Diário de um assassino
4 Capítulo 4
Dia 09/08/1982 — Aracatuba, São Paulo. Bar "Stripexxx".
Faz tempo que meu ex-patrão morreu, coitado...
Agora entrei em uma espécie de bar-gay e eles pagam bem! R$100 por noite(sexta á domingo, ou seja R$300 por semana.), é minha primeira noite aqui. O patrão é um cara gordo e barbudo com um jeito muito estranho(ele é homossexual, nada contra, mas ele não é estranho por causa disso). O uniforme é a coisa mais engraçada: Orelhas de coelho, gravata preta e você serve apenas de cueca! Caraca...
Tô ganhando melhor que o outro emprego de guitarrista, pra mim tá bom.
Um cara loiro de olhos azuis, não muito forte, mas tinha lá sua potência nos braços, Mariano, trabalhava ali por um tempinho e já me falou algumas palavrinhas sobre o lugar. Primeiro que os clientes eram extremamente mal educados, então podem te chamar do que quiserem, te encostam quando quiserem, e não pagam...se quiserem. Tem que fazer de tudo para puxar uma gorjeta deles. Ah, que ótimo! Eu não sei se ele sabe, mas eu não sou gay. Eu já tenho um par de seios na minha vida.
O bar abriu e vieram pouco á pouco, eu estava com Mariano no balcão segurando as bandejas de vodka, resolvi tomar algumas para esquecer da vergonha que eu ia passar... É, estava nervoso pelo o que poderia acontecer. Caramba. Não estava acostumado á ficar de cueca no meio de tanta gente. Tinha mulheres ali também... Acredito eu que seriam mulheres. Um cliente chamou da mesa e Mariano foi andando.
"Observe como se faz", ele me disse.
Caminhou rebolando com a bandejinha na mão, papel e caneta nela. Ele se inclinou no ombro do rapaz enquanto fazia o pedido, o cara anotava rapidinho e quando se virou para pegar as bebidas, o homem simplesmente deu um tapa em seu traseiro. Eu olhei extremamente surpreso, mas também sério. Mariano riu enquanto abanava a bandeja para si mesmo. Ergueu seus braços.
"Queridoooo... O rapazinho quer falar com você, arrasa!", tocou no meu ombro e apontou para o homem que me observava.
Peguei meu prato de alumínio, tremendo, porém não queria que ele fizesse aquilo comigo. Se fizesse eu arrancava a cabeça fora. Fui sério, com a bandeja cobrindo minha cueca e parei olhando com desinteresse.
"Pois não?"
"Você poderia me pegar um Jack Daniel's, gostosinho?", ele mordeu o canto do lábio, eu revirei os olhos.
Puta merda... eu mereço.
"Tá certo, só 1 copo?"
"Não, não...pega um pra você também, gatinho!", o homem simplesmente piscou pra mim. Eu queria voar na cara dele.
"Ha, ha... vou pegar, já volto."
"Uh, você é do tipo difícil!", ele deu um tapa no meu traseiro. Eu apertei os olhos e tentei me controlar.
Mariano batia palmas curtas para mim, me parabenizando.
"Tá de brincadeira?", coloquei a bandeja no balcão e olhei com sarcasmo para ele.
"Não!Você foi ótimo!", ele colocou a mão no meu ombro esquerdo, olhei levemente para o canto. "Quero ver você arrasando no mastro!"
Eu me apavorei.
"M-mastro?!"
"É claaaaaaaaro, seu lindo!", Mariano passou as mãos sobre os cabelos enquanto falava. "Vamos dançar uns clássicos sensacionais!", rebolou um pouquinho e pegou um copo de whiskey.
"Hahaha! Tá! Vou lá, eu, um homem em relacionamento sério com uma gata gostosíssima, dançar para um bando de..."
"Uh!Olha o que fala, gracinha!", colocou o indicador sobre minha boca. "Quer ser demitido no primeiro dia? Eu sou cagueta!"
"Que bom que me avisou...", ergui uma sobrancelha e tirei o seu dedo dos meus lábios.
"Adoro esse seu jeitinho... tão misterioso... Hm...", ele bebeu um gole e piscou com uma risadinha. Caralho, velho!
Pobre da Ângela saber que o namorado está sendo cantado por seu colega de trabalho...
Deu 23:45h, perto da hora de fechar. Era hora de dançar.
Mariano pegou uma espécie de chicote e colocou um uniforme de policial(eu quis rir, juro). Ele falou que minha fantasia estaria nos banheiros, mas eu me perguntei o por que de estar lá. Fui em procura dos trapos, olhei embaixo da pia, dentro dos sanitários, mas não achei nada. Seria alguma brincadeira de mal gosto do Mariano?
Queria que fosse.
Ouvi um barulho da porta e rapidamente olhei para trás, achei que fosse algum cliente do bar, mas era bem pior. Estava lá, o loiro parado na porta com o uniforme de policial... Eu simplesmente fiquei alguns segundos imóvel e já fui andando até a saída do banheiro, mas ele me parou e olhou para meu rosto.
"Sai, Mariano! Eu preciso me vestir antes de..."
Ele puxou minha gravata e abriu a boca, mordendo meu pescoço. Eu empurrei ele com força, fazendo-o cair. Parei em frente do espelho. Ficou a marca! O que a Ângela iria pensar?! Que eu estou traindo ela com um homem que se veste de policial e sai rebolando para um monte de tarados? Era simplesmente inaceitável. Corri para a porta e... filho da puta!!!
"Eu tranquei a porta bobinho!", ele levantou jogando o chapéu no chão e abrindo a camisa, eu andei até o último sanitário e fechei a porta. Ele colocou o rosto sobre a madeira e ficamos em silêncio.
"O que você quer, seu porra?!"
"Eu só quero conhecer melhor meu colega..."
"EU SÓ QUERO TRABALHAR E RECEBER MEU DINHEIRO!", gritei desesperado para sair dali.
"Você achou que ia chegar aqui, andar de cuecas e entregar as bebidas. Simplesmente isso? Isso é um bar GAY, tá doido?"
Ele tinha razão... mas que merda, cara.
"Vai abrir a porta?"
"O QUE?! NÃO, PIROU?! EU NÃO SOU GAY!"
"Mas você está em um bar gay. Olha, vamos combinar uma coisa, se você deixar eu te dar só um beijinho, bem pequeno... eu paro de te amolar, ok?"
Eu fiquei alguns minutos em silêncio, ele ainda estava lá.
"Gatinho...?"
"MEU NOME É RAPHAEL, CARALHO."
"Fofucho, se eu quiser, te chamo até de Josicléver que não vai fazer diferença. Agora, podemos fazer o combinado?"
Eu fechei os punhos e quis chorar. Meu pai já abusou muito de mim. Mas o que ele queria não poderia ser pior do que meu pai já fez. Não poderia... suspirei, olhei para a luz do teto...
"Vai fechar daqui a pouco, não temos a noite toda."
FILHO DA PUTA!
"Tá bom! TÁ BOM! VOCÊ VENCEU, SEU PEDAÇO DE BOSTA!"
Abri a porta do sanitário e ele me olhou surpreso, abaixei a cabeça morrendo de raiva. Caralho... eu só queria trabalhar em paz, mas também... Olha o emprego que eu arrumo! O que a gente não faz por dinheiro, não?
"Você tem que receber algo em troca, fiquei com dó de ti. Quer 50 reais depois disso?", ele colocou a mão no bolso e me olhou com sinceridade.
Eu simplesmente fiz um sinal concordando com a proposta.
"Ah, tome.", Mariano me deu o dinheiro.
Ele andou devagar até mim, engoli seco e não sabia para onde olhar. Veja só onde eu me meto! O doido me beijou de novo, segurando meus braços. Eu só pensava em qual jeito a Ângela me mataria se soubesse dessa porra.
Mariano do nada parou e me olhou com lágrimas nos olhos.
"É sério... mil perdões...! Não consigo.Pode ficar com o dinheiro."
Fiquei confuso, ele simplesmente correu e não apareceu mais, procurei para saber o que houve. Dai vi que meu horário acabou, recolhi meu material e fui andando de volta pra casa, finalmente com roupas.
Cheguei em casa e nem consegui olhar para Ângela, estava confuso demais.
Vou tentar falar com ele amanhã, eu simplesmente não entendi...
...Que viadinho mais doido.
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