Notas iniciais
Senti falta de escrever nesta fanfic...

Um deplorável incidente veio atrapalhar a pequena festa que os srs. Debienne e Poligny ofereciam para celebrar sua saída. Eu estava no escritório da direção quando vi Mercier, o administrador, entrar de repente. Estava agitadíssimo enquanto me informava que tinham acabado de descobrir, enforcado no terceiro nível do subterrâneo abaixo do palco, entre um suporte e um cenário do Rei de Lahore, o corpo de um maquinista. Exclamei: "Vamos desamarrá-lo!". No intervalo de tempo que levei para descer a escadaria e baixar a escada do suporte, a corda do enforcado tinha sumido!

Meus caro diário, lhe apresento a passagem do livro "Memórias de um Diretor", escrito pelo sr. Moncharmin, um dos dois diretores que sucederam aos srs. Debienne e Poligny. Ele achava que a morte fora natural, e seu explicamento foi bem simples: "Era o horário da dança, e corifeias e ratas se precaveram bem rápido contra o mau-olhado". Senhor Moncharmin, tens todo meu respeito, mas aqui, e agora, em meu diário, revelo de uma vez por todas a verdade:

1- Um deplorável incidente: incidente? É verdade, não planejava matar alguém naquela noite, mas aqui está mais um trecho do dicionário: Incidente tem sua origem na palavra em latim incidens e se refere a um desentendimento, a um atrito. É um episódio imprevisto que altera o desenrolar dos acontecimentos, mas sem consequências desastrosas (creio eu que um enforcamento foi uma consequência desastrosa de nosso encontro). Também tem significado de: algo que incide, alguma coisa que tem caráter secundário, entre outras. Acidente tem sua origem na palavra em latim accidens. Esta palavra se refere a um desastre, a um acontecimento inesperado e desagradável, com consequências graves e lamentáveis.
Seria um acidente? Sim, mas não foi algo inesperado — a única certeza do homem é a morte. E mais, desagradável? Deplorável? Eu diria, brilhante, magnífico, bravo, ou, até mesmo, um bem feito.

2. Enforcado no terceiro nível do subterrâneo abaixo do palco: o subterrâneo é onde eu vivo. O que há de errado na morte do homem, se a curiosidade matou o gato? A curiosidade matou o Joseph Buquet... soa bem. Mas sou egocêntrico! Quero meus créditos!

O Fantasma da Ópera matou Joseph Buquet.

Claramente, se há sobre o "incidente" em um livro, vocês podem ter certeza que o teatro não tardou para descobrir, embora fora um segredo para os diretores em saída. Oh, festa arruinada?!

3. Pequena Festa?

A "pequena" festa teve uma estrela a brilhar — Christine! Christine Daaé! No papel de Julieta, sua primeira aparição numa peça de Gounod! Ganhou aplausos, ganhou fama, foi conhecida por sua voz, a voz que eu a ajudei a formar. Sim, a senhorita Daaé tem talento, mas não veio totalmente do berço.

– Não é possível! — diziam, — há seis meses ela cantava como uma taquara rachada!

– Não só isso — disse o homem para a menina, — Ela também substitui La Carlotta em Fausto, e queiram-me perdoar, senhoritas, mas nem mesmo "La Carlotta", com todo o seu... brilho e charme chegaria aos pés do espetáculo que Christine deu! — Substitui por quê? Digamos que houve um imprevisto com Carlotta, e ela ficou indisposta para cantar...

Ainda sobre minha amada, houve uma crítica sobre a mesma, com o título "A Nova Margarida": "Para compreender o que acabou de acontecer com Daaé, era necessário imaginar que ela acabava de se apaixonar pela primeira vez! Talvez eu esteja sendo indiscreto, mas só o amor é capaz de realizar um milagre como esse, uma transformação tão fulminante. Ouvimos, há dois anos, Christine Daaé em seu recital de Conservatório, e ela nos dera grandes esperanças. De onde vem o sublime da interpretação de hoje? Se não desce dos céus nas asas do amor, precisarei pensar que sobe do inferno e que Christine, como o mestre de canto Ofterdingen, fez um pacto com o Diabo [...]".

4. Meu amor por Christine a fez avançar na sua voz, e sim, eu sou o diabo do teatro.

Eu ouvia e observava Christine, em seu camarim. Estávamos sozinhos. Estávamos. Christine suspirou, e, como resposta de um gemido, olhou para trás, e viu três pessoas: um garoto, doutor e sua camareira. O fato é, vendo a apresentação com seu irmão, o garoto ficou pálido e precisava ir encontrar a minha amada. Eu apenas observava, também de penetra, mais uma reunião.

– Quem é o senhor? — Christine perguntou ao menino, que ajoelhou-se e beijou a mão de minha dama.

– Senhorita, eu sou o menino que foi buscar seu echarpe do mar. Já não me reconhece, mas gostaria de lhe dizer algo muito importante, e a sós.

– O senhor é muito gentil, mas, se não se importe, quando eu estiver melhor... — O médico foi cuidar daquela que estava sob meus cuidados, que rapidamente o interrompeu — Não estou doente. Eu lhe agradeço, doutor... Mas estou muito nervosa esta noite... Por favor, saiam todos...

E todos saíram, para a tristeza do Visconde, que não quis deixá-la. Depois de um tempo, a camareira e o doutor saíram (ouvi passos de apenas duas pessoas, e logo fiz minha teoria) e ele ficou, fitando a fechada porta que o separava da senhorita Daaé. Era muito bom que o Visconde soubesse que Christine já tem um par, então não hesitei, e gritei, de dentro do camarim:

– Christine! Christine! — Minha voz ecoou — Christine, você tem que me amar.

De dentro do camarim, Christine chorou. Seu coração se partiu, e sua trêmula voz, misturada de soluços e lágrimas, me respondeu. — Como você pode dizer isto para mim? Para mim! Que só canto para você! — Acalmei-me.

– Você deve estar bem cansada...

– Sim... esta noite eu lhe dei minha alma, e estou morta agora. — Sorri, sendo o dono da alma de meu anjo da música.

– Sua alma é lindíssima, minha menina, e lhe agradeço por isso. Nenhum imperador recebeu presente parecido! — Se ela era a Julieta, que o Romeu seja interpretado por um Fantasma... Christine, porém, me conhecia como "Anjo da Música", — Esta noite, os anjos choraram.

Silêncio. Não houve resposta de Christine, nem outro comentário meu. O silêncio era apenas interrompido pelo coração forte batendo no peito daquele que nos ouvia, pois amava minha Christine. E me odiava.

Eu o odiava também.

Não é nem um pouco prudente odiar o Fantasma da Ópera. De fato, não é nem um pouco sagaz...

Depois de um tempo, Christine saiu, me deixando sozinho, e ele entrou.

– Sei que tem alguém aqui! Por que se esconde? — Eu ia seguir Christine, mas começou a ficar interessante... — Você só sairá daqui quando eu permitir! Se não me responde é porque não passa de um covarde! Mas vou desmascará-lo... — Ninguém nunca me desmascará. Ninguém nunca me achará. O silêncio o incomodou, que procurou por mim, e nada encontrou. — Oh, será que estou ficando louco?

Depois de um tempo, ele desistiu, saiu.

Era impossível encontrar a fantasmagórica voz que ecoou o camarim de Christine Daaé.

Notas finais
comentem o que gostaram :3