Diário de um sobrevivente

2 Parte um - Capítulo um


Parte 1

Diário de Peter

“A dor é silenciosa, inoportuna. Ela não grita, corrói lentamente um coração frágil.”

20 de maio de 2011. Missouri.

Normal. Era como Rebecca falava, estava tudo apenas... Normal. Passou-se um ano e pouco desde a última narração, desde lá pouco mudou, não poderia dizer “pra pior”, ou “pra melhor”, estava tudo apenas... Normal.

Era necessário que tudo se mante-se normal, eu não poderia cair, tinha um grupo sendo levado em minhas costas, não poderia fazer tudo simplesmente despescar. Desde o último e doloroso suspiro de Rebecca eu precisava fazer isso, por ela, talvez por todos.

Por trás do homem forte e inabalável, líder de um grupo estava uma taça de vidro, espatifada em pedaços pequenos. A dor não passava, perdi a pessoa mais importante da minha vida, mas tudo tinha que ficar normal, todos sentiam dor, eu não era o único.

Atualmente nós nos escondíamos em um posto de gasolina relativamente grande ao grupo de onze pessoas, o grupo era bem organizado, cada um tinha seu papel na rotina, os mais corajosos saiam atrás de mantimentos, outros ficavam em guarda e reforçando a segurança terminando a cerca pra evitar de alguma horda invadir a noite, e as mulheres faziam coisas de mulheres, antigamente haviam revoltas feministas, mas hoje elas mesmas se titulam “o sexo frágil”. Eu fazia de tudo, alguns dias acompanhava os bravos aventureiros arriscando minha vida, outros eu era apenas um carpinteiro fazendo uma cerca, e arriscando minha vida, e raramente eu até ajudava as poucas mulheres do grupo, arriscando minha vida. Nesse momento até respirar era arriscar sua vida, eram necessários passos cuidadosos, passos medrosos para sobreviver.

Fazia dez dias que nos escondíamos naquele posto, tudo ia calmo, por incrível que pareça. O tempo nos era favorável, a primavera não trazia temperaturas tão baixas, nem tão altas.

Por nossos planos não iríamos ficar mais de um mês lá, estávamos a caminho de Kansas, quem sabe que em uma cidade grande poderíamos achar um prédio vazio, e muitos mantimentos nos grandes supermercados típicos de capitais. No inicio da praga as cidades pequenas eram as melhores alternativas, poucos errantes por causa da pequena população e poucos sobreviventes. Mas agora as pequenas cidades estavam devastadas, nesse caminho pra Washington passamos por algumas cidadezinhas e nos abrigamos por um dia e meio, dois. Isso era o necessário para ficarmos totalmente sem comida, e mesmo indo a todos os mercados, postos de gasolina, não havia mais nada.

Na área em que estávamos agora havia alguns supermercados de beira de estrada com algumas coisas restando, algumas mulheres começavam a plantar alguns vegetais, estávamos indo bem. Os carros estavam sendo consertados com as velhas coisas que encontramos no posto de gasolina.

Passaram-se mais seis dias e nós partiríamos na manhã seguinte, todos dormiram cedo para aturar a longa viagem que nos aguardava. Acordei, pela direção do sol, umas seis da manhã. É, eu tinha aprendido a acordar só. Os outros acordaram gradativamente, um após o outro por seu próprio consentimento.

Eu segui dirigindo o primeiro carro modelo Chevrolet S10 2007, atrás vinham outros dois carros levando o resto do grupo. Comigo vinha Guilherme, Emily, George, Emma e Lily. Estávamos com pouca munição, eu carregava comigo uma .38 com apenas duas recargas. Andamos em um ziguezague enjoante por causa dos destroços nas estradas, me causava dor ver aquilo. Todo o lugar olhava eu via apenas uma coisa: morte.

Andamos 3 km e não havia nada pela estrada, a não ser zumbis cambaleando pela estrada e carros destroçados. Andamos 4 km e vimos uma cabana um pouco adentrada na floresta e um carro usável estacionado a beira da estrada, haviam pessoas ali, mas passamos direto. O nosso foco era Kansas.

Ás três da tarde todos já estávamos cansados, mas não poderíamos parar, faltavam mais ou menos 3 km até Kansas City. Não havia sequer diálogo na viagem, apenas alguns suspiros fundos de cansaço.

Estávamos praticamente na “entrada da cidade”, quando parei o carro e desci, sem nenhuma explicação.

– Certo pessoal, chegamos na entrada da cidade e ainda são quatro da tarde, temos tempo o suficiente para pegar pelo menos uma casa.

– Certo qual o plano? – Questionou Guilherme.

– Matar. Esse é o plano. Procurarei uma rua calma, de fácil acesso, e desceremos do carro, quando chegarmos lá, apenas mate aquelas coisas, enquanto procuro uma casa para ficarmos pelo menos algumas noites, certo pessoal?

– Certo. – Disse um coro de vozes, e os outros concordaram com a cabeça.

O plano não era um dos melhores, mas era o único jeito. Era arriscado, mas tinha de ser assim. Dirigi o carro em linha reta, até chegar a placa “Kansas City, Missouri.” Logo ao passar da placa havia uma estrada em linha reta e outra que levava aos dois lados, afrente uma horda de zumbis pequena, a esquerda dois ou três zumbis também perambulavam. Dobrei a direita e os dois carros me acompanharam, mais um dobra, agora à esquerda. Lá havia uma rua clássica estadunidense, casas com jardins que um dia já foram impecáveis, mas agora com a sua grama morta e com ervas daninha tomando tudo. Parei a 15 metros, no meio da rua, e os outros dois carros pararam.

– Prontos? – Perguntei sem esperar respostas. – Sem armas de fogo. Vamos!

Logo saí com adrenalina por todo o corpo, enquanto todos os outros saíram de seus carros, logo Alex apunhalou seu revolver 838.

Sem tiros! – Gritei.

Alex balança a cabeça e pega sua faca. Uma horda de zumbis vem por dois lados da rua ao todo deviam ter vinte a vinte e cinco, corri para a casa mais próxima, examinando-a por sua janela de vidro suja pela poeira e mofo que se acumulavam e nenhum zumbi estava lá dentro. Perfeito. Tentei arrombar lançando todo o meu corpo contra a porta, primeira tentativa sem sucesso, lancei meu corpo novamente contra a porta, ela cedeu.

– CORRAM! AQUI! – Alertei a todos. – ALEX, PEGUE AS COISAS NA TRASEIRA DO CARRO! – Ele correu e pegou três mochilas de viagem que estavam cheias de suprimentos armazenados por toda a semana. Todos já estavam entrando na casa, sem certeza de que não havia alguém lá. Os errantes se alertaram a Alex e partiram em sua direção. – CORRA ALEX! – Ele corria desesperado olhando para trás. “Porra, Alex” pensei. Corri em sua direção para livrá-lo dos errantes persistentes que corriam atrás dele. Contornei o carro e cheguei pro trás dos errantes.

– Hey, venham aqui! Venham! – Disse atrás do Alex. Eles se viraram e andaram em minha direção. Apunhalei o crânio do primeiro, e tentei o empurrar para o lado, o outro se jogou por cima do cadáver que eu tentava empurrar, fazendo-o cair em cima de mim. “Droga, droga, droga!” Pensei. Apunhalei minha .38 e puxei o gatilho no crânio do zumbi que estava prestes a me matar.

– Socorro! Me ajudem! – Gritei, duas pessoas que eu não via bem o rosto retiraram os cadáveres de mim e outras duas matavam os outros que estavam por vir.

Corri instintivamente para dentro da casa, acompanhado pelas pessoas que vieram me ajuda, identifiquei entre elas apenas Emily.

– DROGA, DROGA, DROGA. – Falei logo que entrei na casa.

– Você foi mordido? – Perguntou Emily, cheia de preocupação.

– Não. Ainda bem que não. Eu atirei, imaginem o quanto de errantes estarão aqui mais tarde? O som ecoou por toda cidade.

Todos pararam perplexos com o pensamento. A noite seria obscura.

***

Já estava anoitecendo, e os pensamentos que pairavam sobre a sala já eram decifráveis. Medo, agitação, ansiedade. O nossos corpos não nos poupa de sua carga química liberada por um único motivo: a sobrevivência. Naquela noite nos sentíamos agitados. Sentia a adrenalina passar a cada músculo do meu corpo. Meu cérebro buscava em minhas memórias, em minha criatividade alternativas para esta noite, mas nada saia de lá. O silencio era continuo a não ser pelos errantes que se aproximavam cada vez mais, batendo em carros, arrastando seus pútrefos pés, pisando nos jornais e nos lixos caídos pela estrada. Os mais sensíveis derramavam lágrimas. Decidi levantar e me mover.

– Levantem-se, todos. – Ordenei.

– OK, que tal tentarmos sair antes que mais deles cheguem, sabe o carro não está tão longe, s-sabe? – Falou Alex gaguejando.

O ignorei.

– Todos procurem pela casa coisas que possamos colocar nas portas e janelas para assegurar que a casa não seja invadida. – Várias cabeças acenaram.

Alguns minutos após chegaram gradativamente tábuas de madeira, panos, algumas e coisas pesadas.

– Por favor, alguns homens podem me ajudar a levantar esse sofá até a porta? E as mulheres, podem tampar as janelas com os panos e as fitas, é melhor eles não nos verem aqui. Um, dois, três, vão! – Levantei o sofá junto ao George e a Alex e o pus na porta principal.

Com todas as janelas tampadas por pano o casarão estava escuro. Fomos ao porão evitar as grandes hordas de ouvirem meros ruídos de dentro da casa, lá havia algumas velas que pelo menos poderia diminuir a tensão pelo escuro. A noite passou lenta e dolorosa. Subi algumas vezes pra checar como estava lá fora, e hordas enormes, incomparáveis com as que eu já tinha visto em todos esses anos vagavam de um lado a outro. Passaram-se sete horas desde que entramos lá e o céu começava a clarear os rostos desfigurados dos errantes, o manto cinza que recobria a cidade dava um ar de suspense, como filmes que eu assistira anos atrás e que agora eu vivia.

Desci ao porão e alertei a todos que a manhã já estava chegando. Alguns deitados em panos que encontraram por lá, outros sentados em posição fetal. Lexie chorava. Pobre Lexie, com aquele rosto de menininha, tão linda. Ela não merecia chorar.

– Não chore – Cheguei ao seu lado me agachando e inclinando minha mão em seu rosto macio. – Hey. – Ela inclinou seu rosto um pouco para cima, olhando bem no meu olho. – Apenas não chore. Essa merda de mundo não merece suas lágrimas.

Sua cabeça cai entre seus joelhos novamente, voltando a sua posição fetal. Eu me levantei, não adiantaria ampara-la com discursos clichês.

– Então, a rua está bem melhor algumas hordas se afastaram da casa, apesar da grande quantidade deles, está bem melhor. Mas não sei se podemos sair. – Murmúrios cobriram o porão. – EU SEI DE TUDO ISSO! MAS NÃO POSSO FAZER NADA. – Gritei logo me arrependendo quando lembrei do que ainda me esperava lá fora.

– Só não posso fazer nada. A comida que temos durará dois a três dias e a água no máximo dois. Precisamos agir.

– Então vamos agir! – Fala Alex, provocando.

– Cale sua boca! Você que causou tudo isso, já que foi burro o suficiente para não pegar ao menos duas bolças sem foder com tudo. Então cale sua boca.

– Quer saber? Cale a boca você, não consegue pelo menos ministrar um grupo sem a ajuda daquela sua irmã. Até um cachorro pode nos fazer sobreviver melhor que você seu filho da;

A raiva que eu sentia olhando para aquele inútil falando qual quer coisas sobre minha irmã me fez lhe dar um soco tão forte que doeu em meu punho fechado. Prossegui com um chute em suas costelas, lhe fazendo gemer de dor. Cuspi em seu rosto terminando o espancamento. Ele gemia de dor no chão, se contorcia.

– Alguém cuide desse lixo, não podemos perder um bom atirador. – Falei subindo as escadas em passos fortes na madeira que ecoavam por todo salão.

Sentei em uma poltrona que ficava na sala e fiquei olhando por uma pequena brecha na janela aquelas coisas perambulando.

Peter! Você não pode fazer isso! Nã-Não da pra conti; — Interrompi Lexie.

– Ele merecia mais. Mas não posso perder um bom atirador. Então, querida, me fale o que quer.

– Você não tem direito! Não vê que tudo isso só separa mais o nosso grupo?! Você não pode.

– Sim, eu posso. Mas isso não importa, venha me dê um abraço, tudo isso vai passar, vou achar um jeito, como sempre faço, não é?

Ela veio com medo nos olhos e entrelaçou seus pequenos braços no meu corpo alguns centímetros maior que o seu. Eu não sei bem o que sentia por ela, ela fazia meu frio coração bater forte. Ela era doce, paciente.

– Shhh. – Falei quando ouvi seu choro silencioso.

– Você não pode fazer isso... – Falou baixo. – Me prometa ser mais paciente com seu pessoal? Por favor.

– Não posso te prometer nada, sou impulsivo, apenas... Desculpe-me.

E quem diria, que aquela jovem moça, com rosto angelical poderia mudar todo o meu futuro. O futuro de tantas pessoas. A três atrás meses ela entrou no grupo, estava vagando por aquelas ruas desertas quando a resgatei. Seria o destino? Eu nem sei se realmente existe o destino, ou se foi apenas coincidência da natureza cruel, e tão boa ao mesmo tempo. Nesse mundo cruel, poderia eu achar finalmente uma razão de viver?

Notas finais
Espero que gostem. =)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.