não. Não era o seu lugar. Seu lugar era ao lado de Rony e Harry.
Hermione encarou o teto, e logo se levantou. Abriu o guarda-roupa, desejando que as roupas fossem menos luxuosas. Pensou em, pelo menos por uma vez, em vestir algo que fosse verde sem que viesse em sua mente a Sonserina. Sem ser julgada. Aliás, era só uma cor. Como qualquer uma. Como o amarelo da Lufa-lufa, o vermelho da Grifinória e o azul da Corvinal.
Ela era uma Grifinória, mas o que a impedia e vestir verde?
Depois de que se vestiu, olhou-se no espelho e não viu nada de diferente. Era apenas... Ela mesma.
Saiu do quarto, suspirando. Teria que aguentar a cara enrugada de Narcissa mais uma vez, e isso não era legal, e muito menos agradável.
— Aonde vai com tanta pressa? – Hermione se virou, e se surpreendeu ao ver a velha figura de Narcissa atrás de si na escada.
— Eu... Eu pretendia descer. – respondeu, gentilmente. – Eu iria tomar café da manhã.
— Está atrasada, Sangue-ruim. – ela cuspiu as palavras para fora, como se fosse veneno. Hermione colocou a melhor postura e sorriu.
— Não entendo.
— Já é tarde. Está quase na hora do almoço. – Nercissa passou pela garota como se ela fosse algo insignificante. – E aconselho que volte à biblioteca. Seu lugar sempre foi com o nariz entre aquelas páginas secas.
A mulher continuou descendo as escadas sem dar atenção à menina que estava como um poste na escadaria.
— Verde não é sua cor. – ela se virou mais uma vez, e lá estava Einne.
— Ah, Einne. Como vai?
— Verde não é sua cor, minha senhorita.
— Eu sei. – a garota respondeu. – Eu só... Queria mudar um pouco.
— Entendo. Eu entendo. – Einne contorceu suas mãozinhas no trapo em que vestia. – Quer alguma coisa para comer, senhorita?
— Acho que esperarei a hora do almoço. Muito obrigada, Einne.
— Não há de quer, senhorita.
O Elfo deu meia volta e sumiu no corredor. Hermione, que até então estava parada, voltou a descer a escada. Ela ainda não conhecia muito bem a casa de Draco, mas soube exatamente onde sair para o jardim.
Era, com certeza, um jardim bem cuidado. Havia flores que Hermione nem conhecia, coloridas, umas maiores e umas menores. E ali, em um canto, alguns pavões albinos.
Ela suspirou e se sentou na grama, verde. Mas logo ela se deitou, sentindo a grama molhada pela chuva fraca daquela noite e encarando o céu.
Hermione ouviu passos na grama e virou de bruços, antes de concluir que era apenas Draco. Apenas.
Hermione sorriu gentilmente para o loiro, que sorriu de volta.
Havia tantas coisas que ela queria contar à Draco... Coisas que ela nunca contaria. Queria lhe dizer que muitas vezes ela pensou na incrível possibilidade que seria ser Comensal.
— Está de verde. – Draco observou.
— Sim.
— É estranho te ver de verde. – ele deu mais um sorriso e se sentou ao lado de Hermione, que voltou a se deitar, as costas na grama.
— Me acostumei muito com o vermelho. – ela disse, sincera.
— Trouxe algo para você. – Hermione se ergueu nos cotovelos quando Draco lhe chamou por algo além de Granger ou Sangue-ruim.
— O que é? – ela perguntou, incapaz de esconder certa animação a voz.
Draco Malfoy pegou uma pequena caixa de veludo verde escuro e entregou à Hermione. Ela pegou a caixa, e por segundos, os olhares dos dois se cruzaram. Hermione sabia que talvez, o que estava fazendo fosse errado, mas mordeu o lábio inferior, cessando a batalha interior e se aproximou ainda mais de Draco. O garoto não se assustou. Pelo contrário: Deixou que Hermione se sentasse ao seu lado, de modo que seus ombros se tocavam. A diferença de altura entre os dois não era algo muito grande. Draco era apenas alguns centímetros mais alto que Hermione.
Ela abriu a caixinha e ali encontrou um broche dourado. O brasão de Hogwarts reluzia sob a luz pálida do sol, e Hermione sorriu. Tirou o broche da caixa e ao virá-lo, viu que seu nome fora gravado em belas letras.
— Obrigada. – ela disse, sincera.
— Achei que fosse gostar. – Draco respondeu.
— Eu adorei. – ela disse.
Então Hermione estraçalhou o resto de distância que havia entre os dois quando beijou Draco.
O garoto ainda estava assustado demais para corresponder, mas logo Hermione se afastou e se levantou, corada e com um sorriso no rosto.
E Draco ficou sozinho naquele imenso jardim.
***
Draco ainda podia sentir Hermione ao seu lado.
Faziam exatos vinte minutos que a garota saíra, e ele ainda tentava organizar seus pensamentos.
Ele beijara uma Grifinória. Não. Uma Grifinória o beijara.
E enquanto Draco punha suas ideias no lugar, Hermione subia as escadarias, correndo.
Chegou ao seu quarto, entrou e fechou a porta, escorregando até sentir o chão debaixo de si.
Agarrou a caixinha de veludo e a pressionou contra si, como se fosse a maior preciosidade que possuía. E naquele momento, era.
Hermione finalmente estava se dando conta do ato de minutos atrás.
Ela beijara Draco, mas ele não correspondera. Talvez fosse pelo susto que Hermione lhe proporcionou. Seu coração batia rápido, parecia querer sair do corpo da menina, que respirava rapidamente.
Hermione fechou os olhos.
Se acalmou, cada vez mais.
Talvez... Talvez Hermione não sentisse só ódio por Draco. Talvez fosse uma grande mistura na aula de Snape:
Ódio, amor, repulsa, carinho, amor, ódio, amor...
Amor.
Hermione fechou o sorriso e balançou a cabeça negativamente. Não podia se apaixonar por Draco Malfoy.
Podia?
E a resposta para isso, Hermione descobriu no mesmo momento:
Sim.
Aliás, qual era o problema de ele ser Sonserino e ela uma Grifinória? Nenhum. E essa era a resposta que sempre ignorara. Todos sempre a ignoraram. A verdade é que, não importa sua casa, seu brasão, seu lema. O que te impede de ser amiga de um Lufano? O que te impede de se apaixonar por um Grifinório? O que te impedia de seguir seus pensamentos? Nada. Era uma resposta em comum.
Hermione se deixou levar por pensamentos até que a voz fria de Draco a chamou.
O almoço havia ficado pronto, e Hermione ainda sorria. Ela se levantou, colocou o broche no vestido e abriu a porta, sem deixar de sorrir. Encontrou os olhos cinzentos de Draco e quase o beijou de novo. Mas apenas abaixou a cabeça e passou por ele.
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